Juan Carlos está a viver em Abu Dhabi desde 2020. Após a sucessão de escândalos associados ao seu nome que poderiam ter tido consequências jurídicas, o Rei emérito decidiu ir viver para os Emirados Árabes Unidos, onde se esperava que passasse o resto dos seus dias. Contudo, a divulgação recente de ficheiros confidenciais sobre um golpe de Estado frustrado em 1981 criou um movimento em Espanha que pede o regresso do ex-monarca pelo papel decisivo que desempenhou para o travar durante a consolidação da democracia espanhola.
Através da divulgação de mensagens e conversas privadas esta quarta-feira, dia em que se celebraram 45 anos desde a tentativa de golpe de Estado que fez os deputados reféns no Congresso, é percetível que o Rei Juan Carlos tentou ativamente travar a trama para impor um regime de inspiração autoritária. Dando ordens claras aos comandantes e repreendendo os autores do golpe de Estado, o Rei emérito desempenhou um papel fundamental para evitar um Governo de salvação nacional que poderia pôr em risco a monarquia constitucional.
Por causa disto, o líder da oposição e presidente do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, escreveu no X, esta quinta-feira, que os espanhóis devem “reconciliar-se” com quem “travou o golpe de Estado”: “Creio que seria desejável que o Rei emérito regressasse a Espanha”. “Reconheceu que cometeu erros inegáveis na sua trajetória, mas foi quem contribuiu para preservar a nossa democracia e as nossas liberdades num momento chave”. O líder dos populares considera que o pai de Felipe VI deveria “passar a última etapa da sua vida com dignidade e no seu país”.
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Não é único a pedir o regresso de Juan Carlos. Vozes influentes dentro do PP — como a presidente da comunidade autónoma de Madrid, Isabel Díaz Ayuso — deixaram o mesmo apelo. O Governo de Pedro Sánchez e até o PSOE não se opõem. A casa real espanhola apenas assinalou que a “decisão cabe” ao Rei emérito. Não é segredo para ninguém que o Rei Felipe VI e o pai estão de costas voltadas. Na biografia publicada recentemente, Reconciliação, Juan Carlos queixou-se de se sentir abandonado pelos familiares.
Amantes, caçadas e escândalos financeiros: o passado de Juan Carlos levou-o a abdicar a favor do filho em 2014 e, anos mais tarde, a sair de Espanha para o exílio. Apesar destas polémicas que mancharam a sua reputação, os documentos confidenciais vieram mostrar que o Rei emérito foi fundamental para que um grupo de militares não impusesse um regime idêntico ao do caudilho Francisco Franco — que, aliás, confiou no antigo monarca para a sua sucessão. O que os ficheiros secretos demonstraram foi que Juan Carlos contribuiu mais do que originalmente se pensava para que Espanha consolidasse o seu regime democrático.
Da imagem de pária que já lhe tinha ficado colada à pele a figura de herói da transição democrática? O legado que deixou o longo reinado de Juan Carlos, de 88 anos, continua a ser um assunto debatido em Espanha, entre elogios e condenações. Exilado e sozinho em Abu Dhabi, o regresso ao país natal poderia novamente transformar a figura do Rei emérito.

O golpe de Estado do 23-F. A invasão do Congresso, tanques em Valência e o discurso de Juan Carlos
Era dia 23 de fevereiro de 1981. Havia uma sessão no Congresso dos Deputados para a tomada de posse enquanto chefe do Governo de Leopoldo Calvo‑Sotelo, pertencente à União do Centro Democrático — um dos partidos que liderou a transição e que foi um dos pilares fundadores da democracia espanhola —, que ia substituir no cargo Adolfo Suárez, que se tinha demitido semanas antes.
A democracia espanhola estava a dar os primeiros passos em 1981. Tinham passado poucos anos desde que Franco morrera e Espanha tinha uma recente monarquia constitucional. Durante a transição, havia vários grupos franquistas que olhavam com desagrado para as mudanças introduzidas por Juan Carlos e que desejavam regressar aos tempos da ditadura. Alguns até eram próximos do ex-monarca.
Entre esses nomes está o do general Alfonso Armada: nunca escondeu as suas ligações a Franco (até trabalhou diretamente para o caudilho), mas tornou-se um dos principais conselheiros e homens de confiança de Juan Carlos. Nas costas do Rei, juntamente com outros franquistas, planeou um golpe de Estado. O pressuposto era que o militar de alta patente convenceria o ex-monarca a aceitar um regime autoritário, após a tomada do Congresso espanhol. Depois, Alfonso Armada lideraria os esforços para a formação de um Governo de salvação nacional com o apoio das Forças Armadas.

Na biografia oficial, Juan Carlos reconheceu que cometeu um erro ao desvalorizar as “intrigas que ganhavam força” para terminar com o regime democrático. “Todos estavam a brincar com o fogo. E dei-me conta demasiado tarde”, afirmou o ex-monarca no livro publicado há semanas, antes da divulgação dos ficheiros confidenciais. O Rei emérito garante que estava “longe de imaginar que estivesse a ser planeado o golpe de Estado” de 23 de fevereiro de 1981, apontando o dedo a Alfonso Armada, que acusou de o trair: “Gostava muito dele e ele traiu-me. Convenceu os generais de que falava em meu nome”.
Além de Alfonso Armada, há mais dois protagonistas: o tenente-coronel Antonio Tejero e o general Jaime Milans del Bosch. O primeiro chefiou o grupo de 200 militares que invadiu a sessão de investidura a 23 de fevereiro. De pistola na mão, irrompeu no hemiciclo do Congresso dos Deputados, subiu à zona da presidência e gritou para que todos ficassem “quietos” e se deitassem no chão. Manuel Gutiérrez Mellado, vice‑presidente do Governo e general na reserva, enfrentou Tejero, que respondeu com disparos para o teto.
Quase em simultâneo, começava uma rebelião em Valência liderada por Jaime Milans del Bosch. O general responsável pela liderança militar da região valenciana pôs tanques nas ruas e declarou o estado de emergência naquela zona. Esperava também que fosse o tiro de partida para que outros comandantes de outras partes de Espanha se juntassem ao golpe de Estado.

Em Madrid, no Congresso, Antonio Tejero manteve deputados e membros do Governo como reféns durante várias horas, ao passo que Jaime Milans del Bosch controlava as ruas de Valência. De acordo com o plano, Alfonso Armada era o responsável por garantir o aval de Juan Carlos num Governo de salvação nacional dos militares.
Só que as tentativas de Alfonso Armada para convencer Juan Carlos não surtiram qualquer efeito. O Rei rejeitou qualquer tentativa de impor um Governo de salvação nacional. Enquanto chefe das forças armadas, o antigo monarca ordenou, através de canais privados, que se mantivesse a “ordem” estabelecida pela Constituição de 1978, que instituiu a monarquia constitucional. Para além disso, fez um discurso na TVE (a televisão estatal) em que vincou a sua posição.
“A Coroa, símbolo da permanência e unidade da pátria, não pode tolerar, de forma alguma, ações ou atitudes de quem pretende interromper pela força o processo democrático que a Constituição votada pelo povo espanhol determinou através de referendo”, declarou Juan Carlos. Jaime Milans del Bosch rendeu-se após o discurso e retirou os tanques das ruas de Valência, ao passo que Alfonso Armada foi enviado para tentar resolver os diferendos com Antonio Tejero no Congresso dos Deputados.
https://www.youtube.com/watch?v=1MlNLd-_BgA
Ao mesmo tempo, Alfonso Armada e Antonio Tejero entraram em rota de colisão quanto aos objetivos do golpe de Estado. Enquanto o primeiro desejava um Governo de salvação nacional com a participação de vários partidos, o projeto do segundo era mais radical e incluía ilegalizar vários partidos de esquerda, impedindo-os de participar na vida política. Mesmo cercado e opondo-se a Juan Carlos, o tenente-coronel não se rendeu facilmente, mantendo os deputados sequestrados durante horas.
Só ao meio-dia de dia 24 de fevereiro de 1981 é que Antonio Tejero se rendeu e os deputados deixaram de ser reféns do militar. Ao longo da madrugada, o tenente-coronel foi perdendo vários apoios e chegou à conclusão de que o golpe de Estado tinha fracassado. A democracia espanhola tinha sobrevivido àquele que foi talvez o ataque mais sério desde a aprovação da Constituição de 1978.
Antonio Tejero, Alfonso Armada e Jaime Milans del Bosch foram depois julgados e condenados a longas penas de prisão. Os três já não estão vivos, sendo que o tenente-coronel que invadiu o Congresso morreu esta quarta‑feira, aos 93 anos, no dia em que se assinalaram 45 anos sobre o golpe e em que os ficheiros confidenciais foram revelados ao público.
O que vieram estes documentos revelar?
A versão dos acontecimentos já era sobejamente conhecida em Espanha. O discurso na TVE consolidou a imagem de Juan Carlos como peça preponderante para travar o golpe de Estado. Mas os documentos secretos vieram esclarecer algumas dúvidas que subsistiam. Uma delas era que o monarca saberia de antemão da preparação desta trama e que teria tido um papel na mesma, uma vez que vários membros do seu núcleo duro participaram no golpe.
Os ficheiros vieram confirmar que o Rei emérito apenas tomou conhecimento do golpe de Estado na tarde de dia 23 de fevereiro, após a tomada do Congresso pelos militares chefiados por Antonio Tejero, quando ouviu essas informações através da rádio. A documentação militar e dos serviços secretos que foi desclassificada dá robustez à ideia de que Juan Carlos não participou na preparação da trama e que os conspiradores não podiam dar por garantido o seu apoio, ainda que esperassem que Alfonso Armada pudesse convencer o Rei a alinhar com o plano.
A documentação agora revelada indica que, depois de ter conhecimento do que se passava no Congresso dos Deputados, Juan Carlos se fechou no Palácio da Zarzuela e iniciou uma ronda de contactos telefónicos com os comandos militares, recusando também o pedido de Alfonso Armada para ser recebido — o que poderia ser encarado como uma prova da cumplicidade com a trama golpista. O ex‑monarca tentou falar com os principais comandantes militares das regiões espanholas, incluindo Jaime Milans del Bosch.

O monarca quis também emitir uma mensagem na televisão estatal para acalmar os ânimos da população, mas apercebeu-se de que o canal também tinha sido tomado por uma unidade militar alinhada com os golpistas que, após ouvir os argumentos de Juan Carlos, recuou. A TVE deixou de estar ocupada por militares e transmitiu o discurso por volta da meia-noite do dia 24 de fevereiro.
Os documentos revelam que Juan Carlos teve depois uma conversa “muito tensa” com Alfonso Armada, que acabou por ser escolhido para mediar a situação com Antonio Tejero (sob o compromisso de que não iria propor qualquer Governo de salvação nacional). Enviou também um telegrama aos capitães a informá-los de que “ordenou às autoridades civis e à junta de chefe do Estado Maior que tomassem as medidas necessárias para manterem a ordem constitucional dentro da ordem vigente“.
Numa troca de mensagens com Jaime Milans del Bosch após a mensagem na TVE, o monarca foi totalmente claro sobre a sua posição neste golpe de Estado: “Afirmo a minha decisão rotunda de manter a ordem constitucional dentro da legalidade vigente. Depois desta mensagem [transmitida na TVE], não posso voltar atrás. Qualquer golpe de Estado não poderá escudar-se no Rei. Juro que não abdiquei da Coroa, nem abandonarei Espanha”. O Rei advertiu também que não queria o início de uma “nova guerra civil” em Espanha, numa alusão ao conflito fratricida entre republicanos e falangistas no final dos anos 30.

Divulgada apenas esta quarta-feira, a mensagem que enviou a Jaime Milans del Bosch colocou preto no branco a forma como Juan Carlos viu este golpe. Em declarações ao jornal El País, o escritor Javier Cercas (que escreveu um livro sobre o assunto e impulsionou o Governo de Pedro Sánchez a divulgar estes documentos) resume que os ficheiros revelam que o antigo monarca “cometeu erros antes do golpe, alguns dos quais muito sérios”. “Os erros facilitaram o golpe, mas o Rei não o montou: travou-o.”
Pode o Rei emérito voltar mesmo a Espanha?
Com 88 anos, o Rei Juan Carlos poderia, em teoria, regressar a Espanha quando quisesse. O exílio nos Emirados Árabes Unidos é uma escolha pessoal do antigo monarca, principalmente depois de ter sido absolvido de todos os crimes (alguns dos quais prescreveram) de que era suspeito em 2022. Legalmente, nada impede o Rei emérito de voltar ao país natal.
A questão do regresso a Espanha tem mais a ver com a relação com Felipe VI e com a posição em que colocaria a monarquia espanhola. Depois de todos os escândalos que Juan Carlos protagonizou na década passada, a Casa Real controlou os danos mediáticos e tentou transmitir uma imagem mais séria, implementando medidas de transparência que evitassem qualquer tipo de polémicas. “O meu filho virou-me as costas por dever”, lamentou, na biografia, o antigo monarca.

Num esclarecimento à imprensa espanhola depois da desclassificação dos ficheiros secretos, fonte oficial do Palácio da Zarzuela explicou que a decisão cabe exclusivamente ao Rei Juan Carlos, que, aliás, já regressou a Espanha para fazer férias em Sanxenxo, na Galiza. Estes foram os únicos comentários da Família Real sobre o assunto, ainda que tenham também confirmado que Alberto Núñez Feijóo — antes de escrever a mensagem nas redes sociais esta quinta-feira — contactou a Coroa espanhola e informou-a de que pediria o retorno do antigo monarca.
O Governo também insiste que cabe exclusivamente ao Rei emérito decidir se regressa ou não a Espanha. O ministro da Presidência, Félix Bolaños, declarou que a “decisão depende exclusivamente dele”. “O Governo nunca o impediu e nunca negou a entrada em Espanha. Vem a Espanha quando assim o decide”. A porta-voz do Executivo e ministra da Inclusão, Segurança Social e Migrações, Elma Sainz, transmitiu a mesma mensagem e salientou que “Espanha cumpriu uma dívida histórica ao pôr ao serviço da cidadania toda a informação que tem em redor do 23-F”.
A decisão será pessoal. Juan Carlos decidirá se voltará ou não ao país com todas as consequências que isso pode acarretar para a monarquia. A divulgação dos ficheiros confidenciais sobre o golpe de Estado frustrado pode, contudo, dar um novo pretexto para que o antigo monarca reflita se não valerá a pena regressar a Espanha, no que poderia ser uma reconciliação com o país que governou durante décadas.