(c) 2023 am|dev

(A) :: Débora Monteiro e a depressão pós-parto. "Parava o carro à porta de casa e ficava a chorar para não ir com esse peso para as meninas"

Débora Monteiro e a depressão pós-parto. "Parava o carro à porta de casa e ficava a chorar para não ir com esse peso para as meninas"

O nascimento das filhas e o regresso ao trabalho antecipado fizeram a atriz e apresentadora "afundar-se". As críticas ao corpo também não ajudaram. Procurou ajuda, fez terapia e começou a recuperar.

Sara Antunes de Oliveira
text
Francisco Romão Pereira
photography

"Custou-me muito deixar as meninas e não percebia como é que não valorizavam o facto de ter 'deixado' as meninas, não viver o pós parto com elas."

"Não percebia o porquê de ninguém ver o esforço que eu estava a fazer."

"Percebo isso quando estou constantemente a chorar compulsivamente. Vou trabalhar e estou em piloto automático, sou um boneco."

"As pessoas diziam 'a tua gargalhada é tão genuína', e eu já nem me queria rir."

"Quando fui trabalhar, acharam o máximo eu mostrar-me como estava — porque engordei, cheguei aos 100 quilos. 'Uau, mulher real'"

"Em três meses, comecei a ser muito criticada por não cuidar de mim e porque estava gorda. E de mulheres, que é o que me deixa muito triste."

"Uma amiga perguntou como é que eu estava, e eu disse: 'Olha, não estou bem, preciso de ajuda.'"

"E ela disse 'está tudo bem, há solução, vamos arranjar uma solução'."

A oportunidade surgiu um mês depois do nascimento das duas filhas: um novo projeto de trabalho que a obrigaria a regressar muito mais cedo do que o previsto. Em tempo de pandemia, com a área da restauração (em que o namorado trabalhava) parada e estando ela dependente de estar a trabalhar para poder receber um ordenado, Débora Monteiro, atriz e apresentadora de televisão, sentiu que aceitar a proposta era exatamente o que tinha de fazer, não havia alternativa.

Poucos meses depois, o cansaço acumulado e a pressão para fazer tudo o que achava que tinha de fazer começaram a revelar-se numa irritabilidade permanente e em crises de choro compulsivo. Primeiro, pensou que era apenas o cansaço natural e resistiu a questionar se seria mesmo apenas isso, mesmo quando os alertas vieram das pessoas mais próximas. Não percebia, aliás, porque é que ninguém valorizava todo o esforço que estava a fazer, até porque achava que estava a conseguir lidar com tudo. Apesar de também sentir que “não havia cor, tudo era cinzento”, e que já só funcionava em “piloto automático”.

Nesta entrevista inserida na série “Labirinto — Conversas sobre Saúde Mental”, gravada no hotel Palácio do Visconde — The Coffee Experience, em Lisboa, conta que os comentários que ia ouvindo também não ajudaram. Às críticas nas redes sociais por não estar sempre em casa com as filhas somaram-se os comentários sobre a sua forma física. Durou pouco o momento em que a elogiaram por ser uma “mulher real”, que surgia na televisão ainda com algum do peso que ganhou na gravidez das gémeas: “Em três meses, quatro, comecei a ser muito criticada por não cuidar de mim e porque estava gorda, e se eu ia aceitar ficar gorda assim, e que já não era a mulher bonita ou a mulher sensual que as pessoas conheciam.”

Só um “dia negro”, de aniversário, a levou a verbalizar aquilo em que já ia pensando: “Não estou bem, preciso de ajuda.” A frase dita a uma amiga deu início a todo o processo: foi diagnosticada com depressão pós-parto, começou a fazer terapia, encontrou no pilates um aliado para a recuperação e as peças começaram a alinhar-se. Aprendeu a dizer “não”, sobretudo para garantir que está mais presente na vida das filhas. E a pôr-se sempre em primeiro lugar, antes daquilo que os outros acham que deve ser ou fazer: “Vivemos sempre em função do que os outros querem. Aprendi que isso faz-me mesmo mal.”

[Veja aqui a entrevista completa a Débora Monteiro]

https://www.youtube.com/watch?v=n7fojeIrmGI

Quem é que reparou primeiro nos sinais de que alguma coisa não estava bem consigo? Foi a Débora ou foi alguém à sua volta?
Foi alguém à minha volta.

E disseram-lhe?
Sim. Foi o Miguel, o meu namorado, ele é que reparou que eu não estava bem. Claro que, na altura, não gostei do que ele disse e pensei: “Não estás a ser sensível, acabei de ter duas crianças, estou a trabalhar…” Sentia que não estava a ser valorizada por aquilo que estava a fazer.

Mas ele reparou em quê? Que estava cansada?
No meu cansaço profundo, na minha irritabilidade. E depois parece que tudo o que está à minha volta está mal. Eu é que estou bem, as pessoas é que não percebem. E acho que foi toda essa minha irritabilidade e o querer que as pessoas percebessem o que estava a acontecer. Não significa que o que eu estava a ver fosse o certo.

Reconhecia que estava, pelo menos, cansada? Esse estado de exaustão de uma mãe de bebés, percebia que o tinha? Ou nem isso, achava que estava a conseguir lidar com tudo?
Achava que estava a conseguir lidar. Por isso é que não estava a perceber porque é que não estavam a valorizar o facto de eu estar a conseguir lidar com tudo.

Isso aconteceu muito tempo depois de elas nascerem?
Acho que foi entre meio ano e um ano depois de elas terem nascido. Também porque comecei logo a trabalhar bastante, passado um mês de elas terem nascido. E em tempos difíceis, foi na quarentena. Portanto, era uma logística muito grande, o chegar a casa, ter de me limpar antes de estar com as minhas filhas, o medo de levar alguma doença para elas, não dormir, a privação de sono e o querer ser muito boa no que estava a fazer. E depois o corpo começou a sentir.

Quando tomou a decisão de voltar ao trabalho, porque achou que o devia fazer, não houve ninguém que lhe dissesse: “Tens a certeza?”
A minha mãe disse “não vais fazer isso”, nem foi um “tens a certeza?”. Foi: “Ok, fizeram-te o convite, mas tens de dizer que não porque estamos em tempos difíceis e tu acabaste de ser mãe, tens de estar com as tuas filhas.” E eu estava ali numa dúvida — “aceito, não aceito” —, porque sou artista e porque os artistas, se param de trabalhar, ficam sem ganhar dinheiro, não é? Portanto, sabia que já estava parada desde os meus cinco meses de gravidez. E toda a gente estava parada a nível de trabalho. Portanto, pensei: “Se calhar, vou aproveitar, vou eu trabalhar e tenho algum rendimento a entrar aqui em casa.”

Quando o seu namorado lhe diz “acho que alguma coisa não está bem contigo”, primeiro ficou chateada, mas ficou uma sementinha de dúvida? Ficou a pensar nisso?
Não fiquei a pensar nisso, não estava era a perceber como é que não viam o esforço que eu estava a fazer e como é que não me estavam a valorizar. Só pensava nisso. Fui para a rua, fui para o terreno e ninguém estava a valorizar. Custou-me muito deixar as meninas e não percebia como é que não valorizavam o facto de ter deixado as meninas — “deixar”, entre aspas, ou seja, não viver o pós parto com elas. Não percebia o porquê de ninguém ver o esforço que eu estava a fazer. E viam. Só que eu achava que ninguém estava a ver.

"Durante o processo de terapia, percebi que desejei tanto e o que senti foi culpa: 'Quis e agora não estou com elas.' E depois questionar-me se estou a ser boa mãe ou não por causa disso, mas a pensar 'eu estou a trabalhar porque preciso de levar comida para casa'.

Quando é que percebe que, se calhar, ele tinha razão?
Percebo isso quando estou constantemente a chorar compulsivamente. Quando venho do trabalho, páro o carro à porta de casa e fico a chorar para não ir para casa com esse peso para as meninas.

Isso acontecia muito?
Muito. E quando à volta, no meu trabalho, achava que as pessoas não estavam ao meu ritmo, não estavam a acompanhar-me — e aquilo tudo deixava-me frustrada —, dizia as coisas de uma forma má, não havia filtros. Não era para magoar, mas eu não tinha filtros, não pensava “se calhar vou ter cuidado a falar com esta pessoa quando não estou a gostar de alguma coisa”.

Porque estava impaciente?
Sim, parecia que estava com as minhas hormonas todas à flor da pele — e estava — e que não havia limite. “Se estou a perder tempo para fazer isto, se estou a perder tempo de qualidade com as minhas filhas, temos de estar todos ao mesmo ritmo.”

Via mais esses sinais quando estava a trabalhar ou mais quando estava com as suas filhas?
Sentia esses sinais mais quando estava a trabalhar, mas, quando estava com elas, estava num ponto de exaustão que a minha sensação era de estar sempre a dormir com elas. Como eram bebezinhas, eu chegava ao sofá, elas estavam ali nas alcofas e eu ficava a dormir com elas. Durante a noite, queria mesmo levantar-me, porque queria fazer tudo, mas sentia que estava em modo robô. Há coisas de que não me lembro, que ficaram bloqueadas.

Que não conseguiu guardar de memória nessa altura?
Não consegui guardar porque o cansaço era tal que era mesmo o piloto automático, nem sabia como é que estava a fazer as coisas.

Quando olha para trás agora, acha que o facto de elas terem sido bebés muito desejadas, que obrigaram a um processo difícil, que é o processo de fertilidade, tudo isso contribuiu para sentir ainda mais pressão de fazer tudo bem, de estar em todo o lado e de conseguir fazer todas as coisas?
A seguir senti foi a culpa. Durante o processo de terapia, percebi que desejei tanto e o que senti foi culpa: “Quis e agora não estou com elas.” E depois questionar-me se estou a ser boa mãe ou não por causa disso, mas a pensar “eu estou a trabalhar porque preciso de levar comida para casa”. E estive ali numa luta constante, a tentar perceber se estava a fazer o certo para as minhas filhas.

Começa a perceber que há um problema, de facto, quando tem essas crises de choro. Isso evoluiu logo para essa culpa por não estar com elas?
Já sentia essa culpa, mas percebo quando comecei a chorar, a ir-me mesmo abaixo. Não havia cor, tudo é cinzento. Parece que não há prazer em fazer nada. Vou trabalhar e estou em piloto automático, sou um boneco. As pessoas diziam “a tua gargalhada é tão genuína e não sei quê”, e eu já nem me queria rir. Por tudo isso, senti “isto não é normal, estou a forçar-me para ser algo que as pessoas estão à espera que eu seja, e não o que devo ser”. Foi aí que comecei mesmo a sentir que estava a descambar.

O seu namorado já tinha percebido. A sua mãe, que tinha avisado antes, também percebeu, a dada altura?
A minha mãe percebeu, mas não falou diretamente comigo. Falou com uma das minhas irmãs, e essa minha irmã ligou-me. “Então, tudo bem?” “Sim, está tudo bem, está tudo orientado, estou a conseguir organizar tudo.” “Mas não estás muito cansada? Tu vê lá…” E percebi que ela estava a tentar, aos pouquinhos, abordar o assunto. E depois disse: “Olha, a mãe está preocupada contigo, acha que deves estar aí com uma depressão pós-parto. Ela não quis falar contigo, com medo da tua reação. Portanto, quero saber como é que te sentes, estou preocupada, queremos saber.” Não levei a mal, mas foi o não perceber o que é que as pessoas estão a ver em mim para sentirem que eu não estou bem, quando estou a fazer esforço tão grande.

"Não queria que as minhas filhas sentissem o que eu estava a sentir. Achava que iam estar comigo e iam sentir a minha energia pesada. Quando chegava a casa, se queria chorar, chorava no carro. E tudo isto só me afundava mais."

O que é que dizia a si própria? Era só isso? Não começou a haver uma vozinha em si que dizia “será?”.
Sim, aí depois pensei “se calhar, têm razão”. Nem sabia bem se era depressão ou se era um cansaço profundo. “Se calhar, tenho mesmo de abrandar e saber dizer não.” Havia essa dúvida, “será que é mesmo uma depressão pós-parto, será que só estou exausta?” É parvo, mas pensava “se calhar não preciso de fazer terapia, se calhar só preciso mesmo de dormir e de ter tempo para mim”. Havia essa dúvida de se precisava mesmo de ajuda ou não.

As outras pessoas à sua volta não lhe diziam isso também? Porque, às vezes, quando uma mãe se queixa, há muitas pessoas que dizem “isso é normal, estás só cansada, isso passa, é uma fase”.
Não tive a oportunidade de falar com muita gente, porque elas foram bebés de quarentena. E, quando ia trabalhar, éramos pouquinhos. Estávamos todos um bocadinho isolados. Tive uma pessoa, que nunca foi mãe e que estava a trabalhar comigo, mas que já passou por uma fase menos boa, de depressão, que começou a reparar em alguns sinais. E tentava abordar-me aos poucos: “Não achas que era melhor arranjares terapia, nem que seja só para desabafar? É tudo tão recente, começaste logo a trabalhar, estamos a passar por esta fase, és mãe…” E eu percebi que estava, de alguma forma, a tentar dizer-me alguma coisa.

E resistiu também com essa pessoa?
Não resisti. Com essa pessoa desabafava muito, falava muito. Não que dissesse “preciso de terapia”, mas sentia que podia desabafar. Ou por saber que também esteve numa fase menos boa, que, se calhar, ia compreender-me melhor.

Quando é que faz o clique e pensa “Ok, vou precisar de ajuda”?
Acho que o meu corpo, o meu organismo todo, já estava a sentir. Mas houve uma altura em que fiz anos num sábado — trabalhava ao domingo — e fiquei num buraco. O Miguel queria fazer alguma coisa com as meninas, e eu nem queria estar com elas.

Como é isso para uma mãe, ter ali as coisas mais preciosas da sua vida, as que,  racionalmente, lhe dão mais energia também, mas haver quase um sentimento animal de rejeição, “não posso estar com estas crianças, não quero estar com estas crianças”?
Porque não queria que elas sentissem o que eu estava a sentir. Achava que elas iam estar comigo e iam sentir a minha energia pesada. E eu não queria, fazia sempre esse processo. Quando chegava a casa, se queria chorar, chorava no carro. E tudo isto só me afundava mais. Esse aniversário — em que fugi, não quis estar com o Miguel, ele tentou arranjar amigas e eu disse que não queria estar com ninguém — foi mesmo um dia negro. E depois, no dia a seguir, tive de ir trabalhar.

E pôr um sorriso.
E pôr um sorriso, fazer uma festa, e a gargalhada. Mas, antes, essa minha amiga perguntou como é que eu estava, como é que tinha corrido o meu dia, e aí eu disse: “Olha, não estou bem, preciso de ajuda.” E ela disse “está tudo bem”. Eu a chorar, não é? “Está tudo bem. Há solução, vamos arranjar uma solução, mas está tudo bem.”

Porque é que acha que resistiu tanto? Porque tinha metido na cabeça que ia conseguir fazer aquilo? Ou porque tinha algum estigma associado à ideia de eventualmente ter uma depressão ou um esgotamento?
Não tinha o estigma de ter alguma depressão. Achava mesmo que estava muito cansada, que só tinha de descansar. Achava mesmo que era algo também hormonal — já tinha as hormonas de muitos tratamentos, depois bebés, mais hormonas… Sentia que meu corpo tinha de fazer uma limpeza. Era isso que sentia. E que não dei tempo de fazer essa limpeza porque fui logo trabalhar, fui logo fazer um monte de coisas. E, mesmo que não tivesse feito, todos nós passamos por esse processo, mesmo estando em casa, também teria de o fazer. Mas sinto que me sobrecarreguei. Era o que sentia, que me tinha sobrecarregado e que só precisava de que, quando acabasse de fazer o projecto da novela, quando acabasse de fazer o programa, houvesse uma pausa. Supostamente, o programa era para a quarentena, depois prolongou se durante seis anos, quase. Então achava: “Quando isto abrandar, está tudo bem, isto passa.”

Então diz à sua amiga “eu preciso de ajuda”. O que é que acontece a seguir?
Vou procurar terapia.

Como é que foi esse processo? Pediu opiniões?
Pedi opiniões, sim. Não é fácil arranjar o terapeuta certo. Fui saltando.

Testou com muitas pessoas diferentes?
Com algumas. É tão pessoal que tem mesmo de haver ali uma sinergia, não sei bem explicar. Uma química.

E quando foi ao primeiro não deu certo?
Estive num durante um tempo, mas não deu certo. Depois tentei outra forma, que era a hipnose. Algumas coisas até fluíram e fizeram todo o sentido. Mas depois senti que não era por ali. E até conseguir encontrar uma psicóloga.

E fez sempre terapia, não fez medicação?
Não fiz medicação, só alguma para dormir.

Custou-lhe fazer a medicação para dormir?
Não me custou porque eu não dormia, portanto precisava mesmo de dormir. Mas tenho qualquer coisa em mim que, até com as maiores “bombas”, consigo estar sempre a despertar. Também porque tinha as meninas e sabia que havia horários. Então, sentia que estava completamente drogada, às vezes, a fazer medicação para poder descansar.

Mas, pelo menos, ajudou a equilibrar os sonos?
Ajudou-me a equilibrar os sonos e a conseguir descansar, no pouco tempo que tinha para dormir.

Sei que com o primeiro terapeuta não resultou, mas gostava de ir a essa primeira consulta. Pede ajuda a uma amiga, acaba por encontrar esta pessoa. Como é que foi aquela primeira consulta? Sabia o que dizer? Ou foi difícil chegar, sentar e começar a falar?
Acho que tenho facilidade de me abrir com as pessoas. Até demais, às vezes. Mas o que senti foi “vou falar do que sinto”. Sempre com a defesa de “fui mãe agora, tenho dois bebés, é normal estar cansada”. Mas abordei todo o tema de estar cansada, estar a trabalhar, isto e aquilo. Falei de tudo. Disse que estava mais irritada, que estava impaciente, mas consegui abrir o leque. Não estive propriamente ali fechada, porque sinto que sempre tive essa facilidade. E é o que estava a dizer há pouco, não sinto estigma por causa disto, da depressão. Portanto, se for para me tratar, tenho mesmo é de falar. Nunca tive receio de ser julgada.

"Há dias em que penso 'se calhar ficava ali mais duas horinhas e agora vou dar uma volta, fazer uma viagem de carro para ver se limpo o resto'. Ou chego ao carro e ainda choro mais, 'porque é que não deixei tudo lá?'"

E o que é que ouviu? Que tinha uma depressão? Que estava só cansada?
Como foi a primeira consulta, foi quase como um avaliar. Poderia ser, eventualmente, uma depressão pós-parto. E o excesso de cansaço também pode não ter ajudado. Mas aceitei, porque quando fui para ali já sabia para o que ia e não estava à espera que dissesse “ah, vai-te embora, estás óptima”. Eu sabia que não estava. Portanto, já sabia para o que ia. Não foi pesado — ou, foi pesado porque estamos tão vulneráveis, e chorei. Começas a chorar e deitas tudo. Mas depois saí de lá a pensar: “Será que é por aqui?”

Teve essa dúvida, “isto vai fazer alguma diferença?”
Sim. Vai ser sempre assim? Vou estar sempre a chorar?

Quando encontrou o terapeuta certo — a diferença que isso faz, quando há uma química —, sente que começou o processo do início ou já retomou onde estava? Já tinha feito algum avanço no seu processo?
Sinto que começámos do início, mas que eu já estava ali um bocadinho a preparar-me, ou com algumas coisas já mais lisinhas do que quando comecei a fazer a terapia.

Quanto tempo é que tinha passado, entretanto, entre aquele momento em que desaba e diz “eu preciso de ajuda” até encontrar esta pessoa?
Cerca de dois ou três meses.

O que é que faz alguém sentir que encontrou a pessoa certa? Porque é muito difícil encontrar o terapeuta certo e o que pode ser para si não é para mim.
Acho que é a forma como essa pessoa comunica, como eu a oiço… Tem de ser alguém que consiga ir ao meu encontro, ao encontro das outras pessoas, consiga perceber como é que me pode guiar, de certa forma. E senti como que uma leveza. Não sei bem explicar. “Não é meu amigo, mas posso falar”, foi mais nesse sentido. Não senti ali um julgar, há ali qualquer energia que fica instalada.

Entra-se mal e sai-se bem?
Depende.

Há dias em que se sai mal?
Há dias em que penso “se calhar ficava ali mais duas horinhas e agora vou dar uma volta, fazer uma viagem de carro para ver se limpo o resto”. Ou chego ao carro e ainda choro mais, “porque é que não deixei tudo lá?”. E há outras alturas em que saio mais leve e em que penso “se calhar já estou a ficar bem”.

Teve momentos desses, de pensar “eu já estou a ficar bem”, e depois voltou atrás?
Sim, mas eu acho que isto são as oscilações que se tem numa depressão. Acho, pelo menos comigo, que há dias em que acordo, estou ótima, tudo leve, divertida, feliz. E não. É um momento. Aquilo é um momento, porque a seguir voltas outra vez para o buraco.

Como é que foi em casa? Houve apoio, houve compreensão? E, se houve, que diferença é que isso fez no processo?
Ele ficou todo feliz quando comecei a procurar terapia. Disse que estava cheio de orgulho de eu o ter feito e que ainda bem que o fiz por mim, não era só por tudo o resto que está à volta. Por mim, essencialmente. Mas depois, claro, as coisas melhoraram bastante. A forma de comunicarmos, a minha forma de estar presente, tudo isso melhorou muito, como é óbvio.

"Acho que só me descobri outra vez enquanto mulher para aí quase aos três anos delas. Andei completamente perdida. Não me queria arranjar, arranjava-me para os programas e, se pudesse andar de fato de treino todos os dias, para mim era o ideal.

E houve alguma mudança na rotina? Porque a Débora é um bocadinho empurrada para este estado por todas as circunstâncias. Algumas foram-se alterando, nomeadamente as quarentenas e esta nuvem negra da pandemia sobre as nossas cabeças, mas continuou a trabalhar e continuou a ter duas filhas pequenas. Que mudanças é que foi vendo na sua vida ou fazendo em si para, a lidar com circunstâncias semelhantes, conseguir estar melhor?
Depois foram vários passinhos. Uma coisa que me ajudou bastante foi começar a fazer pilates de máquinas, porque nos outros exercícios a minha cabeça não pára. Estou sempre a pensar “estou a fazer isto e não sei o quê”, passo para outra máquina, “vou fazer não sei o quê”… E, no pilates de máquinas, tinha de estar tão focada para não me desequilibrar, para manter a minha estabilidade, que só estava focada naquilo, não estava a pensar “a seguir vou sair daqui, tenho de ir comprar as coisas para as meninas”, não. Sentia que desligava e era algo que achava que não conseguia fazer, que era desligar.

Era, no fundo, uma atividade mindfulness, como a meditação ou pintar mandalas, ou o que fosse. Funcionava para si, para esvaziar a cabeça?
Funcionava para mim. Não consigo fazer meditação, tento fazer meditação e já estou a pensar em coisas, é muito ruído.

E foi um acaso?
Foi um acaso. “Olha, vou experimentar porque gosto de treinar, deixa ver se gosto disto. Estou um bocadinho presa, para me soltar.” E, de repente, senti “tenho de fazer isto pelo menos duas vezes por semana, porque isto está a ajudar, é um momento para mim, estou a cuidar de mim”. E depois do pós-parto também passamos por aquela fase de olhar ao espelho e não gostar de nada, também era importante começar a gostar outra vez de mim.

Isso também pesou naquilo que estava a viver? Quando uma mulher sai de um parto e está num pós-parto, durante muito tempo não se sente ela própria. No meio de todo esse processo, isso também tinha um peso para si?
Acho que só me descobri outra vez enquanto mulher para aí quase aos três anos delas. Andei completamente perdida. Não me queria arranjar, arranjava-me para os programas e, se pudesse andar de fato de treino todos os dias, para mim era o ideal. Não me queria pentear, estava cansada, não me apetecia. Depois, eu vivo da imagem, e o que é que acontece? Quando fui trabalhar, acharam o máximo eu mostrar-me como estava — porque engordei, cheguei aos 100 quilos. Portanto, quando elas nasceram, perdi ali uns 20, mas estava mais cheiinha. “Uau, mulher real!” Mas passou: em três meses, quatro, comecei a ser muito criticada por não cuidar de mim e porque estava gorda, e se eu ia aceitar ficar gorda assim, e que já não era a mulher bonita ou a mulher sensual que as pessoas conheciam.

E era criticada nas redes sociais?
Nas redes sociais, sim.

E sentia no trabalho, que também vive de imagem? Também havia algum desconforto?
Não houve um desconforto, houve coisas muito graves no trabalho — e de mulheres, que é o que me deixa muito triste.

Comentários desagradáveis?
Sim, “já te achei um mulherão e agora olho para ti e estás fraca”. Isto aqui são coisas que, quando estamos num pós-parto, mexem bastante, não é? Ou dizer “tens mesmo de emagrecer”, “põe-te direita, não cruzes a perna, olha-me essa coxa”. E a pessoa sabe que está ali, toda a gente a observar-nos, e, de repente, sou atriz, mas uma atriz bloqueada porque não me consigo mexer, estou a apresentar um programa com alguém a dizer-me ao ouvido que não estou bem. Às vezes, isto não é bom.

E custava-lhe admitir que isso a magoava? Também fazia um bocadinho aquela coisa do “eu sou mais forte do que isto, estou bem como estou e hei-de chegar à minha forma”?
Não era uma questão de admitir que me magoava. Sabia que estava numa fase sem filtros, sensível, e o que tinha era medo de magoar as pessoas com as palavras que poderia dizer, que sentia que estava assim nesse ponto. O que pensava sempre é que é um processo. Não sou obrigada a emagrecer como outras pessoas. Os corpos são todos diferentes, e hei de chegar ou não ao meu corpo ideal. Mas, na verdade, às vezes questiono-me: eu nem tive direito de olhar para o espelho e dizer “se calhar até gosto de me ver assim mais cheiinha”. Porque é que tenho de ser mais magrinha? Quem é que disse que isso é que é a perfeição?

Nem lhe deram essa oportunidade.
Nem me deram essa oportunidade. Posso gostar de me ver de maneira diferente. Não gosto de me ver muito magra, mas era algo que tinha de ser eu a escolher, não tinha de ser imposto por ninguém. E o que sentia era que estava a ser imposto.

Que tinha de ser uma prioridade para si, quando as suas prioridades eram outras.
Não estava bem aqui na minha cabecinha, estava preocupada com o resto. E quando disse uma vez que, primeiro, o que tinha de tratar mesmo era o lado interior, e depois vinha o resto… Claro que, depois, quando começo a treinar, tudo isto acaba por ajudar. Começo a gostar do que estou a ver no espelho, começo também a fazer a terapia, tudo isto começa a ajudar. É uma junção de coisas, mas sou eu que tenho de decidir. Não são as pessoas que têm de me julgar e criticar para me fazer avançar.

Quanto tempo depois começou a sentir que as peças estavam, de facto, a alinhar-se e que já não estava tão soterrada naquilo que tinha sentido durante tanto tempo?
Acho que começo a sentir um alívio passado quase dois anos. Antes, ia sentindo, mas voltava. Andava aqui assim, a tentar aprender a lidar com as emoções, mas acho que, passado dois anos, começo a sentir-me mais aliviada, a sentir-me eu, a voltar a ter a minha graça sem ser imposta. E parece que, depois, as pessoas já nem me incomodam — porque antes incomodavam. Isto é horrível de dizer, mas às vezes é “aaahhh, estas pessoas estão aqui e não sei quê”, e depois “está-se bem”, começo a ficar mais leve, mais descansada.

"Sempre quis mostrar que sou mais forte do que o que sou, e sempre soube. Sou de choro fácil. Sou de gargalhada fácil. Por isso é que digo que, às vezes, ando aqui, assim, um bocadinho perdida."

Deixou de ser tudo cinzento?
Começa a aparecer cor.

Já teve algum momento em que sentiu “Ok, se calhar já saí desta, já estou bem, já não preciso de ajuda”?
Acho que ainda preciso de ajuda. Estou mesmo a falar a sério, acho que isto é um processo. E um processo longo. Agora não estou a falar propriamente da depressão pós-parto, mas é depois de tudo o resto, de todas as emoções… Até nos sentirmos completas, até eu me sentir completa, isto foi mesmo um processo. Claro que agora estou noutra fase e, se calhar, agora vem, sei lá, o stress da vida, mas sinto que preciso sempre daquele apoiozinho.

Nunca tinha feito terapia antes disto?
Não. E, quando era mais miúda, fui daquelas que diziam “isso é para quem não…”.

E, mesmo assim, quando decidiu que tinha de o fazer, foi e fez. Não pensou como quando era mais miúda?
Pensei o que as pessoas pensam quase todas: “Eh, pá, isto é carote.” Porque é. Porque a verdade é que toda a gente devia ter direito de ser acompanhada quando necessita, e não é algo que seja assim tão acessível a todos.

Na altura fazia uma vez por semana?
Uma vez por semana.

E continua a fazer ao mesmo ritmo?
Depende. Depende, às vezes, do trabalho, de fases em que estou.

Mas diria que aquele momento de depressão — e a terapia que fez por causa dessa depressão — abriu a porta a uma nova relação entre si e a sua saúde mental? Daí que a terapia possa ser uma espécie de pilates mental?
Sem dúvida, mesmo a olhar para as pessoas que estão ao meu lado. Agora observo de outra maneira, porque vejo que andamos todos tão sensíveis, e cada um com os seus problemas, e é mais fácil julgar e apontar o dedo ou não compreender. Mesmo eu — que tinha aquela irritabilidade e consigo ser aquela pessoa bastante exigente para trabalhar — já vou de outra forma e falo com as pessoas de outra forma. O tentar acalmar-me ou tentar respirar fundo. Também estou a falar assim, parece que sou uma pessoa muito má. (risos) Não sou muito má, mas sou tão bruta a falar que, às vezes, as pessoas ficam magoadas, e eu respeito isso, têm o direito de ficar magoadas, como é óbvio, eu é que não tenho o direito de as magoar. Mas tentar procurar as palavras certas, agora, é um trabalho que também faço porque sei que as outras pessoas também podem ter algum problema na vida delas, podem não estar num dia bom e vão interpretar da maneira delas o que eu vou dizer. Mesmo que eu não esteja a dizer de uma forma que acho que seja negativa, para a outra pessoa pode ser. Então, tenho esta sensibilidade que fui aprendendo também com a terapia.

O que é que aprendeu sobre si neste processo? Que tinha uma vulnerabilidade e uma fragilidade que nunca tinha percebido que tinha?
Sempre soube que tinha. Sempre quis mostrar que sou mais forte do que o que sou, e sempre soube. Sou de choro fácil. Sou de gargalhada fácil. Por isso é que digo que, às vezes, ando aqui, assim, um bocadinho perdida. Gosto tanto de viver as coisas, gosto tanto de me sentir viva que às vezes sinto que estou muito ao pé das outras pessoas. Vou a um evento e, às vezes, sinto que não posso ser eu, porque falo alto, por dou uma gargalhada alta. E estou sempre a tentar controlar isto. Às vezes não é fixe, porque toda a gente está a tentar controlar-se e podíamos ser todos mais felizes se nos deixássemos ser como somos realmente.

"Acho que a terapia é incrível para tudo, e para as minhas filhas, então, é maravilhoso, porque estou mais disponível para elas. Digo 'não' para estar com elas. Quando estou com elas, estou com elas."

E mudou coisas em si para evitar cair no mesmo buraco por onde passou?
Digo não.

Aprendeu a dizer não?
Antes era um nim: dizia “não… pronto, está bem”. Não conseguia, por medo de magoar. Sempre tive isso, o medo de magoar a outra pessoa. Agora não, estou eu em primeiro lugar e digo não. E, quando é não, nem tenho de justificar. Não é não. Antes justificava também, agora não.

E vive atenta aos sinais que no início não viu para garantir que identifica quando não estiver bem, e se voltar a não estar bem? Ou é daquelas coisas com as quais não vive obcecada?
Não vivo obcecada, mas estou muito atenta, sempre. Porque sinto “Ok, vem aí uma nuvenzinha”, e tenho a sorte de o poder verbalizar com o meu namorado, e ele percebe e diz: “Então, se calhar, vê lá se queres mais consultas, o que é que achas que é melhor fazer?” E depois também falo com o psicólogo. Agora já há uma ligação em que posso estar à vontade para me ir reajustando.

E acha que esse processo mudou a sua relação com as suas filhas?
Claro, sem dúvida.

Porque ficou emocionalmente mais disponível?
Sim, emocionalmente, sim. Acho que era uma capazinha que tinha, para mostrar que estava ali e conseguia lidar. Mas não estava, sentia que não estava presente. Acho que a terapia é incrível para tudo, e para as minhas filhas, então, é maravilhoso, porque estou mais disponível para elas. Digo “não” para estar com elas, quando estou com elas, estou com elas. Nós gostamos de ter tempo de qualidade, os quatro, sem nada ao nosso redor para fazer ruído ou para estragar o nosso momento — seja o que for, a comer uma sopinha, seja o que for. Somos os quatro, não queremos nada que nos vá impedir.  Um e-mail do trabalho a que tenho de responder agora? Não tenho de responder agora. Antes não havia emails e a gente vivia.

Regrou-se a esse nível?
Sim.

E é rígida nessas regras?
Sou. Por proteção e porque sinto que me faz mal ter de estar a trabalhar 24 horas — que é o que acontece, as pessoas trabalham 24 horas. “Tenho de responder na hora?”, não tenho de responder na hora. Tenho de ter o meu horário. Estou a dizer trabalhar, mas mesmo para amigos ou familiares, há tempo para tudo. Se não te responder agora e só responder daqui a duas horas ou três, está tudo bem. Agora é o nosso tempo, o meu tempo. Porque senão vivemos sempre em função do que os outros querem. Aprendi que isso faz-me mesmo mal, parece que estou sempre mais disponível para os outros do que para mim.

Há pouco falávamos sobre as várias circunstâncias que a empurraram para aquele buraco: o trabalho de duas bebés de uma só vez, um período de pandemia, todas essas dificuldades. Mas nós também vivemos numa era de exaltação da maternidade perfeita e de como as mulheres devem ser primeiro mães e só depois tudo o resto. Sentiu essa pressão?
Senti essa pressão. Até porque, através das redes sociais, recebia um monte de mensagens — “não faças isso, olha as tuas filhas, estás a deixar as tuas filhas em casa…”

E respondia?
Não respondia. Às vezes dava-me vontade de responder, mas era o responder e apagar, “tenho de me controlar”.

"Vou-me perdoando. Não sei explicar, mas sinto que, pelo facto de agora estar mesmo presente, e tentar ter mesmo esse tempo com elas, estou a tentar compensar, de certa forma, o tempo em que não estive."

Porque acha que não vinham de um lugar de preocupação, vinham só num lugar de crítica?
Sim, vinham só de um lugar de crítica. Acredito que algumas pessoas estavam preocupadas, até porque muita gente que me segue é de uma geração um bocadinho mais velha e acredito que algumas estavam mesmo preocupadas. Mas o que eu sentia era que podiam apontar-me o dedo, “a mãe tem de ficar com as crianças, o pai é que sai para trabalhar”, pensava nisso muitas vezes, mas achava que estava a fazer o correto porque era uma altura em que tinha de ser.

Porque o comboio não passa duas vezes.
Não passa duas vezes, também.

E arrepende-se?
Não me arrependo de o ter feito, arrependo-me de ter perdido tempo de qualidade com elas. Sinto que o Miguel viveu mais a paternidade, a fase inicial, do que eu.

Já se perdoou por isso?
Vou-me perdoando. Não sei explicar, mas sinto que, pelo facto de agora estar mesmo presente, e tentar ter mesmo esse tempo com elas, estou a tentar compensar, de certa forma, o tempo em que não estive. E, ao mesmo tempo, não é, propriamente, perdoar — tinha de ser feito, na altura. Não ia ficar a passar fome, mas tinha de ser feito. O Miguel era da área da restauração, teve os restaurantes todos parados, tinha pessoas dependentes dele. Portanto, o dinheiro tinha de vir de algum lugar — que não foi o meu, mas ele teve de se gerir com as coisas que tinha e eu tinha de ir para nós. Portanto, foi muita coisa que estava a acontecer. Não havia outra opção, tinha de ser naquela altura. E nós ainda nem sabíamos o que ainda vinha, de mais tempo de quarentena.

Então não é um fardo que carrega?
Não um fardo que carrego, não. Às vezes penso “acho que elas gostam mais dele”. (risos) Tiveram mais do colinho dele quando eram bebés. Às vezes penso nisso, mas é uma ligação que eles têm, e eu também respeito isso e adoro. Tenho a sorte de ter ali um paizão que elas adoram, nem quero competir.

Agradecimento: Palácio do Visconde — The Coffee Experience

“Labirinto – Conversas sobre Saúde Mental” é uma série de entrevistas do Observador que faz parte do Mental, a secção do Observador dedicada a temas da Saúde Mental. Em cada conversa, os convidados — figuras públicas de várias áreas, da política ao entretenimento — fazem um relato pessoal e detalhado da forma como lidaram ou lidam ainda com problemas de saúde mental — os sintomas, os tratamentos, as recaídas e a recuperação — num esforço para combater o estigma associado a este tipo de doenças. Pode ler aqui as entrevistas anteriores: