Numa ação a todos os títulos exemplar, a Câmara Municipal da Póvoa do Varzim decidiu restaurar para efeitos museológicos a barca salva-vidas que recebeu o nome de um dos históricos marítimos povenses — José Rodrigues Maio (1817-84), “o nosso maior herói” (p. 34) —, organizando durante o processo este livro de obra que é igualmente o elogio de marceneiros e demais artífices, derradeiros representantes de ofícios muito nobres porém ao abandono neste país demasiadas vezes incapaz de se enquadrar devidamente — enquanto leio Cego de Maio. Memória e Recuperação do Salva-Vidas, um diário traz consternadora reportagem sobre o irremediável declínio das oficinas de construção dos barcos moliceiros, na ria de Aveiro, uma das mais notáveis criações da nossa cultura popular… Esta ação é tanto mais notável quanto teve origem na pessoa do almirante António da Silveira Ribeiro, o chefe do estado-maior da Armada que em 2017 viu exposta no Museu Municipal a muito degradada embarcação e propôs à autarquia a sua reabilitação, e cinco anos depois lhe homenageou o patrão, dando o seu nome ao novo e moderno salva-vidas de 15 m de comprimento a serviço da Capitania da Póvoa do Varzim e Vila do Conde desde Abril de 2022, “um marco na salvaguarda da vida humana no mar e na modernização do Instituto de Socorros a Náufragos” (p. 159) produzido nas oficinas do Arsenal do Alfeite, em Almada.
Na verdade, o livro regista tanto a reabilitação do salva-vidas do século XIX como a construção daquele do século XXI, realizadas em simultâneo.
O relevo dado a esta campanha foi ainda ampliado pela trasladação para o Panteão Municipal dos restos mortais dos sucessivos responsáveis pela embarcação restaurada: além do já referido mestre salva-vidas, também o Patrão Lagoa (1886-1919; foto p. 23) e o Patrão Ladinho (?-1939). Três anos antes de morrer, Maio recebeu a medalha do ouro da Sociedade Humanitária do Porto, que lhe foi aposta pelo próprio rei D. Luís I, que então também o institui Cavaleiro da Ordem de Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito, em cerimónia realizada no Palácio de Cristal. Um retrato fotográfico em tamanho natural de José Rodrigues Maio, pertencente à Irmandade de Nossa Senhora da Assunção, está em destaque na sala marítima do Museu Municipal (v. pp. 20, 75).

O Real Instituto de Socorros a Náufragos foi criado pela rainha D. Amélia em 1892, que o dirigiu até 5 de Outubro de 1910. Na Póvoa operavam três salva-vidas, um dos quais com o nome da monarca e pintado a azul e branco. “Causou grande embaraço” (sic — p. 23) ao regime republicano que esse mesmo barco, que escapara à totalitária fúria jacobina de tudo renomear em seu louvor, tivesse sido decisivo no resgate dos tripulantes do cruzador São Rafael, naufragado um ano depois na foz do Ave. Em 1912 passou a chamar-se Cego do Maio, recebeu à proa o escudo da República para tira-teimas sobre quem mandava no país, mas esperou até 1919 pelas “grandes reparações” que há muito necessitava. Vinte anos depois foi substituído pelo antigo Sado (outrora Príncipe D. Luiz), proveniente do Portinho da Arrábida, em Setúbal, “uma construção inglesa” (p. 39) também ela largamente reabilitada para o efeito — e, afinal, o salva-vidas objecto da notável intervenção do mestre carpinteiro naval José dos Santos Viana.
Este salva-vidas com duas proas, fundo largo, barra de aço na quilha e robaletes na parte mais bojuda do casco a garantirem-lhe estabilidade, tubeiras de vazamento, adriçamento assegurado por castelos arredondados e quilha metálica, exigia tripulação de doze remadores, todavia nem sempre fáceis de reunir (“ao longo do tempo, é possível reportar várias situações em que o barco não prestou serviço por falta de homens para o tripular”, p. 34), seja pela perigosidade da função seja por baixa remuneração e vínculo ocasional, mas a sua presença preventiva na barra em momentos de forte agitação marítima sossegava pescadores de volta a casa e famílias em desesperante angústia. Maria de Jesus Rodrigues admite que só a partir da década de 1960 tripulações fixas compostas por militares da Armada vieram “assegurar todas as tarefas tendentes à manutenção da embarcação e, principalmente, manter um alto grau de operacionalidade e prontidão”, o qual durou até 1975, quando “terminou, na Póvoa, a época dos salva-vidas movidos a remos” (p. 35).
A reabilitação do Cego do Maio — sem poder dispor do seu original projeto de construção — permitiu estudar a fundo a sua “ossada”, espelhada nas plantas das pp. 56, 58-59, 60-65 (“a partir deste plano geométrico qualquer construtor naval pode dar vida a um barco igual”, p. 58, ou “possível réplica”, p. 92), e identificar intervenções anteriores, que por vezes levaram ao enfraquecimento da sua estrutura e a incongruências nas madeiras aplicadas, ou buscaram apropriar-se da libra ou meia-libra em ouro que, por tradição, a título de amuleto os armadores mandavam fixar oculta no cadaste da popa; ou sigla poveira dos Lagoa, indicativa da família de dois dos patrões do Cego do Maio (foto p. 125) e a sua “posse emocional” (sic) de um barco ao qual diferentes membros do mesmo clã “se encontraram com tanta dedicação ao longo de várias gerações”.
Toda a operação, documentada fotograficamente, decorreu durante sete meses na Sala do Mar do Museu Municipal da Póvoa do Varzim, em que a embarcação de 10m se destaca, evitando-se mais danos à sua estrutura por novo transbordo imprudente. Depois da renovação de vários elementos estruturais e dos tabuados externos e internos, usando tábuas cruzadas de pinho manso tratado e um pano-cru de algodão embebido em óleo de linhaça entre elas, foram substituídos o pavimento do convés, os seis bancos duplos para os remadores e os respetivos apoios de pés, as bancadas ao longo das amuradas e outros elementos, até que se chegou à fase da pintura a tinta de esmalte, com as cores, os motivos decorativos e as letras preexistentes. A especificidade deste “complexo e cauteloso restauro” (p. 156) mereceu uma sessão pública de esclarecimento, a 30 de maio de 2018, em que o mestre carpinteiro, atualmente à beira dos 80 anos de idade, relatou a autoridades marítimas e outras, além da assistência local, o seu trabalho no que transporta de conhecimento dos modos e meios da antiga construção naval, pelo que a campanha do Cego do Maio ganha relevância também para o que deve ser considerado como uma história da construção naval portuguesa, com capítulos gloriosos e com outros ainda, mais modestos certamente — mas não menos dignos de memória.