O congresso do PS vai trazer a José Luís Carneiro a oportunidade de organizar a casa à sua medida. Desde que foi eleito, sucedendo a Pedro Nuno Santos, herdou os órgãos deliberativos (Comissão Nacional e a Comissão Política) do ex-líder, mas agora fará as suas próprias escolhas e uma das iniciativas que já tomou foi contactar alguns dos socialistas que chegaram a ponderar ser alternativa à sua candidatura, no ano passado, para os integrar nestes órgãos.
Foi o que aconteceu com Duarte Cordeiro e Fernando Medina, com quem Carneiro conta para a próxima Comissão Política Nacional do PS, o órgão de discussão e decisão política mais regular, segundo apurou o Observador. A lista será apresentada pelo líder para ir a votos na primeira reunião da Comissão Nacional do partido que, por sua vez, é já vai eleita no Congresso de 27, 28 e 29 de março, em Viseu. Medina vai estar no Congresso, Cordeiro vai faltar por estar ausente do país nessa altura.
Os dois socialistas chegaram a ponderar uma alternativa à candidatura de José Luís Carneiro em maio passado, quando Pedro Nuno Santos se demitiu da liderança, depois de uma derrota expressiva nas legislativas. Na altura, criticavam a pressa de Carneiro em avançar com uma candidatura à liderança sem que houvesse uma reflexão aprofundada sobre o reposicionamento do partido, após um desaire eleitoral tão pesado. Na altura, Medina lamentou mesmo esse avanço apressado, por ter iniciado logo “um processo interno, de contagem de espingardas, que inviabiliza que o debate profundo se faça antes de uma eleição direta”. Também disse que, “face à dimensão da derrota era preciso um debate despessoalizado das candidaturas” e que só depois faria sentido aferir “uma solução que permitisse uma melhor resposta”. Também Duarte Cordeiro disse, nessa mesma altura, que o que teria sido preferível era “escolher entre os melhores e não eleger os mais rápidos“.
Mas acabou por ser mesmo o mais rápido o único a concorrer dessa vez. José Luís Carneiro tem tentado, desde então, manter dentro as vozes críticas, mas a tentativa de manter todos no secretariado, o órgão de direção, saiu furada. Medina e Cordeiro preferiram manter a distância, evocando necessidade de se afastarem da primeira linha política nesta altura. Ambos são comentadores num canal televisivo, o Now, bem como Mariana Vieira da Silva, que é o outro elemento deste grupo que, na frente carneirista, chegou a ser designado com acidez pelo “núcleo de Lisboa”.
Os dois ex-ministros aceitaram, no entanto, integrar a lista para a Comissão Política Nacional que Carneiro está a organizar. Logo em junho, quando disse que ia sair da direção do PS, Duarte Cordeiro já tinha feito saber que no futuro preferia “participar noutro tipo de órgão nacional” e que ia aguardar pelo congresso para saber como podia “participar na vida do partido sem ser na direção”. O mesmo acabou por acontecer com Medina que fica, assim, no único órgão em que ainda estava no PS. No caso de Mariana Vieira da Silva, que também não quis integrar a direção de Carneiro, é atualmente uma das vice-presidentes da bancada parlamentar do partido e assim deverá continuar.
https://observador.pt/especiais/carneiro-faz-tudo-para-ser-unico-no-ps-mas-ha-socialistas-a-correr-atras-de-uma-alternativa/
São três nomes vistos no partido como sombras de Carneiro, mas têm mantido alguma reserva, até aqui, nas críticas públicas ao líder. A mais significativa veio de Duarte Cordeiro, no pós-autárquicas, para desalinhar por completo da leitura que o líder do partido tinha feito do resultado das eleições. Quando Carneiro tentava galvanizar as tropas com o resultado autárquico, garantindo que “o PS voltou”, Cordeiro punha água na fervura e declarava que “o PS não teve um bom resultado” e que “o resultado final é um poder muito significativo do PSD e isso não pode significar em circunstância alguma um cenário em que o PS diga que tem um bom resultado porque não tem”. Mas o desalinho público ficou por ali.
A verdade é que a crítica ia direta para Carneiro, mas também acabava por atingir a direção anterior com críticas a algumas escolhas que foram feitas, afinal tinha sido Pedro Nuno Santos a gerir o dossiê autárquico desde o inicio, tendo ficado apenas de fora da recta final dessa campanha (saiu em junho). Tanto que a leitura do resultado pelo ex-líder se cingiu ao Chega, para dizer que “pode acalmar o espírito acreditar que o Chega teve um revés eleitoral e que foi o grande derrotado da noite, mas não é verdade.”
Ex-líderes convidados e César estará para ficar
Esse será um capítulo que também será analisado no congresso de Viseu, para o qual o líder Carneiro pretende convidar Pedro Nuno Santos, bem como os antigos líderes do PS (que ainda são militantes — aquela solução que os socialistas encontraram para que convites do género não tenham de se estender ao desconfortável ex-líder José Sócrates). Entre esse grupo haverá apenas dois disponíveis para marcarem presença, caso de Pedro Nuno e de Eduardo Ferro Rodrigues, já que António José Seguro nessa altura já será Presidente da República e António Costa é presidente do Conselho Europeu, estando afastado da política partidária nacional.
Entre as várias decisões que Carneiro tem de fazer por estes dias em que vai arrumar o partido à sua medida, estão também os nomes que quererá para presidente do partido e também o que vai escolher para encabeçar a lista da Comissão Nacional. No caso do presidente, a preferência de Carneiro passará por manter Carlos César num cargo que, com o PS na oposição e o secretário-geral mais disponível para a condução dos trabalhos partidários, terá naturalmente menos relevo do que nos últimos anos — nomeadamente na representação do partido em reuniões como as que ocorrem frequentemente com o Presidente da República. César está no cargo desde 2014, tendo sido uma escolha do então líder António Costa, e dependerá dele se quer ficar.
César manteve-se com Pedro Nuno Santos, de quem era conselheiro muito próximo, e também agora com José Luís Carneiro a quem, ainda esta semana, deixou rasgados elogios por se ter tornado, nos oito meses de liderança do partido, numa “personalidade referencial, um motivo de segurança do PS e de confiança no futuro”. No dia em que recebeu oficialmente a moção da recandidatura de Carneiro à liderança, o presidente do PS falou na “coragem desde início” de Carneiro, quando iniciou o mandato com o PS “em circunstâncias de fragilidade”, depois da demissão de Pedro Nuno Santos e numa altura em que o PS passou para terceira força política na Assembleia da República. E disse também que, neste período de tempo, o líder recandidato “demonstrou não só sensatez, como competência, capacidade agregadora e esperança para um futuro mais interventivo do PS na sociedade portuguesa”.
Já quanto à Comissão Nacional, ainda nada se sabe. O atual órgão deliberativo máximo do PS entre congressos é o que foi eleito no primeiro congresso de Pedro Nuno Santos, que se realizou em Lisboa em dezembro de 2023, e que tinha Francisco Assis, um dos principais apoiantes à sua candidatura nessa altura, como número um da lista. Também a composição da futura direção de Carneiro, que será, mais tarde, proposta pelo líder à Comissão Política, ainda está na cabeça do líder recandidato ao cargo.