Comboios são promessas a passar e no Entroncamento, cidade ferroviária conhecida como “a terra dos fenómenos”, as partidas e chegadas sempre fizeram parte da identidade local. A expressão nasceu algures na década de 1950, quando Eduardo O. P. Brito, funcionário da CP, começou a relatar nos jornais episódios insólitos ocorridos na cidade. A sucessão de histórias bizarras criou a febre dos “fenómenos do Entroncamento”.
A 12 de outubro, a cidade voltou às manchetes por razões menos folclóricas do que carneiros com quatro cornos ou abóboras de 60 kg. Foi ali que André Ventura, líder do Chega, acabou a noite das últimas eleições autárquicas, por se tratar da câmara conquistada pelo partido mais perto de Lisboa (as outras foram Albufeira, no Algarve, e São Vicente, na Madeira). Para quem ali vive, porém, o resultado não foi uma surpresa. Aliás, a vitória do Chega era “previsível”.
É este o cenário de Entroncamento, a segunda longa-metragem do realizador Pedro Cabeleira, que chega às salas de cinema a 26 de março. Depois de Verão Danado (2017), retrato de uma juventude em fuga para Lisboa, o cineasta faz agora o movimento inverso: regressa à cidade onde nasceu para filmar quem ficou, marcada pelas tensões e frustrações de que o partido de direita radical também se alimenta. O Entroncamento que Cabeleira deixou para trás aos 18 anos, quando rumou à capital em busca de mundos e horizontes (“Tentei pôr de lado o sítio de onde vim, quis descobrir outra coisa”), é distinto do que hoje existe.
É difícil entrar nos cafés e ouvir as conversas sobre tudo e nada, confessa. “Isto é muito pequeno, o problema é esse.” Evita esses lugares de convívio, como se as paredes tivessem ouvidos, e senta-se para a conversa com o Observador num banco de uma praça quase deserta. Sempre que alguém atravessa o largo, a conversa abranda. É sábado e o sol cai, duro, queimando as cabeças e alongando as sombras sobre a calçada.
O amigo de infância com quem jogava à bola, Nelson Cunha, é o novo presidente da Câmara do Entroncamento, eleito após a vitória do Chega, que rompeu com 12 anos de governação socialista. “A primeira pessoa que filmei que queria ser ator foi ele”, recorda. “Quando fui inscrever-me na escola de cinema, em Lisboa, ele veio comigo. Fomos os três: eu, o meu pai e ele. Ele candidatou-se a ator, eu a cinema. Não entrou. Se calhar, se tivesse entrado, hoje era ator e não estava aqui a fazer… pronto.” A frase fica suspensa. Cabeleira reconhece carisma ao novo autarca e evita alimentar antagonismos. “É um tipo carismático. Tenho pena que seja pelo Chega.” Mas a relação pessoal não se apaga. Até porque o presidente da câmara viu o filme. E gostou.
“Se estou a fazer um filme sobre o Entroncamento, é impossível fugir às questões políticas”, diz com menos pruridos. “Há uma responsabilidade ética com a atualidade. O Entroncamento, como se veio a comprovar, é uma cidade em que as tensões sociais existiam. A cidade é pacata, mas dentro das casas e dos cafés há muita coisa. E o filme não podia fugir a isso.”
Entroncamento rouba o título ao nome do segundo município mais pequeno do país para fazer o retrato de um território periférico marcado por desigualdade de oportunidades, que cria um terreno fértil para esquemas de pequeno crime. Podia ter sido um thriller sobre tráfico de droga, povoado por indivíduos fora-da-lei que alimentam a má fama de uma cidade. Não se pode dizer que falta ação ao filme, mas o olhar de Pedro Cabeleira prefere a complexidade à caricatura, a compaixão ao julgamento. Nas personagens vislumbra-se uma realidade mais ampla: a crescente multiculturalidade, o impacto da imigração num meio pequeno, a persistência da misoginia, a violência de género. A par dessas fraturas, sobressaem também a esperança, a resiliência e a determinação de alguns para sobreviver e continuar a sonhar contra todas as probabilidades.


“A ideia foi fazer quase um contracampo do primeiro filme, ou seja, o primeiro era sobre quem tinha saído e o segundo era sobre quem tinha ficado, eram aqueles que estavam a olhar para o lado.” A expectativa em torno do cineasta era elevada. Com Verão Danado (2017), distinguido com uma menção especial do júri no Locarno Film Festival e rapidamente elevado a filme de culto, Pedro Cabeleira afirmara-se como uma das vozes mais promissoras da sua geração.
Curiosamente, a ideia para a segunda longa-metragem nasceu antes mesmo do reconhecimento do primeiro filme. Começou a escrever o argumento de Entroncamento em 2016, com Diogo S. Figueira, que conhecera anos antes na faculdade de cinema. Ao contrário do que podia esperar, o sucesso de Verão Danado não lhes facilitou a vida. Só à terceira tentativa, em 2020, conseguiram financiamento do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) para fazer o filme que desejavam. Entretanto, Cabeleira realizou a curta By Flávio e, nesses anos de espera, o projeto de Entroncamento foi-se transformando. “A ideia inicial era escrever personagens da minha idade, nos 23, 24 anos, ainda com a adrenalina da juventude. Mas, de ano para ano, eles foram envelhecendo comigo.” A energia deu lugar a um cansaço mais denso: “Já estão no fim da juventude. As expectativas vão diminuindo, estão mais conformados com a realidade”.
Ao mesmo tempo, o filme ganhou uma nova figura central: Laura, uma mulher em fuga de um passado atribulado no bairro do Cerco, no Porto, que decide procurar refúgio no Entroncamento para reconstruir a vida. A personagem, interpretada pela atriz Ana Vilaça, deslocou o centro de gravidade da narrativa e conquistou o justo estatuto de protagonista. Foi em 2019 que essa nova direção começou a afirmar-se, depois de Pedro e a Ana se conhecerem e partilharem uma vida comum. “A Ana começa também a vir cá [ao Entroncamento], a conhecer as pessoas de cá, a discutir a ideia comigo, e começo a amadurecer para algumas coisas. O que ela me disse foi que era ‘um filme de rapazolas’. E isso já há 500″. O cineasta deu-lhe razão e confrontou a masculinidade tóxica que inicialmente observava quase como mitologia. “Era mais interessante desconstruir esse universo através do olhar de uma mulher que vem de fora e consegue ter distância para questionar esses códigos todos”, disse-lhe a atriz.

Realismo, improvisação e dignidade
Tal como em Verão Danado, Entroncamento, que tem direção de fotografia de de Leonor Teles, foi filmado com câmara ao ombro. “Quis manter mais ou menos o mesmo tipo de linguagem, uma coisa mais punk, mais de guerrilha”, explica. O argumento nunca esteve totalmente fechado. “Havia momentos de conflito que queria trabalhar, mas os diálogos nasciam muito com os atores”, repetindo takes “para descobrir coisas, no fundo”. “Ao décimo não estás a repetir, estás a descobrir”, acredita.
No elenco, optou por misturar atores profissionais — Rafael Morais, com quem trabalhou pela primeira vez, ou parceiros de outras aventuras, como Tiago Costa, Cléo Diara, Sérgio Coragem (que já tinham participado em Verão Danado) — com outros menos experientes ligados à cidade. A construção das personagens, sublinha, foi feita em diálogo constante com quem as interpreta.
Difícil foi encontrar o ator que desse corpo a Virgílio (ou Gilinho), um jovem cigano que se revela uma peça decisiva na arquitetura do filme. “Andava desesperado. Era um papel muito delicado e eu não queria uma pessoa não cigana a fazer um personagem cigano”, explica. “Não era fácil encontrar uma pessoa cigana que aceitasse fazer aquele papel. É de uma grande exposição, é preciso muita disponibilidade e uma enorme abertura para se expor com aquela fragilidade”. Fez castings vários, mas sentia que faltava sempre qualquer coisa e chegou mesmo a pensar desistir (e cortar a personagem do argumento) quando encontrou Henrique Barbosa. Foi através de Maria Gil, atriz e ativista cigana, que também participa no filme. “Foi ela que me falou que tinha conhecido há muitos anos este rapaz em Coimbra num workshop de teatro.” Henrique demorou a responder ao primeiro contacto, mas, quando finalmente se encontraram, a decisão foi imediata.

“É um amigo que ganhei para a vida e presença dele levou o filme e os temas do filme para outro lugar.” É uma personagem “com muitas nuances, muitas áreas cinzentas, que se tinha que fragilizar muito também”. Trata-se de um homem cigano que vive com uma mulher negra (Cleo Diára) e navega conflitos dentro da própria comunidade — uma personagem que o filme recusa reduzir a rótulos, mostrando-a antes como um ser humano pleno de ambiguidades.
Num território onde as tensões com a comunidade cigana são antigas — e onde o crescimento eleitoral do Chega é um dado incontornável — a escolha ganha um peso político, ainda que o realizador recuse a instrumentalização do filme como um panfleto. “O Entroncamento tem muitas questões com a população cigana, o facto de o Chega também ter cá muita força… Partiu tudo daí, não é? Queria mostrar que muitas das questões que existem resultam do desconhecimento. Se as pessoas se conhecerem melhor muita coisa pode ser ultrapassada. A personagem é cigana precisamente por isso. E o que o Henrique traz é uma humanidade gigante.” A crítica reconheceu essa força: Henrique Barbosa venceu o Prémio Revelação no Caminhos do Cinema Português, em 2025, onde o filme arrecadou também o prémio de Melhor Realização.
A câmara aproxima-se dos rostos, sem filtros nem paternalismos. Entroncamento obriga o espectador a permanecer diante das contradições das suas personagens que, diz o autor, “têm de ser tratadas com dignidade”. “Dignidade não é higienizar. É olhar de forma horizontal”, repara. Pedro Cabeleira critica o excesso de zelo do cinema atual que, por vezes, transforma realidades complexas em retratos estéreis.
“Hoje em dia há muita pressão, porque há uma coisa que é um facto: a maior parte dos realizadores europeus, e principalmente os realizadores portugueses, são pessoas brancas. Obviamente que há uma responsabilidade quando se vem de um lugar de privilégio e se quer retratar realidades diferentes, tem que haver um cuidado. Mas depois existe um excesso de zelo que acaba por ter um efeito que sinto que está, de repente, a proteger muito o realizador e não a falar da realidade. O realizador tem medo da forma como o aborda porque tem um interesse genuíno naquele mundo, mas depois está-se a proteger de tal maneira que aquele mundo fica uma coisa estéril, vaga.” Resume: “As intenções são boas, mas, às vezes, protege-se demasiado o realizador e perde-se humanidade.”
Um espelho desconfortável
Entroncamento, uma produção de Abel Ribeiro Chaves (Optec Filmes), Vasco Esteves, Edyta Janczak-Hiriart (Kometa Films), com distribuição da Urtiga, estreou-se na secção ACID do Festival de Cannes, em maio de 2025, e foi recebido com grande entusiasmo no Lisbon & Estoril Film Festival, em novembro, com uma sala cheia — muitos vindos do próprio Entroncamento.
A coincidência temporal entre a estreia do filme e o novo contexto político local, porém, é difícil de ignorar, como notou Paulo Branco, aquando da apresentação da sessão. “Estas questões já existiam há três anos…”, tenta relativizar o cineasta. “Mas espero que as pessoas olhem para este filme e tentem perceber o que se anda a passar.”
“Há filmes que caem muito na retórica, são muito diretos do ponto de vista político. O filme não é muito político”, considera. “O filme trabalha é uma sensação de falta expectativa, que acho que pode ser interessante para as pessoas também que querem refletir sobre estes temas e tentar perceber a complexidade do que está a acontecer nestes sítios que estão a ir para o lado do Chega. Podem tentar, através do filme, descobrir algumas chaves sobre porque é que estão a falhar na forma como comunicam com a população.”
O filme contou com apoio financeiro do município e o anterior executivo, socialista, esteve presente na estreia. Questionado sobre se, em consciência, hoje recusaria esse apoio, o realizador hesita: “Por princípio, acho que não pediria. Ou então se calhar pediria. Não sei. É uma pergunta muito difícil.” O que afirma com clareza é: “Não me revejo em absolutamente nada do que está por trás do atual executivo. Há valores que são mais importantes do que direita ou esquerda. Não é uma questão partidária. É uma questão de princípio.”
Cabeleira está longe de acreditar que o cinema, por si só, mude convicções políticas. “Espero que quando as pessoas forem ver o filme se questionem. Não acredito, infelizmente, que as pessoas vão mudar quando virem o filme.” E dá um exemplo: “Tenho certeza que grande parte das pessoas que votam no Chega gostam do América Proibida. Vão dizer que é um grande filme, ficam muito comovidos por ele depois ir para a prisão, e é um gajo que era nazi e de repente é salvo por um negro e não sei o quê. Ficam muito comovidos com isso, mas vão votar, vão lá pôr a cruz.”

Ainda assim, espera que o filme consiga provocar empatia. “Sei de pessoas do Entroncamento que foram ver o filme e que me disseram: ‘pá, chorei tanto com aquele cigano’. Gostava que o filme conseguisse trazer esse lado de humanizar o outro, que é uma coisa que não está a acontecer. Estamos a passar por um processo de desumanização brutal. O que o André Ventura e os amigos do partido fazem é uma desumanização horrenda. Gostava que o filme trouxesse essa humanidade para pessoas que estão, nos últimos cinco ou seis anos, a ser sucessivamente desumanizadas no nosso país.”
Em Cannes, Entroncamento mostrou-se sob o nome Night Passengers, mas em França, onde se estreia nos cinemas em junho, manterá o título original. “É uma sorte ter um nome que já desperta curiosidade”, diz Pedro Cabeleira, certo que, no fim, o filme ultrapassa a geografia. “Espero que consigam ver que o filme é um espelho que não é só do Entroncamento. É do resto do país”.