É engraçado que num mundo em que as mudanças se sucedem a um ritmo vertiginoso e que aquilo que parecia ser a pré-história da Humanidade, por vezes, regresse, dando-nos a sensação que há mudanças que se fazem voltando para trás, se fale tanto de zonas de conforto, de estabilidade e de segurança. Como se mudança e perigo parecessem andar de braço dado. Ou – em vez de liberdade, de prosperidade ou de esperança – passássemos o tempo a falar dum medo sem rosto, sem nunca o nomearmos. Como se mudança e segurança fossem pouco amigas uma da outra.
Mas o medo é uma questão de sabedoria. Não o medo emboscado e silencioso. Mas os medos que nomeamos e elegemos como parte de nós. Estes, são factores de crescimento. Os outros, furtivos, de envelhecimento. Em relação aos medos saudáveis, quanto mais velhos mais medrosos nos tornamos. Quanto mais leais com o medo mais corajosos nós somos; porque a experiência nos recomenda mais riscos. E quanto mais importante é aquilo que nos arrebata mais medo nós temos. (Assim é com as paixões, por exemplo. Porque nos remexem da pele até ao fundo da alma, tornam-nos frágeis e inseguros, esclarecendo-nos que somos pequeninos. E, perante os medos que elas despertam, nos desafiam a escutarmos as convicções e a escolher os nossos desejos guiados por elas. Que é, talvez de entre tudo, o que nos traz mais incertezas e mais medo). Não há, pois, como não ter medo. Sobretudo diante daquilo que é importante para nós. Quanto maior for um desafio mais ele traz o medo consigo. Logo, o segredo não está em não se ter medo. Mas em conviver com ele de forma leal e tão frequente que, em vez de se fugir do medo, se converse com ele. (Muito ao contrário do que talvez façamos com os nossos filhos quando lhes alimentamos o equívoco de que serão grandes ou fortes quanto menos medos tiverem.)
Seja como for, apesar de tudo o que lhes damos, a geração dos nossos filhos é, muitas vezes, descrita como uma geração ansiosa. Se a ansiedade é o conjunto de repostas com que se responde ao medo, isso dá a entender que a geração ansiosa é uma geração cheia de medos. O que talvez queira dizer que quanto mais protegemos os nossos filhos mais medo eles têm. Mais inseguros se tornam. Mais controle reclamam sobre tudo o que é seu. E, em consequência disso tudo, menos auto-estima acabam por ter.
Mas talvez a geração dos nossos filhos seja impaciente e imediatista e desesperançosa não tanto porque o seu futuro esteja assombrado por um comboio de crises — de qualidade vida, demográfica, económica, ambiental ou de segurança social, por exemplo — mas porque, quando olham para nós, vêem pessoas encolhidas. Hoje, os pais voltaram a recear falar com uma educadora ou com um professor, ou deixam de se impor junto das escolas quando os episódios de bullying se multiplicam, com receio de que daí surjam represálias sobre os seus filhos. Tremem e assustam-se quando se trata de dizerem “não!” (quando entendem que é não) como se mais autoridade fosse menos amor. Ou condescendem com abusos e assédios morais no trabalho porque o conflito não é vivido como aquilo que traz massa crítica à sabedoria mas, antes, que movimenta para instabilidade, para a insegurança ou para a fractura. Como se a mudança parecesse ser sinónimo de precariedade.
Depois das torres gémeas, em 2001, da crise de 2007, da pandemia de 2020, da forma como a economia foi tomada pela especulação e como as redes sociais trouxeram manipulações nunca antes vistas, – tudo numa pequena parcela de 20 anos – as pessoas mudaram imenso. Parecem ter-se tornado na geração do medo. Ficaram mais assustadas e mais inseguras. E passaram a conviver, com naturalidade, com exigências de segurança que, dantes, atentariam contra as suas liberdades. Hoje, parecem muito mais fatigadas, muito mais agitadas e mais impulsivas, com os seus dias cada vez mais iguais nas banalidades que lhes trazem e a fugir dos impasses que as atravessam, por dentro. Resignação, enfado, cansaço, banalidade e impasse são medos entrincheirados num burburinho que fala baixinho. Que representa, também, uma atmosfera de depressividade mais ou menos generalizada – uma depressão actual – que faz do futuro um lugar sem espaço para o entusiasmo, para a prosperidade, para a liberdade ou para a esperança.
A geração ansiosa talvez seja filha da geração do medo. Se vivemos no medo como não hão-de os nossos filhos de não ser ansiosos? Se o nosso amanhã parece longe demais, como hão-de eles ter paciência, capacidade de sacrifico, desenvoltura, garra e audácia em relação ao depois de amanhã? Não fará a depressividade com que vivamos em liberdade condicional no hoje, sobretudo no hoje, e pouco mais?…
E, no entanto, nada, entre aquilo que desejamos, é impossível. Só duas coisas nos fazem desistir: o medo de que fugimos; e as pessoas que nos acompanham.
Quanto mais nos esquivamos dum medo mais ficamos presos nele. Sempre que evitamos reconhecer que há quem nos prenda mais nos aninhamos nas suas vontades. Que é outra forma de fugir do medo, sem nunca o nomear e sem se sair do mesmo lugar.
Talvez seja por tudo isto que a geração ansiosa e a geração do medo tenham mais a ver uma com a outra do que pode parecer.