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(A) :: “Serei sempre um polícia.” No primeiro discurso, Luís Neves deixou avisos sobre os “desvios” das forças de segurança e respondeu a Passos

“Serei sempre um polícia.” No primeiro discurso, Luís Neves deixou avisos sobre os “desvios” das forças de segurança e respondeu a Passos

O "sempre polícia" Luís Neves assumiu a honra, "com um brilhozinho nos olhos", de passar o primeiro dia (público) como MAI com a PSP — mas deixou alertas. A crítica de Passos? "É saudável".

Miguel Pinheiro Correia
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A banda sinfónica da PSP procurou dar um toque triunfal ao primeiro evento público de Luís Neves como ministro da Administração Interna. Três dias depois de ter tomado posse, assegurou em tom professoral às dezenas de cadetes da polícia que enchiam o salão: “Eu estou [aqui como] ministro, mas serei sempre um polícia.”

Perante os agentes, o ministro frisou que estaria atento aos comportamentos impróprios no seio das forças de segurança. “Haverá sempre, numa instituição deste tamanho, um ou outro [polícia] que vai fugir à regra, mas essa fuga à regra, essa violação, tem que ser identificada e não pode apanhar todos”, sublinhou. “Os casos isolados têm que ser mesmo isolados.”

O longo discurso de Luís Neves foi um dos últimos momentos de uma cerimónia que ocupou a tarde quase toda a um ministro com “muitas coisas para tratar”. Apesar disso, não poderia deixar de marcar presença num evento para o qual, aliás, já teria lugar marcado: “Tinha na minha agenda vir aqui enquanto diretor da PJ”. As décadas de ligação à instituição não só lhe valeram apenas críticas de um antigo primeiro-ministro, mas também dois lapsos na fala, quando mencionou a PJ em vez da PSP. “Acho que todos compreendem que de um dia para o outro não é fácil mudar o mindset”, disse, já no exterior do pavilhão onde tinha discursado, aos jornalistas.

Aí, acompanhado do Diretor Nacional da PSP e dos três Secretários de Estado, reagiu “com a maior tranquilidade” à opinião de Pedro Passos Coelho. “Escutei com o maior dos respeitos a opinião, tenho um grande respeito pelo dr. Passos Coelho. Estou absolutamente tranquilo. Nem todos têm que pensar da mesma forma, é saudável que possa haver opiniões [distintas]”. “Absolutamente blindado” face a qualquer conflito de interesse, chutou a polémica para canto e entoou os próximos desafios: para já, a Proteção Civil — no rescaldo das tempestades —, mas já à espreita, a preparação para os incêndios.

“Sr. Ministro, seja bem-vindo”. PSP prometeu profissionalismo, lealdade e sentido de Estado

O ginásio tornado salão do antigo Convento do Calvário, em Alcântara, Lisboa, tornou-se pequeno para a enchente de pessoas, sobretudo agentes (formados ou em formação) que se fizeram presentes para a Sessão Solene de Abertura do Ano Académico 2025/2026. Sentados nas cadeiras, dezenas de polícias assistiram ao evento que no ano passado fora presenciado pela então ministra da Administração Interna Margarida Blasco.

Luís Neves chegou ao ISCPSI depois de Amadeu Guerra, Procurador-Geral da República, Telmo Correia, Secretário de Estado da Administração Interna, Paulo Simões Ribeiro, Secretário de Estado Adjunto da Administração Interna, e Rui Rocha, Secretário de Estado da Proteção Civil. Foram todos recebidos pelo Diretor Nacional da PSP.

https://observador.pt/2026/02/23/luis-neves-assume-maior-honra-de-passar-a-ser-mais-um-elemento-da-gnr-da-psp-e-da-protecao-civil-fui-sempre-um-servidor-publico/

Conhecidos de longa data, o Diretor Nacional da PSP não gaguejou no momento de receber Luís Neves, com quem cruzou muitas vezes caminho quando o agora ministro da Administração Interna era ainda Diretor Nacional da PJ. Seis dias depois de ter sido anunciado como novo ministro pelo Presidente da República e três dias depois de ter tomado posse, Luís Neves percorreu a passadeira vermelha. Disse no primeiro discurso que era “mais um elemento” da PSP. Hoje, procurou prová-lo.

Depois das honras a Luís Neves, que desfilou por entre os cadetes da PSP em formatura no claustro do edifício, ministro e secretários de Estado seguiram até ao gabinete do Diretor Nacional, antes de rumarem ao pavilhão onde foram proferidos os discursos. Luís Carrilho começou o seu dirigindo-se ao “estimado Dr. Luís Neves”, a quem transmitiu uma “palavra muito sincera de felicitação pela nomeação” para MAI. O Diretor Nacional da PSP não só não esqueceu, como ainda enalteceu o “facto de este ser o primeiro ato público enquanto ministro”. Essa estreia, acrescentou o Diretor da PSP, “honra-nos e reforça o simbolismo desta sessão solene”.

“Pode contar connosco na concretização das orientações do Governo” em matéria de segurança interna, valorização dos polícias e aprofundamento de cooperação entre forças e serviços de segurança.
Luís Carrilho, Diretor Nacional da PSP, dirigindo-se ao novo ministro da Administração Interna

Luís Carrilho lembrou que “ao longo dos anos” em que Luís Neves foi “diretor da PJ”, a cooperação foi “constante, leal e produtiva” em vários domínios, desde a investigação criminal à partilha de informação. “Encontramos sempre na sua liderança um espírito de abertura e confiança mútua”.

De agora em diante, a cooperação entre os dois assume outros moldes, mas, do lado da PSP, o MAI poderá continuar a contar com “profissionalismo, lealdade e Sentido de Estado, tanto no sistema de segurança como no sistema de Justiça”. “Pode contar connosco na concretização das orientações do Governo” no que diz respeito à segurança interna, valorização dos polícias e aprofundamento de cooperação entre forças e serviços de segurança, acrescentou.

Antes de rematar o discurso, Luís Carrilho elogiou outro ministro da Administração Interna. Nas primeiras filas estava, discreto, o antigo governante Rui Pereira. O ministro da Administração Interna nos dois Governos de José Sócrates seria, também, homenageado por Luís Neves.

“Estou [como] ministro, mas serei sempre um polícia”. Luís Neves aproximou-se dos futuros agentes e gerou risos ao mencionar PJ

Duas horas e meia depois do arranque da sessão, quando Amadeu Guerra já tinha abandonado o pavilhão, Luís Neves começou o seu discurso ao dirigir-se, com “amizade e respeito”, a Rui Pereira, figura que o “trouxe para estas lides” policiais, “com a maior estima e maior afeto”, deixando de lado os “formalismos” e assumindo os “sentimentos”.

Antes do aguardado discurso do novo ministro, foram condecorados os melhores alunos dos anos anteriores dos cursos da polícia e soou o tema composto por John Williams para a abertura dos Jogos Olímpicos de 1984 interpretado pela Banda Sinfónica da PSP.

Quando subiu ao palco, Luís Neves não negou a dificuldade da passagem de testemunho, mas defendeu que não poderia deixar de estar presente no local onde já estivera “dezenas de vezes”, agora com outras funções e exigência redobrada. “Eu estou [aqui como] ministro, mas serei sempre um polícia. Sendo um polícia, (…) sempre me senti apoiado na missão que me estava confiada por todos vós”.

Durante o discurso, o maior obstáculo que teve que ultrapassar foi mesmo o hábito de quem dedicou grande parte da sua vida a outra polícia. “Quis pois que esta primeira visita enquanto ministro decorresse numa instância formativa vital, (…) onde [os agentes] assumem e consolidam o vínculo para com a instituição Polícia Judiciária e Portugal…”. Rapidamente reparou no erro e assumiu com humor, gerando alguns risos na vasta plateia. “Perdão, é o hábito”.

Lapsos (repetiu-se mais uma vez) à parte, Luís Neves remeteu grande parte das intervenções aos cadetes da PSP e fez questão de referir várias vezes que é, também, um polícia. “Serei sempre polícia”. E, agora, “vosso ministro”. Foi nesta qualidade que pediu aos agentes uma liderança “assente na inteligência emocional”, na capacidade de empatia e no autoconhecimento, além de uma “capacidade de comunicação clara e conciliadora”.

Reconhecendo que o instituto de formação de polícias prepara os futuros agentes para “serem sempre um exemplo”, frisou a importância de estes estarem próximos dos civis. “O reconhecimento das pessoas é talvez dos maiores atributos que vos é exigido”. Se logo após a tomada de posse Luís Neves lembrou que foi sempre um “servidor público”, agora pediu aos jovens que o ouviam para salvaguardar “sempre o interesse público”.

“Casos isolados têm que ser mesmo isolados”. No primeiro discurso como ministro, Luís Neves avisou os agentes para os “desvios”

Num discurso de mais de 20 minutos que se pautou sempre pela tentativa de se aproximar dos polícias, Luís Neves também lembrou que, como ministro, vai estar atento aos comportamentos desviantes no seio das forças de segurança. “Haverá sempre, numa instituição deste tamanho, um ou outro [polícia] que vai fugir à regra, mas essa fuga à regra, essa violação, tem que ser identificada e não pode apanhar todos”.

Sem se referir a casos concretos, num momento em que há vários agentes da PSP a braços com a justiça, o ministro repetiu que não é uma maçã podre que faz a árvore. Mas deixou avisos para que nenhuma fruta estragada no seio das forças de segurança possa contaminar outros colegas. “Nunca sejam taticistas, nunca pensem em calarem-se para ganharem uma vantagem. (…) Nunca tenham receio de identificar os desvios. Sejam genuínos.”

“Dissemos [a equipa da Administração Interna], quando recebemos o diretor nacional da PSP, que os casos isolados têm que ser mesmo isolados. Enquanto ministro quero-vos dizer de uma forma muito clara, que compreenderei sempre algum excesso que possa ter ocorrido por se querer ter feito bem, por se querer ter agido, por se querer cumprir a lei, porque muitas vezes estando sozinhos, se quis tomar uma atitude enquanto polícia porque era o seu dever, aí terão o meu apoio, o meu suporte e a minha compreensão”, concretizou. Mas não se ficou por aqui.

“Nos casos isolados, absolutamente isolados, em que a questão seja diferente, em que a violação seja preparada, seja reiterada, nunca contarão com qualquer atitude compreensiva destes atos. Digo isto ciente de que estou perante uma força de segurança de gente muito nobre, gente que respeita a sua missão com brio, com honra”.

Mais do que o “formalismo” de presidir à celebração, Luís Neves agradeceu a importância “deste dia” que marcou a sua estreia pública como ministro, depois de décadas na PJ. “É muito estranho ainda, muito recente”. Com “enorme orgulho”, agradeceu, no fim do discurso, à instituição que representa “um pilar da nossa segurança interna”.

Quero-vos dizer de uma forma muito arrepiante — que é assim que eu estou — e com um brilhozinho nos olhos, que o País, as pessoas, os portugueses, quem nos visita — sejam turistas, sejam imigrantes — contam connosco, contam convosco”.

MAI responde a Passos “com maior tranquilidade”. “Nem todos têm que pensar da mesma forma”

À saída do pavilhão, perante uma audiência diferente, o discurso mudou. Questionado pelos jornalistas, Luís Neves aproveitou para defender a sua posição e reiterar — como, aliás, já tinha feito mal tomou posse — que não viu problemas em aceitar o cargo. Depois de uma reação bastante positiva de diferentes quadrantes políticos, a crítica mais mediática chegou por Pedro Passos Coelho.

O antigo primeiro-ministro disse que apesar de achar que Luís Montenegro “se baseou na melhor das intenções”, a escolha de um antigo Diretor Nacional da PJ (cargo que continua vago) abre um “precedente grave”. “Não se pode passar. Não é um bom sinal que se dá. Como não foi um bom sinal tirar um ministro das Finanças para o pôr como governador de Banco de Portugal”.

Luís Neves não se esquivou às perguntas: “Eu vejo toda essa posição e todas as outras posições com a maior tranquilidade, mas também com o maior respeito: nem todos temos que pensar da mesma forma. O que eu quero dizer é que quando fui convidado pelo primeiro-ministro para assumir estas funções, pensei algumas destas questões”. Mas não terá encontrado nenhum inconveniente, tampouco relacionado com investigações que possam envolver Luís Montenegro.

“O diretor nacional da PJ não investiga, aporta meios. A instituição PJ tem uma forma orgânica de guardar segredo. Não tenho conhecimento das investigações, senti-me completamente tranquilo e à vontade para dar este passo. (…) A esse respeito, estou absolutamente blindado”.

O antigo diretor da PJ diz que ouviu “com o maior dos respeitos” a opinião de Pedro Passos Coelho, por quem admitiu ter “um grande respeito”. Mas acrescentou: “Nem todos têm que pensar da mesma forma, é saudável que possa haver opiniões [diferentes]”.

“Há sempre uma primeira vez, foi desta vez. Se sentisse que havia o mínimo de conflito de interesse, eu próprio não teria aceitado”. Sai o MAI fragilizado desta polémica após tão poucos dias no cargo? “Não. Porque eu e a equipa que aqui me acompanha estamos fortemente motivados em fazer de Portugal um País melhor”. Nesse sentido, delineou as prioridades: “temos agora que olhar para a área da Proteção Civil, saímos de uma catástrofe”. Além disso, a próxima preocupação avizinha-se, sabe Luís Neves. É preciso “olhar para esse tema que está à porta”, que são os incêndios.

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