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(A) :: Montenegro devia ter negociado com o Chega ou IL, insiste Passos Coelho. "País virou à direita"

Montenegro devia ter negociado com o Chega ou IL, insiste Passos Coelho. "País virou à direita"

Antigo primeiro-ministro diz que virada do país à direita exigia outra engenharia política. Afasta regresso imediato mas não esconde: "Quando me quiser candidatar, candidato-me".

Dulce Neto
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Joana Moreira
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Pedro Passos Coelho recusa que as suas recentes intervenções públicas sejam lidas como manobras táticas para um regresso imediato à vida política e não esconde que, se estivesse a liderar o PSD ou o Governo, teria seguido outro caminho, a começar pela relação com o Chega. Em entrevista ao ECO, publicada esta segunda-feira, o antigo primeiro-ministro sublinha que o mapa parlamentar resultante das últimas eleições legislativas exigia do Governo outra ambição de engenharia política.

“O Governo poderia ter optado por encontrar um quadro que pudesse ter a virtualidade de ser mais estável à partida. Não sei se seria possível, mas só quando tentamos é que sabemos. O que seria expectável é que esse quadro pudesse ser negociado dentro daquilo que chamamos a direita parlamentar, porque o país virou à direita e, portanto, claramente, há uma grande maioria no Parlamento à direita”, disse. O antigo líder do PSD não desvaloriza a dificuldade da tarefa mas defende que não deveria ser excluída à partida por Luís Montenegro. “Neste caso, teria de ser procurado entre o Chega e a Iniciativa Liberal. É possível construir ou não um acordo de legislatura? Eu diria: só o tempo demonstraria se era possível ou não“.

Reiterando que não está em campanha afasta também a ideia de estar a preparar um regresso encapotado. “Acho natural que as pessoas possam querer especular ou ter qualquer outra associação de ideias sobre o que são as minhas intenções, ou não. Mas quando me perguntam, diretamente, sobre quais são, não vejo nenhuma razão para estar a dissimular”. Aliás, é muito claro quanto a uma eventual candidatura: “Quando eu quiser candidatar-me, candidato-me, e anuncio que me vou candidatar”, avisa.

Para já, garante que não vive obcecado com um futuro lugar na política ativa. “Estou de bem com a política e estou de bem com o país, não ando à procura de nada em particular, não tenho desforras para fazer, não tenho necessidade de querer provar ou mostrar o que quer que seja”.

O que não significa que abdique do direito de intervir quando o achar necessário, reforça. “Não ando a forçar ocasiões para fazer chamadas de atenção. Se, por qualquer razão, há uma oportunidade para o fazer e vem a propósito fazer a referência, eu faço-a. E não deixarei de o fazer por receio de que possam achar que posso vir a ser candidato a qualquer coisa”.

De alguma forma, Passos justifica as suas intervenções no espaço público com a ideia de que terá “algumas obrigações que não se esgotaram” com o seu mandato de “governo” e com o eleitorado que deslocou o eixo político para a direita.

O ex-primeiro ministro reitera que um acordo à direita permitiria uma estabilidade para fazer reformas. “Esperar-se-ia que o PSD concentrasse as suas atenções sobretudo nas reformas que melhoram o desempenho da produtividade e a perspetiva do crescimento económico, e menos concentrado na divisão de sacrifício que vai ser preciso fazer para salvaguardar a coesão social no futuro. Mas se deixarmos tudo para o futuro, vamos ter um problema maior”.

Sobre a reforma do Estado, considera que “faz todo o sentido” existir um ministro dedicado à pasta, mas entende que a criação de um ministério não foi a melhor solução. Na sua perspetiva, teria sido preferível encontrar outra forma de reforçar a autoridade política do responsável pela área. “O Governo avançou claramente com a ideia de que era preciso essa ambição reformista, avançou. O problema é que estamos a completar quase um ano. Não é já, é para maio, mas já não estamos muito longe, e, para já, os sinais que se conhecem, os que são públicos, são tímidos.”

Em relação à reforma laboral, alerta para a dificuldade de alcançar consensos. Nota que a Confederação Empresarial de Portugal já endureceu posições, enquanto a União Geral de Trabalhadores rejeita o essencial da proposta. Sem acordo entre parceiros sociais e com o Partido Socialista e o Chega contra o sentido da reforma, antevê dificuldades no Parlamento. Ou o diploma chega na versão “pura”, arriscando chumbo, ou surge numa versão negociada e “desvitalizada”, que deixará de ser uma verdadeira reforma. Defende, por isso, uma negociação mais ampla: “Se tivesse havido uma negociação mais alargada, e que não se estivesse só a discutir a reforma laboral, a negociação teria sido melhor. Não é só a reforma laboral que é importante para a produtividade.”

O ex-chefe de Governo sustenta ainda que “o país esteve demasiados anos sem olhar para essa dimensão da política pública, reformista”. Embora reconheça que a disciplina orçamental foi assegurada — evitando riscos de bancarrota — considera que isso não basta. “Uma coisa é não estarmos à beira da bancarrota, outra é desperdiçarmos as condições políticas para reformar o país”, sintetiza, defendendo o regresso a uma visão reformista clara.

Sobre o ciclo político recente, afirma que o primeiro ano de governação após as eleições de 2024 ficou condicionado pela ameaça de eleições antecipadas e que isso terá levado a uma orientação mais distributiva do que reformista. Na sua leitura, o Executivo de Luís Montenegro perdeu a oportunidade de afirmar maior ambição transformadora, e o resultado eleitoral seguinte, “acabou por parecer melhor do que foi na prática, dada a debacle que o Partido Socialista registou”. “O PSD teve 32%, que é um resultado modesto”, considera.

Admite ser “muito pouco provável” que, quando o PSD perder eleições, seja o PS a capitalizar essa derrota.  “[O Chega] É o partido que está mais próximo de poder aspirar a amealhar algum descontentamento que possa ser gerado pelo exercício de poder governativo, mesmo que o Presidente da República seja da área socialista”.

Para o antigo governante, o crescimento do Chega não é “um fenómeno tão episódico e conjuntural”, mas reflexo da descredibilização acumulada dos dois maiores partidos. E rejeita estratégias baseadas no alarmismo. Defende que não é “metendo medo às pessoas” que se mobiliza apoio para reformas estruturais. Valoriza a descida da abstenção nas últimas eleições e o maior envolvimento dos mais jovens, que diz estarem menos disponíveis para aceitar “demagogia barata”, considerando esses sinais encorajadores para a vitalidade democrática: “É um fator positivo. Eu não desvalorizaria esses sinais”.