(c) 2023 am|dev

(A) :: Luís Campos Ferreira. "Passos Coelho não é cego, surdo e mudo. Mas emite opiniões sem agenda pessoal"

Luís Campos Ferreira. "Passos Coelho não é cego, surdo e mudo. Mas emite opiniões sem agenda pessoal"

Em entrevista, antigo governante diz que Passos sabe que Chega não tem "maturidade" para reformas de fundo, acredita que Carneiro vai manter estabilidade e fala do "assassinato de caráter" de Mendes.

Mariana Lima Cunha
text
Miguel Santos Carrapatoso
text
Miguel Viterbo Dias
text

Quando Passos fala (e fala cada vez mais), o PSD agita-se — e tenta adivinhar o que fará a seguir. Para Luís Campos Ferreira, que conhece bem o antigo primeiro-ministro e fez parte dos seus Governos, Passos não está a agir segundo uma “agenda pessoal” nem com um plano maior para voltar à liderança do partido, até porque se quisesse já o teria feito, ou até teria “sido Presidente da República”. O que não significa que seja “cego, surdo e mudo do ponto de vista político” e se iniba de expressar as suas opiniões, mesmo que estas afetem o Governo.

Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, o antigo governante defende que o PS é um parceiro mais sólido do que o Chega — que não tem “maturidade política”, e Passos também o “sabe” — para acordos de fundo. E acredita que os socialistas continuarão “serenos” e a privilegiar a estabilidade política. Por um lado, porque José Luís Carneiro não tem um “animal político” como o “mortífero” António Costa a pisar-lhe os calos; por outro, porque o PS tem medo de ir a eleições, pelo que sabe que mais vale apresentar-se como parceiro estável (e o PSD deve aproveitar esses contributos).

Amigo e conselheiro de Luís Marques Mendes, Campos Ferreira defende que este não estava “preparado” para uma campanha dominada pelos “assassinatos de caráter” de que foi alvo e mostra-se otimista sobre o mandato de António José Seguro, que está para Marcelo Rebelo de Sousa como a “água” está para o “vinho”. Mas, mais importante, não cederá a interesses partidários. Foi por isso, aliás, que votou nele na segunda volta, como tantos sociais-democratas fizeram.

[Ouça aqui a Vichyssoise com Luís Campos Ferreira]

https://observador.pt/programas/vichyssoise/falta-maturidade-politica-ao-chega/

“Passos sabe que falta maturidade política ao Chega”

A semana acaba por ficar marcada, em parte, pelas muitas críticas de Pedro Passos Coelho ao Governo de Luís Montenegro. Consegue compreender o sentido das críticas do antigo primeiro-ministro?
Fui governante quando Pedro Passos Coelho foi primeiro-ministro. Fez um trabalho patriótico, que é, cada ano que passa, mais valorizado pelas pessoas. Pedro Passos Coelho conseguiu fazer o seu trabalho e conseguiu entregar um país muito melhor do que o que recebeu.

Feito o ponto diplomático…
A diplomacia é a minha escola, não é? Mas não contem comigo para fazer comentários menos abonatórios sobre pessoas com quem tenho relações pessoais de amizade. Nenhum dos governos de Luís Montenegro usufruiu de uma maioria absoluta. Ou seja, não usufruiu de condições parlamentares para ter a capacidade reformista desejável. É evidente que o país precisa de um conjunto significativo de reformas que, quanto mais tarde vierem, maior vai ser a fatura. Mas essas reformas necessitam de apoio parlamentar. E os acordos parlamentares com o PS ou com o Chega nem sempre são fáceis. Exigem uma grande habilidade política por parte de Luís Montenegro. Dentro destas circunstâncias difíceis, tem tido capacidade para fazer as reformas possíveis. A política é a arte do possível. E governar também é um pouco a arte do possível. Os impostos em sede de rendimentos já tiveram três baixas, em sede de empresas já tiveram duas. Houve ainda o aumento do complemento social para idosos. Ou seja, houve medidas que impactaram positivamente na vida das pessoas.

Deixe-nos fazer o papel de advogado de diabo, e não estamos a chamar Pedro Passos Coelho de diabo. Mas um dos argumentos que o próprio usará é de que a AD está a perder uma oportunidade porque tem um parceiro à direita com quem poderia formar uma maioria.
Não sei se é essa a mensagem de Pedro Passos Coelho. Não vejo que haja um chão totalmente comum ou suficientemente comum, do ponto de vista ideológico, entre o PSD e o Chega. Mas mais importante do que isso é a inconstância do partido. Já houve um primeiro-ministro que disse que para dançar o tango é preciso duas pessoas. Acrescento: é preciso dois para dançar o tango bem. Porque se não estamos sempre a pisar os pés uns aos outros. Em vez de assistirmos a um bom bailado, assistimos a: “Ui, ai que me magoaste”. É preciso evitar isso na governação. Há uma inconstância e inconsistência no Chega. Há um excesso de vontade de agradar às pessoas, algo a que hoje se chama populismo. Ou seja, de apanhar o comboio da indignação, que lhe retira a responsabilidade que muitas vezes é preciso para governar. É muito difícil, ou mesmo impossível, fazer acordos sustentados, com pilares bem assentes, com o Chega. Falta maturidade política. Pedro Passos Coelho sabe isto tão bem como eu, não tenho dúvidas.

Consegue perceber o objetivo do antigo primeiro-ministro? Voltou com uma intensidade pouco habitual no que era o seu padrão. Está a tentar tirar tempo à legislatura de Luís Montenegro? Está a tentar acelerar o relógio? Acredita que há um plano maior? Acredita que Pedro Passos Coelho ainda ambiciona voltar a liderar o PSD?
Ele tem opiniões sobre determinada matéria e emite-as com toda a liberdade. E isso não implica obrigatoriamente que essas opiniões ou esses comentários façam parte de uma agenda pessoal. Julgo aliás que não. São opiniões que emite dentro da sua liberdade pessoal e do seu conhecimento e a sua experiência governativa.

Sem um plano maior.
Tenho essa convicção profunda. Se quisesse, Pedro Passos Coelho era Presidente da República. Teve oportunidades de regressar ao PSD como líder anteriormente e não o fez. Isso não implica que ele seja surdo, cego e mudo do ponto de vista político, e que não tenha as suas opiniões.

"Tenho essa convicção profunda [de que Passos não tem um plano maior]. Se quisesse, era Presidente da República. Teve oportunidades de regressar ao PSD como líder anteriormente e não o fez. Isso não implica que ele seja surdo, cego e mudo, e que não tenha as suas opiniões"

“Mendes não estava preparado para assassinato de caráter”

Foi um dos maiores apoiantes de Luís Marques Mendes, de quem é, aliás, amigo pessoal. Essa candidatura foi um erro?
Não. Tenho uma certeza que Luís Marques Mendes era o  candidato politicamente mais bem preparado. Agora, nem sempre um bom Presidente da República encarna um bom candidato.

Porque é que Marques Mendes não foi esse bom candidato?
Houve violências e crueldades verbais na campanha, vindas de Cotrim e depois de Gouveia e Melo que foram muito desagradáveis. Foram formas deselegantes e desajustadas de tratar um adversário político leal e respeitável como era Luís Marques Mendes. E não estaria “preparado” para uma campanha de assassinato de caráter. Foi surpreendido porque nunca lhe passaria pela cabeça que a campanha fosse essa lama. E isso marcou profundamente a campanha. Marques Mendes era, sem dúvida, a melhor opção. Mas, e digo sem nenhum sentido de oportunismo, a Presidência da República não ficou mal entregue.

António José Seguro tem dado sinais de que será, eventualmente, um Presidente da República mais interventivo do que o Governo talvez desejasse. Com a legitimidade que conseguiu nas urnas, teme que António José Seguro venha a ser uma força de bloqueio?
Não. Tenho a certeza que não. Conheço-os bem. O Presidente da República eleito é da minha geração, esteve no Parlamento comigo. Tenho a melhor das ideias dele. Como pessoa e como político. Ele não vai ter agenda partidária, nem pessoal. Disso eu tenho a certeza. Agora, tem um perfil muito diferente do Presidente Marcelo. Muito diferente. Uso uma expressão popular: são água e vinho.

Não perguntamos quem é a água e quem é o vinho…
São os dois um clarete. António José Seguro vai ser, com toda a certeza, um Presidente menos interveniente do ponto de vista mediático. A combustão mediática de António José Seguro é muito menor que a de Marcelo. Marcelo era mediaticamente hiperativo quando era líder do partido — era uma hiperatividade muito engraçada, que nem sempre é muito produtiva. Há uma amizade pessoal histórica que me liga ao professor Marcelo e à forma como ele consertou em 2016 um país que estava partido ao meio por causa da “geringonça”. O país deve-lhe isso e estou convencido de que nunca o esquecerá. Não tenho nenhum receio de que Seguro seja uma força de bloqueio. Naturalmente irá cumprir com o seu papel e poderá, entre quatro paredes, ser mais exigente que Marcelo, admito. Mas isso é bom. Votei nele na segunda volta à espera de que ele fizesse isso. Se eu achasse que ele não faria isso, teria votado no António Filipe, de quem gosto muito.

"Marcelo e Seguro são como água e vinho. A combustão mediática de António José Seguro é muito menor que a de Marcelo. Marcelo era mediaticamente hiperativo"

“PS tem medo de ir a eleições”

As eleições presidenciais não mudaram uma coisa: a AD continua a depender do PS ou do Chega para aprovar instrumentos essenciais, como o Orçamento do Estado. Acredita que o PS vai conseguir aguentar três anos na oposição, sabendo que tem em mãos a possibilidade de chumbar o Orçamento?
Pode chumbar o Orçamento, mas isso não quer dizer que o Orçamento não passe – e passa com abstenções. Estou convencido de que haverá uma legislatura até o fim. E a bem do país, espero que assim seja. Não se cumprem as vontades de Pedro Passos Coelho, que são vontades legítimas de fazer reformas, se não houver estabilidade política. Já temos esta dificuldade, em que grande percentagem do trabalho dos governantes vai ser dar resposta às tragédias recentes. Às vezes aproveitam-se certos momentos para se fazerem reformas, e espero bem que sim. Mas vejo no PS, principalmente no líder, muita serenidade. Naturalmente tem de fazer o seu papel de oposição e escrutínio, mas não vejo nele um homem acossado que tenha que ir para eleições rapidamente, porque senão o partido corre com ele.

Da última vez que um líder do PS deu a mão ao PSD, com António José Seguro, foi de facto corrido do partido…
As circunstâncias eram outras. O PS não tem nenhum António Costa neste momento. António Costa era politicamente mortífero. Há quem chame patifaria, há quem chame habilidade política, mas era capaz de fazer isso, apanhando o adversário, na altura António José Seguro, à socapa, e de supetão, e levando-o a sair. O PS não tem um animal político com essas características. E não vejo no PS uma oposição interna suficientemente motivada para acossar Carneiro. E o PS também tem medo de ir a eleições. Temos o Chega, que, surfando a onda da indignação nacional, vem crescendo. Nunca sabemos qual é o tecto. E por isso o PS tem medo, porque a migração de votos para o Chega não é só uma migração de votos dos partidos da direita. Há um contraste que o PS tem que fazer com o Chega, e esse contraste está na linha da responsabilidade. O PS não pode abdicar do seu estatuto de um partido de alternativa verdadeira e prática ao Governo.

Não tem de fazer também um esforço para manter essa relação com o PS? 
Claro que sim. Tem essa obrigação. E todos os esforços que provavelmente tem feito cheiram sempre a pouco. E não é só por o PSD e o CDS precisarem dos votos parlamentares do PS. É que os desafios e os problemas hoje em dia exigem que quem governa procure consensos mais alargados possíveis, mesmo que não precise dos votos desses consensos. E o PS é um partido fundamental na democracia portuguesa; o PSD, mesmo que tivesse uma maioria, não podia prescindir dos contributos do PS, principalmente quando esses contributos são bem intencionados e são positivos e acrescentam. No caso das tragédias, esses contributos do PS são muito úteis e o Governo deve tê-los em conta, sob pena de o país pedir contas a Luís Montenegro sobre não ter ouvido uma posição construtiva como se espera que seja a do PS.

Existe quem olhe para as presidenciais e retire a seguinte conclusão: o eleitorado da AD e em parte o eleitorado da IL rejeitou de forma bastante expressiva André Ventura. Logo, o Governo deveria afastar-se rapidamente do Chega e privilegiar o Partido Socialista como parceiro de negociação. Partilha desta leitura?
Prefiro um parceiro como o PS, não para uma formação de Governo de bloco central, mas para reformas profundas. Não tenho dúvidas nenhumas. Agora, quem governa tem de ter princípios de produtividade, tem de dançar com quem estiver disponível e lhe pisar menos os pés. Não é que considere o Chega, e muito menos os seus eleitores, um partido antidemocrático. Estas críticas exageradas acabam por ser contraproducentes. O momento em que o Chega mais cresce é com Augusto Santos Silva, convencido, dentro da sua arte manhosa de ser e estar na política, de que se estabelecesse um diálogo direto com o Chega, dando-lhe palco, isso prejudicaria seriamente o PSD. Ou seja, uma manha saloia, politicamente provinciana. Sim, deu palco ao Chega, saiu derrotado, e o PSD não é o prejudicado. Ainda bem que Augusto Santos Silva não está hoje no PS, nem foi candidato a Presidente da República, porque senão o PS não estaria com a estabilidade que está, e provavelmente estaria a minguar como mingua o Bloco de Esquerda.

Falou na hipótese teórica de o Chega, mesmo vencendo as eleições legislativas, não conseguir ou não ter condições de formar governo. Aqui a pergunta é ao contrário: admite algum cenário em que o PSD possa ser parceiro desse Chega?
Não, vejo isso como impossibilidade objetiva e absoluta. Uma aliança circunstancial com o Chega, sim. Uma parceria de compromisso mais profundo, não vejo hipótese. Nunca ouvi Passos dizer isso, a única pessoa que ouvi dizer isso foi o Rui Rio, quando era líder. Aliás, as investidas públicas de Rui Rio não dão grande sorte nem aos partidos nem aos candidatos presidenciais. Por isso, eu não vejo o meu PSD, o meu PPD, a alinhar num compromisso sólido com o Chega. Não se vê nenhuma outra tendência dentro do Chega forte que possa ser uma alternativa. Há este Chega e o Chega só existe assim. Se mudar, se amansar, como diria Rui Rio, deixa de existir, porque ele só puxa carroça com este tipo de vocabulário, indignação e gritaria.

"O PS não tem nenhum António Costa neste momento. António Costa era politicamente mortífero. (...) E não vejo, neste momento, no PS, uma oposição interna suficientemente organizada e motivada para acossar José Luís Carneiro"

“Leitão Amaro e Bugalho são de gerações diferentes”

Vamos avançar com o segmento “carne ou peixe”, em que só pode escolher uma de duas opções. Se fosse de férias, a quem é que deixaria os seus dálmatas: a André Ventura ou a Rui Rio?
A André Ventura.

Quem é que convidaria para ver um jogo da seleção nacional ao seu lado: Mariana Mortágua ou Pedro Nuno Santos?
Pedro Nuno Santos.

Se daqui a cinco anos o convidassem para ser mandatário nacional de uma candidatura presidencial, preferia ser de Cotrim Figueiredo ou de António José Seguro?
António José Seguro.

Num futuro muito distante preferia fazer uma campanha para eleições legislativas ao lado do candidato a primeiro-ministro António Leitão Amaro ou de Sebastião Bugalho?
Se calhar Deus vai dar-me vida para fazer as duas. Ou as três. Posso fazer ainda uma campanha da geração dos Leitões Amaros, e uma campanha da geração dos Sebastiões Bugalhos e dos Luís Álvares Campos Ferreira, que também são dessa geração. São pessoas completamente diferentes, de gerações diferentes, que…

Que não se vão atropelar?
Não é costume. Se repararem bem na história, as gerações sabem esperar pelo momento delas. Na política das gerações é quase como tirar a senha, aquela senha do talho de supermercado, fica pacientemente à espera que chegue a vez dela. As gerações têm feito isso. Tanto no PS como no PSD. Até porque as máquinas partidárias são coisas complexas, são verdadeiras geringonças e os apoios que se vai conquistando para se chegar a líder do partido, e por isso um potencial primeiro-ministro, demoram o seu tempo. Mas eu espero fazer, pelo menos, mais três gerações. Sem bengala.

[Apesar de um mandado de captura europeu, Gregorian Bivolaru está clandestino em Paris. Lá, o guru continua a receber discípulas para “iniciações secretas”. Ouça o quinto e penúltimo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto]