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Plano Estratégico 2024-2036 da FPF: Futebol para Todos? Nem Tanto 

O Plano Estratégico 2024-2036 da Federação Portuguesa de Futebol projeta ambição mas a omissão de um enquadramento estruturado para o futebol adaptado não é um detalhe técnico, é uma falha estratégica

Ricardo Afeiteira Marques
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O futebol é uma das modalidades desportivas mais amplamente praticadas no mundo e  possui um papel central em muitas culturas. A sua adaptação a diferentes tipos de  deficiência ilustram um movimento global em direção à inclusão e participação plena de  indivíduos com necessidades especiais em contextos competitivos e recreativos.

O Plano Estratégico 2024-2036 da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) apresenta uma  visão estruturada para o futuro do futebol em Portugal, com ênfase no crescimento de  praticantes, profissionalização da arbitragem e promoção internacional. Todavia, a  ausência de uma abordagem estruturada para o futebol adaptado representa uma lacuna  estratégica que necessita de ser suprida para promover uma inclusão mais ampla e  sustentável.

A literatura e as práticas internacionais demonstram que modalidades adaptadas de  futebol, como o futebol de 5 (para atletas com deficiência visual) e futebol de 7 (para atletas  com paralisia cerebral), e outras variantes como Power Soccer, são reconhecidas  internacionalmente e requerem estruturas de formação, competição e avaliação  específica para prosperar. O futebol de 5, por exemplo, foi introduzido nos Jogos  Paralímpicos de Atenas em 2004 e faz parte do programa contínuo desde então, sendo  gerido internacionalmente pela International Blind Sports Federation (IBSA) com regras  adaptadas às necessidades dos atletas cegos ou com baixa visão.

Contexto Internacional: Modelos de Excelência 

No Brasil, o futebol adaptado está entre os mais desenvolvidos do mundo, com destaque  para o futebol de 5 e futebol de 7. A seleção brasileira de futebol de 5 é tetracampeã  paralímpica, destacando um modelo de desenvolvimento contínuo de atletas, formação  de treinadores e integração federativa, com impacto também social e educativo.

Além disso, o Brasil possui competições regulares e programas estruturados que  incorporam modalidades como futebol para amputados e surdos, apoiados por  infraestrutura e estruturas formativas que sustentam tanto o desempenho competitivo  como a inclusão social.

A Deutscher Fußball-Bund (DFB) integra o futebol adaptado em colaborações com  federações nacionais para pessoas com deficiência, estabelecendo centros de treino,  formação técnica especializada e competições regulares. A participação alemã em

eventos europeus e mundiais revela os benefícios de estruturas estáveis de apoio e  monitorização científica do desempenho.

The Football Association através do programa Football for All inclui clubes e ligas  adaptadas, além da formação de treinadores e integração em ambientes escolares e  comunitários, apoiando a inclusão ao longo de toda a cadeia formativa e competitiva.

A literatura académica reforça que a participação em desporto adaptado está associada à melhoria no bem-estar biopsicossocial e qualidade de vida de atletas com limitações  motoras ou sensoriais. Por exemplo, a prática de futebol adaptado e outras modalidades  promove transferências significativas na função motora e cognitiva de crianças e  adolescentes com paralisia cerebral, evidenciando benefícios que vão além do contexto  competitivo.

O Contexto Português 

Em Portugal, o desenvolvimento do futebol adaptado tem sido conduzido sobretudo pela  Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência (FPDD), com  colaborações pontuais do Comité Paralímpico de Portugal. Estudos nacionais indicam  uma participação baixa e distribuição assimétrica da prática de desporto adaptado no país,  revelando falta de planeamento estruturado e integração efetiva nas atividades desportivas  mais abrangentes.

O futebol adaptado em Portugal enfrenta desafios consistentes, como a definição de  metas, calendarização de competições regulares e formação de técnicos especializados.  Isto contrasta com modelos internacionais que associam diretamente a expansão da  prática e inclusão social à qualidade da formação e apoio institucional.

Questões Estratégicas e Barreiras à Inclusão 

A análise do plano estratégico identifica várias áreas onde o futebol adaptado precisa de  maior pormenorização. A formação de técnicos especializados e árbitros adaptados é  limitada, e as iniciativas de integração nos programas escolares e comunitários são  escassas. A ausência de indicadores que permitam acompanhar o progresso das  modalidades adaptadas ao longo dos anos constitui um obstáculo à avaliação do impacto  das políticas implementadas.

Esta falta de suporte estruturado pode ser entendida à luz da literatura existente que  assinala a necessidade de formação especializada na educação física para assegurar  práticas verdadeiramente inclusivas. Pesquisas indicam que a formação de professores e técnicos é um elemento crítico para a implementação eficiente do desporto adaptado e  para assegurar que todos os participantes, independentemente da sua deficiência,  possam usufruir plenamente dessas oportunidades desportivas.

                                   Proposta Estratégica Integrada no Plano 

Para que o futebol adaptado seja efetivamente tratado como uma componente estratégica  do plano da FPF, é essencial que o documento inclua medidas estruturadas nos seguintes  eixos:

Organização Institucional

• Estabelecimento de uma unidade específica da FPF dedicada ao futebol adaptado,  com autonomia operacional e ligação institucional formalizada com a FPDD e o  Comité Paralímpico.

• Orçamento anual dedicado para treinos, formação, competição e aquisição de  equipamentos especializados.

Desenvolvimento Técnico

• Programas de formação certificados para treinadores e árbitros adaptados com  especialização em classificação funcional, metodologias pedagógicas adaptadas  e segurança de prática.

• Centros de treino equipados com infraestrutura especializada para modalidades  adaptadas, sustentados por equipas multidisciplinares (técnicos, médicos,  psicólogos, fisioterapeutas).

Integração Comunitária

• Inclusão do futebol adaptado em programas de educação física escolar,  assegurando acessibilidade e participação desde os primeiros anos académicos.

• Incentivo à criação de clubes e equipas locais para competições regulares,  formando ligações com associações desportivas no território nacional.

Monitorização e Avaliação

• Definição de indicadores de desempenho e inclusão, tais como número de  praticantes, treinadores formados, clubes ativos e resultados em competições  internacionais.

• Relatórios anuais de acompanhamento e avaliação, com ajustes baseados em  evidência científica e dados empíricos recolhidos.

A inclusão destas linhas orientadoras no plano estratégico tornaria o futebol adaptado um  pilar de crescimento, diversidade e excelência competitiva, em consonância com  experiências internacionais de sucesso.

Conclusão 

O Plano Estratégico 2024-2036 da Federação Portuguesa de Futebol projeta ambição,  crescimento e liderança internacional. Contudo, a omissão de um enquadramento  estruturado para o futebol adaptado não é um detalhe técnico, é uma falha estratégica que  compromete a coerência do próprio documento.

Num momento em que o Governo apresentou um Plano Nacional de Desenvolvimento  Desportivo formalmente contratualizado com o Comité Olímpico de Portugal e com o  Comité Paralímpico de Portugal, estabelecendo a inclusão, o reforço do desporto  paralímpico e a igualdade de oportunidades como prioridades políticas nacionais, torna se incompreensível que a principal federação desportiva do país não traduza esses  compromissos na sua estratégia estruturante.

Não se trata apenas de alinhamento institucional; trata-se de responsabilidade sistémica.  O futebol representa o maior ecossistema desportivo nacional em recursos, visibilidade e  impacto social. Quando esse ecossistema não integra de forma explícita, financiada e  monitorizada o futebol adaptado, está a produzir uma exclusão estrutural que contradiz o  discurso oficial de “futebol para todos”.

Se o desporto português assume, ao mais alto nível, que o movimento paralímpico é parte  integrante do desenvolvimento nacional, então a FPF não pode tratar o futebol adaptado  como dimensão periférica ou residual. A ausência de metas quantificáveis, orçamento  dedicado, formação especializada e indicadores de desempenho não é neutralidade  estratégica, é uma opção política implícita.

A integração plena do futebol adaptado no plano estratégico não deve ser entendida como  concessão social, mas como imperativo de modernização institucional e de liderança  ética. Num país que ambiciona afirmar-se internacionalmente pelo seu modelo desportivo,  a inclusão não pode ser retórica programática; tem de ser arquitetura operacional.

Portugal não precisa apenas de ganhar títulos. Precisa de provar que o seu sistema  desportivo é estruturalmente inclusivo. E essa prova começa na capacidade da Federação Portuguesa de Futebol de assumir, sem ambiguidades, que o futebol adaptado é parte  integrante da sua missão estratégica e não um anexo ou não uma nota de rodapé, mas um  pilar.

Só então será legítimo afirmar que o futebol em Portugal é, verdadeiramente, para todos.