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(A) :: Há quase 1.400 pessoas a aguardar cirurgia cardíaca para lá do tempo máximo. Diretores de Cardiologia pedem reforço dos centros existentes

Há quase 1.400 pessoas a aguardar cirurgia cardíaca para lá do tempo máximo. Diretores de Cardiologia pedem reforço dos centros existentes

Mais de metade dos doentes aguardava, em 2025, cirurgia cardíaca fora do tempo recomendado. Responsáveis de Santa Maria, Coimbra e Gaia rejeitam, em carta aberta, abertura de novos centros.

Tiago Caeiro
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No ano passado, quase 1.400 utentes aguardavam por uma cirurgia cardíaca para lá dos Tempos Máximos de Resposta Garantido (TMRG), mostram os últimos dados da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), consultados pelo Observador. Os atrasos nas cirurgias cardíacas — que levaram vários hospitais da zona Norte a escreverem uma carta à ministra da Saúde em que denunciam consequências graves para os utentes — têm provocado várias reações, nomeadamente entre os próprios médicos. Esta semana, os diretores de Cardiologia de três dos principais centros de referência nesta área (Santa Maria, Coimbra e Gaia) escreveram uma carta aberta na qual rejeitam a abertura de novos centros a nível nacional e pedem o reforço de financiamento e de profissionais para os centros já existentes.

Segundo os últimos dados disponíveis, referentes a 30 de junho de 2025, 2.437 doentes estavam à espera de cirurgia cardíaca, sendo que, destes, 56,9% esperavam para lá dos TMRG. Ou seja, 1.387 pessoas aguardavam cirurgia fora do tempo clinicamente recomendado. O número total de utentes a aguardar cirurgia cardíaca aumentou em relação ao final de 2024, quando 1.938 doentes esperavam por uma cirurgia (sendo que 59% aguardavam fora dos TMRG).

Os números disponibilizados pela ERS no último relatório sobre a monitorização dos tempos de espera no SNS (um documento que é publicado a cada seis meses) são diferentes dos avançados pela ministra da Saúde na última terça-feira. Questionada na Assembleia da República sobre o tema, Ana Paula Martins disse que 36% dos utentes são operados fora do tempo. No entanto, os dados oficiais, da ERS, apontam para valores muito maiores (sempre superiores a 55% do total de doentes desde 2023).

Os atrasos na realização de cirurgias cardíacas, o avolumar das listas de espera e as consequências para os doentes levaram os diretores dos serviços de cardiologia de quatro hospitais (Santo António, no Porto, bem como Vila Real, Tâmega e Sousa e Matosinhos) a enviarem, na semana passada, uma carta à ministra da Saúde sobre o panorama na cirurgia cardíaca na região. De seguida, em declarações à RTP, o diretor de serviço de Cardiologia da ULS Santo António, André Luz, alertou que dez doentes morreram nos últimos três anos devido a uma “lista de espera demasiado elevada” só no hospital de Santo António, defendendo que aquele hospital deveria também ser integrado na rede de referenciação, por ter capacidade para realizar cirurgias cardíacas.

Portugal tem oito centros de referência. Vários hospitais da zona norte querem juntar-se à rede

Na carta, os responsáveis por aqueles hospitais alertaram Ana Paula Martins para a deterioração do acesso em cirurgia cardíaca na zona Norte, devido à falta de resposta atempada dos dois maiores centros de referência na região — que funcionam nos hospitais de São João e de Gaia, e que não estarão a dar uma resposta em tempo útil aos doentes encaminhados dos restantes hospitais da região Norte.

Neste momento, a Rede de Referenciação Hospitalar em Cardiologia conta com oito centros de referência na área cirúrgica: nos hospitais de Santa Maria, Santa Marta e Santa Cruz (em Lisboa), na ULS de Coimbra, nos hospitais de São João, Gaia e Braga (a norte) e no hospital de Faro, embora esta última unidade hospitalar ainda não tenha iniciado a realização de cirurgias cardíacas. A última revisão da rede de referenciação ocorreu em 2023, com a inclusão dos hospitais de Braga e Faro.

Agora, vários hospitais da zona norte defendem que deviam ser incluídos nesta rede, tanto para realização de cirurgias como para implementação de válvulas aórticas — uma pretensão que os atuais responsáveis pelos centros de referência rejeitam. Numa carta aberta, a que o Observador teve acesso, os diretores de serviço de cardiologia das ULS de Santa Maria, de Coimbra e de Gaia alertam que aumentar o número de centros iria fragilizar a resposta e dispersar os recursos, prejudicando os doentes. “Num contexto de escassez nacional de profissionais altamente diferenciados, criar ou expandir atividade fora deste modelo dificilmente aumenta a  capacidade real do sistema. Pelo contrário, fragiliza-o, fragmentando equipas, enfraquecendo centros consolidados e reduzindo a eficiência global”, alertam os médicos Fausto Pinto, Lino Gonçalves e Ricardo Fontes-Carvalho.

Responsáveis de Cardiologia de Santa Maria, Coimbra e Gaia rejeitam mais centros e querem maior investimento nos existentes

Ao invés, os responsáveis defendem um reforço do investimento e na contratação de profissionais para os centros que já existem e, que, em muitos casos, não estão a funcionar na plenitude das suas capacidades. “O esforço deveria concentrar-se onde já existem estruturas funcionais e resultados comprovados […]”, sublinham os médicos, apontando que o “problema do acesso não resulta da falta de centros nem de incapacidade técnica instalada” mas sim “e constrangimentos organizacionais, financiamento desajustado e limitações persistentes no modelo público de contratação de recursos humanos”.

"Num contexto de escassez nacional de profissionais altamente diferenciados, criar ou expandir atividade fora deste modelo dificilmente aumenta a  capacidade real do sistema. Pelo contrário, fragiliza-o"
Carta aberta subscrita pelos diretores dos serviços de Cardiologia de Santa Maria, Coimbra e Gaia

Ao Observador, o Diretor do Departamento do Coração e Vasos da ULS Santa Maria, Fausto Pinto, reforça que “não faz sentido criar mais centros de referência”. “Seria um desperdício de dinheiros públicos. Estranhámos muito quando nos chegou esta notícia”, diz o responsável, referindo-se à carta enviada pelos quatro hospitais do norte a Ana Paula Martins. Fausto Pinto alerta que tal medida iria dispersar os profissionais (médicos, enfermeiros e técnicos) “numa área altamente diferenciada, em que as equipas demoram anos a formar”. Ou seja, explica, não seria possível substituir esses profissionais por outros no curto prazo, o que iria fragilizar os centros existentes.

Ao Observador, a Ordem dos Médicos refere que, a 31 de dezembro de 2025, estavam inscritos 140 médicos com a especialidade de Cirurgia Cardiotorácica (Cardíaca), sendo que a maioria (74) estava no sul. Havia ainda 46 médicos a norte e 20 na zona centro.

Para além disso, garante Fausto Pinto, Portugal está na média europeia quando ao número de centros de referência para cirurgia cardíaca em relação à população (1,3 centros por milhão de habitantes), pelo o que não faz sentido abrir mais. “Seria um delapidar de recursos”, avisa, lembrando que a atual Rede de Referenciação Hospitalar em Cardiologia foi redefinida em 2023 tendo em conta o parecer técnico de especialistas. “Muitas vezes diz-se que não  há qualquer planeamento em Portugal, mas, neste caso, um extenso trabalho foi realizado e culminou na publicação da Rede Nacional de Referenciação Hospitalar  para a área cardiovascular, em 2023, resultado de avaliação técnica independente e  consenso institucional, alinhado com as melhores práticas internacionais”, refere-se na carta aberta.

https://observador.pt/2026/02/27/igas-pede-esclarecimentos-ao-hospital-de-santo-antonio-sobre-listas-de-espera-para-cirurgia-cardiaca-e-possiveis-mortes-associadas-a-atrasos/

Ministério autorizou criação de centro no Santo António. Parecer da DGS aponta para limitações no atual modelo

Os alertas vão diretos à tutela e aos organismos da área da Saúde que têm responsabilidades na revisão da rede. Em outubro de 2025, a secretária de Estado da Saúde, Ana Povo (médica, que pertence aos quadros do hospital de Santo António) e o secretário de Estado da Gestão da Saúde assinaram um despacho manifestando “a não oposição à criação da referida unidade [no Santo António], caso essa unidade viesse a acontecer mediante deliberação do Conselho de Administração”.

A tutela remete a decisão para o hospital e também para os pareceres da Direção Geral da Saúde e da Direção Executiva do SNS. Segundo o Diário de Notícias, os secretários de Estado de Ana Paula Martins pediram um parecer à DGS antes de emitirem o referido despacho, sendo que esse parecer aponta para “limitações significativas no atual modelo organizativo”. Já esta semana, em resposta ao DN, a DGS referia que, “sendo a cirurgia cardíaca uma área de elevada diferenciação, considera necessário reavaliar o modelo de centros de referência, nesta e noutras áreas de elevada complexidade, de forma a garantir que os doentes beneficiem do melhor tratamento possível”.

Já a Direção Executiva do SNS disse, ao Expresso, ter recebido “o pedido da ministra da Saúde [que pediu soluções para os doentes que esperam por cirurgia], encontrando-se o mesmo em análise técnica, em articulação com as unidades locais de saúde (ULS) envolvidas” e “logo que esteja concluída a avaliação e definida uma proposta, será remetida à ministra da Saúde, a quem caberá a sua eventual divulgação pública”.

Perante a possível alteração da rede de referenciação, que deverá implicar um aumento do número de centros, os diretores dos serviços de cardiologia de Santa Maria, Coimbra e Gaia pedem um reforço do investimento e dos profissionais nos centros já existem. “O expectável seria o reforço dos centros de referência existentes, permitindo, assim, ganhos imediatos, sem criar nova despesa estrutural permanente e dispersão de escassos  recursos altamente diferenciados”, lê-se na carta aberta assinada por Fausto Pinto, Lino Gonçalves e Ricardo Fontes-Carvalho.

"Se vamos dividir os poucos recursos, vamos canibalizar os centros que já existem. O que faz sentido é reforçar o apoio a estes centros"
Fausto Pinto, Diretor do Departamento do Coração e Vasos da ULS Santa Maria

“Se vamos dividir os poucos recursos, vamos canibalizar os centros que já existem. O que faz sentido é reforçar o apoio a estes centros”, realça Fausto Pinto, dando o exemplo do centro de referência que dirige, no hospital de Santa Maria, que, em 2025, teve apenas um dos dois blocos para cirurgia cardíaca a funcionar por falta de anestesistas. “Existe alguma limitação em termos de orçamento. Por exemplo, na implantação de próteses percutâneas, podíamos ter feito o dobro”, diz Fausto Pinto, criticando o subfinanciamento de que estes centro sofrem, por decisão política. “É a tutela que decide qual o orçamento a atribuir”, lembra.

Médicos dos centros existentes alertam para “decisões precipitadas e movidas por interesses”

Na carta aberta, os médicos apontam o dedo às decisões da tutela e também aos próprios hospitais que pretendem criar novos centros. “É substituir planeamento por improvisação e, ainda mais grave, por uma atitude reativa, potencialmente populista, para dar, apenas na aparência, resposta a problemas reais. Contudo, a complexidade das situações em  causa não se compadece com decisões precipitadas e movidas por interesses que,  aparentemente, em nada têm a ver com o verdadeiro interesse público, contribuindo apenas para desequilibrar e degradar o que até tem funcionado bem”, alertam.

O bastonário da Ordem dos Médicos (OM) já se mostrou contra a abertura de mais centros de referência a nível nacional, dada a atual falta de recursos humanos. Ainda assim, a Ordem dos Médicos convocou uma reunião de trabalho para a próxima terça-feira, na qual estarão presentes, para além de Carlos Cortes, os Presidentes dos Colégios das Especialidades de Cardiologia e Cirurgia Cardiotorácica (Cardíaca), assim como os Diretores de Serviço de Cirurgia Cardiotorácica dos Hospitais de Gaia/ Espinho, S. João e Braga e os Diretores do Serviço de Cardiologia das ULS de Santo António (Porto), ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro (Vila Real), ULS de Matosinhos (Hospital Pedro Hispano) e ULS de Tâmega e Sousa (Penafiel). O objetivo, diz ao Observador fonte oficial da OM é “juntar todas as partes, averiguar que recursos existem, se há necessidade de abertura de mais um centro, se há necessidade de reforçar os existentes”.

https://observador.pt/2026/02/26/entidade-reguladora-investiga-alegadas-mortes-de-utentes-a-espera-de-cirurgia-cardiaca-em-hospitais-do-norte/

O Diretor do Departamento do Coração e Vasos da ULS Santa Maria acrescenta que são os profissionais que têm de lidar com as famílias e com os doentes realça que a falta de reforço da capacidade de resposta, que permita minimizar as listas de espera, é uma “situação particularmente difícil para quem está no terreno”. “Faço o pedido de reforçarem a minha capacidade de execução, para me permitirem maior agilidade”, apela o responsável. O número total de doentes cardíacos operados anualmente em Portugal rondará os 6 mil por ano, um número que fica abaixo das necessidades, num contexto em que se assiste a um envelhecimento da população.

Questionado sobre se, à semelhança do que foi feito com as cirurgias oncológicas, o Ministério da Saúde deveria lançar um programa de recuperação dirigido às cirurgias cardíacas, Fausto Pinto insiste que a solução deve passar pelo reforço da capacidade dos centros existentes. “Se reforçarem os centros que já existem, rapidamente é feita uma recuperação do número de cirurgias que está em défice”, sublinha o responsável, admitindo que as “restrições” têm tido “impacto nos resultados”.

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