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Carneiro apresenta-se contra Governo "insensível". E com um aviso para socialistas que querem pôr "rurais contra urbanos"

É a 3.ª vez que se candidata à liderança do PS, a 2.ª para ficar no cargo. Carneiro apontou a "falhanços" de Montenegro e voltou a usar Passos para o atingir. E não esqueceu um recado para dentro.

Rita Tavares
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Oito meses depois da apresentação de candidatura única à liderança, José Luís Carneiro apareceu no mesmo local para nova volta, mas com menos figurões do partido e também com menos fantasmas sobre os seus ombros. No jardim da sede nacional do PS, em Lisboa, o líder recandidato surgiu menos tenso e livre de suspeitas de desafios internos — pelo menos a curto prazo — , mas ainda deixou uma tirada aos que, no partido, querem pôr “os rurais contra os urbanos, os urbanos contra os rurais”. Desta vez centrou-se mais na proposta de uma alternativa ao Governo “insensível” e “sempre táctico e partidário” de Luís Montenegro.

A tarde era de sol, como em junho, mas bem menos quente (no sentido meteorológico e político) e sem necessidade de distribuir bonés do partido para cortar o calor. Carneiro sentou-se na primeira fila, entre a sua família e o presidente do partido Carlos César — que, desta vez, esteve presente —, antes de subir ao palco para uma intervenção onde se queixou de um Governo que “ignora” as propostas do PS.

Quando falava concretamente na proposta que fez para o desenvolvimento de um complexo científico, industrial e militar, “capaz de mobilizar, para a próxima década, os setores da educação, da formação técnico-profissional, do ensino superior, da ciência, da inovação e do desenvolvimento”, atirou a um “Governo – sempre tático e partidário – insensível à iniciativa política do PS. Quedou-se pela lógica do passado de se limitar à elaboração de uma lista de compras de material militar mantendo o país na dependência tecnológica em setores vitais da vida nacional.” Disse mesmo acreditar que “se a proposta estrutural que o PS apresentou não for considerada pelo Governo, perderá o país e perderão as mais jovens e mais qualificadas gerações. Perderá também a coesão territorial.”

Na Saúde, disse que “os falhanços do Governo mostraram a necessidade de uma alternativa sólida e credível”. E nas leis laborais, matéria onde o Executivo está a tentar uma reforma alargada, Carneiro também deixou um aviso, o de que “o país contará com o PS para assegurar que as leis laborais protegem o emprego e a dignidade do trabalho perante o choque e os riscos da transição digital, ambiental e da inteligência artificial. O país não contará com o PS para fazer da dignidade laboral o único fator e moeda de troca de uma falsa competitividade.” E acrescentou mesmo que “somente a insensibilidade do Governo pode justificar o rumo em contramão com o interesse dos trabalhadores e das empresas mais dinâmicas da economia.”

Ainda tocou no nervo Pedro Passos Coelho — mais uma vez — quando traçou o seu diagnóstico da economia portuguesa. Começou por dizer que tem “graves problemas” nos principais motores: no “das exportações de bens e o do Investimento Direto Estrangeiro” e no “do investimento público e o do consumo interno”. “A diminuição do investimento público com o fim do PRR e a baixa execução em resultado da escassez de mão de obra. O do consumo interno que já não pode contar com os estímulos ao rendimento, porque o Governo em pouco tempo desbaratou a folga orçamental superior a 3 mil milhões deixada pelos governos do PS.” Vê uma economia apoiada apenas no turismo e no imobiliário, “ambos sujeitos ao perigo da imprevisibilidade e volatilidade dos mercados”. E isto tudo para, no fim, acrescentar que compreende “as palavras de quem já teve responsabilidades no país, ao dizer que o Governo não reforma e apenas gere o dia a dia” — foi o antigo primeiro-ministro Passos Coelho na última semana. Do seu lado defende a “aposta na economia industrial, e da aposta na inovação, tecnologia e conhecimento”.

https://observador.pt/especiais/passos-poe-relogio-de-montenegro-a-contar-as-pessoas-estao-exaustas-dos-politicos-que-nao-querem-fazer-nada/

E quanto às área sociais ( segurança social), também disse que o PS “nunca embarcará no ‘canto da sereia’ cuja música está na tentativa de mobilizar partes dos rendimentos dos trabalhadores para os fundos privados de pensões”. “O mercado europeu de capitais pode e deve ser fomentado por receitas e mobilização de recursos que não ameacem a segurança e a estabilidade do fundo de pensões”, declarou.

Mas já apareceu alinhado com Montenegro — com quem tem concertado as questões de política externa — na posição minimalista sobre a posição nacional face aos conflitos militares atuais. No dia em que os EUA e Israel lançaram uma ofensiva sobre o Irão, Carneiro não se comprometeu além da máxima “as intervenções militares não podem ocorrer à margem do direito internacional.” À esquerda do PS, o Livre anunciou que vai questionar o Governo sobre a utilização da Base das Lajes, nos Açores, pelos Estados Unidos, e o PCP exigiu a “condenação clara” do Governo aos ataques no Irão.

Também se mostrou disponível para “um amplo consenso em torno da reforma da Justiça” e  quer “construir a geração da autonomia”, ou seja, “criar as condições para que cada pessoa seja dona da própria vida”. Esta é, diz, “a grande causa da próxima década” e “dever ser o novo pilar do contrato social português”. Carneiro coloca como objetivo “garantir que até 2035 todas as famílias devem viver numa habitação condigna, mobilizando todos os recursos públicos, cooperativos, sociais e provados”. Neste capítulo lamenta que “a AD tenha ignorado as propostas fiscais, de ordenamento do território e as medidas para a emergência habitacional” do PS, e concluiu que a política de habitação do Governo é “um falhanço”.

Menos avisos internos, mas ainda um para quem quer pôr “rurais contra urbanos e urbanos contra rurais”

Sobre o partido, desta vez foi menos de avisos. Deixou apenas uma tirada a servir a alguns dos seus críticos ao considerar “inaceitáveis as posições que, por vezes, até vindas de alguns de nós, nos querem colocar uns contra os outros. Os novos contra os velhos, os velhos contra os novos. Os do interior contra os do litoral, do litoral contra o interior. Os rurais contra os urbanos, os urbanos contra os rurais. O povo contra as elites, as elites contra o povo” — uma linha especialmente significativa quando Carneiro sabe que a sua oposição no partido se concentra sobretudo em Lisboa, onde o partido que pretende representar diz que está demasiado concentrado o poder.

Para Carneiro, estas são abordagens inaceitáveis em sociedades democráticas e pluralistas. Aliás, a nossa maior riqueza e potencial nacional, reside precisamente na nossa diversidade territorial económica e social, e na pluralidade das representações simbólicas e culturais. É essa a razão porque somos a grande casa comum da democracia portuguesa. Essa é a grande força do PS”, afirmou perante uma plateia com poucas figuras de topo do partido.

Nas primeiras filas estavam Maria de Belém, André Moz Caldas, Inês de Medeiros ou Arons de Carvalho. E mais atrás também estavam Marcos Perestrello, João Torres, Ana Mendes Godinho e Alexandra Leitão. Desta vez o líder não contou com Manuel Alegre e também não esteve uma das presenças-surpresa da anterior recandidatura, em junho passado, a mulher de António Costa, Fernanda Tadeu. Também não estavam nomes como Ana Catarina Mendes, Pedro Silva Pereira, Capoulas Santos, Sérgio Sousa Pinto ou António Mendonça Mendes, que em junho marcaram presença.

Numa altura em que volta a ser candidato único — com as possíveis alternativas à sua liderança a preferirem ficar numa posição mais recuada no partido, por agora —, Carneiro garante ter conseguido cumprir o seu “dever”: “Uni o partido. E além da confiança dos militantes e dos simpatizantes, sinto que contribuí para recuperarmos a confiança de amplos setores da sociedade portuguesa.”

Ainda aproveitou os resultados autárquicos e presidenciais para consolidar a sua posição na liderança, ao dizer que o resultado das últimas autárquicas mostra que “declínio eleitoral não era irreversível” e a gabar-se por o PS ter conseguido “apoiar um único candidato” que venceu as presidenciais na segunda volta, António José Seguro. Um elemento com que Carneiro já mostrou que conta para tentar pressionar Luís Montenegro a dialogar com o partido que quer continuar a liderar.