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(A) :: "Nós somos os revolucionários". Iranianos em Portugal vivem entre o medo do regime de Teerão e a luta para o fazer cair

"Nós somos os revolucionários". Iranianos em Portugal vivem entre o medo do regime de Teerão e a luta para o fazer cair

Reunidos em torno de Reza Pahlavi, republicanos e monárquicos têm como prioridade a queda do regime. A luta é marcada pelo medo pelos familiares e amigos no Irão: "Choramos muito e levantamo-nos".

Madalena Moreira
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Vasco Coelho
photography

Rihanna FadaeiKashani cresceu em Mashhad, a segunda maior cidade do Irão. Da juventude passada no país lembra em particular a bandeira que o tio mantinha na biblioteca. Não a bandeira oficial, instituída depois da Revolução Islâmica, mas a bandeira da monarquia, com um leão e o sol. “Eles eram contra estes extremistas desde o primeiro dia”, relata ao Observador. O tio acabou por sair do Irão e, em 2009, Rihanna fez o mesmo. Depois de passar por vários países, chegou a Portugal para estudar há nove meses.

É em Lisboa que agora sai à rua com a mesma bandeira com que cresceu aos ombros, em solidariedade com as pessoas no seu país que, desde o final de 2025, ocuparam as ruas do Irão em protesto contra o regime dos ayatollahs. “Na verdade, isto não é um protesto, é uma revolução. E nós somos os revolucionários”, afirma, corrigindo as próprias palavras em conversa com o Observador. Rihanna traça com facilidade os objetivos desta revolução: a queda do “regime terrorista” e a tomada de poder pelo “príncipe” Reza Pahlavi, filho do último Xá do Irão deposto em 1979, que vive exilado nos Estados Unidos.

Este sábado, a saída à rua não foi em protesto, mas em celebração, depois de os Estados Unidos e Israel terem lançado uma ofensiva militar contra o Irão, que matou o Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei. “Estamos incrivelmente felizes”, declarou Rihanna. “Hoje [sábado], fomos à embaixada israelita e americana aqui em Lisboa para mostrar o nosso apoio à assistência militar dos EUA. Deixámos flores e doces lá”, detalhou. Este domingo, enquanto a guerra continua no Médio Oriente, a festa foi em frente à embaixada “do regime terrorista da República Islâmica nojenta”.

A “revolução” que protagonizam acabou por aproximar a diáspora iraniana em Portugal. Salar Abbasi é professor na mesma universidade onde Rihanna estuda, mas os seus caminhos nunca se tinham cruzado até se conhecerem num protesto. Agora, ambos fazem parte de um pequeno grupo de iranianos que organiza protestos regulares na capital portuguesa, numa tentativa de amplificar a voz do povo no Irão, abafada pela resposta violenta de Teerão e pelo corte de comunicações.

É com recurso a satélites Starlink e canais de Telegram privados que as informações vão chegando a Portugal. Também foi no Telegram que Salar procurou pela primeira vez, ainda em dezembro, outros iranianos dispostos a protestar em Lisboa. De forma orgânica, foi-se formando um grupo disponível para tratar da logística exigida por uma manifestação. Decidido o dia e o local, começou o passa-palavra, feito através do Instagram e dentro de comunidades que já existiam com fins principalmente culturais e que ganharam nova vida política ou que foram criadas especificamente com esse propósito nas últimas semanas.

As manifestações acontecem em Lisboa cerca de uma vez por semana e reúnem sensivelmente uma centena de pessoas, às quais se somam protestos semelhantes no Porto. As pessoas que saem à rua na capital constituem pouco mais de 3% da comunidade iraniana em todo o país — vivem em Portugal pouco menos de 3 mil iranianos, segundo números da AIMA. Esta discrepância leva a embaixada iraniana em Portugal a sublinhar, em comunicado, que as manifestações não devem ser vistas como “representativas da comunidade alargada”. Mas os manifestantes ouvidos pelo Observador têm outra leitura: o que há é medo do regime, que impede muita gente de sair à rua.

Um medo “difícil de explicar”. Amigos e conterrâneos mortos e pais interrogados

Salar Abbasi chegou a Portugal em setembro de 2015 para, tal como fez Rihanna uma década depois, prosseguir os estudos com um doutoramento. Hoje, com a mãe e a irmã a viverem no Canadá, já não tem família no Irão, mas ainda tem amigos. “Um grande amigo meu foi morto [nos protestos]. Só descobri há uma semana”, relata ao Observador, partilhando que a notícia foi transmitida por um amigo em comum depois de 23 dias sem saber do seu paradeiro. “Choramos muito e depois levantamo-nos“, continua.

Histórias como esta repetem-se entre a diáspora iraniana em Portugal. Durante uma manifestação na praça Duque de Saldanha, em Lisboa, em meados de fevereiro, um homem que está em Portugal há três anos ergue um cartaz com fotografias de três pessoas: Behrouz e Mansoura, um casal, e Zohreh, uma estudante de doutoramento. São pessoas da sua terra natal, Bushehr, que foram mortas nos protestos no início de janeiro, explica ao Observador. A conversa é breve, pois as lágrimas e a voz embargada impedem-no de continuar a falar.

O amigo de Salar, Behrouz, Mansoura e Zohreh são apenas quatro de 36 mil pessoas que terão sido mortas nos protestos, segundo números não oficiais compilados por trabalhadores de saúde e ativistas. Os iranianos em Portugal denunciam ainda casos de violação, tortura, de tiros deliberadamente mortais contra civis — ou seja, com as autoridades iranianas a dispararem para a cabeça dos manifestantes — e de ataques a hospitais, visando médicos que ajudavam esses mesmos manifestantes. As informações que vão recebendo de amigos e familiares ainda no Irão são transmitidas através de canais no Telegram e coincidem com os relatos feitos por organizações internacionais de defesa dos Direitos Humanos.

[Apesar de um mandado de captura europeu, Gregorian Bivolaru está clandestino em Paris. Lá, o guru continua a receber discípulas para “iniciações secretas”. Ouça o quinto e penúltimo episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto]

As ações do regime iraniano dentro do país alimentam um sentimento de medo. Na manifestação no Saldanha, as pessoas falam entre si animadamente em persa, mas muitas recusam falar ao Observador. Outras tantas falam, mas recusam dar o nome ou ser gravadas ou fotografadas. Ashkan Seifi, porém, conversa quase sem reservas num português perfeito, resultado de mais de 40 anos a viver no país.

“Não sei se reparou, mas enquanto esteve lá a comunicação social estavam todos de máscara [cirúrgica] e óculos escuros, para não serem identificados”, aponta, dias depois dessa manifestação, numa nova conversa com o Observador, antes de deflagrar a guerra. “O regime iraniano sempre funcionou à base da repressão e de incutir medo. Mas é difícil explicar [esse tipo de] de medo de gelar no povo”, elabora. Ashkan considera que a sua situação é diferente: tem nacionalidade portuguesa e não tenciona regressar ao Irão, enquanto os atuais líderes se mantiverem no poder. “Estou tão queimado, tão queimado”, atira. Porém, admite não ser imune ao medo que sente pelo povo que deixou para trás.

Rihanna tem sentido isso em primeira mão. No dia 14 de fevereiro não saiu à rua em Lisboa, mas em Munique, onde decorria a Conferência de Segurança, e onde cerca de 200 mil pessoas de todo o mundo se reuniram, em resposta ao apelo de Reza Pahlavi para pressionar os líderes internacionais a agir. Passados alguns dias, soube que os pais, ainda a viver no Irão, tinham sido convocados para um interrogatório pelos serviços secretos militares, devido ao ativismo da filha no estrangeiro. O medo sobre o que pode agora acontecer aos pais não a leva a parar. Pelo contrário, incentiva-a a erguer a sua voz mais alto. “Eu sou a voz das pessoas dentro do Irão. Vamos lutar até a última pessoa ser morta. Se a última pessoa for eu, vou dar a minha vida, estou por tudo“, assegura, com emoção.

Reza Pahlavi: o rosto do passado que reúne apoio de republicanos e monárquicos

“O meu valentim é o meu povo”. A frase está escrita num pequeno cartaz erguido por um manifestante durante o protesto no Saldanha no dia 14 de fevereiro, dia de São Valentim. As cerca de 100 pessoas estão viradas para a estátua no centro da praça, à qual está encostado um grande retrato de Reza Pahlavi, a que se referem como “príncipe herdeiro”. A figura repete-se uma e outra vez nos cartazes erguidos por manifestantes, por vezes ao lado do pai, muitas vezes por oposição ao rosto do Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei.

A partir dos Estados Unidos, Pahlavi tem convocado a diáspora iraniana a sair à rua, a pressionar os governos internacionais e a dar voz aos seus conterrâneos. A diáspora vai respondendo aos apelos. Apesar de Pahlavi ser herdeiro de um regime monárquico, Ashkan Seifi faz questão de sublinhar que “ele fala de tudo menos de monarquia”. Por esse motivo, a base de apoio ao filho do Xá é extensa e inclui monárquicos, grupo a que Rihanna diz pertencer, e republicanos, como se identifica Ashkan.

De forma unânime, todos declaram que esta diferença não cria uma divisão dentro do grupo e ambos os grupos elogiam o facto de ter um plano político, focado no secularismo e na liberdade de escolha, na promessa de eleições livres, da formação de partidos e movimentos políticos e da realização de um referendo para decidir o modelo de governação. Até ao dia que votarem nesse referendo, monárquicos e republicanos caminham lado a lado com um objetivo em comum: a queda do regime. Isso não quer dizer que, dentro da diáspora, não haja divisões em relação a outros temas.

Os iranianos ouvidos pelo Observador recusam que a tomada de poder por Pahlavi seja um passo atrás, por representar um regresso ao passado. Mesmo nesse caso, consideram que o passado é mais positivo do que o regime que vivem agora e os elogios ao “príncipe” surgem entrelaçados com memórias da vida durante o reinado do Xá. Salar nasceu em Urmia, já depois da Revolução Islâmica, mas cresceu com as memórias da avó, de um tempo em que havia dinheiro suficiente para não se “conformarem” com a monarquia e, acima de tudo, em que havia “igualdade de género absoluta”.

A renovada onda de apoio a Pahlavi também leva os iranianos a olharem para o momento atual de uma forma diferente de protestos anteriores. Desta vez, uma parte significativa do povo iraniano, independentemente das suas preferências políticas, está unido. “E qual a razão para essa união? O nosso líder, o príncipe herdeiro Reza Pahlavi e a sua legitimidade”, simplifica Rihanna. Shervin Razminia, que também participa na organização dos protestos em Lisboa, argumenta também que o Irão chegou a um ponto sem retorno. “Nós estamos no fim do caminho”, sentencia. “Esta transição vai acontecer. Agora, daqui a 10 dias, 20 ou um mês…”. Duas semanas depois da previsão de Shervin, os EUA atacaram o Irão e mataram Khamenei.

A “conexão” com o povo israelita e o desejo cumprido de uma intervenção norte-americana. “Damos o nosso petróleo em troca da paz”

“Free Palestine”. O grito de ordem é dirigido a um grupo de manifestantes por uma pessoa que passa na rua. O incidente passa sem uma reação significativa, já que se tornou frequente, partilham vários manifestantes com o Observador. “É por causa das bandeiras israelitas”, afirma uma mulher iraniana, que se identifica como Maria José. Entre as bandeiras da monarquia e uma grande bandeira portuguesa, contam-se, efetivamente, pelo menos cinco bandeiras israelitas e uma grande bandeira dos Estados Unidos.

Os organizadores explicam que uma das bandeiras é carregada por um cidadão luso-israelita que participa nas manifestações em solidariedade — os protestos também contam, por vezes, com bandeiras ucranianas, carregadas por pessoas que criticam o apoio do regime iraniano ao esforço de guerra russo. Porém, são vários os iranianos, incluindo Maria José, que exaltam uma “conexão” particular entre o povo iraniano e o povo israelita e que classificam o Governo de Telavive como um “aliado”.

"Não somos ingénuos. Tenho recebido questões como 'vocês querem mesmo que os Estados Unidos ataquem a vossa terra?' Nós não temos o luxo de selecionar a escolha política ideal. Um europeu sentado em casa, com integridade física, económica e emocional, pode escolher a melhor opção política. Ele pode dar-se ao luxo de tomar lados."
Salar Abbasi, iraniano a viver em Portugal

Contudo, a presença da bandeira branca com a estrela de David azul não é bem recebida por todos. Três manifestantes que estão em Portugal há várias décadas e falam com o Observador em português não se reveem na presença da bandeira de Israel, cujas ações na Faixa de Gaza condenam. Ashkan Seifi faz parte deste grupo reduzido e relata que na primeira vez que se juntou a um protesto ficou “chocado”. Agora, admite que a questão “deixou de ser assunto”, pois compreende os motivos para erguer a bandeira: “É uma provocação contra o regime iraniano”, considera. Ainda assim, faz questão de dizer que “respeita, mas não aceita” esta posição e que é “um lamento” com que teve de “aprender a viver”.

Menos controverso é o tema de uma intervenção militar norte-americana. No início do ano, o Presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou com um ataque contra o Irão com o objetivo de travar a execução de centenas de civis. O ataque não se concretizou em janeiro, mas acabou por acontecer no último dia de fevereiro. Rihanna e Shervin partilham que, em telefonemas com as respetivas mães, que vivem no Irão, a possibilidade de um ataque militar norte-americano era discutida de forma frequente — é, no seu entendimento, a única forma de ajudar um povo que sai à rua contra o regime sem estar armado.

Na manhã de sábado, Rihanna conseguiu falar novamente com a mãe ao telefone, que descreveu um cenário de festa, com danças e declarações de amor a Donald Trump e Benjamin Netanyahu. “Toda a gente estava em multidão na rua a comprar doces e a entregá-los na rua, de felicidade”, afirma, partilhando os relatos que lhe vão chegando das pessoas que conhece no país. As celebrações intensificaram-se ainda mais depois das primeiras notícias sobre a morte de Khamenei.

As mesmas imagens, vistas por Ashkan, deixaram-no “inquieto”. Apesar de reconhecer que pode parecer “contraditório celebrar o início de uma guerra”, o iraniano afirma que “não se dança pela guerra, mas porque o medo permanente talvez tenha encontrado um limite”. Reconhecendo que a guerra é uma “tragédia”, Ashkan declara, ainda assim, que “quem conhece o peso de viver décadas sob repressão, entende que por vezes o desespero transforma-se numa estranha forma de esperança” e que, neste cenário, até o “risco pode ser sentido como uma possibilidade de mudança”.

“Não somos ingénuos”, reconhece, por sua vez, Salar, ainda antes dos ataques, que também o deixaram “feliz”. “Tenho recebido questões como ‘vocês querem mesmo que os Estados Unidos ataquem a vossa terra?’ Nós não temos o luxo de selecionar a escolha política ideal. Um europeu sentado em casa, com integridade física, económica e emocional, pode escolher a melhor opção política. Ele pode dar-se ao luxo de tomar lados”, pondera. Para o povo iraniano, sobra apenas uma escolha: uma ação militar, não apenas dos Estados Unidos, mas de qualquer país que esteja disposto a colaborar e a estar “do lado certo da História”. E Israel está, apontam.

Questionados sobre a possibilidade de uma intervenção norte-americana atirar o Irão para um cenário como o do Afeganistão ou do Iraque depois dos ataques dos EUA no início do século XXI, os iranianos argumentam que há “diferenças” entre os dois casos: na “cultura”, na “mentalidade”, na “educação” do povo e na “modernização” do Estado. Ainda assim, partes da diáspora admitem ter algumas reservas. Tal como na discussão sobre a bandeira israelita, os iranianos que estão há mais tempo no país e que têm a cidadania destoam dos mais novos e que chegaram a Portugal ao longo da última década e receiam o “caos”, a “incerteza” e a “confusão” que se pode instalar no país depois da queda do regime.

Ashkan Seifi, em particular, “desconfia” do interesse de Donald Trump em proteger “valores da humanidade e os direitos humanos” e sugere que o seu interesse está nos vastos recursos naturais. Contudo, e com os protestos num aparente ponto sem retorno, os iranianos argumentam que a libertação do seu povo tem “um preço”. “Se o povo parasse de morrer e pudesse ter paz, tudo bem. Nós damos o nosso petróleo em troca disso, sem dúvida”, admite Ashkan.

Os reformistas iranianos que “roubaram a revolução” e o receio de “vingança”

Na praça do Saldanha, os organizadores do protesto distribuem flores entre os manifestantes. Uma das flores é entregue a uma adolescente que está acompanhada pelos pais. Explica, entre risos, que não a obrigaram a ir, mas, com apenas 13 anos, esta é uma realidade à qual já está habituada: há quatro anos, já se juntava aos protestos do movimento “Mulher, Vida, Liberdade” no Rossio. “Eram maiores do que este”, recorda.

“Mulher, Vida, Liberdade” foi o lema dos protestos que tomaram conta do Irão depois de Mahsa Amini, uma jovem iraniana, ter sido morta depois de ter sido detida por andar sem hijab, o véu muçulmano. Apesar de terem tido um gatilho diferente, os iranianos encontram facilmente semelhanças entre os dois momentos da História recente do país. “Ia ser uma revolução, mas eles roubaram-na, com o mesmo movimento político”, acusa Rihanna, referindo-se às fações de esquerda e reformistas dentro do Irão e na diáspora. Ao contrário dos iranianos ouvidos pelo Observador, estes grupos não querem o fim súbito do regime, uma tomada de poder de Reza Pahlavi e muito menos uma intervenção externa.

"Fui à embaixada e disse: 'Então, vocês na altura de pandemia chamaram-me para vir cá saber como é que eu poderia ajudar o povo iraniano para não morrer por causa de Covid e agora ninguém tem coragem de me chamar e perguntar como é que eu posso contribuir para não matarem as pessoas nas ruas?'"
Ashkan Seifi, iraniano a viver em Portugal

Rihanna e Salar argumentam que estes grupos esvaziaram o conteúdo revolucionário dos protestos e o reduziram a uma luta pela melhoria dos direitos das mulheres, em particular pelo direito a não utilizar o hijab — por esse motivo, a luta foi “vitoriosa” quando a imposição da lei de “hijab e castidade” foi suspensa no final de 2024. Porém, os dois iranianos argumentam que esta leitura é feita apenas pelos reformistas e não partilham dela. Pelo contrário, insistem que o propósito que ficou por cumprir em 2022 é o mesmo de agora: derrubar o regime.

Depois de cumprido esse objetivo, Salar argumenta que os reformistas islâmicos devem ser julgados pela conivência com o regime. Integra este grupo o atual Presidente Masoud Pezeskian que, por exemplo, apelou a uma reforma da “lei da castidade” antes da sua suspensão. “Há muitos iranianos que nem querem ouvir falar de reformistas”, reconhece, de forma cautelosa, Ashkan, que admite temer que, depois da queda do regime, as pessoas se foquem na busca por “vingança”.

Também Ashkan já foi alvo de críticas de algumas fações da diáspora. Em causa está o facto de, por mais que uma vez, se ter reunido com membros da embaixada iraniana em Portugal. Num desses encontros, em 2020, foi convocado juntamente com outros iranianos há mais tempo no país para participar numa recolha de material médico e de combate à pandemia de Covid-19 para enviar para o Irão, explica ao Observador. Acedeu. Dois anos mais tarde, durante os protestos depois da morte de Mahsa Amini, “revoltou-se”. “Fui à embaixada e disse: ‘Então vocês na altura de pandemia chamaram-me para vir cá saber como é que eu poderia ajudar o povo iraniano para não morrer por causa de Covid e agora ninguém tem coragem de me chamar e perguntar como é que eu posso contribuir para não matarem as pessoas nas ruas?’”, relata.

As conversas com os representantes iranianos em Portugal foram “um pau de dois bicos”, pondera. Por um lado, não se arrepende dos momentos em que “marcou posição”. Por outro, acabou por ser “julgado” e “chamado de espião” por manifestantes reunidos à porta da embaixada. De qualquer forma, em 2026 já abandonou de forma definitiva esta estratégia.  “A oportunidade de diálogo perdeu-se completamente”, lamenta.

A “inação” do Governo português e o silêncio de um povo “que não gosta de confusões”

Ashkan Seifi conversa com o Observador na Baía de Cascais. A alguns metros de distância, na Rua Direita, ficava o primeiro restaurante onde trabalhou como fornecedor. A vila a 30 quilómetros de Lisboa está cheia de memórias: foi Cascais que o acolheu há mais de quatro décadas, quando chegou a Portugal com apenas 14 anos, para se juntar ao irmão mais velho, que saiu do Irão aos 21. Desde aí só regressou ao Irão em duas ocasiões: quando o pai morreu e anos mais tarde “para ver o povo e o país que deixou para trás”.

Hoje diz ficar “confuso” sobre se é mais português ou iraniano: apesar de ter passado a infância no Irão e ter uma ligação emocional ao país dos seus pais, passou mais anos a estudar “as armas e os barões assinalados” do que a História da Pérsia e, quando há jogos de futebol, torce por Portugal. Esta profunda ligação ao país que o acolheu leva-o a expressar algum desapontamento com o apoio português à causa iraniana.

O sentimento é partilhado de forma generalizada pelos manifestantes iranianos que vão marcando presença nos protestos e que traçam semelhanças entre o 25 de Abril e o fim da ditadura em Portugal com o atual momento no Irão. O “silêncio” do povo português face ao Irão é explicado pela diáspora com as características que lhe atribuem: “pacífico”, “não gosta de confusões” ou mesmo “preguiçoso”. Ainda assim, os iranianos admitem que sentem apoio no quotidiano de uma forma menos visível. Os colegas de escola, portugueses, desde uma menina de 13 anos, fazem perguntas sobre o que se passa no Irão. Salar ouve questões preocupadas dos outros professores com quem se cruza nos corredores da universidade.

Já as críticas acesas são reservadas para o Governo. “O que vejo em Portugal é que estão a ignorar-nos de forma absolutamente intencional”, acusa Rihanna. Durante as primeiras manifestações, os gritos de ordem exigiam a declaração do Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana como uma organização terrorista e a expulsão do embaixador iraniano em Portugal. No dia 19 de fevereiro, alcançaram a primeira reivindicação, depois da declaração formal da União Europeia (UE) nesse sentido. Mas, para estes iranianos, nem isso iliba o Executivo português. Algumas pessoas criticam o facto de só ter acontecido agora, de ter sido “preciso assistir a um genocídio para cair a ficha”, enquanto outras acusam Portugal de ter hesitado no apoio a esta política.

A “inação” de que acusam o Governo português não as impede de continuar a tentar reunir apoio. Salar diz ter contactado o Ministério dos Negócios Estrangeiros, liderado por Paulo Rangel, enquanto Ashkan detalha contactos com os partidos com assento parlamentar — entre os quais a Iniciativa Liberal e o Partido Socialista, a quem agradece especificamente o apoio. As acusações são também atiradas na direção dos media, motivando protestos à frente de sedes de órgãos de comunicação social.

“Falando francamente, há uma grande confusão. É tão tremenda que eu acho que é impossível explicar o contexto a todos”, desabafa a certo ponto Ashkan Seifi. A complexidade do tema não destrói o empenho da diáspora iraniana, que quer ver o regime a cair e Reza Pahlavi a assumir as rédeas de uma transição para a democracia. E o medo não os impede de sair à rua ou falar, alimentados pela esperança — e pelo desespero — que surgem do momento que o Irão agora vive. Afinal, a revolução “é uma maratona“, sintetiza Rihanna.