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12 centímetros de igualdade

As lombas assumem-se como um dos mecanismos mais eficazes da democracia portuguesa.

Guilherme Catarino
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Mudei recentemente de emprego. Pela distância que caracteriza as viagens casa-ofício, o carro passou a ser o meu fiel companheiro diário. Preferia que fosse uma pessoa, mas a companhia do carro tem o seu encanto. Aprendi que também os carros lidam com as emoções do dia-a-dia, com os sobressaltos e travões que a vi(d)a lhes impõem, e com a suspeita permanente de que nem tudo pode estar sempre a correr lindamente. Sobretudo quando essas emoções têm cerca de doze centímetros de altura.

Grande parte destes ensinamentos é ministrada pelas lombas. Talvez estivessem à espera de algo mais romântico ou impactante. Prometo, porém, que a sua pedagogia é igualmente entusiasmante. Há, na sua atuação, um lado metafórico que impõe reflexão, por revestirem um cariz educativo, traumático e de igualdade social.

Desde logo, educam os cidadãos a certos comportamentos, sob pena de consequências bastante concretas para os seus mais-que-tudo rodoviários. As lombas não dão sermões nem distribuem conselhos. Limitam-se a existir. Como certos pais que dispensam discursos longos e preferem um mero “eu avisei-te”. A diferença é que aqui não se forma carácter; treinam-se reflexos. Não se apela à consciência, mas à suspensão. A pedagogia é simples: aprende-se pelo impacto. Não porque se interiorizou uma regra, mas porque o corpo – e o chassi – aprenderam a lidar com o sobressalto. Fica uma memória. Moral e mecânica. Uma espécie de prudência adquirida não por virtude, mas por vibração excessiva.

Estima-se que 90% da população mundial passará, pelo menos, por um evento potencialmente traumático ao longo da sua vida. Arrisco dizer que uma percentagem estatisticamente relevante desses episódios começa com a frase: “Eia, não a vi”. Talvez devêssemos incluir as lombas nos relatórios da Organização Mundial da Saúde. Mas quem sou eu para propor classificações clínicas senão um mero lesado da paisagem urbana portuguesa?

Uma coisa é certa: apesar de educado e traumatizado, há um consolo democrático na experiência. Não conheço estatuto social que sobreviva incólume a lombas. Nem o Cristiano Ronaldo nem o Sr. Zé, que todos os dias serve pão ao meu pai.

No final de contas, talvez o meu carro não seja apenas o meu companheiro de viagens. É também aluno de uma escola invisível, onde as aulas começam sem aviso e se revestem de elevações regulamentadas. As lombas assumem-se como um dos mecanismos mais eficazes da democracia portuguesa. Não promete, não explica e não debate. Limita-se a aplicar. Pode não formar carácter, mas uniformiza velocidades, e num país com diferenças tão gritantes, talvez seja reconfortante saber que há, pelo menos, doze centímetros de igualdade garantida.