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A informação da CIA que mudou tudo: como o ataque a Khamenei foi ajustado para apanhá-lo em plena luz do dia

CIA seguia rotinas do Líder Supremo há meses. Quando descobriu que estaria no complexo da liderança iraniana na manhã de sábado, Trump deu luz verde à operação.

Cátia Bruno
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Na guerra, o primeiro ataque costuma ser pela calada da noite. Desta vez, em Teerão, não foi assim.

“Toda a gente esperava que um alvo fosse atingido à meia-noite, quando há a cobertura da escuridão”, analisou o antigo chefe dos serviços de informações militares israelitas, Amos Yadlin, ao Wall Street Journal. A escolha de um ataque em plena luz do dia foi “uma surpresa tática”, admite.

Uma razão muito específica explica essa decisão. Os Estados Unidos da América e Israel tinham as suas forças em prontidão para atacar durante a noite, mas uma informação de última hora mudou tudo. A CIA chegou com um dado fulcral: os seus agentes descobriram o paradeiro exato de Ali Khamenei — na manhã seguinte iria estar no complexo da liderança iraniana em Teerão.

A decisão, explica o New York Times, foi a de ajustar a hora da operação para apanhar especificamente o Líder Supremo. “Decapitar a liderança do regime” tornou-se o objetivo principal da operação, ilustrou um oficial da Força Aérea israelita ao Figaro.

O “rasto” deixado por Khamenei que as secretas apanharam

Há meses que as secretas norte-americanas seguiam Ali Khamenei, segundo a imprensa norte-americana, e já conheciam as suas rotinas. Um antigo agente da CIA explica ao The Guardian o processo: “É como um puzzle gigante. Estamos a juntar farrapos de informação”, ilustra. “É tudo: como é que as pessoas arranjam comida, para onde vai o lixo delas. Todos nós acordamos e nos deitamos, todos nós comemos e bebemos.” Toda a gente, diz, “deixa algum tipo de rasto”. Khamenei não foi exceção.

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Não é certo por que razão o Líder Supremo e outras destacadas figuras do regime decidiram juntar-se no mesmo edifício no coração da capital do Irão, numa altura em que os EUA concentravam forças militares nos arredores do país.

Mas as declarações do Presidente Donald Trump, que escreveu que Khamenei foi “incapaz de evitar os nossos serviços de informações e os sistemas de monitorização altamente sofisticados”, indiciam que a CIA terá conseguido esta informação através de meios técnicos e não de fontes humanas.

Antes de a informação chegar à mesa Resolute na Casa Branca, Trump reuniu-se na quinta-feira com o almirante Brad Cooper, oficial que lidera as tropas norte-americanas no Médio Oriente. No dia seguinte, a bordo do Air Force One, falou com alguns políticos destacados do Partido Republicano. “Ele não nos disse o que ia fazer, mas colocou a questão se o Irão deveria ser travado com qualquer ação necessária que pudesse vir a tomar”, revelou mais tarde o senador John Cornyn.

As 30 bombas largadas às 9h40 da manhã

Com a informação da CIA, Trump deu luz verde ao plano militar.

O chefe do Estado-Maior de Israel, Eyal Zamir, enviou uma nota aos pilotos do país que se preparavam para a operação. “Este sábado ao amanhecer começa a Operação Rugido de Leão”, escreveu. “Vocês têm autorização para atingir os vossos alvos. Estamos a fazer História. Confio em vós. Boa sorte a todos nós.”

Eram seis da manhã em Israel quando os primeiros aviões descolaram. Ao mesmo tempo, os navios militares norte-americanos estacionados perto da costa iraniana posicionaram-se. Às 9h40 (hora de Teerão), as munições foram disparadas e o complexo onde estavam as figuras de topo iranianas atingido (Khamenei estava num edifício adjacente). Entre elas estava o comandante da Guarda Revolucionária Mohammad Pakpour, o ministro da Defesa Aziz Nasirzadeh e o vice-ministro das Informações, Mohammad Shirazi. Todos morreram.

O ataque foi com toda a força. Os aviões israelitas terão largado 30 bombas, a que se juntaram os projéteis dos norte-americanos. De acordo com o que um responsável norte-americano disse ao site Axios, os ataques norte-americanos focaram-se nas infraestruturas militares iranianas ligadas ao programa nuclear, enquanto os israelitas se dedicaram a matar as figuras do regime iraniano.

À hora da morte de Khamenei, o Presidente Donald Trump estava em Mar-a-Lago a acompanhar os desenvolvimentos numa sala improvisada para o efeito.

As visitas israelitas e o telefonema dos negociadores com Trump que selaram a decisão

A operação estava a ser preparada há semanas.

A ideia arrancou durante a visita do primeiro-ministro israelita a Mar-a-Lago, na semana a seguir ao Natal, onde Benjamin Netanyahu informou Donald Trump de que os iranianos estavam a tentar acelerar a sua capacidade nuclear. Segundo a CNN, Trump terá dito que apoiaria um novo ataque militar israelita a território iraniano se se comprovasse essa escalada nuclear.

Seguiu-se um corrupio de visitas de militares israelitas a Washington. O Wall Street Journal diz que estiveram na capital norte-americana o principal general das IDF, o responsável máximo da Força Aérea, o líder das secretas militares e o diretor da Mossad.

Enquanto isso, uma série de protestos muito expressivos rebentaram no Irão, a que se seguiu uma repressão violenta do regime. Trump começou a ameaçar que poderia intervir para auxiliar os manifestantes. A CNN garante que foi aí que “o planeamento para uma operação conjunta americano-israelita entrou em alta velocidade”.

O Presidente norte-americano começou a ordenar uma mobilização militar considerável para o Médio Oriente, a maior concentração de meios na região desde a invasão norte-americana do Iraque em 2003.

Mas, ao mesmo tempo, Trump decidiu encetar negociações com o Irão. A 5 de fevereiro arrancaram as conversações, em Omã. Ninguém sabia ao certo que rumo preferiam os Estados Unidos: a diplomacia ou a ação militar? A 11 de fevereiro, Netanyahu voltou a visitar Trump em Washington, talvez para compreender melhor onde estava a cabeça do Presidente norte-americano.

O grande entrave nas negociações foi sempre a questão do programa nuclear iraniano. Na passada quinta-feira houve mais uma ronda de conversas. Quando acabaram, Trump falou ao telefone com os seus enviados, Steve Witkoff e Jared Kushner. Estes disseram-lhe que Teerão não estava a ceder.

Foi aí, diz o Wall Street Journal, que Trump decidiu passar para a força das armas. Uma decisão agravada quando os serviços de informações lhe disseram que havia o risco de o Irão atacar os norte-americanos — “se ficássemos sentados à espera de sermos atingidos primeiro, o número de mortes e de danos seria muito superior”, disse uma fonte de Washington.

“O campo de batalha moderno já não é só definido por tanques e aeronaves. É definido por dados, acesso, confiança e timing. Um minuto pode mudar uma região.”
Oded Ailam, antigo dirigente da Mossad

A nova ronda de negociações que estava marcada para segunda-feira já não vai acontecer. Em vez disso, na noite deste sábado o Presidente revelava o resultado do ataque da manhã: “Khamenei, uma das pessoas mais cruéis da História, está morto.”

Sessenta segundos. Foi tudo o que esta operação demorou, mas é o resultado de anos de preparação”, notou ao The Guardian Oded Ailam, antigo dirigente da Mossad. E que nunca poderia ter resultado na morte de Khamenei se não fosse aquela informação essencial entregue pela CIA poucas horas antes. “O campo de batalha moderno já não é só definido por tanques e aeronaves”, diz Ailam. “É definido por dados, acesso, confiança e timing. Um minuto pode mudar uma região.”