19 de dezembro de 2023. “Precisamos de um governo esclarecido, que tenha um rumo bem definido e força. Vai depender das estratégias que os partidos venham a definir e das condições que os portugueses ofereçam aos partidos que terão a responsabilidade de governar. Espero que ambos tenham uma aguda consciência da importância dos tempos que aí vêm e que seja possível fazer um governo que tenha autoridade moral. E a força só pode ser dada pelas pessoas, pelos eleitores, para que se faça o que é necessário fazer.”
8 de abril de 2024. “Somos diferentes, mas o que é que podemos fazer em conjunto? Temos de salvaguardar a capacidade para nos podermos entender. Por vezes, no plano da política, há uma intenção de usar uma linguagem para deliberadamente nos desentendermos ou nos fazermos de desentendidos. Era preferível que oferecêssemos às pessoas uma imagem diferente. Há muitas pessoas que se começam a maçar desse teatro. Não é genuíno, é posicional, tático. No fim do dia, as pessoas percebem. Não gostam de ser tratadas como invisíveis.”
6 de maio de 2025. “O meu desejo profundo é que nestes anos que temos pela frente, o PSD possa fazer pleno jus à sua tradição reformista em Portugal. Isso exige evidentemente estabilidade política, mas é mais importante sublinhar que não depende apenas da estabilidade política. É preciso que exista verdadeiramente um espírito reformista que possa estar ao serviço dessa estabilidade.”
24 de fevereiro de 2026. “Na política, só está quem quer. Só vai para política quem quer. Para fazer alguma coisa. Já houve muito tempo para pensar, imaginar e trabalhar os cenários. Esse tempo acabou. É preciso começar a trabalhar e a fazer qualquer coisa. Os portugueses têm de ver ação. Alguma coisa tem que mudar. Nunca perdoarão que não se tente. Ninguém poderá dizer que eu não tentei. [Temos de aproveitar] a oportunidade política imensa que hoje existe para se fazer diferente. As pessoas estão exaustas dos políticos que não querem fazer nada, que só querem fazer gestão do eleitor-contribuinte.”
São quatro intervenções públicas e todas elas em momentos cruciais para o futuro de Luís Montenegro: depois da queda de António Costa, imediatamente a seguir à primeira vitória do atual primeiro-ministro (por margem curta), antes das segundas eleições legislativas a que Montenegro concorreu e agora, terminado que está um ciclo intenso de eleições e numa altura em que se perspetivam três anos de relativa estabilidade política. As quatro têm um fio condutor: Pedro Passos Coelho considera que os eleitores não perdoarão nunca a Luís Montenegro que se transforme numa espécie de António Costa 2.0, patologicamente “alérgico” a fazer reformas, especialista em empurrar os problemas com a barriga durante “oito anos”.
Existem, apesar de tudo, duas diferenças entre os três primeiros momentos e aquele que aconteceu esta terça-feira, numa conferência organizada SEDES: apesar de ter dito essencialmente o mesmo do que vem dizendo desde 2023, nunca Passos tinha sido tão direto e concreto nas críticas; e nunca a nomenclatura do PSD reagiu de forma tão violenta às palavras do pai espiritual de praticamente todos os atuais ministros e dirigentes do partido. A redoma que protegia a imagem pública do partido partiu-se. Hugo Soares, líder parlamentar, secretário-geral do PSD e número dois de facto do partido, veio a público dizer, em duas entrevistas concedidas no mesmo dia, que Pedro Passos Coelho estava “redondamente enganado“.
Hugo Soares não foi o único elemento elemento da linha oficial do PSD a criticar a intervenção de Pedro Passos Coelho. Em entrevista ao Observador, Paulo Cunha, atual eurodeputado e candidato a líder da distrital do PSD/Braga, onde conta com a difícil oposição de Carlos Eduardo Reis (um dos generais do rioísmo), aconselhou outro “recato” ao antigo primeiro-ministro. “Habituei-me a ouvir de Pedro Passos Coelho críticas razoáveis, críticas sensatas, equilibradas, ponderadas. Uma pessoa que sempre mediu a sua intervenção pública. Nos últimos meses, tem tido uma intervenção pública que não é compaginável com aquilo que fez no passado”, lamentou Paulo Cunha.
Miguel Relvas ironiza
Mais diplomata, Luís Campos Ferreira preferiu não fazer qualquer crítica direta a Pedro Passos Coelho. Os dois estiveram juntos na direção de Luís Marques Mendes — com quem Passos rompeu — e mais tarde no governo que teve de executar o programa de assistência financeira. Campos Ferreira conhece-o bem, mas é igualmente amigo pessoal de Luís Montenegro. Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, o antigo secretário de Estado procurou colocar alguma água na fervura.
“Pedro Passos Coelho tem opiniões sobre determinada matéria e emite-as com toda a liberdade. E isso não implica obrigatoriamente que essas opiniões ou esses comentários façam parte de uma agenda pessoal. Julgo aliás que não. Pedro Passos Coelho. São opiniões que emite dentro daquilo que é a sua liberdade pessoal e dentro daquilo que é o seu conhecimento e a sua experiência governativa”, relativizou Campos Ferreira, sem esconder, mesmo assim, o incómodo com o choque entre duas gerações — um choque que começou lá atrás, com as primeiras tentativas de Montenegro de matar o pai político.
Acontece que nem todos têm a mesma diplomacia de Campos Ferreira. Sobretudo porque o ressentimento acumulado entre os dois, Passos e Montenegro, já conheceu muitos capítulos — como aquele em que o atual primeiro-ministro tentou enclausurar o antecessor nos gabinetes da universidade com uma frase assassina ainda que aparentemente involuntária (“O meio académico português não está a tirar partido do potencial que ele tem nessa área”).
Sem resistir à ironia, Miguel Relvas atira-se a Hugo Soares e aos demais dirigentes do atual PSD que, de forma mais e menos pública, fizeram tiro ao alvo a Pedro Passos Coelho. “Estou surpreso com os receios que existem no PSD. Pedro Passos Coelho não disse nada de novo. Está a fazer uma generosa consultoria gratuita ao partido”, diz o antigo ministro ao Observador. A acrimónia dificilmente ficará por aqui: entre sexta e sábado, Pedro Passos Coelho terá outras três aparições públicas e é expectável que não resista a responder às críticas de que foi alvo.
“Não há nenhum mistério”
A pergunta que toda a gente faz, no PSD e fora dele, é: porquê agora. No Governo estranha-se a cadência e a acutilância das intervenções mais recentes de Pedro Passos Coelho. Ninguém encontra um motivo plausível, o que aumenta a estupefação. Não existe um calendário óbvio, nem um plano evidente. Luís Montenegro está no poder. Se eventualmente cair de forma prematura às mãos da oposição, terá uma oportunidade de enfrentar novamente as urnas. Passos nunca disputará eleições internas com o seu antigo delfim.
O cenário alternativo — ser empossado primeiro-ministro sem ir a votos — nunca esteve sequer nas cogitações de Passos. Pelo que se torna difícil perceber o que move verdadeiramente o antigo presidente do PSD. Existe, todavia, uma tese que poucos se esforçam por negar: se Passos ainda quer ter um futuro político — e isso o antigo primeiro-ministro nunca afastou, antes pelo contrário — o montenegrismo tem de cair. E estas intervenções públicas de Pedro Passos Coelho podem não matar, mas moem.
Ninguém, a não ser o próprio, tem a verdadeira resposta para pergunta que todos fazem. E o próprio não partilha os planos — se é que os tem — de ânimo leve. Quem o conhece bem, ainda assim, vai sugerindo que Pedro Passos Coelho está apenas a vestir o fato de “senador” e a falar com a “liberdade” de quem construiu uma vida profissional fora da política, fez a sua própria travessia no deserto e sente que é deve agora falar ao “país”. “Não há nenhum mistério. Passos não tem nenhum calendário estudado. Tem vários convites e aqueles que pode aceitar, aceita”, relativiza fonte próxima do antigo primeiro-ministro.
Miguel Morgado, antigo assessor político do então primeiro-ministro e passista convicto, num dos seus espaços de opinião, também apoucou dos espíritos mais inquietos com as aparições recentes de Pedro Passos Coelho, dizendo que ex-presidente do PSD “não está ligado a nenhuma lealdade sectária” e que é ‘apenas’ um “espírito livre“, cuja “opinião conta mais do que a da maioria das pessoas”. “As democracias vivem de pessoas com esta frontalidade. Artistas e artolas acho que já temos os suficientes.”
No essencial, para lá de todos os ressentimentos pessoais que existem, há uma diferença de fundo que afastará sempre Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho: o entendimento que os dois têm sobre o que fazer com a maioria política, parlamentar e sociológica que existe no país. O atual primeiro-ministro chegou ao poder fazendo valer a sua narrativa das “linhas vermelhas” à direita; o seu antecessor sempre achou essa estratégia um profundo disparate que acabará por engolir o PSD.
Na verdade, Pedro Passos Coelho considera um erro de palmatória que se tivessem traçado cordões sanitários em torno do Chega por entender que é uma cedência à agenda do PS e dos partidos à esquerda do PS, uma concessão que limita as hipóteses do PSD de fazer alguma coisa de estrutural com o poder, e que pode acabar por alienar, inevitavelmente, eleitores essenciais.
Ao mesmo tempo, o antigo primeiro-ministro, que chegou a assumir que o seu projeto para o país tinha sido interrompido prematuramente à boleia da ‘geringonça’, sente que Luís Montenegro está disposto a sacrificar uma hipótese de transformar verdadeiramente o país para se preservar — e aos seus — no poder, usando as mesmíssimas táticas de António Costa, o homem que o derrubou montado numa aliança de esquerda de reação e reversão à PàF. O atual primeiro-ministro, como sintetizaram Hugo Soares e Luís Campos Ferreira, tem um entendimento diferente: a política é a arte do possível e Montenegro está a fazer o possível para reformar um país que às vezes parece ingovernável.
Em resumo, há muito que Pedro Passos Coelho se distanciou de Luís Montenegro e das suas escolhas. O mesmo se pode dizer do atual chefe de Governo, que escolheu Aníbal Cavaco Silva — e não Passos — como o seu santo padroeiro, e promoveu Mendes, o seu padrinho político, a candidato presidencial — cargo que Passos nunca quis verdadeiramente. O resto da história é conhecido: o antigo primeiro-ministro foi peça importante na forma como a campanha de Luís Marques Mendes acabou dinamitada; assim que se fechou o ciclo presidencial, Passos começou a dinamitar Luís Montenegro. Resta saber até onde.
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