Como disse aqui há uma semana, a guerra no Irão parecia inevitável. Era mesmo. Os Estados Unidos e Israel têm três objectivos. O primeiro é enfraquecer o poder militar do Irão. Depois dos ataques no verão passado, o programa nuclear ficou muito debilitado. Mas o Irão continua a ser uma potência militar, sobretudo com uma capacidade impressionante de misseis ofensivos. Os americanos e os israelitas querem destruir essa capacidade. Fazem bem.
Em segundo lugar, a administração norte-americana e o governo israelita pretendem mudar o regime iraniano. Antes de mais, a morte de um ditador como Khamenei é uma boa notícia. Dezenas de milhares de iranianos exilados nos países europeus e nos Estados Unidos celebraram a morte do tirano teocrático. Esses exilados e as suas famílias foram vítimas do regime iraniano. Sabem muito melhor do que as dezenas de analistas e correspondentes que passam pelas redações das televisões para criticar Trump. Os estrangeiros que nunca viveram no Irão atacam Trump, os iranianos que foram forçados a fugir do Irão, agradecem ao Presidente norte-americano. Além de Khamenei, os ataques israelitas e americanos mataram outras figuras máximas do regime e da Guarda Revolucionária.
A mudança de regime é uma questão central. Desejo que isso aconteça, a brutalidade e a crueldade do regime exigiam que se tentasse, mas tenho consciência das dificuldades e dos obstáculos que os americanos enfrentam. Por isso, e espero estar enganado, não estou optimista sobre a mudança de regime.
Devemos, no entanto, notar que a doutrina norte-americana sobre a mudança de regime mudou. Aparentemente, os americanos aprenderam com o desastre do Iraque. Washington não vai enviar tropas para o Irão. Também não se tentará criar um regime democrático de um modo apressado e precipitado (a principal razão por que a transição correu mal no Iraque). Os americanos estão a procurar uma mudança de regime progressiva.
Os israelitas (nenhum país estrangeiro tem acesso a informação sobre o que se passa no Irão como Israel) e os americanos sabem que há fracturas, divisões e conflitos no interior do regime iraniano. O objectivo inicial foi eliminar as fações mais radicais. Ainda não está terminado, mas foi dado um enorme passo. Há uma interrogação, cuja resposta será essencial: houve e há contactos entre os americanos e os israelitas com os sectores mais moderados do regime iraniano? Esperemos que haja.
De acordo com este conceito novo, antes da mudança de regime, é necessário mudar o regime. É necessário distinguir a mudança de regime da promoção da democracia. A segunda só tem sucesso se for um processo interno. Não podemos saber se a maioria dos iranianos querem viver numa democracia, mas parece claro que querem mudanças no regime. E essas mudanças podem melhorar bastante a vida dos iranianos.
O novo poder iraniano melhoraria a vida dos iranianos se usasse os recursos internos para desenvolver a economia do país, em vez de os gastar a apoiar movimentos revolucionários e terroristas no Médio Oriente, na Europa e na Austrália. Um novo governo iraniano também melhoraria o regime se garantisse direitos às mulheres iranianas e as tratasse com dignidade e igualdade perante a lei. Também haveria progresso no Irão se o regime deixasse de ser uma teocracia e passasse a um regime secular. É possível fazer isso tudo sem criar um regime democrático como resultado da queda do poder teocrático e revolucionário.
A mudança no regime iraniano leva-nos ao terceiro objectivo dos Estados Unidos e de Israel. A administração Trump quer acabar com a aliança do Irão com a China e com a Rússia. Há uma ligação entre a mudança no regime e as alianças externas. O regime iraniano só se pode reformar e eventualmente construir uma democracia se deixar de ser aliado com ditaduras como a China e a Rússia. Uma aliança com os Estados Unidos (e com a Europa), um tratado de paz com Israel também estão ligados ao desenvolvimento económico no Irão. Traria muito investimento externo para o Irão, que nunca acontecerá com chineses e russos. A China apenas quer o petróleo iraniano, e a Rússia quer drones para atacar a Ucrânia.
A rivalidade global com a China explica em grande medida o método diplomático de Trump: provocar rupturas e assumir riscos. A administração Trump está a ajustar a política externa a um mundo diferente. Mas é precisamente isso que os líderes devem fazer. A paralisia e os lamentos perante as mudanças nada resolvem e só mostram fraqueza. A assinatura de acordos que apenas adiaram o problema do programa nuclear do Irão, como fez Obama, também não resolve nada. Só tornou o problema maior.
Não excluo que tudo corra mal e que o Irão acabe numa guerra civil entre sectores do regime, entre grupos étnicos minoritários contra a maioria persa. Mas uma guerra civil não é um mal mais grave do que uma ditadura cruel e violenta. Por vezes é necessário arriscar e tentar a mudança. Os americanos e os israelitas arriscaram. Fizeram bem e os iranianos merecem ser ajudados.