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Com eleições à porta e sem apoio interno: 23 anos depois, Estados Unidos arriscam nova guerra aberta no Médio Oriente

Pela primeira vez, Trump admite que conflito com o Irão pode ter baixas norte-americanas. A isso somam-se riscos económicos e políticos. Mas Trump está disposto a "apostar" para consolidar um legado.

Madalena Moreira
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“De forma a ser eleito, Barack Obama vai começar uma guerra no Irão”. A frase é de Donald Trump em novembro de 2011, um ano antes de o Presidente democrata ter sido reeleito para um segundo mandato presidencial. A curta publicação no então Twitter deixa claro como o Irão tem sido um tema presente na política externa norte-americana. Porém, quase 15 anos depois, estas poucas palavras revestem-se agora de um novo significado (e uma dose de ironia). Afinal, foi o Presidente Trump que, este sábado de manhã, começou uma guerra com o Irão, a cerca de oito meses de enfrentar as urnas nas eleições intercalares norte-americanas.

Ainda que o nome de Trump não vá estar no boletim, as eleições intercalares, historicamente, acabam por castigar o partido do Presidente em funções. E, ao contrário da ligação feita por Trump em 2011, uma guerra em 2026 não ajuda a ganhar eleições — muito menos quando o Presidente foi reeleito com uma promessa eleitoral de envolver o país em conflitos no estrangeiro. Os estudos de opinião mostram que menos um terço dos eleitores norte-americanos apoiam uma ação militar no Irão. Portanto, na sua luta pela “proteção” do povo americano e a “liberdade” do povo iraniano, o chefe de Estado pode estar a pôr em risco a sua liderança política.

Contudo, o conflito que deflagrou este sábado pode ter consequências muito mais devastadoras para os Estados Unidos do que uma mera derrota eleitoral do seu Presidente. Esta não é a primeira vez que Donald Trump ataca alvos estrangeiros no seu segundo mandato. Mas é a primeira vez que o Presidente admite ir além de um ataque cirúrgico e envolver o país numa guerra prolongada que “pode ter baixas”. “As vidas de heróis norte-americanos corajosos podem-se perder (…) Isso costuma acontecer na guerra”, declarou na madrugada de sábado (manhã em Lisboa).

Esta possibilidade, de os Estados Unidos se envolverem numa guerra prolongada no Médio Oriente, agita memórias mais antigas que um tweet crítico de um então magnata do imobiliário em 2011. Entre as justificações, os objetivos e os planos traçados, os analistas são rápidos a traçar as semelhanças com a invasão do Iraque em 2003, ordenada por George W. Bush. E a criticá-las: “Em 2003, o caminho para a guerra no Iraque foi feito com mentiras sobre armas de destruição em massa que não existiam. O caminho para um novo conflito com o Irão, 23 anos depois, foi feito com incoerência e silêncio”, acusa o correspondente e analista de política externa do The Guardian, Julian Borger.

A falta de “objetivos claros” e de um “plano concretizável” que põe em risco vidas americanas

No dia 19 de junho de 2025, uma semana depois de Israel ter atacado o Irão, Washington ponderava juntar-se à ofensiva. Nesse dia, a Casa Branca disse que Donald Trump iria “tomar uma decisão nas próximas duas semanas”. Os Estados Unidos atacaram três centrais nucleares no Irão dois dias depois. Agora, a narrativa da presidência foi muito semelhante. Depois de pressão militar prolongada, Trump afirmou na sexta-feira à tarde “ainda não ter tomado uma decisão” sobre um ataque ao Irão. Passadas 12 horas, soavam as primeiras explosões em Teerão.

A comparação entre as duas narrativas permite traçar um modus operandi do Presidente norte-americano. Mas as semelhanças ficam por aí. Em primeiro lugar, o ataque deste sábado aconteceu durante a manhã no Irão e não durante a noite ou madrugada como todos os outros ataques lançados pelos Estados Unidos de Trump (contra vários alvos) ou por Israel contra o Irão. Por outro lado, o foco dos ataques foram alvos militares, como locais de lançamento de mísseis, e não as instalações nucleares, como aconteceu em junho do ano passado.

Esta diferença motiva uma das principais críticas deixadas a Trump por vários analistas ao longo deste sábado: a falta de um plano concreto. No ano passado, os ataques ao Irão eram justificados com a necessidade de acabar com o seu programa nuclear. No início deste ano, com a vontade de apoiar os milhões de iranianos que saíram à rua em protestos contra o regime dos ayatollahs. Agora, os Estados Unidos deixam claro que o objetivo é “o povo iraniano tomar o Governo”.

"O Presidente Trump nunca articulou objetivos claros para atacar o Irão muito menos um plano militar concretizável para alcançar os objetivos dos EUA, sejam eles quais forem, com um custo e risco aceitável. Ao atacar o Irão, o Presidente Trump está a arriscar as vidas de militares dos EUA para uma guerra desnecessária sob a noção falsa que o país fraco e remoto como o Irão representa um perigo iminente para os Estados Unidos."
Rosemary Kelanic, professora de ciência política na Universidade de Notre Dame

A “incoerência” na definição dos objetivos é particularmente notável quando se considera que Trump colocou em cima da mesa, pela primeira vez, a possibilidade de os ataques evoluírem para um conflito mais alargado e de esta não ser uma operação cirúrgica — a intensa resposta do Irão, que visou Israel e sete países do Golfo com bases norte-americanas, já deixou antever este cenário. Neste contexto, e como Trump avisou, a possibilidade de baixas norte-americanas é mais elevada.

“O Presidente Trump nunca articulou objetivos claros para atacar o Irão, muito menos um plano militar concretizável para alcançar os objetivos dos EUA, sejam eles quais forem, com um custo e risco aceitável”, pondera Rosemary Kelanic, professora de ciência política na Universidade de Notre Dame, num comunicado do think tank Defense Priorities. “Ao atacar o Irão, o Presidente Trump está a arriscar as vidas de militares dos EUA para uma guerra desnecessária sob a noção falsa que o país fraco e remoto como o Irão representa um perigo iminente para os Estados Unidos”, continua a professora.

Esse mesmo aviso foi feito pelo Presidente durante o seu discurso do Estado da União, quando declarou que o regime iraniano está “a trabalhar em mísseis que, em breve, vão alcançar os Estados Unidos da América”. Além disso, ao contrário do que tinha sido sugerido por aliados políticos, Trump não utilizou o seu discurso no Congresso para clarificar o plano de um ataque — que chegou apenas dias depois. E isso só exaltou os seus críticos.

23 anos depois do Iraque: as memórias e as “lições” de uma guerra no Médio Oriente

Tinha passado apenas um ano e um mês dos ataques terroristas do 11 de Setembro, quando George W. Bush assinou a resolução que permitiu que, no início de 2003, os Estados Unidos invadissem o Iraque. Uma das principais justificações para a ofensiva foi a acusação de que o regime de Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça que representavam um risco para a segurança nacional e internacional — mas, como foi posteriormente confirmado, estas armas não existiam.  A justificação agora utilizada por Trump — de que os mísseis iranianos podem ameaçar os Estados Unidos — “é uma justificação ainda mais frouxa para uma guerra preventiva do que foi a invasão de Bush”, critica Michael Hirsh, colunista da revista Foreign Policy.

A guerra do Iraque, que matou mais de meio milhão de pessoas, acabou por se tornar um marco dos riscos de uma interferência externa no Médio Oriente e uma bússola para a política externa norte-americana. Entre os críticos da invasão contam-se o atual Presidente e vice-Presidente dos EUA, Trump e JD Vance — este, em 2023, relembrou a sua história como veterano do Iraque tornado crítico. “Foi um desastre não forçado e rezo para que tenhamos aprendido as lições”, escreveu na redes sociais.

https://twitter.com/JDVance/status/1637602424377552899

Apesar das críticas, à data, a decisão republicana reuniu um apoio considerável no país, com vários democratas a terem votado a favor da resolução de 2002 (incluindo o então senador Joe Biden). Hirsh destaca que “o patriotismo acentuado depois de 11 de Setembro” ajuda a compreender esta direção de voto. Mesmo no estrangeiro, apesar de uma oposição mais generalizada, Bush encontrou apoio europeu na Coligação das Vontades, liderada pelo britânico Tony Blair.

Passadas duas décadas, a oposição democrata e os aliados europeus estão ainda menos entusiasmados com a possibilidade de Trump começar uma guerra com o Irão do que estavam com a guerra do Iraque começada por Bush. Apesar das condenações insistentes do regime iraniano, ao longo deste sábado fez-se ouvir um apelo internacional e nacional generalizado a uma desescalada nas tensões.

Neste sentido, alguns especialistas apontam ainda que a guerra no Irão também pode deteriorar a posição e legitimidade internacional dos Estados Unidos. Isto porque o ataque norte-americano aconteceu em plenas negociações de um acordo nuclear com Teerão — representantes dos dois lados reuniram-se na semana passada em Genebra e tinham agendado um novo encontro para a próxima semana em Viena —, o que pode desencorajar outros países de encetar negociações com Washington.

Vitória eleitoral nas intercalares ou um lugar na História? As motivações internas de Trump

Na véspera das eleições presidenciais de 2024, o Partido Republicano publicou nas suas redes sociais uma fotografia do par candidato à presidência e vice-presidência. Por cima dos rostos de JD Vance e Donald Trump, lê-se: “A candidatura pró-paz“. A publicação vai ao encontro de uma das principais promessas eleitorais de Trump: a de não se envolver em conflitos externos, tal como defendeu em 2003 sobre o Iraque.

https://twitter.com/GOP/status/1853537733479686309

Agora, Trump ameaça começar uma guerra generalizada — e no Médio Oriente — e defende que é uma ação necessária para acabar com “uma ditadura muito cruel e radical”. Já JD Vance, na véspera do ataque, reforçava a sua posição como “um cético de intervenções estrangeiras” e definia a necessidade de um ataque apenas para “garantir que o Irão não consegue uma arma nuclear”. “Não há hipótese” de os Estados Unidos se verem envolvidos numa guerra aberta, declarou ao Washington Post numa entrevista publicada na sexta-feira.

"O povo americano, por uma grande maioria, queria que Trump se focasse no seu segundo mandato na economia acima de tudo. Como ele não procurou o apoio do Congresso e do povo americano antecipadamente, ele vai ser responsável pelo resultado. Se ele for bem-sucedido, ele pode conseguir um crescimento doméstico, mas ele arrisca um atraso significativo na sua agenda doméstica se falhar."
Thomas Warrick, analista da iniciativa de segurança do Médio Oriente do think tank Atlantic Council

O perigo eleitoral de começar uma guerra, imprevisível e com custos económicos e humanos, é grande para qualquer Presidente. Contudo, neste caso, esse perigo é reforçado com dois riscos adicionais. Por um lado, o facto de Trump estar a quebrar a sua promessa de campanha a uma base eleitoral que apreciou a sua mensagem nacionalista e que define como maior preocupação o estado atual da economia norte-americana. Por outro, o facto de as intercalares se estarem a aproximar a passos largos.

Desde o início do ano, membros do Partido Republicano e dentro da sua administração — onde a pessoa mais vocal é mesmo o seu vice-presidente — têm apelado ao Presidente que recentre a sua mensagem nos problemas económicos, de forma a minimizar as perdas numas eleições que, segundo as tendências, costumam ser particularmente pesadas. Quando Trump pareceu decidir que um ataque contra o Irão não era uma questão de “se”, mas “quando”, instaram então o Presidente a apresentar um plano concreto, a justificar claramente a necessidade de um ataque, o que não se cumpriu.

“O povo americano, por uma grande maioria, queria que Trump se focasse no seu segundo mandato na economia acima de tudo. Como ele não procurou o apoio do Congresso e do povo americano antecipadamente, ele vai ser responsável pelo resultado“, argumenta Thomas Warrick, analista da iniciativa de segurança do Médio Oriente do think tank Atlantic Council, numa análise publicada este sábado.

“Se ele for bem-sucedido, pode conseguir um crescimento doméstico, mas arrisca um atraso significativo na sua agenda doméstica se falhar”, continua o especialista, que, por esse motivo, define o ataque como “uma aposta nos céus e ruas do Irão, mas também em casa”. Nate Swanson, do mesmo programa, nota dois impactos diretos que a guerra pode ter e que impediriam Trump de ser “bem-sucedido”: a perda de vidas norte-americanas e o aumento dos preços de energia.

Apesar de todos os riscos — políticos, económicos e humanos para o povo norte-americano e iraniano e eleitorais para Donald Trump — os analistas não hesitam em apresentar uma justificação para o facto de o Presidente ter escolhido avançar com um ataque nestes termos. “Trump parece querer redefinir os termos de um conflito com 47 anos e assegurar o seu lugar na História resolvendo-o de forma definitiva”, resume Sanam Vakil, diretora do programa do Médio Oriente e Norte de África do think thank Chatham House.

As palavras de Trump na madrugada de sábado quando se dirigiu ao povo iraniano parecem confirmar esta análise. “Durante muitos anos, vocês pediram a ajuda norte-americano, mas nunca a tiveram. Nenhum Presidente estava disposto a fazer o que eu estou disposto a fazer. Agora, têm um Presidente que vos está a dar o que querem”, declarou.

Passados 15 anos, Trump parece estar a perseguir aquilo que acusou Obama de querer fazer — e não apenas para ganhar uma eleição, mas um lugar na História. Porém, os especialistas que analisam a ação de Trump contra o Irão fazem questão de recordar uma frase que se tornou uma máxima nas últimas duas décadas, marcadas pelas memórias da “guerra contra o terror”: “É mais fácil começar uma guerra no Médio Oriente do que terminar uma”.