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"Não sei que pecado cometemos para nascer no Irão". Os relatos dos residentes em Teerão

A maioria dos residentes na capital do Irão sente-se preocupada com a escalada do conflito. Alguns sentem-se abandonados pelo Governo. Existe ainda quem celebre os ataques dos EUA e de Israel ao país.

Margarida Vieira dos Santos
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João Porfírio
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Depois de terem sido ouvidas as primeiras explosões causadas pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão na manhã desta sábado, as ruas da capital do país mergulharam numa onda de caos e incerteza, de acordo com relatos de residentes ao Observador e a vários órgãos da imprensa internacional.

Os ataques ocorreram precisamente num dos dia mais movimentados da semana: para os iranianos, a semana de trabalho começa ao sábado e os fins de semana ocupam quinta e sexta-feira. De acordo com alguns testemunhos ao The New York Times, os ataques levaram os habitantes de Teerão ao pânico. Em vez de ficarem em casa, foram muitos os residentes que saíram das suas casas para ir buscar os filhos às escolas, que tinham aberto as portas duas horas antes.

“Não sei que pecado cometemos para nascer no Irão”

Um jornalista iraniano de uma agência de notícias internacional a viver em Teerão conta ao Observador que viveu momentos de horror logo às primeiras horas deste sábado, 28 de fevereiro, quando ouviu as primeiras explosões na capital iraniana.

“Esta manhã acordei com o som de três explosões perto do complexo do Líder e da Presidência, que fica perto da minha casa”, conta o jornalista ao Observador através de uma aplicação de troca de mensagens que dificilmente é encriptada — por esse motivo pede que seja mantido o anonimato neste testemunho.

Conta, alternando entre ficheiros de áudio e mensagens escritas, que de sua casa se viam as pessoas “a correr em pânico pelas ruas da cidade” e que horas mais tarde teve relatos de terem sido atingidas outras zonas da capital. Enquanto enviava mensagens ao Observador, o jornalista dizia: “Consigo ver neste momento mísseis a seguir em direção a Israel”.

Sendo jornalista, denuncia aquilo que já se sabe que se passa no Irão há já vários anos: “Não me permitem fotografar, nem a partir da janela de minha casa, muito menos na rua”. “A vida aqui tornou-se realmente difícil e insuportável”, desabafa.

O jornalista, há mais de 20 anos no Irão, conta ao Observador que já passaram algumas horas “desde a última vez que ouvi explosões” e, claro, “infelizmente, não é claro onde os mísseis irão cair”.

Minutos depois de ter conseguido ligação à internet — apenas através do Wi-Fi da redação onde trabalha, porque a internet está cortada em todo o país — o jornalista teve luz verde para sair à rua para fazer reportagem mas apenas sobre uma manifestação de apoiantes do Governo.

“Não sei que pecado cometemos para nascer no Irão”, despede-se o jornalista.

“As pessoas estão em cima do telhado, a olhar para o céu. Ouvem-se mulheres a gritar”

“Corri para ir buscar a minha filha à escola primária. As raparigas estavam escondidas debaixo das escadas, a chorar”, disse Ali Zeinalipoor, uma mulher com quem um repórter do jornal norte-americano entrou em contacto através de uma aplicação de redes sociais. Ali admitiu que o diretor da escola ainda não sabia o que tinha acontecido e que “estavam todos muito assustados”. A agência de notícias EFE relata que muitos pais se reuniram na zona das escolas, conseguindo mesmo bloquear uma rua. A maioria mostrava sinais visíveis de preocupação.

A mesma agência diz que a inquietação era também evidente nas pessoas que formavam filas em vários multibancos ao longo da Jordan Avenue, uma das ruas mais conhecidas e movimentadas de Teerão. Por toda a capital, formaram-se também filas de trânsito que bloquearam as princípais vias, com vários condutores a saírem dos carros, na tentativa de aliviar o congestionamento.

“As pessoas estão em cima do telhado, a olhar para o céu, a apontar para baixo. Ouvem-se mulheres a gritar. Alguns dos meus vizinhos estão a correr para os seus carros”, relata uma residente de um distrito no norte de Teerão.“Parece que estamos num filme”. Embora as primeiras explosões tenham ocorrido no sul da cidade, que ao todo tem cerca de 12 milhões de habitantes, o cheiro a queimado e a químicos proveniente do impacto dos ataques chegou rapidamente aos bairros do norte, avança a agência EFE.

São muitos os relatos de pessoas que ouviram várias explosões que fizeram tremer janelas das suas casas. “Os meus filhos estão a chorar e assustados, estamos escondidos na casa de banho, não sabemos o que fazer. Isto é aterrorizante”, escreveu ao New York Times um homem que reside numa zona da cidade onde se encontra um complexo da Guarda Revolucionária do Irão. Alguns deixam testemunhos onde se queixam de não conseguirem contactar os seus familiares ou amigos, visto que as telecomunicações começaram a falhar à medida que outras explosões no país iam sendo relatadas pelos meios de comunicação locais.

Ao jornal nova-iorquino chegaram testemunhos de que nem todos os iranianos estavam zangados enquanto observavam as colunas de fumo derivadas das explosões: alguns, pelo contrário, celebravam os ataques. É o caso da família de Arian, um residente num distrito a oeste da capital, que conta que ouviu vozes a gritar “Viva o Xá”, o monarca iraniano deposto na revolução de 1979 que levou a República Islâmica ao poder.

Depois de Donald Trump ter incitado a que iranianos tomem o controlo do Governo, vários habitantes ridicularizaram o apelo.  “A única coisa em que pensamos agora é em chegar em segurança”, disse uma advogada e mãe de dois filhos numa entrevista por telefone ao jornal norte-americano. “Ninguém está a pensar em protestar agora.” O maior receio da maior parte das pessoas é uma escalada do conflito, relata um repórter da Al Jazeera que caminhava pelas ruas de Teerão na manhã deste sábado.

Alguns iranianos sentem-se abandonados pelo Governo

Horas depois dos primeiros ataques dos Estados Unidos e de Israel ao país, o Governo iraniano ainda não tinha divulgado um comunicado oficial sobre aquilo que tinha acontecido. De acordo com algumas entrevistas telefónicas e por mensagem ao The New York Times, há quem sinta que o regime os deixou à mercê da própria sorte.

Mais de meia dúzia de habitantes da capital admitiram que o Governo ofereceu pouca orientação aos cidadãos sobre o que fazer e para onde se podiam deslocar para estarem seguros. Dizem mesmo que o documento oficial que o Irão divulgou em sequência dos ataques estava repleto de insultos contra os “inimigos” e carente de conselhos para a população. Os testemunhos queixam-se principalmente da falta de abrigo e de instruções de emergência. Os iranianos contaram ao jornal norte-americano que a televisão estatal pouco falou sobre isso. Ao invés, transmitiu canções revolucionárias de guerra, assim como mensagens de denúncia contra os EUA e Israel.

Os ataques ocorreram num momento frágil para o Irão, cujo regime lançou uma campanha de repressão no mês passado depois de terem surgido focos de protesto por todo o país. Os manifestantes, que exigiam o fim do regime islâmico, passaram a ser tratados como terroristas associados aos Estados Unidos e Israel.  As autoridades iranianas reconheceram 3.117 mortos, na maioria manifestantes, número porém contestado por várias organizações de defesa dos direitos humanos, que alegam estar em posse de dados que confirmam uma dimensão muito superior, a que somam dezenas de milhares de detidos.

O Irão diz que as escolas e universidades vão permanecer encerradas, os bancos vão continuar abertos e os organismos governamentais funcionarão a 50% da sua capacidade até ordem contrária. O Governo pede ainda aos residentes de Teerão para saíram da cidade, se possível.