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(A) :: Sem atenção não há liberdade

Sem atenção não há liberdade

A Quaresma não nasceu para ornamentar a cultura. Nasceu como combate. Quarenta dias de renúncia voluntária para recordar ao homem que ele não é escravo do impulso

João A. B. Da Silva
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Esta semana irromperam nas redes sociais posts e comentários sobre o Ramadão na Alemanha e uma campanha da McDonald’s que, durante o dia, “apaga” imagens de comida dos outdoors digitais(1) e só as mostra depois de anoitecer. Marketing? Naturalmente. As marcas não têm dilemas de fé: têm um mercado para captar e uma quota para defender. E, quando um grupo deixa de ser periférico e passa a ser um segmento incontornável, a publicidade segue a procura como um rio que corre sempre para jusante. Há cada vez mais muçulmanos na Alemanha, e ainda mais em França, e esse público pesa. O tema não é o Ramadão, é o deserto que ficou quando nós deixámos cair a Quaresma sem barulho.

E em Portugal isto tem peso, porque somos, ou fomos, um país de matriz católica. Enquanto é natural que uma campanha destas nos pareça curiosa, quase como a encenação pública de uma religião que não é a nossa, o que deveria inquietar-nos é outra coisa: por que razão a nossa tradição deixou de ser memória viva? Devíamos falar mais da Quaresma. Não como hábito folclórico, nem como dieta com verniz devoto, mas como escola interior que molda o carácter.

A Quaresma não nasceu para ornamentar a cultura. Nasceu como combate. Quarenta dias de renúncia voluntária para recordar ao homem que ele não é escravo do impulso. Não por particular gosto pelo sofrimento, mas por amor à liberdade. Durante dois milénios, os cristãos procuraram viver estes dias seguindo o exemplo de Cristo no deserto: silêncio, jejum, resistência às tentações mais básicas, oração. Não como performance: como treino. Um modo de ordenar desejos, suportar a demora, sustentar atenção, e aprender a dizer não para que o sim tenha peso.

A Quaresma foi, durante séculos, sinónimo de jejum. Hoje a renúncia mais urgente não é cortar nas mariscadas ou nos doces. É recuperar o domínio dos sentidos. Estar onde estamos. Fazer o que devemos. Ser inteiros. O vício dominante do século XXI não é a embriaguez nem a gula. É a dispersão. Um pai percorre notificações enquanto o filho lhe fala da escola. Um médico responde a mensagens durante uma consulta. Um casal janta com dois ecrãs acesos, cada um no seu pequeno mundo luminoso. Não se trata apenas da moda da má-educação, embora também seja. É mais grave. É uma transformação estrutural do modo como habitamos o tempo.

A palavra “presente” que vem do latim praesens, praesentis: estar diante, à vista, inteiro, também significa dádiva. O instante que nos é concedido tem dimensão de dom. Desperdiçá-lo sistematicamente não é só ineficiência: é ingratidão prática. A vida acontece onde estamos. Não acontece na alternância infinita entre notificações.

O problema, porém, não é só económico nem cognitivo. É antropológico. Aristóteles lembrava, na Ética a Nicómaco, que a acção moral exige deliberação: sustentar pensamento, avaliar fins, ponderar meios. Tudo isso requer presença. Um homem permanentemente distraído não exerce plenamente a sua liberdade. Reage a estímulos sucessivos em vez de escolher segundo a razão. A diferença entre agir e reagir é a diferença entre governar a própria vida e ser conduzido por ela. E tudo isto numa época em que nunca tivemos tantas ferramentas para optimizar o tempo e nunca estivemos tão incapazes de o habitar.

A tradição cristã percebeu isto antes de termos linguagem científica para o descrever. O jejum nunca foi punição do corpo: foi treino da vontade. Ao abdicar voluntariamente de algo legítimo, o homem recorda a si mesmo que não está submetido ao impulso imediato. A renúncia ordena o desejo e restaura hierarquias interiores. A Quaresma é um laboratório de liberdade. O caricato é que somos capazes de renunciar a um prego no pão na sexta-feira, mas não conseguimos renunciar ao que mais corrói no dia-a-dia da interioridade: a interrupção constante.

A ciência chegou à mesma conclusão. Nicholas Carr alertou(2) que a internet estava a remodelar os hábitos mentais ligados à leitura profunda e ao pensamento linear. A neuroplasticidade confirmou-o: há evidência consistente de que, depois de uma interrupção digital, a mente não regressa de imediato ao foco profundo e paga um custo real de retoma num ambiente saturado de alertas(3). Nessas condições, o foco profundo raramente chega a formar-se. O cérebro adapta-se ao que repetimos. Se repetimos fragmentação, treinamos superficialidade. A certa altura, a crise deixa de ser cultural e passa a ser orgânica: a cabeça já não sabe ficar. O dano maior, porém, não se mede em produtividade: perde-se em critério. Uma liderança incapaz de atenção exclusiva transmite, mesmo sem querer, que nada merece foco total. E atenção é reconhecimento. Retirá-la empobrece relações, fragiliza decisões e corrói confiança. Em casa, o estrago é mais íntimo. A criança que aprende que compete com um dispositivo pela atenção dos pais interioriza uma hierarquia sem palavras: eu sou o intervalo. A erosão é lenta, mas inapelável. Presença é o primeiro gesto de amor. Sem ela, o vínculo enfraquece.

Agostinho da Silva criticava a modernidade por transformar a atividade em mera agitação e por tratar a contemplação como coisa quase censurável(4). E isto no século XX, sem smartphone à vista. O que prova uma coisa: o smartphone não inventou a dispersão; apenas a tornou portátil e permanente. Ainda assim, recuperar a capacidade de estar presente não exige nostalgia nem fuga para um mosteiro. Exige decisão e disciplina. Reuniões sem dispositivos visíveis. Períodos diários de trabalho profundo, protegidos de notificações. Rituais claros de transição entre o profissional e o familiar. Pequenas práticas que declaram uma convicção maior: estar onde se está é obrigação moral antes de ser estratégia de produtividade.

Por isso, a Quaresma pode ser muito mais do que um costume antigo. É uma oportunidade rara, precisamente por ter como condição intrínseca a liberdade. Ninguém nos obriga. Não há polícia do jejum. Não há algoritmo que nos imponha recolhimento. Temos quarenta dias oferecidos para cortar o ruído, disciplinar o olhar, recuperar o governo da vontade e reaprender a amar com presença. O que fizermos aqui não serve apenas para estes quarenta dias. Serve para preparar os trezentos e vinte e cinco seguintes.

Enquanto o mundo anda entretido com campanhas que piscam ao pôr do sol, nós temos outra coisa, muito mais exigente e muito mais alta: a possibilidade de transformação. A renúncia voluntária não diminui o homem; fortalece-o. A atenção sustentada não o limita; liberta-o. A liberdade não começa em discursos nem em slogans civilizacionais. Começa no lugar onde escolhemos pousar a atenção. E aquilo a que dedicamos atenção revela, inevitavelmente, aquilo que amamos. É isso, no fim, que a Quaresma nos oferece: quarenta dias para voltarmos a ser homens por dentro, para depois vivermos como homens por fora.

Referências:

(1)   https://www.newsweek.com/mcdonalds-new-ad-campaign-empty-boxes-no-food-ramadan-germany-11578866
(2)   Nicholas Carr, The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains, W. W. Norton & Company, 2010.
(3)   Gloria Mark, Daniela Gudith e Ulrich Klocke, “The Cost of Interrupted Work: More Speed and Stress”, Proceedings of the SIGCHI Conference on Human Factors in Computing Systems (CHI ’08), 2008.
(4)   Agostinho da Silva, “Condições e missão da Comunidade Luso-Brasileira”, em Condições e missão da Comunidade Luso-Brasileira e outros ensaios, org. Henryk Siewierski, Brasília: FUNAG, 2009, p. 75.