Enquanto se contam os aviões militares norte-americanos que aterram e levantam da base das Lajes e se analisam as subtilezas do ponto 4, do artigo 1º do Acordo Técnico que estabelece o tipo de comunicação que os EUA devem fazer ao governo português quando usam essa base, percebe-se como andámos distraídos do mundo: há escassos dez anos, delegações chinesas rumavam aos Açores e falava-se abertamente sobre a possibilidade de a República Popular da China substituir nas Lajes os EUA.
De visita a Macau, António Costa afirmava numa entrevista: “A base nos Açores é muito importante em termos militares, mas também em termos de logística e tecnologia e pesquisa nas águas profundas e de alterações climáticas (…) estamos abertos a cooperação com todos os parceiros, incluindo a China”. Nos EUA, o então congressista Devin Nunes (agora faz parte do círculo de Trump) avisava que “é provável” que as instalações da Base das Lajes “acabem na posse do governo chinês” (…) a China enviou uma delegação de cerca de 20 representantes, todos fluentes em português, numa viagem de pesquisa que durou semanas e que culmina com a visita do primeiro-ministro, Li Keqiang”.
Provavelmente, os governantes portugueses, a administração Obama e a oposição republicana faziam todos e por diferentes razões um pouco de bluff com a possibilidade de a China substituir os EUA nas Lajes mas ousemos perguntar: o que estaria a acontecer hoje em Portugal se os EUA tivessem saído das Lajes e sido substituídos pela China? E que informações nos daria a China sobre as operações que levaria a cabo “nas águas profundas e de alterações climáticas” aventadas por António Costa?
Vivemos num mundo americano — os Açores são a prova disso — em que a presença dos EUA foi afirmada perante a debilidade dos seus parceiros, com tudo o que isso implica. Veja-se como chegaram os militares americanos aos Açores e porque é que ficaram. Tudo começou há quase 110 anos, na madrugada de 4 de julho de 1917. Às 4h40, um forte estrondo acorda a cidade de Ponta Delgada. Caem projecteis em vários locais da ilha de São Miguel: Canada de Nossa Senhora do Pilar, Fajã de Baixo; Arribanas; Pau Amarelo; Santa Clara; Canada do Paim; São Gonçalo…
Parte da população acorda sobressaltada. Há quem saia de casa, tentando perceber o que está a acontecer. Há quem reze. Na Fajã de Cima, Tomásia Pacheco, uma jovem de 16 anos, busca abrigo numa casa próxima da sua. Bate à porta. Não chega a entrar porque após um novo estrondo cai desamparada e gravemente ferida. Tomásia fora atingida por uma granada ou mais provavelmente pelos estilhaços de uma granada.
A 4 de julho de 1917, a I Guerra Mundial, que de uma forma simplista dizemos que aconteceu na Flandres, mas que se fazia sentir noutros locais do mundo, chegara aos Açores e ferira com gravidade Tomásia Pacheco. Além dela mais quatro pessoas estão feridas mas sem correrem risco de vida.
Como é óbvio as trincheiras não se tinham movido da planície da Flandres para as acidentadas ilhas dos Açores. Nos Açores não há soldados a desembarcar. Não há botas no chão. Mas há o mar e submarinos nas águas que cercam as ilhas. Cada guerra tem as suas máquinas e os submarinos, qual versão mecânica dos mitológicos monstros marinhos das profundezas, vão ser marcantes na I Guerra. No Atlântico, os alemães usam-nos para acabar com o domínio naval dos britânicos e impedir a passagem aos americanos. E foi por causa dessa luta pelo controlo do Atlântico Norte, que os Açores passaram de ilhas perdidas a ponto estratégico e, não menos importante, de arquipélago à mercê de quem o quisesse atacar a uma espécie de porta-aviões, americano naturalmente.
Quando na madrugada de 4 de julho de 1917, o Deutschland U-155 disparou contra Ponta Delgada fê-lo à superfície, pois era evidente que a defesa do arquipélago estava desguarnecida. Afinal, por maior que fosse o empenho dos militares da bateria posicionada na Mãe de Deus, o seu esforço e coragem não eram capazes de aumentar a fraca capacidade de tiro da bateria. O reforço chegou de um cargueiro americano, o USS Orion, que estava em Ponta Delgada por causa de uma carga de carvão, e que vai responder com poder de fogo ao ataque do submarino alemão que acaba por submergir e afastar-se.
Nos dias seguintes, enquanto Tomásia é enterrada graças à caridade publica e os jornais dão conta do “Alarmante Amanhecer” (Diário dos Açores) e do ataque “Contra a terra portugueza” (Ilustração Portuguesa), uma alteração que o tempo mostraria ser de fundo estava a acontecer nos Açores: navios militares norte-americanos chegam a Ponta Delgada. Os tripulantes não vêm a terra mas era evidente que os EUA tinham percebido o papel geo-estratégico que os Açores tinham na sua defesa e que era do seu interesse manter ali uma presença militar. Ao lado português não passava incógnito o interesse dos americanos e o papel decisivo que estes tinham tido aquando do ataque alemão a Ponta Delgada mas também era evidente que os americanos não aceitariam um não por parte de Portugal perante a sua intenção de estabelecerem uma base em Ponta Delgada. Ainda antes do final desse ano de 1917, o acordo é formalizado e 150 fuzileiros americanos desembarcam em Ponta Delgada. A base das Lajes, na ilha Terceira, viria depois.
Em 1917, os EUA instalam-se nos Açores dada a manifesta falta de meios de Portugal para defender dos alemães as águas em torno das ilhas do arquipélago. Décadas depois, quando se pôs a hipótese dos americanos de saírem, o recurso (retórico, espera-se!) que nos sobrou foi ameaçar com a nova potência, no caso a China. Um século depois, é difícil descobrir as diferenças. Ainda e sempre a mesma fraqueza, ainda e sempre a mesma constatação, é claro que os americanos têm uma interpretação lata daquilo a que se comprometeram no acordo das Lajes mas é ainda mais claro que as Lajes sem os americanos podiam tornar-se num pesadelo.