No verão de 2017, ao folhear uma edição da revista The New Yorker, Steve Conrad ficou parado num artigo sobre um dentista que teria assassinado um amigo. A história ficou a fermentar na cabeça do realizador, produtor e argumentista durante uns anos, até que a apresentou já em formato adaptado para série aos executivos da HBO. O projeto avançou e começou a ganhar forma em 2022. Só que entretanto passaram quatro anos, houve uma alteração no elenco e, mais do que isso, quando se estrear a 2 de março, a minissérie não terá nada a ver com a semente que lhe deu origem.
Chama-se DTF St. Louis, tem sete episódios e o trio principal conta com as interpretações de Jason Bateman, David Harbour e Linda Cardellini. O primeiro é Clark, apresentador de meteorologia de um canal local de notícias, que conhece Floyd (Harbour), intérprete de língua gestual, numa reportagem. Cardellini é Carol, a mulher deste último. Entre os três, todos adultos desiludidos com a vida, cria-se um triângulo amoroso que vai culminar na morte de um deles. Não é spoiler, calma, esta informação é apresentada logo no início e a história anda para a frente e para trás — acompanhando a investigação em torno do homicídio e o início da relação de todos.
[o trailer de “DTF St Louis:]
https://www.youtube.com/watch?v=9pxxJfZ3HAs
Conhecido pelos argumentos dos filmes Em Busca da Felicidade (2006) e A Vida Secreta de Walter Mitty (2013), Steve Conrad volta, como na série Patriot (2015-2018), a ser criador, produtor executivo, realizador e showrunner. Para começar a escrever algo novo, garante, “o segredo é encontrar um dilema”. Para ele, esse dilema consistiu em “ter personagens que olham para as respetivas vidas e pensam: ‘Isto não é suficiente’.”.
Numa entrevista com jornalistas de vários pontos do mundo, Steve Conrad explicou porque é que, a dada altura, sentiu necessidade de se afastar do artigo jornalístico que lhe deu a ideia — inicialmente, o dentista seria interpretado por Pedro Pascal, que entretanto deixou o projeto alegadamente devido aos atrasos e às alterações na produção. O dentista transformou-se em apresentador de meteorologia e os elementos iniciais desapareceram praticamente todos.
“Senti que precisava de usar ferramentas da minha imaginação. Estar ligado a uma história da vida real criava limitações às minhas possibilidades. Hoje em dia existem outros recursos para o true crime, como os podcasts, e o cinema e a televisão ainda são campos férteis para a imaginação e a fantasia. Por isso, simplesmente não achei que [a história real] me permitisse entregar a narrativa mais impactante, porque estaria limitado”, justificou ao Observador.


Sentir-se livre no processo criativo foi algo de que não quis abdicar, mesmo isso implicando um processo mais demorado. “Quando me sento para escrever, talvez a parte mais entusiasmante seja o facto de, por um instante, tudo ser possível.”
Focou-se então no dilema que tinha pela frente e nas soluções que as personagens poderiam encontrar para “apagar o fogo que lhes consome a casa”.
“Senti que tínhamos a oportunidade de contar uma história que, principalmente, começa por ser sobre homens e mulheres a cometerem erros, mas isso não nos impede de simpatizar com o dilema deles ou de perceber como seria fácil cometer o mesmo erro.”
Além disso, Steve Conrad teve a necessidade de focar as atenções numa fase da vida em que se fazem balanços e em que, muitas vezes, se percebe que nada do que foi imaginado ou desejado se cumpriu. “Pensar que a vida adulta vai proporcionar-te paz é complicado. A paz nunca é alcançada da forma que esperávamos. O que exploramos aqui é como a meia idade confundiu estes homens e mulheres levando-os a sentir desespero.”
Parte fulcral da história é a utilização de uma aplicação para pessoas comprometidas que procuram relações sexuais sem compromisso, que será parte importante do desfecho. O nome da minissérie vem precisamente daí: DTF é a sigla para “Down to Fuck”, St. Louis é o nome da localidade onde o enredo se desenrola. O criador explicou a linha de pensamento que o levou até aqui: “Num momento vulnerável das respetivas vidas, em que falta algo, em que procuram algo que os entusiasme, a ideia de poder ter uma relação sexual sem consequências enquanto a vida estável se mantém noutro local, foi um ponto de partida para criar tensão”.
DTF St. Louis é um thriller, mas tem humor negro e a capacidade de nos fazer questionar todas as personagens, enquanto elaboramos inúmeras teorias sobre o rumo que a história pode tomar. Steve Conrad deixa muitas perguntas no ar e as respostas vão sendo dadas a conta gotas e nem sempre são as que esperávamos. “Há algo de muito atraente nesta promessa vazia de um encontro casual que leva à entrega inesperada do poder a outra pessoa, [mas essa pessoa] talvez não tenha as melhores intenções. Mas o que se faz quando as consequências são inesperadas? Qual o preço da intimidade? Que poder tem alguém sobre nós depois de partilharmos os momentos mais íntimos da nossa vida? O que demos a essa pessoa quando pensávamos que não estávamos a dar nada? O controlo torna-se uma parte essencial de DTF St. Louis porque gera suspense.”
Há pequenas pistas na minissérie para chamar a atenção do público — até porque estamos perante uma morte por resolver e todos os detalhes podem ser importantes para denunciar o ou os culpados — porque, para Steve Conrad, ficou claro que a forma de se fazer filmes ou séries atualmente tem novos obstáculos. “As pessoas estarão a ver o filme e a mexer no telemóvel ao mesmo tempo, e depois voltam para o que está no ecrã. Isso é um desafio e o meu objetivo é tentar impedi-los de querer fazer qualquer outra coisa […] até que possamos satisfazer o que esperamos que sejam as suas expetativas em relação à história.”
Espaço para um único bigode
Sobre o elenco, o realizador e guionista só tem elogios a partilhar. “Cada um deles tem a capacidade de transmitir inteligência, vulnerabilidade ou tristeza de uma forma tão intensa que nos faz gostar deles.” E refere-se não só ao trio principal, mas também a Richard Jenkins e a Joy Sunday, que dão vida à dupla de inspetores que tenta resolver a misteriosa morte. “Na falta de melhor palavra, o Richard Jenkins é extremamente simpático. Há algo no comportamento e no poder do ator que nos atrai.”
Steve Conrad não consegue imaginar outros atores a interpretar estas personagens, começando por Jason Bateman. “Quando o observamos num dilema ou conflito, o Jason é geralmente a pessoa mais inteligente em toda a situação. Simplesmente transmite entusiasmo.”
Já Linda Cardellini incorpora duas energias “de forma magnífica, sem que sinta que uma delas é um truque”. Isto porque, a personagem Clark olha para Carol como a representação da sexualidade e da surpresa, enquanto o marido já só olha para ela “como a esposa assexuada e excessivamente familiar”. Sobrecarregada financeiramente, é forçada a tornar-se uma espécie de árbitra de baseball e há algo nesse uniforme desproporcionalmente grande e quase caricatural que repele Floyd.
Na vida real, Linda Cardellini diz que não há nada que lhe cause mais repulsa do que “pessoas que tocam saxofone imaginário”, nem os bigodes farfalhudos que quase iam tendo as duas personagens masculinas com quem contracena. Numa entrevista com alguns meses, Jason Bateman disse que imaginava a sua personagem com “um bigode, óculos e talvez risco ao meio”, mas o bigode acabou a ir parar a David Harbour.
“É verdade, houve uma conversa sobre isso”, lembra Bateman. “Enquanto atores, procuramos todo o tipo de ajuda, truque e recurso para nos tornarmos alguém diferente. A parte mais importante é sempre o guião, as palavras, as ações. Mas depois tentamos adicionar um pouco de máscara e pele. Comecei pelo bigode, mas depois tive uma conversa com o David e o Steve sobre como seria estranho os dois homens terem bigode. Então, decidi cortar o meu”, recorda. Num tom mais sério, continua: “A boa notícia é que o Steve criou personagens tão bem desenvolvidas que não precisámos de nos esforçar para acrescentar uma pele mais estranha”.


DTF St. Louis — cujos episódios ficarão disponíveis todas as segundas-feiras na plataforma da HBO — consegue a proeza de juntar atores que já provaram ser tão bons em comédia, como em drama ou suspense. Jason Bateman tem no currículo Arrested Development — De Mal a Pior, Ozark e mais recentemente o negro e frenético Black Rabbit; Linda Cardellini fez Blood Line, Dead to Me, a saga Vingadores e, numa fase inicial da carreira, Freaks and Geeks ; David Harbour ainda goza a ressaca de Stranger Things. Aqui conseguem ser calculistas, empáticos ou ingénuos, mas são sobretudo pessoas banais desiludidas com a vida.
Para Linda Cardellini, depois de tantos projetos com longas horas a gravar, um set transmite-lhe conforto e pertença. “Sentimo-nos muito relaxados no set, às vezes até mais relaxados do que na vida real.”
David Harbour completa: “Há um relaxamento que todos nós provavelmente sentimos depois de trabalhar durante tanto tempo, o que é muito bom, mas também há uma certa excitação com a qualidade das coisas. Todos já participámos em séries muito boas — eu também já participei em muitas séries más —, por isso acho que percebemos de qualidade. O nosso gosto aprimora-se ao longo de 30 anos neste ramo e isto foi divertido. Todos nos sentíamos felizes com o que estávamos a fazer, estávamos em sintonia.”