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(A) :: Cresceu na pobreza, foi condecorado por Marcelo e lidera distrito escolar de LA. Quem é Alberto Carvalho, o português alvo de buscas do FBI?

Cresceu na pobreza, foi condecorado por Marcelo e lidera distrito escolar de LA. Quem é Alberto Carvalho, o português alvo de buscas do FBI?

Nasceu num ambiente pobre em Portugal e aos 17 anos mudou-se para os EUA, onde viveu vários anos sem documentação. Atualmente lidera o segundo maior distrito escolar, que foi alvo de buscas do FBI.

Adriana Alves
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Cresceu na pobreza em Portugal, mudou-se para os Estados Unidos com um visto de turista depois de se tornar o primeiro da família a terminar o ensino secundário e lá ficou vários anos sem documentação. Acabou por conseguir a nacionalidade norte-americana e enveredar numa carreira de décadas no Ensino, que o levou à gestão do segundo maior distrito escolar dos EUA (onde ganha 372 mil euros por ano) e a receber vários prémios e condecorações, incluindo por ordem do Rei Filipe VI de Espanha. É o retrato do percurso do português Alberto Carvalho, de 58 anos, que foi esta quarta-feira alvo de buscas do FBI.

A imprensa norte-americana noticiou esta quarta-feira que decorreram buscas na sede do distrito escolar unificado de Los Angeles e na casa do superintendente, Alberto Carvalho. No entanto, para já não foi divulgado o motivo da buscas nem que investigação está em causa. O também professor não se pronunciou, enquanto o distrito escolar unificado de L.A. disse apenas que estava a par das buscas e a cooperar.

Alberto Carvalho, que nasceu em Portugal, está à frente do segundo maior distrito escolar dos EUA desde 2021. Antes disso foi superintendente do distrito escolar de Miami-Dade, na Florida, o quarto maior do país. “Durante os seus treze anos como Superintendente, o M-DCPS testemunhou um crescimento constante no desempenho dos alunos, bem como um compromisso com a equidade e com os alunos historicamente marginalizados”, sublinhou o Los Angeles Unified School District (LAUSD) num comunicado a propósito da nomeação.

O LAUSD destacou na altura que Carvalho tinha uma história semelhante à de muitos alunos do Distrito Escolar Unificado de Los Angeles: “Cresceu na pobreza em Portugal e foi o primeiro da família a completar o ensino secundário”. Aos 17 anos emigrou para os Estados Unidos, onde permaneceu ilegalmente após a data de expiração do seu visto de turistamais tarde viria a obter o estatuto legal e a cidadania norte-americana. Chegou a trabalhar nas obras e como empregado de mesa para se sustentar e a viver um mês num carrinha de mudanças de um amigo e na rua.

“Dormia na [carrinha] UHaul de um amigo, onde ele guardava as tintas. Nunca me vou esquecer do cheiro daquela tinta“, contou, segundo a CBS, num evento para assinar o Dia Mundial do Sem-Abrigo. “Se pensam que conhecem a realidade dos sem abrigo, provavelmente estão errados. Não são só os pedintes que vivem debaixo da ponte. São pessoas como eu e pessoas como as crianças nas nossas escolas”, afirmou.

“Fui criado por um pai e uma mãe com a terceira classe, um encarregado de limpeza e uma costureira, cresci na extrema pobreza, com seis miúdos e fui o único a terminar o ensino secundário, imigrei para este país e trabalhei em condições realmente difíceis, fiquei sozinho neste país, fui sem-abrigo, dormir debaixo de uma ponte a poucos quarteirões do escritório onde me tornei superintendente”, relatou noutra entrevista ao DA Leadership Institute. “Nem todos passam por isto. Para mim, esta é uma enorme fonte de energia para o trabalho que faço, porque muitas crianças à nossa volta vivem esta experiência 40 anos depois de eu a ter vivido, algo que considero inaceitável e inexplicável”, afirmou.

Carvalho estudou na Universidade Comunitária de Broward, em Weston, e conseguiu depois uma bolsa para a Universidade Barry, em Miami. Quando terminou os estudos começou a dar aulas de ciência e de matemática. “O meu mundo mudou quando me tornei professor”, chegou a dizer numa conferência de imprensa em 2021. No decorrer da sua carreira no ensino passou pelos cargos de vice-diretor, diretor de comunicação e antes de administrador antes de chegar a superintendente.

Segundo o LA Times, durante o seu mandato como superintendente o distrito escolar em Miami-Dade, Carvalho ficou reconhecido pela liderança estável e a melhoria do desempenho académico. Também ganhou atenção durante a pandemia de Covid-19 depois de desafiar publicamente o governador da Florida, que proibiu os distritos de imporem o uso obrigatório de máscaras nas escolas, remetendo para os pais a decisão de enviar ou não os filhos com máscaras. Citando orientações da comunidade médica e científica, Alberto Carvalho denunciou essas diretrizes e decretou o uso obrigatório para todos os alunos.

Em 2021 trocou Miami por Los Angeles, entre rasgados elogios. “O superintendente Carvalho tem um histórico de ser um aliado dos alunos e um líder que remove barreiras e inspira mudanças para trazer uma maior equidade, acesso e justiça nas escolas”, afirmou Mónica García, membro do conselho do distrito. “Temos a sorte de contar com um educador de carreira experiente, com um histórico comprovado de liderança bem-sucedida”, disse por sua vez George J. McKenna III, também membro desse organismo.

Por essa altura, Alberto Carvalho tinha uma forte presença nas redes sociais. Chegou a partilhar um vídeo a fazer skydiving, enquanto gesticulava “Eu amo LAUSD”, e outro a andar de cavalo no desfiladeiro de Topanga, na Califórnia. Gradualmente as contas foram-se tornando mais institucionais, com partilhas mais discretas sobre o distrito escolar que lidera.

https://twitter.com/LAUSDSup/status/1552360802174218240

https://twitter.com/LAUSDSup/status/1550187203006844929

O superintendente e o distrito que lidera também têm estado envolvidos em algumas (polémicas). Na semana passada, o Departamento de Justiça norte-americano anunciou que procurava juntar-se a um processo federal que acusava as escolas do distrito de Los Angeles de discriminar alunos brancos. A sua decisão de apoiar um chatbot de Inteligência Artificial da LAUSD também gerou controvérsia. Isto porque a AllHere, a startup de tecnologia que conseguiu o contrato de seis milhões de dólares com o distrito escolar de Los Angeles entrou em falência em 2024 e a diretor foi acusada de defraudar os investidores.

Quando estava em Miami, segundo o New York Times, foram divulgados emails que diziam que tinha tido um “relacionamento impróprio” com uma jornalista que cobria a área da educação. Já em 2018, avança o mesmo jornal, aceitou o cargo para liderar o maior sistema escolar do país, na cidade de Nova Iorque, acabando por desistir durante um programa de televisão.

Ao longo da carreira Aberto Carvalho tem recebido vários prémios e condecorações locais, estatais, nacionais e até internacionais, como refere a LAUSD numa breve biografia. Entre eles a distinção de “Superintendente do Ano”, a nível local e nacional, o reconhecimento da Scholastic Administrator como um dos ‘Cinco Fantásticos’ educadores que fazem a diferença nos Estados Unidos e a Cruz da Ordem de Isabel a Católica. Esta última distinção, concedida pelo Rei Filipe VI de Espanha, foi entregue pelo Cônsul espanhol em Miami “em reconhecimento pelo seu trabalho para ampliar os programas de educação em espanhol”. Também foi condecorado pelo Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa.

https://twitter.com/SpainInTheUSA/status/1466521630113505288?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1466521630113505288%7Ctwgr%5Ee9c0ec992a83534674d0586004d274c611f6c412%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fimpactolatino.com%2Fsuperintendente-escolar-de-miami-dade-alberto-carvalho-es-distinguido-por-el-rey-de-espana%2F

O LA Times refere que Alberto Carvalho ganhou mediatismo nacional pela sua defesa da comunidade imigrante após as operações e detenções na cidade no verão do ano passado. “Continuo perplexo sobre como um aluno do primeiro, segundo, terceiro, quarto ou sexto ano pode representar qualquer tipo de risco para a segurança nacional do nosso país”, disse ao New York Times. “Quando as ações federais criam o caos fora dos portões das nossas escolas, é nossa obrigação manifestarmo-nos e protegermos a integridade do que acontece no interior”, destacou também num artigo de opinião na revista Time.

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