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(A) :: Entre a morte dos filhos: Yiyun Li sem redenção nem promessa

Entre a morte dos filhos: Yiyun Li sem redenção nem promessa

Escrito depois do suicídio de dois filhos, "Tudo na Natureza Apenas Continua" é a vida em força bruta. Não procura cristalizar ou sublimar a dor de alguma forma. É uma escrita que ordena o mundo.

Ana Bárbara Pedrosa
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Uma mãe que não pode ser mãe, uma mãe cujos filhos já não estão. E a presença deles, contínua, permanente, como um peso que não cede, não amansa. Vicent morreu com 16 anos, James morreu com 19, nove anos depois do irmão. O abismo é o novo habitat de Li, e é perpétuo. A prosa é íntima, densa, mas objectiva. Não há celebração da tristeza, antes uma reflexão sobre ela e sobre a “aceitação radical” que estas mortes impõem. Assim, Li rompe com a narrativa habitual sobre a perda: nem há redenção nem promessa de reconstrução nem de ultrapassagem. O sofrimento aparece sem etapas previsíveis, não sendo apresentado como um caminho com meta. Em vez disso, existe em linha contínua, e a própria vida segue, não apesar da perda, mas com ela – a perda passa a moldar a vida à mãe.

O leitor dá por si perante uma série de inimagináveis: não apenas a morte de um filho, mas o suicídio deste; não apenas a morte de um segundo, mas outro suicídio. E fica difícil entender-se que vida haverá depois das mortes. O texto vai avançando por fragmentos breves, observações contidas, pequenas descrições de conversas, de momentos, e tudo isto mostra a quem lê a diferença entre os dois rapazes, assim como a sua presença depois da morte. A narração dos próprios factos existe para os manter atados à Terra, à vida. Além disso, seja pelo exercício de memória constante, seja pelo registo em texto, a autora resiste à erosão inevitável do tempo. Ao mesmo tempo, não parece possível que se exista além da ruminação, e ela mesma conta o que se intui: que não há dia, nem haverá, sem que o pensamento esteja nos rapazes.

É uma vida de perda, de vazio, e a autora não aponta redenções nem cola intenções ao sofrimento. Com isto, recusa-se a atribuir sentido onde não há. Portanto, o livro não cria uma narrativa causal reconfortante, nem para quem escreve nem para quem lê. Yiyun Li é perfeitamente cirúrgica, cortante, objectiva, e é isto que engrandece o livro. Não precisa de atirar o sofrimento à cara dos leitores, que este já existe grandemente na premissa. Ao mesmo tempo, sobressai a ideia do respeito pelos filhos, tanto na parte em que não expõe mais do que é devido como na parte em que não explora o próprio sofrimento ou na forma como se dedica a aceitar não só a decisão dos dois, mas também o facto de haver dimensões das vidas deles que lhe permanecerão inacessíveis.

É um sofrimento pragmático, que não precisa de queixa para se validar, que não precisa de mergulhar propositadamente no abismo para lá estar. É por isso que o livro, sem procurar comover, comove: eis ali a vida em força bruta, o sofrimento sem máscaras, sem sublinhados, sem pó de arroz, sem nada. E, ao ler, não há como não pasmar perante tanta disciplina emocional. Também o texto acompanha essa situação. Ao não cair em dramatizações ou amplificações retóricas, a autora escolhe o caminho do controlo e de uma espécie de austeridade narrativa. Perante um colosso de dor, Li usa mãos contidas, o que amplifica o impacto emocional, o que faz com que o leitor veja a realidade sem o facilitismo da mediação sentimental. O vazio está ali com mais força por não haver ninguém que aponte para ele, que o sublinhe, que o grite.

Nisto, também salta à vista que a própria escrita não seja catarse nenhuma. Não há libertação nem alívio. Nem há vontade de expulsar a dor, ou de a cristalizar, ou de a sublimar de alguma forma. Em vez disso, a escrita ordena o mundo, surgindo como uma forma de pensar ou de organizar a experiência sem a domesticar à ideia de controlo emocional. O livro não pega na dor para a transformar numa coisa suportável, nem procura conforto artístico ou religioso ou o que seja. Simplesmente, dá-lhe forma, e, em vez de se superar a perda, ou de se procurar beleza nela (nem que fosse meramente estética), entende-se a coexistência com ela.

Nisto, não é de somenos pensar que a autora recusa as expectativas sociais associadas ao sofrimento, para mais materno. Ao invés de cair no buraco da sublimação emocional, do grito da dor, a autora permanece racional, analítica, quase impassível, e com isto constrói-se uma voz narrativa singular. Ao mesmo tempo, volta-se à ideia de respeito – seja pela dor que levou os filhos à morte, seja pela dor que as mortes levaram à mãe, não se transformam as catástrofes em espectáculos emocionais. Ao mesmo tempo, o amor reside nos detalhes. A autora não precisa de afirmar o evidente ou de se meter em declarações enfáticas. Em vez disso, o amor é a coisa calma da atenção em relação aos pormenores das suas vidas, sejam pequenos gestos ou interesses ou traços de personalidade. Cada um deles aparece como um rapaz, não como uma abstração simbólica de perda, e a autora traça as diferenças entre ambos, salvaguardando-lhes as individualidades. De resto, a própria forma como aborda a continuidade da vida aparece mais como a construção de uma nova normalidade, que coexiste com a ausência, do que com a ideia de continuidade da normalidade, ou um regresso a esse estado.

Tudo na Natureza Apenas Continua impressiona pelo seu traço cirúrgico e pela objectividade da autora, que, não sendo maculada pelo sentimentalismo permanente, produz um quadro mental forte, disciplinado, que deixa o leitor a braços com o incompreensível. Lido o livro, talvez o que mais salte à vista seja mesmo a integridade.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.