Quando os talibã tomaram o poder no Afeganistão em 2021 após a saída das tropas norte-americanas do país, o Paquistão reagiu com agrado. Nas últimas décadas, o Governo paquistanês tinha sido um dos principais apoiantes do grupo fundamentalista islâmico e esperava que a sua chegada ao Governo abrisse um capítulo positivo nas relações entre os dois países. Cinco anos depois, essas expectativas foram totalmente defraudadas. Esta sexta-feira, o Paquistão declarou uma “guerra aberta” ao país vizinho, no que foi o culminar de meses de tensão.
A ilusão de que o Paquistão ganharia um aliado cedo se desvaneceu. Logo no final 2021 começaram a surgir tensões: em vez de o combater, os talibã apoiaram tacitamente o grupo rebelde Tehrik‑e‑Taliban (conhecido pela sigla TTP e que, apesar do nome, não está relacionado com os talibã afegãos) considerado um inimigo declarado do Governo paquistanês. O TTP foi responsável por vários ataques terroristas dentro do Paquistão nos últimos anos, causando mil incidentes no país em 2025.
Os talibã têm negado categoricamente as acusações do Paquistão de que o Afeganistão serviria como base para o TTP preparar ataques terroristas no país vizinho. Por sua vez, o Governo paquistanês não acredita nesta versão e até faz uma ligação com um dos principais rivais geopolíticos: a Índia. O ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif, acusou, esta sexta-feira, os talibã de terem transformado o Afeganistão “numa colónia” de Nova Deli: “Reuniram todos os terroristas do mundo no Afeganistão e começaram a exportar terrorismo.”
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“O copo transbordou”, declarou Khawaja Asif numa publicação nas redes sociais, na qual anunciou o início de uma “guerra aberta”. Sendo uma potência nuclear, o Paquistão tem claramente mais meios militares à sua disposição e o Executivo paquistanês já ameaçou reduzir “Cabul a pó”. Islamabad lançou vários ataques contra o território do país vizinho, numa operação militar cujo objetivo estratégico a longo prazo ainda não é bem conhecido. Já os talibã pediram a abertura de um canal de “diálogo” e estão prontos para chegar a uma “solução pacífica”.
Os ataques paquistaneses da semana passada, a retaliação dos talibã e a ofensiva Fúria Em Nome da Verdade
Na semana passada, as Forças Armadas paquistanesas já tinham atacado vários alvos militares em território afegão ao longo da fronteira de 2.600 quilómetros que separa os dois países. Numa escalada de provocações e de ataques e contra-ataques nas últimas semanas, o Paquistão indicou que atacou campos ligados ao TTP, assim como também a alvos do ISIS-K (um ramo do autoproclamado Estado Islâmico com presença no Afeganistão e no Paquistão).
As forças talibã responderam esta quinta-feira com ataques contra postos fronteiriços paquistaneses, admitindo que se tratou de uma retaliação. Os bombardeamentos e captura de bases na fronteira causaram, segundo o lado afegão, pelo menos 55 mortos. Essa estimativa é contestada pelo Paquistão, que dá conta que apenas de meia dúzia de soldados do país perderam a vida, rejeitando qualquer sugestão do que o Afeganistão tenha capturado bases militares.

Independentemente das diferenças na contagem do número de mortos, o Paquistão encarou esta retaliação como a gota de água que fez transbordar o copo. Em resposta, na madrugada desta sexta-feira, as forças paquistanesas lançaram ataques aéreos contra Cabul e outras cidades afegãs, incluindo a cidade de Kandahar, onde vive o líder supremo do Afeganistão e um dos principais rostos do talibã, Hibatullah Akhundzada.
Admitindo ter “perdido a paciência” com o país vizinho, as autoridades paquistanesas anunciaram a ofensiva Ghazab lil Haq (em português, Fúria em Nome da Verdade), apresentando-a como uma campanha militar de retaliação contra os ataques dos talibã e também como uma forma de defender a “integridade territorial” do país. Na mesma medida, o Paquistão não esconde que esta operação servirá para atingir infraestruturas militares do regime afegão, do TTP e do ISIS‑K.
O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, prometeu que haverá “zero tolerância” para as “ações maliciosas” do TTP e dos talibã. “O Paquistão sabe defender-se contra qualquer agressão”, declarou o chefe do executivo, avisando que qualquer atividade hostil será inaceitável e terá uma resposta apropriada. Frisou também que o Paquistão procura desmantelar todas as células terroristas no Afeganistão.

Até ao momento, o diretor-geral das comunicações das Forças Armadas do Paquistão, Ahmed Sharif Chaudhry, anunciou a morte de 274 combatentes dos talibã, resultante dos ataques das últimas horas. O mesmo responsável dá conta também de 400 feridos, bem como da destruição de vários equipamentos de guerra pertencentes ao regime afegão.
Paquistão é mais forte, mas tem vulnerabilidades. Afeganistão procura negociar, mas tem trunfo
660 mil homens, armas nucleares e aeronaves modernas. O Paquistão está claramente em vantagem contra os 172 mil membros das Forças Armadas afegãs, com equipamentos de guerra obsoletos e sem força aérea. Islamabad tem uma vantagem real no terreno e está, neste momento, a explorá-la para obrigar o Afeganistão a recuar. Mas os talibã têm vários trunfos à disposição, incluindo os grupos armados inimigos do Paquistão.
Horas após ter começado a ofensiva, o Paquistão não dá sinais de recuar, mesmo com os circuitos diplomáticos já a funcionar. Aliados como a China, o Qatar, a Turquia, a Rússia e o Egito têm-se oferecido para mediar a situação e tentar aliviar as tensões. Em paralelo, os dirigentes talibã asseguraram que não desejam um prolongamento do conflito armado e apelam ao diálogo com os paquistaneses. Porém, a ser atacado, o regime afegão promete não ficar de braços cruzados e contra-atacar o Paquistão.

“Ou os talibã basicamente recuam da beira do precipício, ou podem avançar e continuar a lutar na fronteira, aumentando o apoio ao TTP e a outros grupos que operam dentro do Paquistão”, resume, à Reuters, Avinash Paliwal, professor de Relações Internacionais na Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.
Mesmo tendo negado qualquer ligação com os grupos terroristas ou tendo recusado as alegações que lhe providencia apoio, os talibã sabem que podem mobilizá-los contra um inimigo em comum: o Paquistão. E há vários pontos de vulnerabilidade para explorar contra as forças paquistanesas: a oeste, na fronteira com o Irão (outro país onde há uma escalada de tensão, mas desta vez com os Estados Unidos), e a leste, na fronteira com a Índia.
Até dentro do território paquistanês, as Forças Armadas podem enfrentar problemas. Na região mais a oeste do país, existem grupos armados separatistas: a Frente de Libertação do Baluchistão e o Exército de Libertação do Baluchistão. Desejando a independência face a Islamabad, estes movimentos podem aproveitar um contexto em que as tropas estão mais sobrecarregadas para levarem a cabo qualquer tipo de operação contra o Governo central.
“Uma situação de duas frentes tem sido há muito tempo um cenário que é um pesadelo para o Paquistão“, destacou à Reuters a antiga diplomata paquistanesa, Maleeha Lodhi, que avisa que uma guerra prolongada para Islamabad “acarreta um desafio de segurança“, lembrando a situação instável na fronteira oriental com a Índia, o país que é o principal rival e que o Paquistão acusa de financiar os grupos armados terroristas.
No que concerne a cenários de guerra, o conflito desenrola-se, até ao momento, na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, não tendo sido aberta mais nenhuma frente. Além disso, esta sexta-feira de madrugada, os militares paquistaneses também levaram a cabo ataques aéreos em várias cidades afegãs. “O pior ainda está para vir”, preconizou à Al Jazeera Tariq Khan, um general paquistanês na reserva que liderou operações contra o TTP.
Ainda que o conflito pareça estar longe de estar terminado, não deverá evoluir para uma grande ofensiva militar terrestre paquistanesa ao Afeganistão, devido aos riscos para a segurança que isso representaria para o próprio Paquistão. Violência separatista no Baluchistão, uma fronteira instável com Índia e a tensão com o Afeganistão são demasiados teatros de operação para as forças armadas de Islamabad conseguirem gerir em simultâneo.

Há espaço para a diplomacia?
Vários países já se ofereceram para mediar o conflito. A Rússia é um desses países, mantendo boas relações com Cabul e Islamabad. A Turquia também tem boa reputação na região, assim como o Qatar, o emirado habituado a mediar conflitos no Médio Oriente. Contudo, o nível de confiança entre os dois países está praticamente num mínimo histórico e os ataques desta sexta-feira ainda vieram aumentar o fosso e as oportunidades para uma solução diplomática.
Em outubro de 2025, o Paquistão já tinha levado a cabo ataques aéreos e tinha havido escaramuças violentas na fronteira entre os dois países. Num esforço de mediação conjunto, a Turquia e o Qatar conseguiram que os dois países assinassem um cessar-fogo. O regime talibã comprometeu-se a não permitir que grupos armados usassem o solo afegão para atacar o país vizinho, enquanto Islamabad prometia suspender os ataques a posições militares afegãs.
O acordo revelou-se muito frágil e acabou por durar poucos meses, apesar de ter sido renovado. Neste seguimento, o falhanço desta solução diplomática gerou uma crise profunda de confiança entre as duas partes: o Paquistão refere que não vê os talibã a afastarem-se do TTP e o Afeganistão alega que os paquistaneses continuam a incentivar os confrontos na fronteira.
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Para o analista de segurança afegão Tameem Bahiss, o conflito tem como base apenas um assunto: “As tensões têm a ver com as acusações repetidas do Paquistão de que as autoridades afegãs estão a permitir que o TTP funcione desde o seu território”. À Al Jazeera, prevê que “até que esse assunto seja resolvido, os ataques vão continuar”. “Da perspetiva de Islamabad, estas operações são vistas como medidas antiterrorismo. Na perspetiva de Cabul, são violações da soberania e integridade territorial.”
É difícil conciliar duas posições tão distintas, acreditam muitos especialistas, que não veem uma solução diplomática a curto prazo. Em declarações a vários órgãos de comunicação social internacionais, Abdul Basit, especialista em política afegã e paquistanesa, preconiza um “verão sangrento”, numa alusão à chegada das temperaturas mais altas mais cedo do que o normal ao Paquistão e ao Afeganistão. “Tem havido uma escalada progressiva: não houve nenhum revés. As tensões podem diminuir temporariamente, mas não há volta atrás.”
A estratégia do Paquistão, acredita Abdul Basit, acaba por ser contra-intuitiva para combater o terrorismo. “Entendo a necessidade de o Paquistão retaliar. Não entendo a lógica de como o vai ajudar a combater o terrorismo. Vai levar a instabilidade e é na instabilidade que as redes de terrorismo prosperam, incluindo o TTP e outros grupos armados que procuram santuários no Afeganistão.”
Uma guerra por procuração entre o Paquistão e a Índia?
No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, a divisão do Império Britânico deu origem a uma das rivalidades mais profundas na comunidade internacional: a da Índia e do Paquistão. Os dois países — um laico de maioria hindu, outro muçulmano — acumularam inúmeros diferendos ao longo das décadas, em particular em redor da região de Caxemira, uma região que ambos reivindicam como sua. A animosidade também se refletiu na política externa: o Paquistão aliou-se à China (país com o qual a Índia tem tensões) e com o mundo árabe, ao passo que a Índia se virou para o Ocidente e até para Israel, país que o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, visitou esta semana.
As duas potências nucleares procuram explorar potenciais vulnerabilidades do inimigo, de maneira a enfraquecê-lo. É nesta lógica de rivalidade que o Paquistão acusou a Índia de transformar o Afeganistão numa “colónia” e apoiar o TTP. Nova Deli teria arranjado parceiros (como o grupo rebelde e o regime dos talibã) que contribuíram para desestabilizar Islamabad.
Por sua vez, a Índia sempre negou essas alegações. Em relação aos últimos ataques, o Governo indiano ainda não reagiu oficialmente. Quanto aos da semana passada, o porta-voz do Ministério Estrangeiros indiano, Randhir Jaiswal, “condenou fortemente os ataques aéreos em território afegão” durante o “mês sagrado do Ramadão”. “É outra tentativa de o Paquistão externalizar os falhanços internos”, atirou a diplomacia de Nova Deli, garantindo que “reitera o apoio à soberania, integridade territorial e independência do Afeganistão.”
https://observador.pt/especiais/uma-rivalidade-historica-as-ogivas-nucleares-e-caxemira-o-conflito-entre-a-india-e-o-paquistao-em-sete-respostas/
Não há provas concretas de que a Índia esteja a apoiar efetivamente o Afeganistão ou os grupos rebeldes anti-Paquistão. Porém, Nova Deli aproximou-se recentemente do regime talibã, organizando encontros entre os líderes dos dois países. Em outubro de 2025, o ministro dos Negócios Estrangeiros afegão, Amir Khan Muttaqi, visitou Nova Deli, declarando que Cabul “procurou sempre estabelecer boas relações com a Índia”. Anunciou também que seriam inaugurados canais de comunicação onde iriam interagir com frequência.
Numa lógica de confronto permanentemente iminente, o Paquistão pode estar a tentar afirmar-se perante a Índia. À Al Jazeera, Raghav Sharma, professor e diretor do Centro Indiano de Estudos Afegãos na Universidade OP Jindal Global, explica que Nova Deli não quer que a aliança entre o Paquistão e a China “tenha via livre” no sul da Ásia. O Afeganistão é um país que a Índia vê como um obstáculo ao seu domínio na região.
“Há interesses de segurança que Nova Deli quer proteger e para isso interagir com os talibã é a única opção”, destaca Raghav Sharma, que ressalva, porém, que existem “diferenças ideológicas” entre os dois países. Apesar desta ligação estratégica, há pouca sustentação de que a Índia tenha mesmo transformado o Afeganistão numa “colónia”. Ainda que os talibã agradeçam o apoio indiano, ainda mantêm alguma autonomia e também se têm aproximado de outros países, como a Rússia.
A “guerra aberta” entre o Paquistão e o Afeganistão começou apenas agora, mas é o culminar de tensões acumuladas durante anos. Vendo o país vizinho cada vez mais próximo da Índia, Islamabad parece não estar disposto a recuar perante os talibã, um adversário militarmente mais fraco, mas com capacidade para mobilizar grupos aliados e também para contra-atacar.
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