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O apocalipse segundo o Sr. Juan e o Esquerda.Net

O Facebook supera a o KGB e o X bate aos pontos o PC chinês. Eu, confesso, fiquei surpreendido ao saber que o botão “deixar de seguir” é apenas uma versão “gore” do Gulag e do Laogai.

José António Rodrigues do Carmo
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Para variar um pouco das guerras, crises, outras coisas sérias que tornam a prosa sorumbática, há que alçar de vez em quando a vista para paisagens mais bem dispostas.

Há dias aterrou-me na sopa, como um moscardo, um artigo do Esquerda.Net epicamente intitulado “A ascensão do autoritarismo reacionário global”, da autoria de um tal Miguel Urban, do Podemos (sósia do nosso moribundo BE).

É um texto que explica o mundo, tão bem como Mariana Mortágua (do alto do seu canudo na Escola de Estudos Orientais e Africanos, e agora professora e directora de doutoramento de Economia no ISCTE, pasme-se) explica a relação entre um tambor xamânico, um monte alentejano e um lenço palestiniano.

Começa com uma revelação de urgência cósmica: há uma “corrida para o fundo que marca a crise sistémica do capitalismo”.

É reconfortante saber que tudo, da rotura do dique do Mondego, à derrota do Benfica em Madrid, se deve à “crise sistémica do capitalismo” a correr para o fundo.

Lê-se depois que “o autoritarismo reaccionário se está a espalhar para além das fronteiras dos EUA”. Trata-se pois de um fenómeno novo, jamais visto nos outros continentes ou até na Venezuela e que, pelos vistos, se espalha como uma gripe aviária, transportada por algoritmos malignos.

Segue-se a tese central: as vitórias eleitorais de gente que o Podemos e o BE detesta, não são acidentes democráticos, mas o “resultado político da tentativa de estabilizar a crise estrutural do capitalismo”. Portanto se milhões de eleitores, votaram à revelia dos gostos da esquerda flotilheira, não são cidadãos, mas sintomas patológicos ou meras marionetas de uma engrenagem histórica. Se votassem na Dona Catarina Martins, ou no Sr. Fazendas, seriam “a sociedade civil vibrante”.

A prosa apocalíptica atinge o seu clímax quando descobre que o slogan MAGA é “indicativo do declínio do império”. Ou seja, quando alguém usa o proverbial chapéu vermelho, não está a mostrar ter um discutível sentido estético mas a confessar a falência terminal da América. Isto apesar de continuar teimosamente a dominar a tecnologia, finanças, cultura, defesa e inovação. E o próprio Esquerda.Net usar as inovações do declinante império, para lançar as suas bojardas, urbi et orbi.

Mas o melhor mesmo, foi quando li que “para continuar a servir os interesses das classes dominantes, o neoliberalismo deu uma guinada autoritária”. Ou seja, o neoliberalismo, que ninguém sabe bem o que é, e que, segundo a confraria de alucinados do Esquerda.Net, já estaria vacilante, desacreditado e morto, tem afinal energia suficiente para dar guinadas. Trata-se pois de um cadáver em frenético parkour ideológico.

Há ainda a saborosa tese de que “os proprietários do capital intensificaram a sua ofensiva para assumir o controlo de todas as formas de governo”. Todas. Incluindo as assembleias de freguesia de Trás-os-Montes, e as juntas de freguesia de Toronto ao Bombarral Controlam tudo e todos, menos o Sr. Juan e o Esquerda.Net, que os denuncia com grande risco e fervor revolucionário, de punho erguido, e determinação milenar. Por alguma razão obscura, a conspiração dos “proprietários do capital” não se atreve a tocar neles.

Ah, e depois temos a “oligarquização da política”. O diagnóstico é assustador: se o Sr. Musk investiu 300 milhões numas eleições, vivemos numa plutocracia terminal. Já quando Silicon Valley e Hollywood investe milhares de milhões em Harris, Barack Obama, Mandani, etc., trata-se apenas de “dinamismo progressista”. Fica pois provado que a coerência ideológica é um luxo burguês.

A certa altura, o Miguel desaba um assustador achismo: estamos perante “uma forma de controlo social sem paralelo na história da humanidade”.

Nem o estalinismo, nem o maoísmo, nem o nazismo, nem as ditaduras militares latino-americanas, nem o saudoso Enver Hoxa, ousaram tanto. O Facebook supera a o KGB e o X bate aos pontos o PC chinês. Eu, confesso, fiquei surpreendido ao saber que o botão “deixar de seguir” é apenas uma versão “gore” do Gulag e do Laogai.

Depois vem a lamentação do catecismo ecológico: ah, o capitalismo transformou as “forças de produção em forças de destruição”. Portanto, o mesmo capitalismo que decantou tecnologias verdes, eficiência energética, inovação agrícola e a redução da pobreza global nas últimas décadas, é o 5º cavaleiro do Apocalipse segundo o Sr Juan.

Já em delírio, o texto informa que “quanto mais o clima piora, mais cresce a negação climática”. Pois, não sei. A mim parece-me que o que cresce é o cansaço perante políticas hipócritas que penalizam os mais pobres enquanto os mais ricos continuam a voar em jactos privados para predicar virtude alheia, em conferências sobre humildade carbónica.

Não podia faltar o sublime momento “Milei”. Encarna uma “liberdade autoritária”, berra o escriba, com certas dificuldades em sequer se aperceber do oxímoro. É que “liberdade autoritária” é mais ou menos como ditadura participativa ou burocracia eficiente.

O argumento final é devastador: tudo isto é consequência lógica da “crise sistémica”. Para o Sr Urban, os eleitores não escolhem. Reagem mecanicamente. Não têm agência moral nem responsabilidade individual. São meras peças de uma estrutura. Só os eleitores que votam na extrema-esquerda são os irredutíveis e atentos pilares da consciência crítica.

Que dizer ao Sr Juan?

Primeiro, aconselhar que não escreva textos logo após experiências alucinogénias pesadas.

Segundo, que a perspectiva liberal e democrática, é menos melodramática: as democracias produzem alternância. Produzem erros. Produzem reacções. Produzem líderes de que uns gostam e outros não. Mas também eleições livres, imprensa plural, tribunais independentes. E até textos como o do Esquerda.Net, que acusam o sistema de autoritário enquanto desfrutam da liberdade de o fazer.

Talvez o problema não seja o “Capitaloceno”. Talvez seja a dificuldade de aceitar que o mundo real é mais complexo do que uma sessão de ganza na sala de chuto. Que o eleitor médio não é uma marioneta alienada. Que o capitalismo não é um monstro metafísico, mas um sistema imperfeito que, com todas as suas falhas, elevou mais pessoas da pobreza do que qualquer alternativa testada.

No fim, ficamos com a imagem de um mundo “em chamas”, dominado por “supermonopólios hiperpredatórios”, onde a nostalgia e a hipérbole são as últimas bóias de salvação. No entanto, esse mesmo mundo continua a votar, a debater, a criar, a discordar e, ironia suprema, a publicar profecias inflamadas do seu alegado fim.

Se isto é fascistização em curso, convém avisar o fascismo que está a falhar redondamente. E talvez, só talvez, a maior prova de vitalidade das democracias liberais seja a de que permitem que se escreva que estão mortas, e ainda pagam o café a quem o escreve.

O capitalismo pode ser muito mau, mas, ao que parece, tem sentido de humor. E isso, felizmente, ainda não foi nacionalizado.