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Eleições no PSD confirmam ferida aberta em Braga. "Não é bom para o partido"

Novo presidente da distrital do PSD foi acusado na Operação Tutti Frutti, o que causa desconforto. Candidato com "ajuste de contas" com Montenegro venceu em Espinho. Mas regra geral foi continuidade.

Mariana Lima Cunha
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Ferida aberta em Braga. O PSD foi a votos este fim de semana, numa eleição quase sempre pacífica — até porque na maior parte dos casos só havia uma lista à escolha no boletim — mas na distrital de onde vem o secretário-geral, Hugo Soares, o poder mudou mesmo de mãos e a estrutura será agora dirigida por um adversário antigo e acusado na Operação Tutti Frutti, Carlos Eduardo Reis. Embora as garantias dos dois lados sejam de que não há leituras nacionais a fazer, a notícia veio mexer com o partido e pôs o montenegrismo a fazer contas à forma como perdeu a estrutura.

Desde logo, porque a eleição, que também gerou dúvidas sobre a posição de um ministro de Montenegro (José Manuel Fernandes, da Agricultura, que não declarou apoio público a Carlos Eduardo Reis mas cuja concelhia, Vila Verde, esteve com o vencedor), foi renhida. Apesar de ter vencido a distrital, o antigo apoiante de Rui Rio e diretor de campanha de Jorge Moreira da Silva só ganhou em quatro concelhos — o candidato derrotado e associado à direção nacional, o eurodeputado Paulo Cunha, venceu nos restantes dez.

Por isso, enquanto nas fileiras de Carlos Eduardo Reis se festeja a mudança — afinal, é sempre mais difícil derrotar um incumbente e Paulo Cunha já liderava a distrital de Braga desde 2020 –, entre montenegristas desvaloriza-se, também matematicamente, o resultado, olhando para as contas de forma mais fina. “O que significa [a vitória de Carlos Eduardo Reis]? Nada. Significa que o distrito queria um presidente de distrital e a secção de Barcelos quis outro. Nada mais”, ouve o Observador.

Isto porque, nesta contagem de votos, foi sobretudo relevante a votação da concelhia de Barcelos, de onde Carlos Eduardo Reis é natural e onde é vereador — segundo as contas a que o Observador teve acesso, no total o vencedor ganhou por uma diferença de 226 votos (2826 contra 2600), sendo que Barcelos, o concelho com mais votantes, teve uma diferença muito substancial (1302 votos contra 390).

Noutros concelhos de dimensões consideráveis, como Vila Nova de Famalicão, Paulo Cunha venceu (945 contra 602 votos), conquistando também estruturas relevantes como Braga e Guimarães. Mas, com o apoio de Barcelos, Vila Verde e os concelhos mais pequenos de Amares e Terras de Bouro, Carlos Eduardo Reis conseguiu mesmo destronar o até agora presidente de uma das maiores distritais do país.

Além de ter estado alinhado com a direção de Rui Rio e ter apoiado o adversário de Luís Montenegro na corrida interna ao PSD, Carlos Eduardo Reis representa um problema para a direção nacional por outra razão: o deputado entrou no Parlamento durante a liderança de Rio mas acabou por suspender o mandato em fevereiro do ano passado. E saiu depois de Hugo Soares lhe retirar a confiança política por ter ter sido acusado pelo Ministério Público no âmbito da operação Tutti Frutti, que investiga desde 2018 alegados favorecimentos a militantes do PS e do PSD, através de avenças e contratos públicos.

Na altura, Carlos Eduardo Reis chegou a dizer que por sua vontade esperaria pela acusação definitiva e que só suspenderia o mandato se fosse pronunciado, após a fase de instrução, por não querer trocar “a presunção da inocência pela presunção da culpa”. Mas Hugo Soares já tinha anunciado publicamente que lhe iria pedir que suspendesse o mandato, depois de se saber que o deputado estava acusado de duas dezenas de crimes, incluindo corrupção ativa, prevaricação e tráfico de influências.

Fonte da direção nacional reconhece agora, ao Observador, que ter um dirigente local com estas acusações pendentes “não é bom para o partido”. Outro dos dirigentes de distrital eleitos coloca o caso como “extraordinariamente delicado”, lembrando que esta será “porventura a distrital politicamente mais influente no país”, muito ancorada no poder vigente no PSD, até porque os apoiantes de Paulo Cunha fizeram questão de lembrar que a disputa significava também que estavam ao lado de Montenegro e de Hugo Soares.

“O problema maior é a questão da autoridade política“, uma vez que a guerra de bastidores fica assim exposta e que não convém que se “abram brechas” nessa autoridade da direção nacional — numa altura em que o mais natural seria, num Governo que ainda não está em funções há muito tempo, que as eleições se fizessem pacificamente e sem notícia, mostrando o partido unido também pela cola do poder (coisa que na maior parte do país se verificou, efetivamente, embora também se apontem dentro do partido as irritações visíveis com Miguel Albuquerque, na Madeira, por exemplo).

Esta semana, e no seguimento das acusações no caso Tutti Frutti, o partido decidiu aliás adotar um novo regulamento ético — que será votado no Conselho Nacional desta quarta-feira — a aplicar aos militantes que ocupem cargos externos ou internos, em que se define que se devem reger pelos princípios do “primado do interesse público” (não podem “usufruir de quaisquer vantagens financeiras ou patrimoniais em virtude do cargo que ocupam) e da “integridade e transparência”.

No contexto da luta política em Braga, Carlos Eduardo Reis tem recusado nacionalizar a disputa, tendo garantido em declarações à Lusa que não está a candidatar-se “contra o Governo” e que até já tinha ponderado concorrer ao PSD/Braga — uma das “big four” distritais — e tinha decidido não avançar devido à proximidade das autárquicas do ano passado. Mas desta vez avançou, defendendo que Braga deve ter “uma voz própria” e um perfil “menos notarial, menos administrativo e muito mais de intervenção”.

“O meu entendimento das estruturas regionais e distritais é que têm de ter uma intervenção no plano político, porque se não servem para pouco. Tem de ser uma estrutura pensante, que promove o debate, que tenha uma opinião que reflita aquilo que a grande parte dos nossos militantes pensa, mas que influencie positivamente as políticas do Governo”, disse à Lusa, argumentando também a favor da “renovação dos quadros do distrito” por Paulo Cunha já ser líder há três mandatos (e ter exercido o mesmo cargo, antes, de 2010 a 2014) e dividir-se também pelo trabalho em Bruxelas.

Além disso, acrescentou, já se deu o caso de um eurodeputado liderar a estrutura — caso do próprio José Manuel Fernandes — mas nessa altura “havia um contexto de consensualidade no distrito que hoje não existe”. Por isso, só uma “conceção tosca” de democracia poderia retirar outras leituras de uma candidatura de alguém que “tem uma opinião diferente” numa eleição “estatutária e no tempo certo”.

“Não quero que saia daqui nenhuma leitura de que há uma candidatura que tem mais simpatia pelo Governo do que outra. Isto não é um concurso de simpatia em relação ao Governo. Eu apoio o Governo, sei aquilo que tem feito, sei os projetos que tem para a Região Norte e para o nosso distrito”, elogiou. Mas, como o Expresso noticiava, Paulo Cunha foi fazendo questão de enviar nas mensagens aos militantes lembretes da presença de Luís Montenegro na sua campanha interna, explicando que queria deixar claro “o seu apoio indiscutível” ao primeiro-ministro e ao Executivo. E, no partido, o entendimento foi que a escolha a fazer também era entre o apoio, ou não, a Montenegro e à direção nacional.

Até porque Carlos Eduardo Reis pode ser sobretudo um homem dos corredores, sem grande expressão mediática — como explica uma fonte ao Observador, “importa-se mais com ter poder no partido do que mostrar que o tem” — mas tem uma ligação muito profunda ao partido. O pai, Fernando Reis, foi Presidente da câmara de Barcelos e líder da distrital de Braga, além de deputado europeu; assim, Carlos Eduardo Reis cresceu entre figuras influentes do PSD e fez o seu caminho na JSD, onde chegou a liderar a distrital de Braga. Disputou a liderança nacional com Duarte Marques (na altura com o apoio de Montenegro), falhando essa missão, mas a sua influência no partido só viria a consolidar-se daí para a frente — e as suas tropas passaram a entrar nas contas e a ser disputadas pelos candidatos mais recentes à liderança do PSD, voltando agora a fazer mossa em Braga.

Só uma distrital teve disputa e em 15 das 19 os presidentes atuais foram recandidatos. Mas a candidatura de Carlos Eduardo Reis mexeu com o partido

Em Espinho, luta renhida deu vitória a crítico de Montenegro

Braga é o caso mais relevante de mudança a nível nacional, mas outro dissabor para Luís Montenegro poderá ter sido a vitória do jurista Ricardo Sousa na concelhia de Espinho, de onde o primeiro-ministro é natural, que já liderou e onde, naturalmente, votou. Ora Ricardo Sousa foi afastado da corrida eleitoral às últimas eleições autárquicas graças ao que, segundo o próprio justificou, se resumiu a um “um ajuste de contas pessoal” de Luís Montenegro.

Neste caso, não se trata de uma mudança: Ricardo Sousa fará assim o seu segundo mandato como líder da concelhia por uma unha negra, tendo obtido 133 votos contra os 131 da deputada Carolina Marques, apontada como a favorita do presidente do partido. À Lusa, Ricardo Sousa considerou que o seu trabalho ficou assim “relegitimado”, tendo tudo um mandato “muito exigente” por motivos que “suscitaram uma discussão muito grande na concelhia”, sobre a qual os militantes puderam agora pronunciar-se.

O tom do líder local mostra que o clima na concelhia praticamente partida ao meio está longe de ser pacífico: “O resultado de hoje demonstra que eles [os militantes] decidiram confiar em mim outra vez e voltar a legitimar-me, o que obriga a que todos me respeitem no mandato que temos pela frente”.

Na altura em que foi afastado, a concelhia escolheu Ricardo Sousa para se candidatar à autarquia, mas a direção nacional decidiu avocar o processo da sua candidatura e apresentar como candidato alternativo Jorge Ratola, ex-vice-presidente da Câmara de Aveiro e adjunto do primeiro-ministro.

E o presidente da concelhia veio queixar-se de um “ajuste de contas pessoal” que o visaria “diretamente” e que teria como único propósito a sua “eliminação política”: “O PSD é um partido estruturante do regime democrático, com mais de 50 anos de história, não pode ser usado como instrumento de vinganças pessoais ou para satisfazer caprichos familiares”. Ainda tentou, na altura, impugnar a escolha de Ratola, mas o seu pedido foi negado pelo Tribunal Constitucional (segundo a sua equipa, o tribunal transmitiu que o pedido já não chegou a tempo).

Lídia Pereira perde Coimbra, Pedro Alves ganha Viseu

Se nas distritais Braga foi o único caso de disputa, nas concelhias houve alguns casos em que dois candidatos entraram na corrida. Além de Espinho, também Coimbra atraiu algumas atenções mediáticas por estar em causa uma candidatura da eurodeputada Lídia Pereira, que segundo apurou o Observador foi derrotada pelo deputado Martim Syder. Lídia Pereira apresentava um projeto para um “novo ciclo de afirmação do partido no concelho”, que José Manuel Silva, independente apoiado pelo PSD, perdeu para a Ana Abrunhosa (independente, mas ex-ministra de António Costa e apoiada pelo PS) nas últimas autárquicas.

Lídia Pereira argumentava que a experiência consolidada no Parlamento Europeu ajudaria a fazer a “ponte entre diferentes gerações e sensibilidades do partido”, contra o lema “Renovar Coimbra”, de Martim Syder, que prometia trazer uma nova dinâmica ao partido no concelho, “orientada para a construção de uma alternativa credível à atual governação municipal”, e para que os sociais democratas não ficassem “à espera nem resignados com a perda de influência” em Coimbra. Foi a estratégia preferida pelos militantes.

Em Viseu, onde também houve disputa, o deputado Pedro Alves e coordenador autárquico do partido venceu, numa das “eleições mais concorridas dos últimos anos, porque houve uma forte mobilização”. “Após uma derrota eleitoral nas autárquicas, havia vontade de procurar estratégias diferentes para recuperar a Câmara” de Viseu, disse Pedro Alves à Lusa depois de ver a sua vitória confirmada. Nas autárquicas de outubro, o PS venceu, com João Azevedo, pela primeira vez a câmara de Viseu, com mais 799 votos que o PSD.

“Queremos recuperar a Câmara rapidamente, uma vez que temos a maioria clara das freguesias, temos também maioria na Assembleia Municipal e, por isso, há que trabalhar, compreender a razão de os viseenses não terem votado em nós”, disse o agora presidente da concelhia e antigo presidente da distrital, prometendo em 2027 ter o trabalho de “prospeção” feito para encontrar um bom candidato e voltar a disputar Viseu.

De resto, em 15 das 19 distritais os atuais presidentes foram recandidatos, pelo que a continuidade foi, genericamente, a palavra de ordem. Em Lisboa, o vice da bancada parlamentar Bruno Ventura vai suceder a Ângelo Pereira, que atingiu o limite de mandatos (e se candidatou agora pela Mesa da Assembleia Distrital). E na concelhia, o presidente da junta de Freguesia do Lumiar, Ricardo Mexia, sucede a Luís Newton, que também foi acusado na Operação Tutti Frutti e não foi a votos. Outras mudanças motivadas pelo fim dos ciclos atuais foram as eleições de Helena Teodósio, em Coimbra (sucede a Paulo Leitão), Gonçalo Valente em Beja (sucede a Andreia Guerreiro) e Luís Vitorino (substitui Rogério Silva).

Como resumia a Lusa, nas restantes distritais em que houve lista única, Aveiro continuará a ser liderado pelo atual secretário de Estado das Comunidades Emídio Sousa, Bragança pelo deputado Hernâni Dias, Castelo Branco pelo antigo autarca Manuel Frexes, Évora e Faro pelos deputados Francisco Figueira e Cristóvão Norte, respetivamente, Guarda por Rui Ventura e Leiria por Hugo Oliveira. À frente da distrital de Lisboa – Área Oeste continuará José Bernardo Nunes, do Porto o presidente da Câmara e ex-ministro Pedro Duarte, de Santarém o deputado Ricardo Oliveira, de Setúbal o secretário de Estado Paulo Ribeiro, de Viana do Castelo Olegário Gonçalves, de Vila Real Amílcar Almeida e de Viseu Carlos Santiago.

Estas eleições internas no PSD foram marcadas com a intenção de fazer coincidir o ciclo autárquico com os mandatos locais. “O partido fez muito bem em estabelecer que após as autárquicas há imediatamente abertura de um novo ciclo”, explica ao Observador uma das fontes já citadas. “O momento mais determinante é a preparação dos atos eleitorais”, pelo que a ideia foi que os militantes fizessem agora uma avaliação interna feita sobre o ciclo do PSD que terminou nas autárquicas de outubro — e que comecem já a preparar o próximo.