Premiado em Setembro no maior festival de cinema da Península Ibérica com a Concha de Ouro, Los Domingos, nova longa-metragem da basca Alauda Ruiz de Azúa, impôs-se igualmente nos Prémios Goya deste sábado, na grande festa anual do cinema espanhol. A cerimónia desta 40.ª edição decorreu no Auditori Forum CCIB, em Barcelona.
História de Ainara, uma adolescente espanhola dos dias de hoje que, após estadia de veraneio num mosteiro, decide seguir carreira religiosa e tornar-se freira de clausura monástica, deixando estupefacta a sua família laica (com Into My Arms, de Nick Cave, a correr na banda-sonora), Los Domingos mina por dentro a familiaridade e venceu nas categorias de Melhor Filme e Melhor Realização, valendo ainda a Patricia López Arnaiz e Nagore Aranburu as estatuetas de Melhor Actriz e Melhor Actriz Secundária. O filme venceu igualmente o Goya de Melhor Argumento Original.
José Ramón Soroiz, protagonista de Maspalomas, de Jose Mari Goenaga e Aitor Arregi, outra das revelações de San Sebastián do ano passado, ficou com o Goya de Melhor Actor
O prémio de interpretação secundária da categoria galardoou o igualmente notável trabalho de Álvaro Cervantes em Surda, de Eva Libertad, que se estreou nas salas portuguesas em Setembro do ano passado. “Queria perceber o que significa ser mãe surda e o que é que uma criança vem acrescentar à dinâmica de uma família com aquela particularidade”, contou a cineasta ao Observador. “Este filme (…) resulta de um trabalho enorme de consultas e de entrevistas a mães surdas que sustentaram o filme com um substrato verdadeiro.” Miriam Garlo venceu o troféu de Melhor Revelação pela mesma obra.
Com as categorias principais assim entregues, ficou Sirât, de Oliver Laxe, com o domínio das premiações técnicas, arrecadando seis estatuetas: Música (de Kangding Ray), Fotografia, Montagem, Som, Direcção de Arte e Direcção de Produção.
O multipremiado Tardes de Solidão, de Albert Serra (co-produção da portuguesa Rosa Filmes), venceu, como era esperado, o Goya de Melhor Documentário. Quanto aos artistas portugueses presentes na cerimónia, foram nomeados Maria de Medeiros (pelo seu papel secundário em Uma Quinta Portuguesa, de Avelina Prat, co-produzido pela O Som e a Fúria), Rui Poças (pela fotografia de Ciudad sin Sueño, de Guillermo Galoe, estreado na Semana da Crítica de Cannes 2025) e Laura Carreira, a autora de On Falling, que concorria ao Goya de Melhor Filme Europeu (venceu Valor Sentimental, de Joachim Trier).
Homenageada nesta edição com um Goya Internacional — prémio à carreira — a actriz norte-americana Susan Sarandon elogiou a tomada de posição do Governo espanhol em defesa de Gaza e da Palestina (com o primeiro-ministro Pedro Sánchez na plateia) e criticou as políticas de Donald Trump: “Adoro Espanha, Barcelona em especial, os museus, a arquitectura, a comida (…) e agora que o mundo está tão dominado pela violência e pela crueldade, o vosso país ajuda-me, no meio do caos e da repressão em que vivo, a sentir-me menos sozinha, percebendo que faço parte desta comunidade de artistas.”
O autor escreve segundo a antiga ortografia.