É a primeira vez que nos encontramos — encontrar é um verbo generoso porque, na verdade, estamos e ver-nos pelo Zoom, com cerca de nove mil quilómetros pelo meio —, mas a conversa desvia-se do guião tantas vezes que parecemos “duas amigas a pôr a conversa em dia”. Não é esta que vos escreve quem o diz, é Daniela Ruah, que a partir da casa onde vive em Los Angeles fala da experiência de narrar Os Segredos da Seita do Yoga — o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de dezenas de portuguesas que se tornaram seguidoras de um guru manipulador que acabou acusado de exploração sexual e tráfico humano.
Para concretizar o projeto, teve de encontrar “uma certa neutralidade sem parecer aborrecida com a história”. Ajudou-a o facto de ser uma ávida ouvinte de podcasts. “Aliás, tenho de ignorar o lado de atriz porque, se não, estaria a adicionar emoção. Oiço muitos podcasts de crime, como o 48 Hours, da CBS, onde contam uma história que começou há 20 anos e têm entrevistas desse período, vão às prisões, entrevistam as vítimas, etc. Gosto desse jornalismo aprofundado e factual.”
Mais para a frente, fala de audiolivros pelos quais tanto a própria Daniela como os filhos são apaixonados; de como adorava ver O Barco do Amor e O Justiceiro; dos primeiros tempos tão solitários em Los Angeles que a levaram a ir buscar uma cadela a um canil; e do período em Nova Iorque, antes da fama internacional, onde viveu anos felizes entre amigos, como uma espécie de Friends, versão portuguesa. Por falar nisso, Daniela Ruah depressa deteta uns intrusos na estante atrás desta que lhe faz as perguntas — estante que já não tem apenas livros: são os apartamentos da série Friends em Lego. “Não acredito, nunca tinha visto! As cadeiras mexem? Adoro que tenha o detalhe dos holofotes do estúdio”, diz.
[o trailer de “Os Segredos da Seita do Yoga”:]
https://www.youtube.com/watch?v=ljuUnrHQ9-s&embeds_referring_euri=https%3A%2F%2Fobservador.pt%2F&source_ve_path=MjM4NTE
Fazer Lego, puzzles ou desenhar foca-a. À noite, quando a casa está tranquila, os miúdos estão a dormir e já não há emails a chegar, liga o iPad, coloca uma série como ruído de fundo e concentra-se no simples ato de encontrar a peça certa. Os puzzles mais especiais têm direito a moldura — à espera de ser pendurado está um que replica a secretária de um ilustrador da Pixar. Mostra-me também dois quadros com valor sentimental que terão um espaço especial na parede. “Quando os miúdos eram mais pequenos, pedi-lhes que fizessem construções de Lego e depois eu fiz o desenho da construção e pintei com aguarelas.”
Gosta mais de desenhar do que pintar, confessa, e o artista preferido é Norman Rockwell. “Se calhar é um bocadinho cliché, mas prefiro coisas figurativas a abstratas. Cada quadro dele poderia ter toda a história de um filme. Desde pequena que me lembro de termos na sala aqueles livros de coffee table, ficava horas a ver a história por detrás das coisas.”
Demasiado irrequieta para a dança
Daniela Sofia Korn Ruah nasceu a 2 de dezembro de 1983 em Boston, no estado do Massachusetts, EUA. Viveu naquela cidade americana durante um ano, antes de a família se mudar para o Minnesota. O pai, Moisés Ruah, cirurgião de otorrinolaringologia e a mãe, Catarina Korn, médica audiologista. As memórias que ainda guarda dessa fase são da pré-primária. “Andava numa escola chamada YMCA e adorava as educadoras, eram todas novas e muito divertidas. A minha mãe contratava-as de vez em quando para fazerem babysitting e tenho uma foto ao colo delas no apartamento dos meus pais.”
Há cerca de um ano, uma dessas educadoras, com quem nunca mais tinha falado, entrou em contacto com Daniela no Instagram. “Enviou-me fotos que condizem com a que tenho. Foi uma infância muito feliz, sinto que me marcou muito.”

Aos cinco anos, os Korn Ruah mudaram-se para Portugal, mais precisamente para Carcavelos. Daniela estudou na St. Julian’s School, em Cascais, onde os professores concordavam que era irrequieta e não conseguia focar-se. Começou a ter aulas de dança na Manjericão — “na altura a escola era numa cave, num espaço atrás do café São Jorge, em Carcavelos”. Porém, a falta de atenção — “acho mesmo que era hiperativa, embora não tenha sido diagnosticada” — levou a que a professora recomendasse uma mudança de trajetória. “Fui educadamente convidada a sair e a professora disse-me que devia ir para a ginástica. Foi a melhor coisa que ela podia ter feito.”
Dos oito aos 12 anos fez ginástica rítmica e desportiva. “Ainda há pouco tempo uma amiga enviou-me um vídeo — a mãe dela gravava tudo com aquelas câmaras de cassete — de uma rotina que fiz com corda”, conta.
Aos 12 regressou à dança com técnica, disciplina e maturidade, e começou a ter aulas de teatro com a atriz Teresa Côrte-Real. “Foi aí que começou a minha paixão pela representação.”
Às sextas-feiras à noite havia jantar em casa dos avós paternos e isso também queria dizer “espetáculo para todos”. Ela é a mais velha de oito primos (embora nem todos fossem nascidos na altura), que passavam horas a inventar músicas e a treinar coreografias. “No final, os adultos tinham de se sentar no sofá a ver”, lembra. “E o mais engraçado é que a minha filha agora faz o mesmo.”
Com 15 anos, num dia como qualquer outro, regressou a casa e ligou a televisão para ver O Barco do Amor. “Adorava O Barco do Amor e o Kit [O Justiceiro].”
Por esta esta altura do campeonato já percebemos que partilhamos a idade e a mesma nostalgia pelos anos 90. “E qual era o outro?”, pergunta. Sei logo do que fala e nem é preciso fazer mímica: “Esquadrão Classe A, também dobrado em brasileiro.” “Era isso! Tinha o Cara de Pau, adorava.”
De volta à programação dos anos 90, Daniela ligou a televisão e um anúncio da TVI estava “à procura da nova namoradinha de Portugal para uma novela.” Falou com os pais e disse-lhes que queria inscrever-se no casting. A avó acompanhou-a então ao teatro Vasco Santana, junto da antiga Feira Popular de Lisboa. “Na altura nem sequer tinha headshots, levei fotos que a minha mãe me tinha tirado nas férias.”
Foi chamada para o casting, juntamente com outras 1500 adolescentes, passou à segunda fase e o resto está registado em Jardins Proibidos (2000), onde é Sara, uma jovem judia, melhor amiga da personagem de Vera Kolodzig, que ficou com o papel de protagonista. Nessa altura, ganhava 150 contos (o que seriam hoje cerca de 750€) por seis dias de trabalho. “Não tínhamos noção de que as horas de trabalho eram um abuso, nem sabíamos o que era negociar, mas aquilo foi uma altura muito divertida nas nossas vidas.”
Do elenco juvenil faziam também parte Maya Booth, Teresa Tavares ou Diogo Valsassina. O desconhecimento do funcionamento num set de gravações estendia-se também à regulamentação relativa aos estudos, mas o grupo tinha muita disciplina. “Tínhamos a mesma idade e sentávamo-nos sossegadinhos a fazer os trabalhos de casa e a encorajarmo-nos uns aos outros.”
Depois surgiu o convite para uma segunda novela, Filha do Mar (2001), numa altura em que Daniela Ruah ainda não tinha decidido deixar a dança. Aos 18 anos foi estudar para Londres, Reino Unido — na verdade, queria ter ido logo para Nova Iorque, EUA, mas a mãe pediu-lhe que não desse esse salto para tão longe. “Sou filha única do lado da minha mãe [os pais separaram-se quando tinha dez anos e, do lado do pai, tem um irmão 24 anos mais novo] e somos muito próximas”, justifica.
Escolheu estudar Artes Performativas para conseguir conciliar representação e dança. Porém, rapidamente percebeu que a dança não seria uma boa aposta a longo prazo. “Nunca quis que o meu corpo me dissesse ‘acabamos, ficamos por aqui na carreira’. Não queria abrir uma escola de dança, não queria ser coreógrafa, não queria nada das coisas que viriam a seguir a ser dançarina, portanto fui pela parte da representação porque, literalmente, podemos representar até ao dia que morremos.”


Trabalhou num pub irlandês e, quando regressou a Portugal, arranjou trabalho no bar do Coconuts, que tinha frequentado quando era adolescente e onde acabaria por casar-se em 2014. Fez mais duas novelas, Dei-te Quase Tudo (2005) e Tu e Eu (na qual foi protagonista, 2006), e voltou a enfiar-se num avião. Agora, sim, destino: Nova Iorque. Estudou no Lee Strasberg Theatre and Film Institute. Fez filmes de estudantes e curtas metragens, muitos trabalhos à borla para ganhar currículo. “Estava acompanhada de pessoas de Portugal [como a atriz Benedita Pereira], ou seja, falávamos a nossa língua em casa, tínhamos o nosso grupo e andávamos todas na mesma escola de representação. Havia ali uma espécie de versão portuguesa de Friends e foi super divertido.”
No início de 2009 fez um casting para aquilo que viria a ser um spin off da série Investigação Criminal. Foi chamada para a segunda fase de Investigação Criminal: Los Angeles, em Los Angeles, e no final, a diretora de casting segredou-lhe ao ouvido: “Não é oficial, mas ficaste com o papel”. A série teve luz verde e as personagens foram introduzidas na série mãe. Daniela gravou dois episódios e voltou para Nova Iorque. Entretanto, viajou para a Europa para participar no filme Red Tails, de 2012, de George Lucas, e no regresso só teve tempo para fazer de novo as malas e mudar-se definitivamente para Los Angeles. Era oficial: Investigação Criminal: Los Angeles tinha data de estreia marcada para 22 de setembro de 2009.
A fase mais solitária, a cadela Roxy e o colega que lhe deu a mão
A fase mais empolgante da carreira, ao conseguir o papel de Kensi Blye numa mega produção de Hollywood foi também a de maior solidão. “Tinha toda a sorte do mundo, trabalhava numa série espetacular, mas no final do dia cada um fecha a sua porta e és só tu. Muitas vezes nem conseguia ligar à minha mãe por causa da diferença horária.” Um dia foi a um canil e adotou uma cadela, Roxy, que a acompanhou até ao ano passado — morreu com 14 anos.
A primeira pessoa a dar-lhe a mão foi Chris O’Donnell (colega de elenco que interpreta G. Callen). Num dia de Ação de Graças — “nos EUA é uma festa tão importante quanto o Natal” — convidou-a para ir a casa dele e esse gesto marcou Daniela para sempre. “Não havia lá mais ninguém, era só mesmo a família dele. Nunca mais me esqueci porque ele não era obrigado a convidar-me, mas fez questão porque sabia que eu não tinha para onde ir.”
Pouco depois, numa festa na praia, conheceu David, irmão de outro colega na série, o seu parceiro e “namorado” Eric Olsen, e de quem já lhe falavam há muito. A ligação foi instantânea mesmo sem saber inicialmente quem ele era. David viria também a trabalhar como duplo na produção, além de ter igualmente há largos anos uma empresa de portas de segurança.
Investigação Criminal: Los Angeles teve 320 episódios, esteve no ar entre 2009 e 2023 e Daniela Ruah nunca teve vontade de deixar o projeto porque conseguia ter uma rotina familiar estável — o filho River nasceu em 2013 e a filha Sierra em 2016 — e sentia-se bem no set. No entanto, considera que o ciclo se fechou no tempo certo. “Senti um alívio de agora estar completamente disponível para fazer tudo o que era preciso com os miúdos, render-me à vida de casa. O final também coincidiu com a greve dos escritores, ninguém estava a trabalhar. Ou seja, tirou de cima a pressão de: ‘OK, esta série acabou, estou a gozar da vida de casa, mas tenho que arranjar trabalho’. Não havia trabalho, estava tudo parado.”
Do set não roubou nada, garante, mas levou para casa (com as devidas autorizações) muitos adereços de Kensi. Entra no closet e começa a mostrar-me vários pares de botas, incluindo umas que têm uma etiqueta com o nome “Kensi” no interior. “Isto era para não serem confundidas com as dos duplos.” Se usa tudo? “Claro!”
O que já não utiliza é a rulote que também tinha trazido da série — era o camarim que tinha nos bastidores. Esta, contudo, não foi “emprestadada”. “Nos sets eles alugam as rulotes para os atores e pensei: ‘Porque não comprar uma, ser eu a arrendá-la ao estúdio e receber o dinheiro da renda?”
Com o fim das gravações, ficou estacionada em casa de Daniela durante algum tempo, mas entretanto foi vendida. Se voltar a ser necessário, compra outra.
Também gosta de guardar os pedaços de tecido das costas das cadeiras com o nome das personagens que geralmente são usados nos bastidores, nos EUA, e de O Grito (minissérie de 2025) guardou um par de brincos. Foi, aliás, com a personagem de O Grito que percebeu que conseguia desapegar-se de Kensi — durante algum tempo achou que não seria capaz. “Começamos a questionar-nos: ‘Será que é só aquilo que consigo fazer? Será que ficou tão gravado na alma que já não consigo fazer mais nada sem aquela personagem’? Mas agora já sei que não é o caso.”
Há meia dúzia de anos, acabada de chegar a Portugal para essa produção, teve um dos maiores sustos da sua vida. O pai sofreu um AVC e, embora tenha ficado com sequelas pequenas e a atriz não tenha o hábito de sofrer por antecipação, está atenta a muitos mais detalhes agora. “Sei que não é genético, mas há vários casos do lado do meu pai e isso preocupa-me. Também sofro de enxaquecas, a minha avó tinha, ninguém sabe se há relação, por isso cuido-me e faço os meus check-ups anuais.”
Come de forma saudável, faz exercício e recentemente voltou a dançar, uma paixão para a qual não teve tempo durante muitos anos, a dança — aliás, participou no Dança Comigo e venceu a primeira edição, em 2006. As suas preferências são o jazz e jazz funk e não vai ficar por aí. “Já encomendei saltos altos para dançar também.”
Uma mensagem de Fernando Daniel perdida durante uma década
Quando Daniela Ruah abriu a mensagem da antiga educadora no Instagram soube que o reencontro (ainda que apenas virtual) tinha acontecido por pura sorte. Das muitas mensagens que recebe por dia, nem sempre tem tempo para ver todas. Foi o que aconteceu a uma mensagem de Fernando Daniel, que ficou perdida (mas guardada) na rede social durante dez anos. Sim, exatamente esse Fernando Daniel, o cantor.
“Conheci-o nos IPMA (International Portuguese Music Awards), que apresento todos os anos. Ele era o cabeça de cartaz, foi muito simpático e eu tinha umas bonitas fotos dele, que lhe tirei quando estava em palco.”
Após alguns dias, decidiu enviar ao cantor as imagens. Como não tinha o número de telefone, recorreu ao Instagram. “Quando abri o separador das mensagens privadas, vi que estava lá uma mensagem super querida que me tinha enviado quando tinha para aí 18 anos. Eu nunca tinha visto e não foi por maldade, ficou só ali perdida.”


Refere o marido e os filhos várias vezes na conversa e garante que está a adorar poder acompanhar o crescimento dos miúdos com toda a disponibilidade do mundo. Sierra tem nove anos e é “uma super leitora e uma super escritora. Adora ficção histórica”. A mãe de Daniela conta que ela começou a ler com quatro anos e a filha adiantou-se ainda mais. “Lembro-me perfeitamente de estarmos em março de 2020, ela tinha exatamente três anos e meio e estava em pé em cima da cama, comigo à frente, a mudar-lhe o pijama. Eu tinha escrito ‘Paris’ numa camisola e ela leu a palavra.”
Daniela foi buscar um papel e uma caneta com várias palavras pequenas e viu, estupefacta, a filha a juntar letras e a formar sons. A partir do dia seguinte tornou-se uma espécie de jogo que incentivou Sierra ainda mais. Daniela descreve-a como “quiet power (força silenciosa)”, enquanto o filho é “loud power (força ruidosa)”. “É mais Jim Carrey, mais palhaço como eu, mas é um orador nato, um entertainer.”
Um dia destes estão a trabalhar todos juntos, sugiro. “Adoraria, seria um presente”, mas rapidamente reconhece que são, também, como todas as outras crianças. “Estou a dizer estas coisas todas lindas dos meus filhos, mas ao mesmo tempo irritam-me imenso. Também me tiram do sério.”
Daniela, a realizadora
Há cinco anos estreou-se na realização em Investigação Criminal: Los Angeles. Precisava do conforto de algo que conhecia bem para se lançar e, na série, repetiu a experiência mais cinco vezes. Entretanto, irá estrear-se como realizadora numa longa metragem, mas o processo está a ser demasiado longo para alguém que não sabe estar quieto. “Tem-me ensinado a ter paciência, mas não é fácil.”
Comprou os direitos do livro de young adult Nowhere Boy em 2022, uma história que tinha inicialmente levado para casa para ler aos filhos. Na história de Katherine Marsh, um miúdo americano que vive em Bruxelas (Bélgica) e está continuamente a arranjar problemas na escola desenvolve uma amizade improvável com um miúdo sírio, refugiado.”
“Tenho um produtor fenomenal que é muito bom a trabalhar com realizadoras mulheres, tem-me ajudado imenso. Trabalhou com a Angelina Jolie em Invencível.”

Têm o “sim” de uma atriz para interpretar a mãe, estão à procura do ator para fazer de pai e segue-se a pesca por financiamento. Daniela tem também uma atriz portuguesa em mente para uma das personagens. “Mas ainda nem lhe fiz o convite, não posso dizer quem é.”
Há outro papel no qual se sente muito à vontade, o de apresentadora. Em 2018 foi uma das apresentadoras do Festival Eurovisão da Canção, na única ocasião em que o concurso aconteceu em Portugal. Conduziu a versão portuguesa de Os Traidores, na SIC, em 2023, e a 10 de março deste ano será a anfitriã da Gala Michelin, no Funchal (Madeira) que atribuirá estrelas aos melhores restaurantes portugueses.
Lá em casa adoram comer — e cozinhar. O filho é mestre a fazer gelados de raiz. “Neste momento temos no congelador um de café, chocolate e manteiga de amendoim e outro de caramelo salgado.”
Ela saliva por bacalhau, mas é a única. Tem sempre no congelador e na última vez em que teve Covid-19 era a única coisa que conseguia comer. “Foi no final de 2022, não tinha paladar, mas a minha mãe fez-me bacalhau com natas e eu comi aquilo todos os dias. Acho que era a recordação do sabor que me sabia bem.”
A mãe mudou-se para os EUA há quatro anos e vive a 20 minutos de distância de Daniela, uma realidade recente que a atriz está a aproveitar com todos os mimos a que tem direito. Do pai também é muito próxima — troca com ele algumas mensagens durante esta conversa — e no verão passa pelo menos um mês de férias em Portugal.
Em casa, fala com os filhos em português. Se forem frases básicas, eles respondem em português. Se forem mais complexas, recorrem ao inglês. “A minha filha tenta ler em português, gosta do desafio.” Aquilo em que todos estão de acordo é a paixão por audiolivros. “O meu filho é mais oral, portanto absorve a informação a ouvir.”
Sugere-me a biografia de Viola Davis, Encontrar-me. “É completamente diferente da experiência de ler, porque é a voz dela, é a expressão dela, é como ela quer dizer as coisas, como quer exprimir-se. É super especial.”
Como num círculo perfeito que nos obriga a desligar esta chamada — já lá vão quase duas horas, em Los Angeles começa o dia e em Portugal é quase hora de jantar —, voltamos a Friends, desta vez com a biografia de Matthew Perry, Friends, Amantes e Aquela Coisa Terrível, que ela ouviu e eu li. Entretanto, Daniela lembra-se que conheceu o ator (que morreu em 2023) há alguns anos, no Natal. “A CBS leva os atores a um hospital para distribuir presentes a crianças hospitalizadas e ele estava lá. Conheci-o, tirámos uma selfie, mas foram só uns minutos, ele devia estar farto de interações do género.”
Ruah sabe bem o que é ser essencialmente reconhecida por um único papel, quando às vezes até está a tentar promover outra coisa. “A nossa série não teve o impacto de Friends, mas precisamos de nos desapegar de um papel, precisamente para nos conseguirmos identificar com outros papéis. Esse desapego não é só uma perceção pública, tem de haver um desapego para nós. É um caminho, estou a fazê-lo.”