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Sem Khamenei, Guarda Revolucionária deve radicalizar regime iraniano. "Pode ficar brutal como a Coreia do Norte"

No meio da guerra e após a morte de Khamenei, Guarda Revolucionária deve aproveitar vácuo de poder e assumir protagonismo. Regime pode ficar mais bélico e militarista, aumentando repressão interna.

José Carlos Duarte
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A chorar. Na televisão estatal iraniana controlada pelo regime, os pivôs não conseguiram controlar as lágrimas enquanto liam a notícia da morte Ali Khamenei. Para os defensores da República Islâmica que encaram agora o ayatollah como um mártir, a morte do Líder Supremo foi a perda de uma referência. Mas não só. Nos órgãos de comunicação social afeta à República Islâmica, há juras de vingança e é transmitida a ideia de que chegou a altura de salvar a face. A principal oportunidade para isso reflete-se precisamente na sucessão do mais alto cargo da nação.

Durante os 37 anos em que esteve à frente do Irão, Ali Khamenei optou quase sempre pela tática da “paciência estratégica”. O regime não arredava pé das suas convicções, mas mantinha uma postura cautelosa na política externa. Por um lado, a República Islâmica sabia que ficava quase isolada e era alvo de inúmeras sanções internacionais devido, por exemplo, ao desenvolvimento do programa nuclear. Por outro, as provocações que fazia eram calculadas ao milímetro e indiretas, não começando guerras que sabia que dificilmente poderia vencer. O regime iraniano era um pária que sabia como dissimuladamente acicatar os ânimos dos adversários geopolíticos. Uma prova disso foi a rede de proxies que passou a patrocinar no Médio Oriente, como o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iémen.

No entanto, as circunstâncias mudaram com a operação militar conjunta entre os Estados Unidos da América (EUA) e Israel iniciada este sábado. Os iranianos mais conservadores não se podem dar ao luxo de adotar a tal “paciência estratégica”, podendo não sobreviver à ofensiva estrangeira. Desta vez, a guerra dá-se em território iraniano e os rivais israelitas e norte-americanos não escondem que pretendem acabar com o regime. A morte do Líder Supremo dá força à tese de que o Irão não pode recuar e tem agora de se impor perante os adversários — e abre espaço para a Guarda Revolucionária, o braço armado do regime, reforçar ainda mais o seu poder.

https://twitter.com/NewsWire_US/status/2027934317410648347

Internamente, as repercussões deverão incidir sobre a sucessão de Ali Khamenei, em concreto, na escolha provável de um líder da linha mais dura. Neste momento, existe um conselho de transição que está a assegurar o poder liderado por três nomes: o ayatollah Alireza Arafi, o Presidente Massoud Pezeshkian e o líder do Supremo Tribunal do Irão, Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i. Os domínios da religião, da política e da justiça estão unidas para traçar o futuro do país em tempo de guerra. Não será por muito tempo, ainda assim. Em breve, haverá a nomeação de um novo Líder Supremo, com o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, a antecipar que pode ser daqui a “dois dias”.

Na política externa, as consequências podem ser mais graves. O Irão pode sentir que não há mais nada a perder e lançar ataques contra os países vizinhos e aliados dos Estados Unidos, como já está a acontecer. Em declarações à Al Jazeera, Hassan Ahmadian, professor de política iraniana na Universidade de Teerão, aponta para o fim da “paciência estratégica” e o início da “política de terra queimada”: “A decisão foi tomada. Se atacado, o Irão vai queimar tudo”.

“Um sistema mais confrontacional”. Militares podem tomar o poder?

Antes de morrer este sábado, aos 86 anos, Ali Khamenei preparou durante meses a sucessão, de modo a que o regime sobreviva mesmo sem a sua presença. O objetivo era que ficasse tudo a postos para a República Islâmica manter a coesão e organização, assente nos ensinamentos dos clérigos xiitas e no militarismo. Em junho de 2025, a Guerra dos Doze Dias contra Israel já tinha levado o Líder Supremo a acelerar os preparativos para um futuro sem ele.

Mais do que a religião, o regime sabe que, neste momento, a força militar e policial é mais necessária do que nunca. O país enfrenta uma guerra e, nas ruas, existe a possibilidade de milhares de iranianos insatisfeitos com a República Islâmica. Como tal, a Guarda Revolucionária iraniana, o braço armado e principal sustentáculo da República Islâmica, deverá desempenhar um papel muito importante durante a transição de poder. Esse protagonismo deverá estender-se à forma como influencia a sucessão de Ali Khamenei.

Existe mesmo a possibilidade de a Guarda Revolucionária assumir o poder no futuro sem Ali Khamenei. Num artigo escrito para o think tank Atlantic Center, o analista Jonathan Panikoff  conjetura que o Irão se pode converter num estado controlado pelos militares que poderão apresentar o nome do novo Líder Supremo como um “símbolo para milhões de iranianos conservadores”, mas com o poder “concentrado” nos guardas da Revolução.

Assim, a Guarda Revolucionária pode transformar o papel de Líder Supremo numa “figura decorativa”, principalmente durante a operação militar israelo-americana. Em declarações à France24, Ellie Geranmayeh, membro do think tank European Council on Foreign Relations, alerta para esse risco e acrescenta: “No caso de os Estados Unidos e Israel se focarem num colapso completo do regime, haverá um sistema muito mais confrontacional, em comparação com a tímida e calculista República Islâmica” de Ali Khamenei

As perspetivas, por agora, são que Israel e os Estados Unidos provavelmente vão redobrar a ofensiva. Ainda este domingo, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, adiantou que deu ordens para continuar o conflito contra o Irão. “As nossas forças estão a avançar no coração de Teerão com intensidade crescente e isso só se intensificará mais nos próximos dias”, afirmou. Os Estados Unidos sugeriram também que haverá uma intensificação dos ataques aéreos.

Para Telavive e Washington, a possibilidade de serem eleitas figuras militaristas de uma linha mais dura para cargos de destaque dificilmente os apanha desprevenidos. De acordo com um relatório da CIA de há duas semanas a que a agência Reuters teve acesso, as secretas norte-americanas apontaram que o cenário mais provável, no caso da morte de Ali Khamenei, seria a tomada de lugares de topo do regime por quadros pertencentes à Guarda Revolucionária.

"No caso de os Estados Unidos e Israel se focarem num colapso completo do regime, haverá um sistema muito mais confrontacional, em comparação com a tímida e calculista República Islâmica."
Membro do think tank European Council on Foreign Relations, Ellie Geranmayeh

Nesta lógica, o Irão passaria a ser um Estado fortemente militarizado. À Al Jazeera, o especialista e jornalista Liqaa Maki apresenta um prisma mais religioso, citando uma frase que terá sido dita pelo profeta Maomé: “O crente não é picado duas vezes pelo mesmo mal”. “Mas o Irão foi picado duas vezes”, complementa o analista, numa referência à Guerra dos Doze Dias em junho (e também aos ataques norte-americanos a três locais onde o Irão desenvolveu o programa nuclear) e à ofensiva recente chamada “Fúria Épica”.

Para os dirigentes do regime, a máxima é que necessário redobrar os cuidados depois do que muitos dentro da Guarda Revolucionária veem como uma humilhação por não a terem conseguido evitar: a morte do Líder Supremo. Mas se a “cabeça” da serpente — representada por Ali Khamenei — pode ter sido cortada, ainda ficou o “corpo”, refere Liqaa Maki. Ora, o que restou é um potente arsenal que é suficiente para tornar o Irão num estado extremamente militarizado em que a dissidência interna é dizimada.

No pior dos cenários, o jornalista e analista político iraniano Karim Sadjadpour aponta que o regime pode ficar paranoico e obcecado com os inimigos internos. “Internamente, o regime pode ficar intacto e tornar-se tão brutal como a Coreia do Norte — e ainda mais brutal do que se tornou nas semanas mais recentes com a morte de milhares de iranianos” nos protestos de janeiro de 2026, diz o especialista, numa entrevista à revista Foreign Affairs. 

"Internamente, o regime pode ficar intacto e tornar-se tão brutal como a Coreia do Norte — e ainda mais brutal do que se tornou nas semanas mais recentes com a morte de milhares de iranianos."
Especialista e jornalista Liqaa Maki

As consequências internas e externas de um regime mais militarizado

A face do regime deverá ficar mais militar, ainda que vá depender de como os Estados Unidos vão influenciar a sucessão de Ali Khamenei e se serão capazes de convencer altos dirigentes a colaborar. Em princípio, a República Islâmica manter-se-á uma teocracia, mas com uma componente mais militarista. “A insegurança tende a beneficiar as forças de segurança, porque, durante vazios de poder, os homens que mobilizam a violência é que prevalecem”, afirma Karim Sadjadpour.

É precisamente isso que está a acontecer no Irão, se bem que o vácuo no cargo de Líder Supremo se espera que seja muito breve e haja um conselho de transição em funções. De qualquer forma, com um regime provavelmente mais militarista e a tentar sobreviver a uma guerra, a tática da “paciência estratégica” promovida por Ali Khamenei parece ter chegado ao fim. “O Irão aprendeu uma lição dura em junho de 2025 durante a guerra [contra Israel]: a contenção é interpretada como fraqueza“, expõe Hassan Ahmadian, professor na Universidade de Teerão.

Durante uma transição de poder, sob o risco de colapsar, o regime não pode demonstrar fraqueza. Tem de demonstrar combatividade não só perante os rivais, como também diante dos críticos internos. Este sábado, milhares de pessoas já celebraram a morte de Ali Khamenei nas ruas. Os norte-americanos e israelitas esperam também que a população iraniana que se manifestou no início de janeiro se mobilize para derrubar a República Islâmica.

https://observador.pt/especiais/morte-do-ayatollah-khamenei-e-suficiente-para-derrubar-o-regime-do-irao-republica-islamica-e-osso-duro-de-roer/

Desde o exílio nos Estados Unidos, o príncipe herdeiro do último Xá da Pérsia tem tentado mobilizar à distância a oposição ao regime. Para a Guarda Revolucionária, Reza Pahlavi é uma figura indesejável por tudo o que corporiza: o passado antes da Revolução e o facto de ser um símbolo de esperança para muitos monárquicos e descrentes no rumo da República Islâmica. Durante uma situação de vazio de poder, a voz do filho do antigo monarca é indesejável, principalmente a dos seus apoiantes.

Com os Estados Unidos e Israel a incentivarem protestos e com uma voz ativa no exílio, o regime iraniano deve apertar a malha nos próximos tempos aos dissidentes. À Deustche Welle, Sara Kermanian, professora de Relações Internacionais na Universidade de Sussex, lembra que a República Islâmica está a “lutar pela sobrevivência política enquanto sistema não democrático”.

Não havendo contrapoderes no país, o regime iraniano está “menos sujeito à pressão doméstica no que toca às perdas humanas e financeiras”, continua Sara Kermanian. Para sobreviver sem mazelas e de modo a manter a mesma estrutura, a República Islâmica terá de evitar “lutas pelo poder internas”. E isso deverá envolver violência e repressão.

Na mesma linha, o analista Jonathan Panikoff  corrobora que um regime militarista seria uma “ameaça regional e doméstica”, adotando estratégias ainda “mais radicais na busca pela consolidação do poder” e focado na finalidade de que “nenhum outro ator interno” possa assumir o poder.

Os riscos de uma guerra regional no Médio Oriente

Fora de fronteiras, Jonathan Panikoff  admite que um regime controlado pela Guarda Revolucionária até poderia mostrar alguma “flexibilidade com os Estados Unidos” com dois objetivos em mente: “Ganhar o apoio da população iraniana” tentando obter um “impulso económico através do alívio de sanções”. O Presidente norte-americano já indicou que a nova liderança iraniana deseja dialogar com a Casa Branca e Donald Trump concordou com essa ideia.

Outro cenário que se levanta é o prolongamento de uma guerra regional no Médio Oriente. Num regime militarista que se quer impor, o Irão poderá continuar a atacar as bases militares norte-americanas em países como o Qatar, o Kuwait, o Bahrain e os Emirados Árabes Unidos. “Defender-nos-emos, custe o que custar, e não imporemos limites à defesa e à proteção do nosso povo. Ninguém nos pode dizer que não temos o direito de nos defender”, declarou, este domingo, Abbas Araghchi.

“Defender-nos-emos, custe o que custar, e não imporemos limites à defesa e à proteção do nosso povo. Ninguém nos pode dizer que não temos o direito de nos defender."
Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi

Israel manter-se-ia como um dos principais alvos nessa lógica de guerra regional. Ideologicamente, é encarado pelo regime como o principal inimigo e um regime mais militarista não vai mudar isso, já que a operação militar também foi desencadeada pelas Forças de Defesa israelitas. Porém, os principais alvos seriam os países do Golfo Pérsico, acredita o jornalista Karim Sadjadpour.

“Há um perigo de uma guerra regional em que o Irão tenta destruir [os países] do Golfo e pode atacar infraestruturas petrolíferas para aumentar o preço do petróleo. Israel também está mais bem equipado para se defender por causa do seu poderio militar e devido à distância face ao Irão. Os países do Golfo são mais vulneráveis”, prossegue o mesmo especialista.

A “paciência estratégica” de atacar indiretamente os inimigos parece ter chegado ao fim este sábado. A tática já tinha sido questionada em junho durante a Guerra dos Doze Dias, mas a morte do Líder Supremo é uma nova fase para a República Islâmica, onde não há agora uma voz como a de Ali Khamenei a determinar uma estratégia. Tudo leva a crer que será uma época mais repressiva e bélica, mas não ainda é claro quanto tempo vai durar — e se o plano israelo-americano vai impedir que essa tendência vingue.