Se nos dissessem há vinte anos que a internet, essa catedral de conhecimento, facilitaria o crescimento da convicção de que a terra é plana, duvidaríamos. Como é que um mundo mais informado não erradica o erro? O problema não é do mundo, é nosso: continuamos a esperar muito de quando a nossa cabeça se enche. Aguardamos que a inteligência funcione por acumulação quando é o contrário—a pessoa inteligente é provavelmente a que aprende a não acumular.
Nas hostes que acumulam informação, uma teoria da conspiração pode ser tão válida como uma tese científica. No fundo, e se avaliarmos a questão em termos de volume ocupado, uma pode estar para a outra. Logo, os conspiracionistas podem sentir-se em digníssima competição com os científicos, na medida em que ambos se munem de informação. Os resultados podem ser opostos mas os métodos talvez não sejam assim tão distintos.
Nem toda a informação é igual, dirão e concordarei. No meu caso, reconheço que o fraco que sinto por teorias da conspiração não deve ser tão diferente assim do afago que a ciência permite a outros: ambas explicam quase tudo. Sim, a conspiração é parecida com a ciência quando as duas não conseguem disfarçar que sossegam os outros com propostas aparentemente tão completas. Haverá buracos na tese científica como haverá na teoria da conspiração mas as duas sabem pavimentar um chão que torna os nossos passos seguros.
O que me leva a um segundo aspecto, completamente diferente do primeiro (estes três primeiros parágrafos só servem para aqui chegar). Se os terraplanistas são provavelmente a espécie que mais nos escandaliza facilitada pela internet, por que não nos chocam tanto os textoplanistas? Textoplanistas, quem são eles? Da mesma maneira que o terraplanista acredita que a terra é plana, o textoplanista acredita que o texto é plano. Vou tentar desenvolver.
A tese não é minha que ainda não tenho camioneta para tanta areia. Uma vez mais cito o teólogo Kevin Vanhoozer, que ando a ler ultimamente (no obrigatório “Mere Christian Hermeneutics”). Falando acerca da Bíblia, Vanhoozer detecta os textoplanistas naqueles que acham que ela só pode funcionar numa lógica de imanência: só aprendemos das Escrituras o mundo revelado por elas acerca de quem as escreveu. A Bíblia é aceitável para encontrarmos os crentes que a produziram, não o Deus em quem é crido. Mas as implicações do textoplanismo vão além da religião: o textoplanista considera o texto a superfície plana que serve de espelho reflector das suas condições originais.
O textoplanista acredita que o texto é mesmo plano. Quando a pessoa lê dá para encontrar uma intenção do autor? É complicado. Quando a pessoa lê dá para encontrar um sentido das palavras? É complicado. Quando a pessoa lê dá para encontrar algo ou alguém que não sejam as condições originais em que o texto foi escrito? É complicado. A imanência guia o textoplanista porque tudo o que lhe parecer transcendente é como um planeta redondo que os olhos nunca abarcaram de uma vez só. O que o textoplanista conhece é a horizontalidade e por isso o vertical parece-lhe um mito que precisa de ser desmentido.
No desejo de não encontrarem no texto nada que não possa ser verificado com os instrumentos supostamente científicos da imanência, nada mais o texto dirá além do uso do método na operação. Na pior das hipóteses, os textos tornam-se arqueologia. Ou pior ainda: autópsia. Mas há uma alternativa. “Não há razão para reduzir a dimensão da história a uma estrutura horizontal fechada de causa e efeito”, diz Vanhoozer. Se concebermos que o texto pode querer levantar-se da maca achatada onde foi posto, talvez ainda o vejamos a dar cambalhotas. A arredondar-se. A ressuscitar.