Nuno Brilhante Dias, irmão do líder parlamentar do PS, é o novo gerente da empresa familiar de António José Seguro que produz e comercializa vinho e azeite beirões. A pouco mais de uma semana de tomar posse, o Presidente da República eleito anunciou esta quarta-feira ter-se desvinculado das três empresas em que detinha participações sociais, mas o Observador encontrou outras mudanças na gestão do património do Presidente eleito, como a passagem da gerência para o antigo sócio e familiar do líder da bancada socialista.
Na nota pública que enviou para a agência Lusa, Seguro limitou-se a informar que passou aos filhos as participações sociais que detinha nas duas empresas familiares e que vendeu a um terceiro a participação numa outra empresa. Durante a pré-campanha presidencial, em dezembro, os dois filhos já tinham entrado no capital social de uma dessas empresas, a Amarcor. António e Maria Seguro passaram, cada um, a deter de 20% desta sociedade que explora, como alojamento local, vários imóveis em Penamacor.
Nessa altura, o então candidato presidencial mantinha a posição maioritária na empresa com 60% do capital social de 2.000 euros. Agora, completou-se a passagem do testemunho e cada um dos filhos do Presidente eleito ficou responsável pela sua metade da Amarcor. A gerência ficará a cargo da filha mais velha de Seguro, Maria.
O mesmo não aconteceu, confirmou o Observador em plataformas oficiais, na sociedade Mimos da Beira, que tem como principal atividade a produção e distribuição de vinho e azeite beirões, mas também prestou serviços de consultoria para negócios e gestão. Nesta empresa familiar, a gerência ficará a cargo de Nuno Brilhante Dias, que já tinha colaborado com Seguro numa outra sociedade. A quota que o Presidente eleito detinha na Mimos da Beira (40%) foi também dividida em igual parte pelos dois filhos, sendo que a restante participação social (60%) é detida pela Amarcor.
Brilhante Dias, sócio de Seguro e o comprador Nuno Figueira
Por fim, Seguro vendeu a participação social que tinha na sociedade N&A (50%) a uma pessoa que não pertence à sua esfera familiar. Trata-se de Nuno Rafael Santos Figueira, que partilha residência com Joana Filipa Campos Crucho, a detentora do restante capital social desta empresa.
Foi nesta empresa que António José Seguro e o irmão de Eurico Brilhante Dias já tinham cruzado caminhos anteriormente. Tornaram-se sócios em fevereiro de 2023 quando constituíram a N&A juntos, onde partilhavam igualmente as funções de gerência. Da parte de Seguro, a Amarcor detinha metade do capital social e, da parte de Nuno Brilhante Dias, a sua consultora Trustslice detinha a outra metade. O irmão do líder parlamentar socialista é formado em engenharia e presidente da IPSS Fundação Cardeal Cerejeira, que presta apoio social a população idosa em Lisboa. Não são conhecidas publicamente funções políticas que Nuno Brilhante Dias tenha desempenhado.
Passado um ano da fundação da N&A, este último vendeu a sua quota a Joana Crucho e esta tornou-se a única gerente. Ao longo do último ano, Seguro manteve a sua participação na empresa e afastou-se oficialmente no início desta semana. A ocasião motivou outra alteração ao contrato da sociedade: a nova morada da empresa é a residência dos sócios Nuno Figueira e Joana Crucho. Antes, a sede oficial localizava-se numa das propriedades que a Amarcor explora como alojamento local, em Penamacor.
Esta é uma das propriedades que António José Seguro não comunicou à Entidade para a Transparência na declaração de rendimentos que entregou como candidato presidencial, apesar de a lei o obrigar a tal. O socialista apenas declarou no seu site oficial de campanha o património das suas empresas após o Observador ter questionado a razão para não o ter feito.
Já na campanha para a segunda volta das presidenciais, ficou-se a saber que a Amarcor é proprietária de seis casas, todas localizadas na mesma rua de Penamacor, e uma viatura ligeira avaliada em 22,5 mil euros. Além disso, Seguro detalhou o património da Mimos da Beira: um terreno agrícola de 3,6 hectares e uma viatura de mercadorias avaliada em 6,3 mil euros.
Sobre a N&A, Seguro não partilhou qualquer informação sobre o seu património, mas nesta empresa não ocupava nem a posição de gerente nem de sócio maioritário. Esta sociedade tem registada como principal atividade o comércio de produtos regionais, cerâmicas, peças de arte e artesanato assim como exploração de restauração. No entanto, a revista Sábado avançou que esta empresa fundada com Nuno Brilhante Dias serviu para a faturação dos serviços de consultoria, conferências, docência e comentário político do socialista, enquanto esteve afastado da política ativa.
Seguro estava obrigado a deixar empresas antes da posse
A dias de tomar posse como Presidente da República, o socialista viu-se obrigado a alienar a sua parte nesta e nas outras duas empresas, transações que oficializou no início desta semana. Isto porque a lei estabelece que o exercício de cargos públicos em exclusividade é “incompatível com quaisquer outras funções profissionais remuneradas ou não, bem como com a integração em corpos sociais de quaisquer pessoas coletivas de fins lucrativos”.
Foi o próprio Seguro a tornar público esta quarta-feira o fim de todas as suas funções não só empresariais como também cívicas e académicas, num nota enviada à agência Lusa. O Presidente eleito explicou que, “em virtude da sua eleição para Presidente da República”, deixará nomeadamente os cargos de professor associado convidado no ISCSP, da Universidade de Lisboa, e na Universidade Autónoma de Lisboa. Além da gerência das duas empresas, Seguro também renunciou ao cargo de vice-presidente da Associação Nossa Europa e de presidente da Associação Movimento UPortugal.
https://observador.pt/especiais/seguro-revela-patrimonio-das-empresas-familiares-que-nao-declarou-a-entidade-da-transparencia-o-que-se-sabe-da-sua-vida-empresarial/