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(A) :: Patrick Bringley fez-se vigilante de um museu para lidar com o luto. Pelo caminho, descobriu "a beleza" enquanto "protegia Rembrandts"

Patrick Bringley fez-se vigilante de um museu para lidar com o luto. Pelo caminho, descobriu "a beleza" enquanto "protegia Rembrandts"

Trabalhou no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, enquanto superava a morte do irmão. Desses anos nasceu o livro "Toda a Beleza do Mundo". Entrevistámos o vigilante-escritor Patrick Bringley.

Ricardo Ramos Gonçalves
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Durante nove anos, Patrick Bringley trabalhou como vigilante do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. A rotina no museu cruzou-se com o luto pela morte do irmão, experiência que está na origem do seu primeiro livro, Toda a Beleza do Mundo – O Museu Metropolitano de Arte e Eu, agora publicado em Portugal e tema de uma conversa com o Observador.

Entre 2008 e 2019, Patrick Bringley trabalhou como vigilante no Metropolitan Museum of Art (museu de arte coloquialmente conhecido como Met), em Nova Iorque. A rotina da instituição, marcada por horas de observação e atenção, serviu de base para um primeiro livro, Toda a Beleza do Mundo – O Museu Metropolitano de Arte e Eu, agora publicado em Portugal. A obra combina a experiência diária no museu com uma reflexão pessoal sobre arte, memória e perda.

Bringley decidiu trabalhar no Met após a morte do irmão, que o deixou num estado de choque “quase sem palavras”. Em vez de regressar rapidamente a um emprego de escritório, o norte-americano escolheu um trabalho que lhe permitia “estar parado” num lugar onde beleza e dor coexistem. O museu tornou-se um espaço de luto e reflexão, onde podia atravessar essa perda familiar rodeado por obras que, há séculos, interrogam questões de vida e morte. Com o tempo, essa mesma experiência de solidão transformou-se numa observação mais ampla sobre o tempo e a atenção dentro de um museu. Para o autor, o Met passou a não ser apenas um repositório de obras-primas, mas um organismo vivo, uma cidade dentro da cidade, com oficinas, caves, balneários e centenas de histórias humanas que ali se cruzam nos bastidores.

“Há muitos guias de museu no mundo”, explica em entrevista ao Observador, “mas não existem assim tantos livros pessoais sobre arte que partam de uma perspetiva em primeira pessoa”. Para dar forma narrativa ao projeto, Patrick Bringley decidiu incluir a história do irmão, abordando em plano paralelo a dor desta perda e a transformação que o museu trouxe à sua vida. Passar horas diante das mesmas pinturas permitiu-lhe perceber que certas obras “literalmente florescem” com o tempo e que olhar não é apenas ver, mas um exercício de presença.

Entre o luto e as novas preocupações do dia a dia, desenha-se um diálogo constante entre arte e vida, onde o autor conta a história de outros vigilantes, revela curiosidades em torno do Met e aspetos menos conhecidos da sua vida de bastidores. Volvidos alguns anos, Bringley fala do Met como um espaço de refúgio e de encontro, onde a humanidade que sustenta as obras é tão visível quanto as próprias pinturas. Como sugere, os museus podem ser um dos últimos lugares onde ainda é possível abrandar e aprender a olhar com atenção. E talvez por isso, um espaço ideal em momentos de vida que exigem viragem e um olhar em frente.

Trabalhou como vigilante no Metropolitan Museum of Art entre 2008 e 2019. Em que momento percebeu que essa experiência podia transformar-se num livro?
Sempre escrevi em pequenos cadernos e, desde muito cedo, percebi que havia ali qualquer coisa de interessante a acontecer, mas não pensei que viesse a dar um livro. Talvez pudesse escrever uma espécie de crítica a uma exposição, do ponto de vista de um vigilante. Só ao fim de seis ou sete anos comecei realmente a considerar a hipótese de escrever um livro sobre a rotina em torno do trabalho. A minha primeira ideia, aliás, foi fazer uma espécie de guia do Met escrito por um vigilante. Pensava escrever um pouco sobre as obras, sobre a observação das pessoas e sobre os bastidores, misturando tudo num passeio divertido pelo museu. Trabalhei nisso durante algum tempo; era um projeto interessante, mas confuso, sem uma ideia central. Além disso, apercebi-me de que há muitos guias no mundo, mas não existem assim tantos livros pessoais sobre arte que partam de uma perspetiva em primeira pessoa, centrada no que se sente ao estar diariamente rodeado de obras. Percebi então que tinha a oportunidade de escrever sobre isso. Mas, para o fazer, teria de transformar o projeto numa história, numa narrativa sobre mim e num exercício de memória, e isso implicava falar do meu irmão, da sua morte e de como fui ali parar. Percebi que teria de ser ambicioso. Foi por isso que o processo acabou por demorar tantos anos.

A forma como encontra o trabalho como vigilante naquele museu surge, no início, como uma procura de solidão para lidar com o que lhe estava a acontecer. De certa forma, o museu foi um espaço para atravessar esse luto?
Sim. Quando o meu irmão morreu, não queria regressar apressadamente a um emprego de escritório e voltar a encaixar-me no mundo. Tudo isso me parecia inconsequente e até trivial. Sentia-me em estado de choque, quase sem palavras. Queria fazer algo simples, direto, honesto, até reconfortante. Pensei neste trabalho, que me permitiria “estar parado” a ganhar a vida, num lugar belo, e continuar a refletir sobre coisas que me pareciam importantes, talvez mais elevadas ou mais essenciais. Estar em espaços que eram belos, mas que no Met também são, muitas vezes, dolorosos e comoventes. É um museu que está cheio de lugares que nos confrontam com questões de vida e de morte. Sentia-me, não sei bem como explicar, muito atraído pela ideia de poder passar tempo num espaço assim, nos meus próprios termos.

Escreve sobre a sua primeira visita ao museu, quando era mais novo, em família. Em retrospetiva, consegue perceber melhor porque escolheu precisamente este museu ou este tipo de trabalho? Como disse, não queria regressar ao “mundo real”, mas tinha várias opções.
Nunca estudei arte de forma aprofundada – tive apenas algumas aulas na universidade – mas sempre adorei as temáticas. A minha mãe era atriz de teatro em Chicago, gostava muito de arte e levava-nos muitas vezes ao Art Institute of Chicago. Mais tarde, quando fui para Nova Iorque estudar, visitava o Met e sentia-me completamente deslumbrado. Gosto muito daquela sensação de estar sozinho no meio da multidão e talvez seja por isso que gosto tanto de Nova Iorque. No Met, há essa experiência. É um espaço tão grande, com tanto para ver, que podemos quase desaparecer ali dentro, encolher-nos, desligar os pensamentos e simplesmente deixarmo-nos absorver por todas aquelas coisas belas e perdermo-nos de uma forma agradável naquele lugar. Sempre fui assim. Gosto das humanidades, gosto de ler, gosto de grandes ideias e grandes reflexões, e sinto-me naturalmente atraído por espaços que proporcionam isso. Quando soube da existência deste trabalho, pareceu-me a combinação perfeita.

"Olhar para uma pintura não é como olhar para uma fotografia ou para uma imagem no computador. Estas obras são construídas camada sobre camada, com veladuras semitransparentes de secagem lenta; a luz atravessa essas camadas, mistura-se e regressa ao nosso olhar. Há nelas uma quantidade imensa de trabalho, cuidado e rigor, tanto nos detalhes como na composição geral."

Como é que escrever este livro o ajudou a compreender a dor do luto e a dar-lhe um lugar definitivo?
Quando se escreve, de certa forma está-se a construir uma história a partir de algo, a dar-lhe significado e importância. A vida é muito desordenada: um dia é de uma maneira, no outro é diferente; ora estamos em alta, ora estamos em baixo. Ao construir uma narrativa, estamos a dar-lhe forma. Nesse sentido, pensar sobre tudo isto e refletir sobre a forma de escrever o livro foi provavelmente útil. Embora grande parte desse processo tenha acontecido a posteriori, mas creio que foi importante. No entanto, a própria escrita do livro e o trabalho de moldar todas aquelas ideias, de lhes dar estrutura e torná-las publicáveis, é algo tão exigente que não tenho a certeza de que tenha sido propriamente terapêutico. Foi muito difícil, extenuante até! Foi gratificante e estimulante, mas bastante duro. Tive muita sorte por ter passado um longo período apenas a pensar nestas questões e a escrever livremente.

A certa altura do livro, percebe e escreve que o peso desse luto já não é o que era porque, com o passar do tempo, começa a ser preenchido por novas preocupações. Fala também da dificuldade em aceitar essa mudança.
Às tantas, senti que quase estava a fazer o luto do próprio período de luto. Há algo de muito belo na perda, na dor e no luto. São experiências intensas, cheias de significado, que nos focam e, ao mesmo tempo, nos tornam mais abertos ao mundo. Durante o tempo em que estive com o meu irmão no hospital, e também depois, sentia-me extremamente sensível às coisas à minha volta – às grandes pinturas, por exemplo. Casei-me com a minha mulher nesse período e fomos pais. Tudo parecia ter um peso e uma intensidade enormes. Mas, quando começamos a seguir em frente e a reencontrar um certo ritmo, a vida volta naturalmente a encher-se. Surgem mais responsabilidades e acumulam-se mil tarefas. Voltamos ao compasso da vida quotidiana. Em muitos aspetos, isso é bom e saudável porque regressamos ao ritmo normal e às relações com os outros.

Nesse momento, já não se tratava apenas do luto pelo seu irmão, mas da própria experiência e da forma como ela transformou a sua vida.
Exatamente. Transformou, inevitavelmente. Sobretudo quando envelhecemos e, no meu caso, quando tive filhos, surgem novas responsabilidades. Aquele período em que sentimos que tudo tem de parar porque estamos mergulhados no luto acaba por se dissipar. Em parte, isso é positivo. Mas, ao mesmo tempo, sente-se uma certa nostalgia. Havia algo de belo e esclarecedor em estar dentro desse estado. Lembro-me de estar no Met e pensar: “Agora, quando me enviam para uma nova ala, a minha preocupação é se fica longe da biblioteca ou do cacifo e que me doem os pés”. Começamos a ter preocupações mais triviais. Faz parte da vida, mas confesso que também senti uma certa perda ao deixar para trás aquela intensidade.

Há algo que considero muito forte no livro: é simples na escrita, muito fluido, mas sente-se também uma grande contenção nas escolhas. Poderia ter feito muitos livros diferentes a partir do mesmo ponto de partida — falar mais das pinturas; centrar-se no museu; falar apenas do seu irmão. Como foi o processo de definir a abordagem e pôr tudo no papel?
Foi muito difícil, porque quando se escreve um livro é preciso encontrar um determinado tom, uma perspetiva própria, e identificar temas que atravessem a narrativa e lhe deem unidade. E tudo isso foi complicado porque, como disse, havia mil maneiras possíveis de abordar. O que fiz foi simplesmente escrever. Escrevi, escrevi e escrevi. Aos poucos, comecei a perceber qual seria o tom, a forma como falaria de arte e de vida, e de como essas duas dimensões poderiam espelhar-se uma na outra, criando uma certa musicalidade. No fundo, é um processo muito intuitivo: vai-se fazendo aquilo que parece certo, aquilo que tem vida, pulso, talvez até um pouco de magia. Depois há a questão do equilíbrio. Quis incluir alguma reflexão mais elevada sobre arte, mas também falar de coisas muito concretas – como o facto de me doerem os pés – e das pequenas preocupações do quotidiano, das outras pessoas à minha volta. Foi preciso equilibrar a solidão e os outros, a arte e as pessoas, os bastidores e o que está diante do público. Trabalhei muito nesse equilíbrio.

No livro fala de várias obras expostas, dos clássicos aos contemporâneos. O que se aprende sobre um quadro ao permanecer diante dele durante horas, dias, anos?
Uma das coisas que se aprende é que certas grandes pinturas literalmente florescem quando passamos cada vez mais tempo diante delas. Olhar para uma pintura não é como olhar para uma fotografia ou para uma imagem no computador. Estas obras são construídas camada sobre camada, com veladuras semitransparentes de secagem lenta; a luz atravessa essas camadas, mistura-se e regressa ao nosso olhar. Há nelas uma quantidade imensa de trabalho, cuidado e rigor, tanto nos detalhes como na composição geral. Tudo isso exige tempo para ser plenamente absorvido: o domínio técnico, o pensamento, a perícia, a riqueza material. Tudo isso se revela devagar. Outra coisa muito interessante no trabalho de vigilante é que temos tempo para olhar de forma quase ingénua. Não estamos constantemente a pensar “isto é um Caravaggio, logo significa isto ou aquilo, e vou procurar o que o distingue dos seus predecessores”. Podemos simplesmente olhar para as cores, para o que a pintura parece transmitir, imaginar que aquele modelo talvez fosse apenas um homem italiano que o artista conhecia da praça. Temos tempo para abordar a obra a partir de múltiplos ângulos.

Naturalmente, esse olhar é diferente do de um historiador de arte ou de um crítico. Para si, o que foi mais interessante descobrir sobre as pessoas que trabalham como vigilantes do Met?
Os meus colegas vigilantes no Met eram absolutamente fascinantes. Nova Iorque é uma cidade de imigrantes – cerca de 40% da população nasceu no estrangeiro – e diria que talvez 50% ou 60% dos vigilantes também. De certa forma, eles representam o mundo, tal como o Met é um museu que tenta abarcar o mundo inteiro. Isso fazia deles uma extraordinária coleção de seres humanos. E havia também uma enorme riqueza na forma como se relacionavam com as obras de arte. Porque não é preciso olhar para uma obra apenas do ponto de vista da história da arte. Pode-se olhar a partir da própria vida, daquilo que se viveu, sofreu, perdeu ou foi conquistou. Conheci vigilantes que tinham tido todo o tipo de profissões, pertenciam a diferentes religiões, vinham de regiões diversas. Alguns eram refugiados. Se eu estivesse na secção de arte da África Ocidental, era bem possível que estivesse ao lado de um colega que era africano. Isso dava-lhe uma perspetiva particular sobre questões como a restituição das obras ou o seu significado cultural. Tudo isso fazia dos vigilantes um recurso humano extraordinariamente rico para compreender melhor o museu e o mundo que ele contém.

"No Met, a maioria das obras nem sequer está protegida por vidro. E isso só é possível porque existem pessoas que garantem que tudo funciona bem. Somos nós que tornamos possível esse pacto de confiança pública entre a instituição e os visitantes. A arte que está num museu pertence, em certo sentido, a todos nós, e o público pode aproximar-se a poucos centímetros."

O Met surge no livro como um sistema vivo. É quase uma cidade dentro da cidade, com milhares de funcionários e engrenagens próprias. Ao compreender esse “organismo vivo”, o que foi importante para mostrar a leitores que talvez nunca tenham pensado no museu dessa forma?
Uma das coisas que quis fazer no livro foi despertar a curiosidade das pessoas para um mundo em que nunca tinham realmente pensado. Quando se percorre o Met, tudo parece imenso, mas costumo dizer que é tão grande para baixo, debaixo dos nossos pés, como é à superfície. Nas caves há uma marcenaria, uma oficina de vidro, uma sala de armas com uma forja funcional, um balneário para 500 vigilantes. Há ateliers de conservação, áreas de armazenamento, ou seja, toda uma infraestrutura invisível que sustenta as obras que o público vê nas galerias. Isso surpreende as pessoas. Não imaginam que existe este mundo paralelo, criado para apoiar o resto. E essa dimensão, creio, desperta entusiasmo e fascínio.

E esse sistema vivo também revela muito sobre a história da imigração nos Estados Unidos. Revela os laços familiares, os bebés que nascem dessa conexão e as gerações que ali cresceram.
O Met é, de certa forma, um mundo em miniatura. Temos a Grécia, Roma, o Egipto noutra ala… tenta reunir o mundo inteiro sob o mesmo teto. Mas, como diz, também é um mundo em miniatura porque é um lugar onde as pessoas vivem as suas próprias vidas. Um dos meus colegas reformou-se recentemente após 49 anos de serviço. O filho dele é médico e foi quem assistiu ao nascimento dos meus filhos no hospital. Ou seja, as vidas cruzam-se ali de forma muito concreta. Muitos vigilantes são artistas e encontram no museu inspiração para o seu próprio trabalho. É um lugar profundamente nova-iorquino, cheio de vida, ao mesmo tempo que está repleto de obras-primas antigas. Essa coexistência entre a vida quotidiana e a grande arte é uma das coisas que o tornam tão especial.

Faz questão de mostrar os bastidores, das inaugurações à revista criada pelos vigilantes, a Sw!pe Magazine. Era importante revelar esse lado invisível?
Quis que o livro fosse, em parte, sobre arte e, em parte, sobre aquilo que um indivíduo solitário pode fazer para se relacionar com as obras e com este grande mundo de que a arte fala. Algumas pessoas identificam-se com o livro porque, embora seja sobre um vigilante, sabem o que é entrar num museu  e sentir algo semelhante – ou até, se preferirem a natureza, sair para o bosque e ter essa mesma experiência de contemplação. Queria que fosse uma dimensão acessível, com a qual qualquer pessoa pudesse criar empatia. Mas também queria incluir algo surpreendente e diferente do que se espera ou do que já se conhece. E isso passa por revelar esta enorme instituição que é o Met, com as suas múltiplas camadas, as diferentes profissões que ali coexistem, os bastidores, os cerca de dois milhões e meio de objetos que guarda. Por um lado, queria algo profundamente humano e reconhecível; por outro, algo fascinante, quase assombroso. O desafio foi fundir essas duas dimensões no mesmo livro.

No final do livro escreve que nem Rembrandt sobreviveria sem os funcionários do museu. Que papel desempenham, para si, estas figuras anónimas na preservação da beleza?
Uma das coisas maravilhosas nos museus de arte é o facto de serem extraordinariamente acessíveis. No Met, a maioria das obras nem sequer está protegida por vidro. E isso só é possível porque existem pessoas que garantem que tudo funciona bem. Somos nós que tornamos possível esse pacto de confiança pública entre a instituição e os visitantes. A arte que está num museu pertence, em certo sentido, a todos nós, e o público pode aproximar-se a poucos centímetros. Isso acontece porque há pessoas atentas, não para agir como polícias, mas para assegurar que reina a tranquilidade e que tudo decorre como deve ser. O vigilante de um museu vive no meio da beleza e protege um Rembrandt ao mesmo tempo. Que sorte, não é? As máquinas não conseguem substituir isso. As câmaras podem registar comportamentos errados, mas não podem fazer tudo. As máquinas não podem falar com delicadeza com uma criança e pedir-lhe que fique junto da mãe ou do pai porque está ali um Rembrandt, para que todos estejam seguros. Esse toque humano é insubstituível. E os vigilantes são pessoas com vidas próprias, histórias, talentos. Muitas vezes, podemos aproximar deles e conversar e talvez aprender algo com isso, em vez de os encarar apenas como uma câmara de vigilância.

O museu continua a ser uma experiência profundamente humana, tanto na sua criação como na sua fruição. Acredita que, mesmo no futuro, muitos desses processos não serão substituído por máquinas?
Acredito que haverá quase uma força de reação. À medida que o mundo se torna cada vez mais digital, mais dominado pela inteligência artificial e por conteúdos descartáveis, haverá sempre algo dentro de nós que anseia pelo oposto, pelo que é humano, presencial, direto, feito por mãos humanas. Os museus oferecem algo maior do que os nossos ecrãs, com mais textura, mais detalhe, mais presença física. São espaços que percorremos com o corpo, ao nosso ritmo, criando associações com determinadas salas, com atmosferas distintas, com memórias pessoais. Tudo isso é o contrário da experiência puramente digital. Acredito que os museus poderão tornar-se ainda mais importantes como contraponto ao rumo tecnológico do mundo. Um espaço onde a experiência humana direta permanece central.

Descreve o museu como um espaço intermédio – nem puramente académico, nem puramente experiencial. Qual deveria ser, hoje, o papel do museu na vida das pessoas?
Acho que é importante ir a um museu para ter experiências. Se alguém quiser ir com um interesse mais académico – por exemplo, compreender a diferença entre o Barroco e o Rococó – isso é excelente, gosto muito desse lado mais erudito. Mas para muitas pessoas esse não é o principal interesse. Ainda assim, qualquer pessoa pode entrar num museu e deparar-se com coisas belas, estranhas, antigas ou misteriosas. Coisas que nos lembram quão vasto, antigo, diverso e pleno é o mundo. Recordam-nos que os seres humanos sempre pensaram em questões tão grandes como o cosmos e, ao mesmo tempo, em questões extremamente íntimas, como a beleza de um rosto num retrato. Tudo isso nos faz sentir a riqueza da experiência humana. As pessoas devem ir aos museus para sentir o coração acelerar um pouco, para abanar a cabeça em espanto, para se emocionarem. E também para, ao sair, olharem o mundo com outros olhos.

Vivemos, no entanto, num mundo cada vez mais dividido. Pergunta-se frequentemente se a arte pode ser um espaço de encontro e de empatia, talvez hoje mais do que nunca.
Por vezes fazem-me perguntas de teor políticas, e não me importo de lhes responder, mas muitas vezes prefiro desviar-me um pouco. Parece que todas as conversas hoje giram em torno das questões imediatas do momento. A arte – e um lugar como o Met – permite-nos pensar de forma mais ampla. Dá-nos espaço para respirar. Lembra-nos que a existência é maior do que as discussões acaloradas nas redes sociais. Creio que isso pode, de facto, fomentar empatia. Pode tornar-nos pessoas mais completas, mais conscientes do sofrimento, da bondade. Muitas vezes é isso que a arte nos convida a fazer: refletir, aprofundar, ganhar substância. Não se trata apenas de saber se uma obra comenta este ou aquele tema político atual. O horizonte é mais vasto.

Nos últimos anos, houve muita discussão sobre restituições de obras e, por exemplo, sobre o financiamento de museus como o Met. Recordo o documentário, Toda a Beleza e a Carnificina, de Laura Poitras, sobre Nan Goldin e os lobbies que financiam instituições deste género. Enquanto autor que escreveu sobre um museu como sistema vivo, estas questões preocupam-no?
Sim, absolutamente. As questões da restituição são extremamente complexas e devem ser discutidas. Há obras que o Met devolveu recentemente porque tinham sido saqueadas de forma ilegítima. Mas existem também casos mais difíceis. Há objetos retirados há muito tempo, antes de existirem leis claras, ou em contextos coloniais cuja legitimidade hoje questionamos. Quando começamos a tentar desfazer esses nós históricos, percebemos como tudo se torna intrincado. Muitas das civilizações que produziram essas obras também eram impérios. Por vezes, a própria arte foi criada em contextos moralmente problemáticos. Não existe uma resposta única que sirva para todos os casos. É preciso analisar situação a situação e perguntar o que poderá tornar o mundo melhor ou pior. Também não quereríamos um mundo em que fosse necessário ir a Portugal para ver apenas arte portuguesa ou aos Estados Unidos para ver apenas arte americana. A circulação de obras pelo mundo trouxe benefícios. Mas isso não pode acontecer à custa de queixas legítimas ou de injustiças reais. É um equilíbrio delicado e permanente.

"Escolham algo que realmente vos toque e passem tempo com isso. Algo que faça o coração bater mais rápido, que mexa de forma pessoal. Não se limitem a fotografar apenas o que é famoso. Esqueçam, aliás, o que é ou não famoso."

Os museus também podem mudar. Por exemplo, o Met retirou o nome da família Sackler de algumas galerias, procurando reposicionar-se face a um novo entendimento ético e político.
Uma das realidades de um museu como o Met é que precisa de financiamento privado. E é importante compreender isso. Mas também é preciso traçar limites. O Met decidiu que a família Sackler, que acumulou riqueza associada à crise dos opioides, representava um limite que não podia ser ultrapassado. Lembro-me bem dos protestos. Estava a trabalhar nesse dia – não na ala egípcia, onde aconteceu a manifestação organizada por Nan Goldin – mas ouvi dizer que algo fora do comum tinha acontecido ali. Para mim, foi um protesto eficaz, porque chamou a atenção para uma questão que muitas pessoas, incluindo eu, não conheciam suficientemente na altura.

Sente que a vida tem de estar à altura das pinturas — ou que as pinturas têm de estar à altura da vida, como escreve?
Acho que uma das coisas mais interessantes na arte é esse movimento de ida e volta. Às vezes olhamos para uma grande pintura e pensamos: é extraordinário que algo tão íntimo e importante na vida – como a relação com um filho, por exemplo – tenha sido captado assim. É impressionante quando a pintura corresponde a algo tão verdadeiro e tão significativo na nossa própria experiência. Mas também acontece o contrário e há obras tão belas e majestosas que, quando algo na nossa vida se aproxima dessa intensidade, isso ganha um novo significado, como se herdasse parte da profundidade que o artista lhe conferiu. É um diálogo constante entre arte e vida.

Aborda também o nascimento dos seus filhos quando era vigilante do Met. A paternidade mudou a sua perspetiva sobre a arte?
Muito. A paternidade é extremamente exigente. Criar filhos envolve um trabalho constante, muitas vezes repetitivo e cansativo. Eu tinha um trabalho em que as mãos estavam quase sempre livres – era algo limpo, contemplativo, até idealizado – e gostava disso. Mas quando tive de “arregaçar as mangas” para construir algo para os meus filhos, comecei a interessar-me mais por esse lado da vida. No fundo, é isso que os artistas fazem. A frente da tela pode parecer pura, harmoniosa, mas por trás há horas de trabalho árduo. No museu, podemos simplesmente contemplar a beleza. Mas também podemos imaginar tudo o que foi necessário para a criar. Esse lado mais laborioso da criação tornou-se mais evidente depois de ter filhos.

Se pudesse regressar ao seu primeiro dia no museu – marcado pela energia nervosa e pelas instruções básicas – o que diria ao jovem Patrick?
Acho que não lhe diria nada. Vivi essa experiência ao ritmo que precisava. Estava muito aberto, muito disponível para tudo o que iria descobrir. Não gostaria que alguém mais velho e supostamente mais sábio viesse dizer-me como deveria viver aquele momento. A inocência daquela experiência foi importante. Portanto, creio que o melhor seria simplesmente deixar-me em paz e não interferir.

O que diria às pessoas que hoje querem visitar o Met, com base na sua experiência? Algum conselho a dar?
Gosto sempre de dar dois conselhos. Primeiro: percam-se no museu. É tão grande que não faz sentido entrar apenas com um objetivo específico. Percorram as galerias sem pressa. Vão do Egipto ao Camboja, à Idade de Ouro holandesa, e vão sentir o quão vasto e diversificado é o mundo. É uma experiência que nos faz sentir pequenos, de uma forma muito agradável. O segundo conselho é: depois de explorar livremente, escolham algo que realmente vos toque e passem tempo com isso. Algo que faça o coração bater mais rápido, que mexa de forma pessoal. Não se limitem a fotografar apenas o que é famoso. Esqueçam, aliás, o que é ou não famoso. Procurem algo que vos atraia, passem tempo de qualidade com aquela obra, aquela sala ou aquela ala.

Como tem sido a receção do livro entre os funcionários do Met, mesmo hoje?
As pessoas foram muito simpáticas. O museu comprou exemplares para todos os vigilantes e eu fiz uma sessão de autógrafos na cave, enquanto eles recebiam as suas atribuições matinais. Foi um momento muito especial para mim. Recebi muitas mensagens de gratidão. Os vigilantes do Met são fantásticos, alguns são verdadeiramente entusiastas, outros têm interesses diferentes, mas todos se apoiam. Algumas pessoas estabeleceram uma ligação pessoal com o que escrevi e até ofereceram o livro a familiares. Conheci vigilantes de todo o país e de outros países que se reconheceram nas minhas palavras, o que foi maravilhoso.

Do processo de luto até se tornar vigilante e depois escrever o livro, passou também pelo palco e participou num espetáculo de teatro no ano passado, justamente, sobre o livro. Porque quis essa experiência?
Tinha dado muitas palestras em museus e percebi que gostava de falar em público. Não me sentia nervoso no palco, e achei que poderia explorar algo mais ambicioso. Neste caso, um espetáculo a solo sobre um trabalho solitário como o de vigilante. Pareceu-me natural e poético. O teatro é, de certo modo, como um museu: um espaço sagrado e silencioso, e quis captar a atenção do público para isso. Conheci o encenador britânico Dominic Dromgoole num festival literário. Ele tinha dirigido o Globe Theatre em Londres durante dez anos. Houve empatia imediata, ele leu o livro, e aceitou ser o encenador dessa experiência.

Vemos constantemente o museu em filmes, livros… Qual é, hoje, a sua relação com o Met? Continua a ser “toda a beleza do mundo”, como sugere o título, ou mudou de alguma forma?
Ainda adoro visitar o museu. Faço visitas privadas a pessoas que vêm a Nova Iorque e querem uma experiência mais personalizada. É muito divertido contar histórias no museu e conectar-me com as pessoas. Não esgotei a coleção permanente – nem perto disso — e provavelmente nunca o farei. Além disso, há sempre exposições temporárias. Em março, por exemplo, abre uma grande exposição de Raphael que será um verdadeiro evento. Vou passar lá imenso tempo. Ainda assim, há um certo sentimento de nostalgia. Continuo empolgado e ligado a este lugar. Tenho a certeza que, ao longo da minha vida, continuarei assim.