Ian Huntley, condenado por matar duas crianças em 2002 no Reino Unido, está em estado crítico depois de ter sido brutalmente atacado na manhã da última quinta-feira por outro recluso na prisão de alta segurança de Frankland, em Durham, Inglaterra, noticiou a BBC.
“Huntley estava a trabalhar na gestão de resíduos com outros reclusos na ala A”, quando foi violentamente agredido, revela uma fonte ao Daily Mail. As repetidas pancadas com uma barra de ferro de quase um metro deixaram-no ferido de tal forma que foi preciso colocá-lo em coma induzido para ser transportado para o hospital. Tem apenas 5% de hipóteses de sobrevivência. “Pegou numa barra de metal das caixas de sucata e golpeou Huntley na cabeça. Foi um ferimento muito, muito grave”, revela a mesma fonte ao jornal.
“Consegui! Consegui! Matei-o!”, ouviu-se do suspeito de atacar Huntley, no meio de gritos de vitória de outros reclusos, relata o Daily Mail. O alegado agressor chama-se Anthony Russell, tem 43 anos e está preso há cerca de cinco anos por matar três pessoas em outubro de 2020: Julie Williams e o seu filho David Williams, e Nicole McGregor, que estava grávida.
Não foi a primeira vez que Ian Huntley foi atacado dentro de uma cadeia. Em 2005, um recluso atirou-lhe água a ferver na prisão de Wakefield, Inglaterra, e, em 2010, um outro tentou cortar-lhe a garganta com uma lâmina de barbear. Em maio de 2018, Huntley disse ter sido alvo de outra tentativa de homicídio na sua própria cela, relembra o The Sun. Os serviços prisionais temiam pela sua segurança, pelo que o vigiavam de perto, e o homicida sabia que corria riscos, face à brutalidade do crime que o colocou atrás das grades em 2003.
Em agosto de 2002, o auxiliar de educação de uma escola em Soham assassinou Holly Wells e Jessica Chapman, ambas de dez anos. As duas amigas saíram de um churrasco familiar em Soham, perto de Cambridge, a 4 de agosto de 2002, para irem comprar doces e nunca mais ninguém as viu com vida. Estiveram desaparecidas 13 dias tendo sido montada uma gigantesca operação de busca, uma das mais intensas da história criminal britânica, lembra o The Guardian, com 400 polícias envolvidos.
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No movimento que procurava as duas meninas participou o conhecido Manchester United, de que Holly Wells e Jessica Chapman eram adeptas. Aliás, tinham uma camisola do clube vestida quando desapareceram. David Beckham, na altura capitão dos red devils, lançou um apelo público no dia 6 de agosto, em nome de toda a equipa: “Por favor, voltem para casa. Não estão em nenhum tipo de sarilhos. Os vossos pais amam-vos profundamente e querem-vos de volta”.
Dez dias depois, o plantel do Manchester United vestiu as camisolas para gravar um novo apelo, agora de Sir Alex Ferguson, treinador da equipa. “Todos os jogadores estão aqui a torcer e a rezar para que Jessica e Holly voltem para casa em breve. Os nossos corações estão com as famílias. Ninguém consegue imaginar o que elas devem estar a passar. Peço à população que apoie a polícia e entre em contacto com as autoridades, caso tenha alguma informação. Todos ao meu redor querem que as meninas voltem para casa, aonde elas pertencem. A vossa ajuda pode fazê-lo acontecer”, pediu Alex Ferguson, noticiou então toda a imprensa britânica, como o Telegraph, por exemplo.
O apelo do mítico treinador escocês foi feito um dia antes de os corpos de Holly Wells e Jessica Chapman serem encontrados, numa vala, perto da base aérea de Lakenheath, em Suffolk. O caso que estava a emocionar o Reino Unido passou a chocar ainda mais o país quando se descobriu que o homem que se mostrava preocupado e até ajudara nas buscas — — era afinal o assassino das duas crianças.
Huntley chegou a dar entrevistas a diversos meios de informação britânicos, dizendo que se agarrava a uma “réstia de esperança” para que as meninas aparecessem com vida e bem, na altura em que ainda eram procuradas.
E foram essas declarações que levantaram as primeiras suspeitas sobre Ian Huntley. “Disse-me que achava que a Holly provavelmente entraria no carro e iria embora discretamente, mas que a Jessica não faria isso. Que daria uma verdadeira luta e resistiria a sério”, contou Brian Farmer, jornalista que o entrevistou na altura. “Ele sabia como elas reagiriam porque foi essa a reação delas quando ele as matou“, revelou Farmer à BBC. A presença de Huntley nos jornais não passou despercebida. Muitas pessoas que o conheciam prestaram informações à polícia referindo que o homem tinha “‘um longo histórico de mau comportamento com crianças'”, relembrou o jornalista. Por outro lado, enquanto ajudava nas buscas, fazia perguntas insistentes sobre quanto tempo duravam as provas de ADN, o que foi chamando a atenção da polícia.
Huntley tinha, no entanto, um álibi, que se viria a revelar falso. Maxine Carr, na altura namorada do auxiliar de educação e que trabalhava na mesma escola, garantiu que estava com ele em Soham na noite do crime, quando na verdade estava em Grimsby. Uma mentira que a levou a ser condenada a 43 meses de prisão por conspiração e obstrução à justiça. Presa em 2003, Maxine foi libertada em 2004, tendo-lhe sido atribuída uma nova identidade.
A investigação acabou por provar não só que Huntley tinha assassinado as duas meninas, como que aproveitou o facto de trabalhar como auxiliar de educação na escola onde as duas amigas estudavam para as atrair para sua casa e as asfixiar.
“Lamento o ocorrido e tenho vergonha do que fiz. Aceito que seja responsável pelas mortes de Holly e Jessica, mas não há nada que eu possa fazer agora. Gostaria sinceramente que houvesse”, disse Ian Huntley no mesmo tribunal onde Carr depôs. Ainda assim, negou qualquer intenção de matar as crianças, dizendo que estava a tentar ajudar Holly Wells, que alegadamente estaria a sangrar do nariz, a estancar o sangramento. Por isso mesmo, disse ter convidado as duas raparigas a entrar em sua casa e a ir à casa de banho, onde Holly se afogou acidentalmente, alegou. “Em pânico”, continuou Ian Huntley, com medo de se ouvirem os gritos de Jessica, afogou-a. Depois, ateou fogo às suas roupas, incluindo as camisolas do Manchester United, confessou. E ainda admitiu ter feito perguntas à polícia sobre as buscas para tentar apagar os seus eventuais vestígios.
Ian Huntley foi condenado em dezembro de 2003 a duas penas de prisão perpétua, tendo o juiz estipulado um período mínimo de 40 anos na cadeia antes de qualquer possibilidade de liberdade condicional. Isto significa que, se Huntley sobreviver ao violento ataque que sofreu, só poderá requerer a sua libertação em 2042.
O Manchester United não esqueceu as duas meninas. No dia 23 de agosto, no primeiro jogo do clube depois de terem aparecido mortas, os reddevilscumpriram um minuto de silêncio antes de enfrentarem o Chelsea. A mesma homenagem repetiu-se por todos os jogos da segunda jornada da Premier League nesse ano.