Pode se dizer que Bruna Dantas Lobato nasceu duas vezes em dois países diferentes. Não é um milagre ou um erro administrativo caricato. A sua certidão de nascimento é inequívoca: é potiguar de gema, oriunda de Natal, no nordeste brasileiro. Mas foi nos Estados Unidos da América que foi concebida a escritora de 35 anos que tem em Horas Azuis o seu romance de estreia, escrito em inglês e só depois traduzido para português. “Não foi um processo muito intuitivo ou natural, mas foi o que aconteceu comigo. Simplesmente nunca tinha sido escritora em português, não tinha tido essa oportunidade ainda”, conta ao Observador.
Uma bolsa destinada a adolescentes brasileiros levou-a para longe, mudando por completo o rumo da sua vida. Foi nos EUA que se formou e se tornou numa tradutora de referência, responsável por fixar em inglês obras como O Avesso da Pele, de Jefferson Tenório, Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso, e A Palavra que Resta, de Stênio Gardel, que resultou na conquista do National Book Award em 2023 na categoria de tradução. Junte-se a isso o cargo de professora assistente de Inglês e Escrita Criativa no prestigiado Grinnell College, em Iowa, e já seria uma vida plena dedicada às letras.
No entanto, Bruna Dantas Lobato quis também ser autora, indo beber à própria vida para este romance que segue uma filha que vai estudar para os EUA e uma mãe que fica no Brasil. Mais do que acompanhar o esforço conjunto de manterem o contacto a seis mil quilómetros de distância, recorrendo sobretudo ao agora defunto Skype, a escritora quis abordar as problemáticas que afetam as famílias separadas pela imigração.
“Fazia já alguns anos que eu estava escrevendo quando percebi que não era apenas um livro sobre a filha, era meio que um romance de formação duplo. Por um lado, é sobre a filha mudando como pessoa, se tornando talvez até mais americanizada e tendo dificuldades com isso, tentando aceitar e resistir ao mesmo tempo. Mas também é sobre a experiência de uma mãe que já não tem a filha próxima e precisa se redescobrir como mulher, como humana, nesse novo contexto”, conta ao Observador em Lisboa, estando de visita em Portugal para promover Horas Azuis.
Ao longo de uma extensa conversa, Bruna Dantas Lobato abordou os desafios criativos de escrever um romance inspirado na sua vida — mas não autoficcional —, os desafios da tradução, a descoberta de que é tanto uma escritora brasileira quanto americana e o periclitante estado em que se encontram os imigrantes na América de Trump, até mesmo os legais. “A gente sabe que já não importa se você tem a documentação, a expectativa de que o governo iria respeitar as suas próprias leis já não é segura”, aponta.

Se formos à secção dos créditos, lemos a advertência de que as personagens deste romance são ficcionais e não se referem a pessoas ou factos concretos. No entanto, esta trata-se da história de uma jovem brasileira de cabelo grisalho, oriunda de Natal e que vai estudar literatura para Vermont. Quanto da sua vida quis verter para Horas Azuis?
A semente do livro foi com certeza autobiográfica, porque eu estava passando por essa experiência tão profunda. Procurei muito por livros que retratassem isso, mas nenhum deles relatava a experiência do imigrante do jeito que eu estava vivendo, mediada pelos monitores. Ou seja, dava para eu e a minha família, apesar da distância muito grande, assistirmos às mesmas séries, acompanhar as mesmas notícias. Foi daí que foi surgindo tudo, e eu coloquei muitas das minhas emoções no livro. Mas, às vezes, só o que aconteceu mesmo não chega para retratar a verdade profunda de uma coisa. Eu precisava de ficcionar para retratar o efeito de forma mais fiel até.
Em que sentido?
Por exemplo, eu tenho uma irmã, mas no livro, a minha personagem é filha única. Busquei essa sensação de que tudo o que essa mãe e filha têm no mundo é uma à outra. Isso é muito verdadeiro para mim, me senti assim também. Mas num romance, se a personagem tivesse uma irmã, meio que isso iria diluir ou diminuir a ideia. Para retratá-la, precisei de ficcionar, e há vários momentos assim no livro. Minha mãe não bebe, mas quando mostrei o livro para ela, respondeu “eu adoro que as pessoas vão pensar que eu bebo!” Eu não devo nada à realidade e a ficção me proporciona muitos momentos mais esclarecedores. Aliás, tive vários amigos passando por essa experiência de imigrante e me inspirei muito também em algumas coisas que só aconteceram a eles, mas sei que me poderiam ter acontecido.
Essa é uma daquelas regras de ouro da literatura, não é? Verdade não é verosimilhança. Se tentarmos traduzir a verdade como ela é, parece menos verdadeira do que se a ficcionarmos?
Com certeza. E às vezes a realidade era muito mais surreal. Tem coisas que me aconteceram que se eu colocasse no livro, as pessoas diriam “não é possível, isso é muito trágico e triste, essa menina vive assim pelos cantos!”. Mas a história precisa de um certo arco narrativo, de um drama que se desenvolva de certa forma, portanto ficcionei esse caminho para mostrar a realidade que queria ver na página.
Existe uma longa tradição literária sobre a solidão e o isolamento do imigrante ou do exilado, mesmo que não existam muitos exemplos mais contemporâneos, como referiu. No entanto, é menos comum termos um relato tão pungente do outro lado, de quem fica para trás. Isso foi algo que teve em conta ao querer explorar este tema?
Muito, pensei exatamente com essas palavras. É um romance não só de quem vai, mas de quem fica. Fazia já alguns anos que eu estava escrevendo quando percebi que não era apenas um livro sobre a filha, era meio que um romance de formação duplo. Por um lado, é sobre a filha mudando como pessoa, se tornando talvez até mais americanizada e tendo dificuldades com isso, tentando aceitar e resistir ao mesmo tempo. Mas também é sobre a experiência de uma mãe que já não tem a filha próxima e precisa se redescobrir como mulher, como humana, nesse novo contexto. Quando entendi isso, soube que tinha um romance, uma ideia maior do que apenas a experiência pessoal do dia a dia de um personagem.
Referiu há pouco uma palavra chave para descrever muito deste romance: “mediado”. Todo este enredo só é possível devido ao milagre tecnológico que é conseguirmos falar à distância, mas, como a narrativa nos mostra várias vezes, esta não deixa de ser uma forma incompleta e muitas vezes frustrante de comunicação. Que efeitos no quotidiano e na vida das personagens quis espelhar?
Há um lado muito positivo da tecnologia, porque as aproxima. Se elas não tivessem a chamada de vídeo, qual seria a alternativa? Não se falarem durante anos? Existe essa manutenção do elo através das chamadas de vídeo. Elas podem todos os dias ter um pouco de vida compartilhada, um pouco de intimidade — mesmo que seja digital. Mas aí tem o outro lado da coisa, porque as chamadas de vídeo só enfatizam ainda mais a distância. Elas estão falando através da frieza do ecrã. Não tem como aproximar de forma real, vai sempre bater naquele naquele vidro reluzente, nesse brilho azul que banha todas as coisas. Eu queria muito não só retratar os dois lados dessa coisa, como também apontar que as relações mais profundas de muitas pessoas vivem-se hoje através dos computadores, algo que a pandemia também mostrou.
É curioso mencioná-lo, porque uma das sensações ao ler o livro é de que é um romance pandémico sem se passar numa pandemia, precisamente devido a essa distância.
Mas já tantos imigrantes viviam assim muito antes da pandemia, não é? Uma consequência da pandemia é que as outras pessoas começaram a entender um pouco do que eu passei, que em vez de ir a casa para o Natal ou para um aniversário, ficava só a minha cabeça flutuando num ecrã em cima da mesa de jantar. Eu estava escrevendo o Horas Azuis antes da pandemia e, quando aconteceu, pensei que este romance ia morrer, que já ninguém quereria ler sobre isso, mas acho que aconteceu o contrário, porque deu a muita gente o acesso à experiência do imigrante.

Um aspeto que salta à vista ao ler o livro é a nossa impotência neste contexto da comunicação à distância, porque coisas que parecem menores podem ter efeitos imprevisíveis ou até mesmo desastrosos, como a mudança da hora ou problemas de ligação. De que forma quis explorar isso?
Veja como a relação entre duas pessoas é frágil, como uma coisa pequena como a internet a travar um pouco a chamada pode ser suficiente para separar duas pessoas. A mudança de horário também foi interessante porque reforça uma coisa que o livro tenta demonstrar várias vezes, que é viver uma vida paralela, ter esse desejo de estar em dois lugares ao mesmo tempo. A filha quer continuar a vida dela, mas também quer continuar tendo acesso a essa outra vida. Agora que estou em Portugal, vivo em três fusos horários: tenho a minha mãe no Brasil, o meu marido nos Estados Unidos e eu aqui. E o tempo todo é como se eu estivesse vivendo em mais de um lugar. Fico pensando “ah, ele já vai acordar, vou mandar uma mensagem de bom dia”. A minha mãe acorda duas horas depois, portanto vou avisar que meu dia está indo bem. Tem um pouco disso, de você estar sempre conectado dessa forma, sendo que é muito fácil desestabilizar o contacto. Se acontece alguma coisa, se meu celular [telemóvel] descarregar, a minha mãe não tem como saber se estou viva ou não. Pensei ter então uma oportunidade também de mostrar isso, essa coisa tão pequena mas que é o drama do meu dia a dia.
Ainda relativamente a essa questão da mediação, há ao longo do livro um foco muito grande na questão da filha olhar pela janela — a janela literal do seu quarto, através da qual assiste à vida no campus universitário, e a “janela” do computador no qual conversa com a mãe. Parece também dar a ideia de alguém que foi para a imensidão dos EUA, mas vive encurralado num bloqueio aflitivo.
Essa questão é tal que até a capa da edição americana é uma personagem atrás da janela. A primeira cena que escrevi é aquela em que a mãe liga à filha e está a acontecer uma tempestade. A filha vira a câmara para a janela para mostrar o que se está a passar lá fora, no mundo dela, mas a câmara é inundada por luz e a mãe não consegue ver muito bem. Tem várias coisas aí. Uma é essa questão do bloqueio, de você sentir sempre que está observando o mundo do lado de fora, sem poder se inteirar completamente. Acho que isso tem muito da experiência de imigrante. Ela está no campus, é aluna ali como todo o mundo, mas nunca vai poder fazer parte de forma completa, vai estar sempre assistindo aos outros. E a outra coisa é como isso espelha a sensação de falar por vídeo. Ela quer quebrar aquela barreira, entrar no ecrã, mas ali está o vidro impedindo-a de se inteirar completamente da vida da mãe. Eu quis espelhar isso na sua vida nos Estados Unidos da mesma forma. É como se também vivesse atrás desse vidro e estivesse a tentar furar essa bolha. Esse é o drama do romance, ela se esforçar para tentar quebrar isso e conseguir habitar o mundo de forma completa quando tem todas essas resistências.
Essa incapacidade de viver, por um lado, parece estar relacionada com questões de classe, porque a personagem está a estudar com uma bolsa e tem de trabalhar, não tendo a possibilidade de voltar para o Brasil nem de viajar por lazer. Mas por outro, fica a sensação que, mesmo que tivesse essa capacidade financeira, não teria usufruto, porque continuaria presa nessa jaula em que se colocou. Não há também aqui uma questão da culpa?
Sim, e isso advém também de estar presa entre os dois mundos. Há uma cena em que ela fala com a mãe por vídeo e depois tem de ler um livro britânico para a aula. E ela diz “não consigo, não tenho capacidade de ir para um terceiro país ainda hoje”. Exige muito mais esforço psicológico, acho, do que o que as pessoas pensam, você se transportar para um país, estar presente na conversa com alguém. Quando ligo para a minha família, tem a conversa dos vizinhos, tem os gatos miando, tem todos os dramas familiares, minha mãe me falando que fraturou o pé e está tomando os remédios, minha irmã falando de outra coisa qualquer. Eu estou ali naquele mundo delas, mas depois tenho de sair completamente e entrar num ambiente universitário onde tenho de usar outra máscara, me comportar de outra forma, falar noutro idioma. Muitas vezes ficava meio paralisada com essa exigência e não me permitia entrar em nenhum dos dois mundos. Ao mesmo tempo, essa questão da culpa é muito forte também. Se ela se integrar completamente na vida americana, o que é que isso significa para a vida brasileira? E se deixar-se ficar na vida brasileira, será que isso significa não estar 100% presente na vida universitária, com a oportunidade tão grande que recebeu?
Parece ser uma situação em que toda a gente sente culpa mas ninguém é culpado, é uma questão circunstancial da vida.
Eu acho que a culpa do imigrante é inevitável. Há toda essa bagagem de você ter abandonado o seu mundo, o seu idioma. Eu por vezes me sentia como uma grande traidora. Ao mesmo tempo, para a pessoa que procura independência, faz parte abandonar o seu mundo, a sua infância, os seus pais. Pensei talvez que muita gente se identificaria com isso, mesmo que aquilo que eu estava a passar me parecesse tão único. E a personagem da mãe também sente um pouco de culpa, ao sentir-se como se fosse uma âncora. Ela é também um dos impedimentos para a filha e sabe disso.
Esse dilema da mãe é particularmente tocante. Ela sente que já não é filha porque perdeu a própria mãe, mas também está a deixar de ser mãe porque a filha saiu do ninho. É a condição humana, mas a distância parece tornar a situação ainda mais aflitiva.
E faz parte dessa questão de eu tentar fazer deste livro um romance de formação, em que elas têm de se descobrir ao assumir novos papéis. Há momentos em que acontece uma inversão também, em que a filha faz um pouco de mãe e a mãe de filha, e elas têm dificuldades com isso, de saber qual é o guião, não sabem quais são suas falas agora que têm papéis novos.
Sendo a Bruna tradutora, dá-se aqui o paralelo interessante da filha sentir-se incapaz de traduzir a sua nova realidade para a mãe. Como encarou esse aspeto da história?
A experiência de viver resiste à descrição, há essa impossibilidade. Ela não consegue relatar para a mãe tudo o que está experienciando, e até comenta a dado momento que se fosse escrever tudo o que está vendo, demoraria mais para escrever do que para viver. Não sei se isso não é apenas parte de ser humano, essa alteridade. Todo o mundo é muito sozinho, ninguém nunca vai nos entender, ninguém sabe como é a vida do outro, a sensação que o outro está sentindo. Mas para essa personagem, é meio que a engrenagem do romance todo, essa vontade de se explicar, porque a mãe já não a reconhece. A filha tem agora sua boca se movendo de forma estranha, falando outro idioma, usando outras roupas, se comportando de outra forma. A filha tem de se apresentar à mãe de novo e explicar a sua identidade. E vice-versa, a mãe tem de deixar a filha por dentro de tudo que está acontecendo, acompanhando a vida que continua seguindo em casa.

Com a filha a ver pelo “buraco de uma fechadura” através do qual se sente espiar a própria casa.
Exatamente. É muito limitado isso, há muito que está fora do ecrã e ela não consegue ver. Essa questão da tradução é só uma sensação que tenho constantemente de que há muita coisa que não consigo explicar. Há muito do Brasil que não consigo explicar aos meus colegas americanos, e às vezes penso que não vale a pena tentar, que vou ficar com essa parte só para mim. Não é porque queira ter muitos segredos, mas porque se eu fosse explicar, precisaria do romance todo para isso.
Essa incapacidade de transmitir na totalidade o que somos ou sentimos é prova das insuficiências da linguagem. Essa constatação não é aflitiva para um escritor ou um tradutor?
Muito, sim. A comunicação é um gesto, é o ato de tentar demonstrar. A linguagem aproxima, mas não é exata, é um símbolo remetendo a outra coisa que é inacessível e esquiva. Acho que a filha tem muita ansiedade com isso, não só devido às linguagens e aos idiomas — porque tem às vezes palavras específicas que queria comunicar e não consegue — mas também à sua identidade, por sentir que se perdeu no meio da tradução.
E há aqui outra questão. A certo ponto ela diz à mãe “não tenho mais novidades, já contei tudo o que tinha para contar porque a minha vida não é assim tão interessante”. Isso remete-nos para a ideia que conversar com alguém sem que haja novidade é um exercício fútil, é repisar lugares comuns e falar do banal e do quotidiano. Isso é algo que não acontece quando se vive no mesmo espaço, porque aí não é preciso falar.
Exatamente. Quando você está junto, por exemplo, à hora do jantar, podem preparar uma coisa os dois, existe a convivência, a vida compartilhada. Na chamada de vídeo, tudo precisa de ser narrado: “você está fazendo o quê? Agora vou cortar a cenoura. Olhe, estou cortando”. Em vez de depender da imagem, da experiência ou da situação, tudo depende da linguagem, e essa dependência empobrece o relacionamento delas, além de que faz com que fique muito mais frágil. Agora tudo que têm em comum depende da linguagem. É como se fosse uma reprodução de uma vida em comum, estão vivendo réplicas.
Li que se inspirou no texto dramatúrgico ao escrever este livro, o que faz sentido porque parece que as duas personagens estão a ler didascálias uma à outra quanto ao que está a acontecer. É uma forma alienígena de falar com uma pessoa.
Sim, é muito artificial e tem a sua própria estrutura. Sabemos mais ou menos como vai acontecer uma chamada de vídeo: você fala “como está, o que está acontecendo, o que tem de novo”. Precisar de uma história limita muito um relacionamento. Na vida real, um relacionamento não é sobre o que mudou, é sobre o que está acontecendo. A necessidade de saber o que mudou, o que tem de novidade ou de diferente, é uma exigência da narrativa. O romance precisa que o personagem fique sempre mudando. De repente elas estão a narrar a vida uma da outra e isso também é muito artificial e ela resiste a isso nesse momento que você mencionou, quando diz “a minha vida não é como um filme, não acontece nada”. A mãe acha que sim, mas a vida é um tédio, você toma o café da manhã [pequeno-almoço] e vai trabalhar.
E essa dificuldade de comunicação também parece advir de incompreensões mútuas — por exemplo, ao agarrar-nos a ideias pré-concebidas que queremos que a outra pessoa satisfaça. Para a mãe, parece impossível a filha estar na América e não ter uma vida interessante.
Porque os Estados Unidos tomam conta de tudo. A vida da filha está sendo consumida pela língua inglesa, de tal modo que ela vai procurar um livro na prateleira e só tem em inglês. Mas esse é um momento que mostra também que até a vida da pessoa em casa, no Brasil, é muito tocada pela cultura popular americana. Se a mãe vai ver um filme ou ouvir uma música, são americanos. E mesmo tão longe, a seis mil quilómetros de distância, a língua inglesa está contaminando a sua vida também. A imagem dos Estados Unidos é enorme, como um sol sempre por cima de tudo que ela faz.
Permita-me que lhe diga que não deixa de ser curioso para um português assistir a uma brasileira descrever os Estados Unidos como enormes.
O Brasil é um país de proporções continentais, claro, mas acho que o neoimperialismo dos Estados Unidos é muito potente. Toda a vez que vou ao Brasil — e fui recentemente — há mais palavras em inglês no meio do português das pessoas. E essa referência ao cinema americano é exemplo disso também: o imaginário americano, para a mãe, é mais forte do que o que a filha está dizendo.

Um aspeto talvez surpreendente para os leitores de língua portuguesa é que, na verdade, escreveu este romance em inglês e só depois o traduziu. A que se deveu este processo?
Um dos motivos é que, na altura, estava muito maravilhada com a novidade da língua inglesa na minha vida. Para ser escritor, você tem de ter esse maravilhamento com a linguagem, tem de admirar a estranheza das palavras, das frases, da comunicação. E estar vivendo numa língua nova trouxe isso um pouco para mim. De repente, estava prestando muita atenção à língua, fez de mim escritora estar pensando “que interessante como as pessoas falam, que interessante o jeito que isso é dito”. E algumas coisas em que notei me interessaram tanto que escrevi cenas sobre isso.
Como por exemplo?
Quando a mãe recebe uma carta da filha. Em português, coloquei: “estou com a mão na sua letra, na caligrafia, praticamente com a mão na sua mão”. Mas escrevi isso em inglês porque me interessou que a palavra “handwriting” seja a palavra “mão” e a palavra “escrita” juntas. Isso pareceu tão mágico para mim, a fisicalidade da palavra, que quis usar isso. Eu pus a filha a trabalhar nos correios e a fazer aula de caligrafia por causa disso, fui puxando esse fio da meada. No entanto, a realidade talvez mais prática da coisa é que eu me descobri como escritora quando estava na universidade, onde estava fazendo essas oficinas literárias em inglês, os meus professores só podiam ler a minha escrita em inglês, toda a literatura que eu estava lendo e todo o vocabulário literário que estava aprendendo eram em inglês também, a técnica, os modos narrativos. Eu ainda não tinha esse vocabulário em português, tive depois de voltar aos livros e reaprender por curiosidade. Não foi um processo muito intuitivo ou natural, mas foi o que aconteceu comigo. Simplesmente nunca tinha sido escritora em português, não tinha tido essa oportunidade ainda.
Existe a corrente de que pensamos de forma diferente em línguas diferentes, porque conectamos ideias de forma distinta. Se pensa literariamente e escreve em inglês, imagina-se a fazer o mesmo em português?
Na verdade, tive muito medo de escrever em português, quando chegou a hora de traduzir o livro. Tinha medo da rejeição, de descobrir se o meu português seria ruim, se não encontrasse um estilo literário e uma voz que fosse ser minha do jeito que o inglês parecia ser meu. Aí finalmente teria a resposta que desconfiava ser verdade, que não sou uma escritora brasileira, que acabou e agora sou estrangeira para sempre. Mas o que aconteceu é que descobri que o meu português sempre esteve lá, só não estava tão desenvolvido porque estava dormente, mas eu podia acordá-lo. E isso me deixou muito feliz, foi uma forma de voltar para casa. Me apercebi que pensava em português e o meu vocabulário podia existir ainda. E agora me sinto com essa duplicidade. Quando estou falando em português, estou pensando em português, e o mesmo em inglês. Me sinto plena, que posso existir em cada um dos idiomas de forma completa.
Já mencionou em entrevistas que, ao traduzir o Horas Azuis para português, forçou-se a encarar o livro de uma forma desapegada, como se fosse a obra de qualquer outro escritor. Como é que foi essa experiência?
Ajudou muito já ter traduzido vários outros livros, por isso pude tratar este como qualquer outro projeto que estava fazendo. Não ficava pensando “o que é que a escritora imaginou quando escreveu essa cena?” Estava trabalhando só com o que está na página, e tentei tratar o livro como um objeto. Essa distância me ajudou muito. Quando se exigia reinvenção, quando eu precisava de inventar coisas novas, não precisava de estar tão apegada ao original e poderia inventar coisas; por outro lado, quando havia momentos que funcionavam exatamente do jeito que estava, eu não adicionava nada mais e ia com a simplicidade do texto. Foi muito útil para mim, não ter esse preciosismo de tratar o original como superior. Eu não tenho devoção ao original, ele é uma versão da outra versão. São como duas faces da mesma moeda.
O próprio título do livro é diferente em mais do que uma forma entre a versão portuguesa e inglesa. Em primeiro lugar, o original é Blue Light Hours, que traduzido à letra ficaria “As Horas da Luz Azul]. Em português, essa “luz” é suprimida na tradução, o que tem impacto porque refere-se ao brilho do Skype. Mas além disso, a própria conotação da cor azul é diferente: em português é mais positiva e em inglês é mais negativa e triste. Como foi encarar esta mudança?
Antes de mais, fiquei pensando muito como esse livro muda quando ele é lido por pessoas diferentes. Nos Estados Unidos, é o livro da imigrante sul-americana que chega e tem essa história exótica para contar, mas no Brasil é o livro da pessoa brasileira que vai embora. Uma vez que esse contexto muda tão completamente, o título precisa de acompanhar isso, de certo modo. Eu gosto muito da expressão “tudo azul” no português brasileiro. É uma referência ao céu, quando está todo azul, sem nuvens, é tudo lindo e perfeito. E no inglês é claro que tem aquela melancolia do azul que eu gosto tanto. Eu queria brincar com essa dualidade, o que penso remeter ao que tinha dito antes: a mesma chamada de vídeo que aproxima é a que marca a distância, que evidencia o facto que esse abismo entre elas não pode ser aproximado.
No que toca ao seu percurso, que não é assim tão comum para uma escritora de origem brasileira, remeto para uma notícia do jornal Tribuna do Norte datada de 16 de outubro de 2009, que informa que “uma estudante do Instituto Federal em Parnamirim, Bruna Dantas Lobato, foi selecionada no programa de intercâmbio cultural ‘Jovens Embaixadores 2010’, promovido pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil”. Foi aí que tudo começou?
Nossa, você desenterrou essa! Esse é o jornal da minha cidade natal, fazia muito tempo que eu não ouvia falar dele. Foi quando ainda era adolescente. Eu estava na escola pública e queria muito conhecer o mundo, viajar, fazer faculdade. Meus pais não o fizeram, não estudaram muito, apesar de quererem, a gente era de classe baixa e éramos pobres, essa que é a verdade. Eu queria aprender, tinha curiosidade, sempre fui leitora, e ao descobrir essa oportunidade para fazer um intercâmbio gratuito pensei “ó, é de graça!” Não estava numa posição financeira ou social para rejeitar algo assim. E daí eu entrei nesse programa para “jovens de baixa renda”, ou seja, carenciados. O que eu não sabia na época é que isso ia mudar a minha vida.

Em que sentido?
Não sabia que, depois da experiência, eu não ia mais ser a mesma, que isso me ia mudar de alguma forma. Mesmo que tentasse, não poderia continuar a ser a pessoa inocente, antes de saber dessas outras coisas. Aconteceu num período muito formativo. Quando estava nesse programa de intercâmbio, descobri que existiam bolsas universitárias também para jovens de outros países. Eu fui a uma feira universitária e conheci representantes de vários dos colégios, como Harvard. Todos estavam lá. E uma vez que sabia que isso estava à minha disposição, não poderia continuar a minha vida ignorando que isso era uma oportunidade que eu tinha. E assim, o meu rumo foi mudado.
Recuperando aquela questão das dificuldades inerentes à tradução, e tendo em consideração que o português parece uma língua tão complicada às vezes, como é o processo de passá-lo para inglês?
É muito difícil. Eu estou ensinando uma disciplina de tradução na universidade onde trabalho e meus alunos ficam “é magia? Como é que faz? Como que isso é possível?” Eu respondo que é intuitivo, que você tem de sentir só e vai saber qual é o tom certo, o jeito certo de se posicionar. E eles dizem “mas eu não sei ainda, não sei qual é a palavra”. Isso exige toda uma prática de escrever a coisa errada e dizer “não, não está certo”. E depois escreve outra e outra coisa errada. Para algumas frases eu tenho um bloquinho de papel e escrevo a mesma frase várias vezes, tentando sinónimos até chegar numa que fico “é essa, eu estou satisfeita”. Eu preciso das variações, de 25 tentativas. E é isso, ir sentindo o gosto da linguagem até encontrar a que se aproxima mais. Acho que as pessoas não querem ouvir isso, querem que eu revele “o segredo”. A língua portuguesa é complicada, sim, tem coisas que creio que talvez não sejam compreendidas, mas está tudo bem.
Coisas que são intraduzíveis?
Vou dar um exemplo. Tenho muitos leitores americanos que me dizem que se identificaram muito com o relacionamento entre essa mãe e filha, e o quanto elas são próximas, mas também tem outros que dizem “eu não entendi, elas são tão próximas, é quase uma co-dependência, é quase tóxico”. Talvez seja porque não há esse hábito em algumas famílias americanas, dos filhos e os pais serem muito próximos, porque os filhos não moram com os pais desde muito jovens e seguem rumos separados. Não acredito que seja preciso necessariamente explicar a essas pessoas como são as relações no universo dos idiomas derivados do latim, onde existe essa proximidade familiar. Eu acho bem a gente ser diferente.
Fiz-lhe a pergunta também porque o inglês parece ser uma língua mais direta e escorreita, ao passo que o português por vezes tem uma sintaxe que é muito mais tortuosa. O livro com o qual venceu o National Book Award, A Palavra Que Resta, de Stênio Gardel, tem formas de dialeto tão específicas que até parecem estrangeiro para um português europeu, pelo que parece impossível passá-lo para inglês. Como é que o fez?
O livro do Stênio está cheio de regionalismos. O português nordeste do Brasil, especificamente, parece estrangeiro até para brasileiros fora daquela região. É uma das coisas que eu gostei tanto do livro. Me pareceu impossível também! Quando o li, pensei “ah, vai me matar”. Mas a verdade é que, às vezes, em vez de me apegar à ferramenta literária que está sendo usada, tento entender o que a ferramenta está fazendo e sigo esse uso. Por exemplo, eu via uma frase em que a sintaxe era diferente e tinha uns termos coloquiais e pensava “o que essas ferramentas estão fazendo aqui? Ah, é oralidade. Está dando essa personalidade e esse sentido de humor ao personagem”. E então recriava essa oralidade e sentido de humor. Eu tenho caixinhas de ferramentas diferentes para cada idioma, mas dá para fazer coisas parecidas. Se não tenho um martelo, mas tenho uma marreta, vou usar a marreta.
https://observador.pt/especiais/do-brasil-dois-escritores-premiados-em-sintonia-nao-ha-literatura-sem-empatia-dizem-stenio-gardel-e-victor-vidal/
Ao mesmo tempo, ainda que tendo essa experiência acumulada, imagino que haja um temor aflitivo de cometer um erro, porque é algo que mata esse contrato tácito entre o tradutor e o leitor, ou não?
Sim, e quebra a imersão. De repente, você está sendo arrancado fora da história. Posso oferecer até uma metáfora melhor do que a das ferramentas. Eu faço artes visuais também e pinto como hobby, pelo que penso muito na linguagem como um tipo de media. Se eu estou trabalhando com aguarela ou com tinta a óleo, esses meios se comportam de formas completamente diferentes. Com a aguarela eu tenho água, e para isso preciso de um certo tipo de papel e para as coisas aparecerem na página são precisas camadas diferentes; no óleo, tem outro tempo de secura. Não posso ficar com raiva da aguarela por não se comportar como óleo e vice-versa, e se tentar pintar com um como se fosse o outro, a pintura vai ficar ruim. Tenho de aproveitar o que cada um faz bem para pintar a mesma imagem. Na língua inglesa, vão surgir muitas oportunidades com a sintaxe, com os verbos. Por exemplo, a língua portuguesa aceita frases vagas, mas a inglesa quer detalhes concretos. Isso é uma oportunidade, é algo do comportamento da língua inglesa que vou aproveitar. Como na pintura, tento usar bem cada uma com o que me proporcionam.
Li que este livro levou algum tempo a ser escrito e que aconteceu enquanto estava a trabalhar como tradutora, porque foi por essa via que encontrou uma voz literária. Como é que esse processo decorreu?
Fui escrevendo esse livro ao mesmo tempo que estava traduzindo. Sempre fiz os dois. Quando me deu vontade de começar a escrever, estava curiosa também sobre os escritores lusófonos, porque tinha muito essa ansiedade que tudo na minha vida era em inglês. A tradução era uma forma de estar conectada com a minha casa, de voltar à língua portuguesa. Eu me debrucei sobre esses autores brasileiros com afinco mesmo, para estudar. O que faz eles serem autores brasileiros? Tem alguma coisa que a língua portuguesa faz que eu não consigo fazer no inglês? Era assim que estava complementando a minha escrita, tentando entender como escritora o que eles estavam fazendo na página . Todo o tradutor é escritor, claro, mas isso me beneficiou muito, ver o texto além do conteúdo, além da história, prestando atenção ao estilo e à forma.

A questão da política migratória dos EUA permanece tácita no livro, mas surge por exemplo quando a protagonista desabafa que não pode cometer deslizes pois precisa de “manter um status de visto legal”, e qualquer problema académico ou disciplinar tinha chance de acabar em “suspensão, expulsão, deportação”. Como foi a sua experiência enquanto migrante no país desde que chegou até aos dias de hoje?
Isso é um pouco um fantasma no livro. Ela se sente observada no campus e a qualquer momento essa vida pode ser arrancada dela. Há a cena em que ela está fazendo uma coisa tão banal quanto beber numa festa e pensa “é ilegal consumir álcool nos Estados Unidos se você não tiver 21 anos”. Qualquer jovem estaria bebendo, é uma coisa tão comum, mas para ela as consequências são muito severas. Isso me acompanha há muito tempo. Me formei em 2015, foi a minha primeira vez fora do campus sem aquele apoio institucional, me vi de repente nos Estados Unidos sem ter uma escola para me proteger. Foi perto de quando Trump foi eleito pela primeira vez. E nesse primeiro ano, houve três anúncios do governo que poderiam cancelar o meu visto. Eu pensei “vou embora a qualquer momento”. Queria comprar livros e pensava “não vou comprar esse porque não vai caber na minha mala se eu tiver de ir embora, vou gastar 15 dólares e vou perdê-lo”. Vivi essa vida de privação, sempre esperando o momento em que talvez tivesse de abandonar o meu trabalho, os meus estudos, de repente. E isso meio que continua até hoje.
Porque as coisas também mudaram?
Eu antes não era imigrante, era imigrante com visto de estudante. Hoje sou imigrante oficial, tenho Green Card, sou residente permanente. Eu pensava que, tendo seguido o caminho legal, o problema teria acabado, eu me sentiria plena. Mas o que sei agora é que a questão nunca foi sobre a documentação, foi sempre sobre as origens e o facto de que certas pessoas lhes causam incómodo, e claro que qualquer pessoa da América do Sul causa incómodo. Já tive momentos em que aceitei que essa é a minha sina, mas noutros ainda sinto indignação, porque não posso confiar muito na segurança da minha própria vida. Eu tenho um quotidiano doméstico super tranquilo, quando estou na minha casa lendo os meus livros com o meu coelho de estimação, eu esqueço, porque não dá para viver o tempo todo se sentindo perseguida. Mas quando saio de casa, de repente tem alguma coisa que me lembra, como o caixa do supermercado que faz uma pergunta sobre o meu sotaque. Sou constantemente lembrada e às vezes até sinto um pouco de culpa, porque penso que me deixei relaxar demais, e daí vem alguém que puxa minha orelha.
A realidade hoje nos EUA é que há imigrantes subitamente a descobrir que os procedimentos são uma ficção e podem ser deportados sem grandes contemplações. Parece ter havido um rumo de proporção inversa, em que o seu estatuto legal fortaleceu-se ao longo do tempo, mas o estado de direito enfraqueceu, justamente neste segundo mandato de Donald Trump.
Com certeza, é exatamente isso. A gente sabe que já não importa se você tem a documentação, a expectativa de que o governo iria respeitar as suas próprias leis já não é segura. E eu, sendo professora universitária, estou numa situação muito privilegiada, comparado com imigrantes que não têm esse apoio institucional, estou numa posição de prestígio que me protege muito. Mas mesmo nesse contexto, por exemplo, eu recebi um e-mail da universidade com o protocolo do que fazer se o ICE vier prender a mim ou a algum dos meus alunos durante o período de aula. Você imagina que isso deveria ser um momento sagrado e protegido, que ninguém iria vir e roubar um aluno meu, mas isso tudo é possível, mesmo no ambiente escolar.
A par disso, o ambiente cultural também tem vindo a mudar nos EUA, fala-se na chamada “morte do woke” e no combate às iniciativas de diversidade. Sendo uma escritora brasileira e, por isso, tendo essa “história exótica” que referiu há pouco, sente-se afetada por este clima?
É possível, mas não sei dizer. Tento mais ou menos ignorar como sou recebida ou compreendida pelos outros, porque isso paralisaria muito o meu trabalho. Quando estou escrevendo, tento me isolar disso tudo, da ansiedade política toda, mas acho que não tenho como existir fora dessa bagagem, desse contexto. Eu tento não fazê-lo muito, mas de vez em quando leio os comentários que as pessoas colocam sobre o livro no Goodreads, até para ver quais são as críticas. Às vezes até concordo, acho enriquecedor. Mas também vejo pessoas dizendo “esse livro é muito importante, principalmente nesse momento” e acho isso curioso porque, para mim, o momento dos imigrantes sempre foi importante, não é de agora. Para algumas pessoas, é o que estão lembrando agora. No ano que vem, talvez o tema seja outro.
Portanto, refere-se também a uma certa instrumentalização do Horas Azuis. O problema das instrumentalizações é que podem pender tanto para um lado como para o outro, não é? Agora pode ser bom, porque é um livro “importante” que relata a experiência da imigração, mas talvez no ano seguinte…
…já não é importante! De repente fica um romance histórico daquele período. Essa palavra, instrumentalização, é perfeita para isso, porque as pessoas dizem “leia esse livro se você quiser entender a vida do imigrante”, mas eu não o escrevi para ensinar aos americanos a angústia dos imigrantes e espero que demonstre mais nuance do que isso. Não é só uma forma de dar vocabulário didático, porque a experiência humana vai além disso. Tem o companheirismo na página, tem a humanização da vivência dessas personagens que é só delas. Outro imigrante tem outra vivência. A gente tem de saber disso também, que cada um vai ter tanta riqueza quanto elas, mas será 100% singular também. Só que às vezes querem que as minhas personagens sejam todos os imigrantes, é um achatamento da experiência do imigrante pensar que isso aqui é meramente representativo, quando faz muito mais, espero eu.
Depois deste romance, presumo que vá continuar tanto a escrever quanto a traduzir. O que é que está no horizonte neste momento?
Muita coisa. Tenho traduzido vários autores brasileiros, continuo fazendo trabalho em paralelo também, um alimentando o outro. Mas quanto à escrita, sou uma escritora lenta, por isso estou muito lentamente procurando o meu rumo para um novo romance. Na verdade, ao escrever Horas Azuis, pensei que já não quereria escrever mais sobre imigração, que teria esgotado o tópico.

Porque expurgou o que tinha a expurgar?
Exatamente, um exorcismo. Mas a verdade é que essa experiência de imigrante tem muito do estranho familiar. Tudo que é familiar é estranho, o que é estranho é familiar, o que é norte é sul, está tudo meio invertido e isso me fascina ainda. Queria então continuar nessa jornada de imigrante, escrever sobre uma coisa que a personagem de Horas Azuis quer muito, que é a experiência de permanência. O que acontece se você ficar numa casa por muito tempo, se você botar raízes? Quais são as angústias e os desesperos e questões que surgem aí? Queria escrever também sobre o que acontece ainda depois disso, quando você regressa, em que tem esse retorno mas é um estrangeiro em casa. Seria uma trilogia? Não sei! Vai me demorar muito ainda encontrar meu rumo na escrita com esses projetos, mas eu continuo, me mantenho curiosa.
E, sendo professora e tradutora, não depende da escrita para viver. Portanto, é uma coisa que pode fazer também o seu belo prazer, de certa maneira.
Posso ter bastante paciência e seguir meu próprio ritmo. Isso me ajuda muito. Odiaria forçar-me a escrever uma coisa rápida e publicar só porque preciso, em vez de ser pela descoberta do que quero que surja na página. Eu queria surpreender-me com o que eu vou encontrar lá.