Quando Blue Moon começa, Lorenz Hart (1895-1943) já tem os dias contados. Depois, a sua história recua oito meses e Ethan Hawke abre-nos a porta do restaurante de Nova Iorque que então recebia meia Broadway em noites de festa: o Sardi’s. Sentado no lugar do costume, Hart deita abaixo a estreia daquela noite, Oklahoma!, de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II. Seria épica e assim ficou para a história. Estamos a 31 de março de 1943. Num Sardi’s recriado em estúdio por Richard Linklater, em Dublin.
Hart está com dor de cotovelo pelo êxito alheio, claro está. Os seus melhores dias já lá vão, entrou em declínio, o álcool está a empurrá-lo para o precipício. Já Rodgers e Hammerstein tornar-se-iam a partir dali um caso sério na Idade de Ouro dos musicais. Hart tinha feito dupla de grande êxito com Rodgers, uma década antes. Escreveram algumas das mais célebres canções dos anos 30 americanos, do celebérrimo Blue Moon (“You saw me standin’ alone / Without a dream in my heart…”), que se tornaria êxito continuado ao longo de décadas, pela voz de múltiplos intérpretes, de Sinatra a Nat King Cole (e a lista não fica por aqui), às não menos conhecidas The Lady is a Trump ou My Funny Valentine, entre tantas outras.
Voltar a Blue Moon agora, no momento da sua estreia portuguesa em sala, mais de um ano depois de termos falado com Richard Linklater na Berlinale 2025, é um curioso exercício de memória. Em fevereiro do ano passado, na preparação desse festival (entretanto já decorreu outra Berlinale), contactei a publicista da distribuidora portuguesa Big Picture Films, que representa o catálogo da Sony Pictures, e a resposta que veio do outro lado da linha foi absolutamente espantosa: “Esse filme nunca chegará às salas.” Assim mesmo. “Importa-se de repetir? Um filme de Linklater com Ethan Hawke?” Logo se imaginou alguém a decretar “a morte do artista” e a espalhar a decisão mundo fora, limitando-se a resignada publicista a matraquear as ordens que recebera. O filme estava sentenciado desde o berço, não nos perguntem porquê.
Acontece que, na competição de Berlim 2025, Blue Moon foi um expoente, um dos filmes que mais elogiámos nessa edição, muito graças à performance extraordinária de Hawke, nomeado entretanto pelo papel para um Globo de Ouro de Melhor Actor e para o Óscar da mesma categoria, a anunciar a 15 de Março (é a quinta vez que Hawke se apanha em tais andanças, quatro delas graças a obras de Linklater). Entretanto, levou o cineasta texano a Cannes o filme Nouvelle Vague, que fez o seu curso normal de exibição em todo o mundo. E Blue Moon foi ficando para trás, sem honra nem glória, numa sombra imerecida. E nós a vê-lo por um canudo, à espera do streaming.
https://www.youtube.com/watch?v=qo7gRHip0lI
A nomeação de Hawke para o Óscar, em parte, salva este filme notável. Por esse motivo, pode agora Blue Moon estrear-se nas telas portuguesas, uma vez adquirido — tarde mas em boa hora — pela Pris Audiovisuais, que assim repara o tremendo disparate da Sony. O mesmo aconteceu nos Países Baixos, há um mês. Na Alemanha, estreará depois dos Óscares, em fim de Março. No importantíssimo mercado francês, não teve a sorte que nós vamos ter: tombou directamente, em Janeiro passado, no horroroso caldeirão do VoD.
Mas voltemos ao filme e ao modo como Linklater, em estúdio e entre quatro paredes (não só as do Sardi’s), recria aquele tempo de guerra (1943). A América mudara a mentalidade, mas Hart está no passado, tal como no passado vive a personagem de Humphrey Bogart em Casablanca — Rick e o seu “Nobody ever loved me that much” — frase que Blue Moon cita diversas vezes. No balcão do Sardi’s, é ao barman Eddie (Bobby Canavale), único amigo que lhe resta, que Hart se confessa, falando-nos entre linhas de uma sexualidade mal resolvida e de um fascínio tardio pelos 20 anos de Elizabeth Weiland (Margaret Qualley), bela mulher que aprecia dele a companhia, mas não mais que isso (“Just not that way…”).
Impecavelmente escrito por Robert Kaplow, Blue Moon também é um filme superiormente interpretado, não só pelo protagonista e pelos já citados Canavale e Qualley. Acrescente-se Andrew Scott no papel de Rodgers (premiado em Berlim) e Patrick Kennedy no do escritor Elwyn Brooks White, com quem Hart lança, às tantas, uma rica conversa a partir da palavra “inefável”. Nada que nos surpreenda, de facto: Linklater é, há muito, um cineasta do prazer da palavra, dos seus duplos sentidos e variadas entoações. O acto de conversar já era a principal arma da trilogia “Before”. Mas Hawke ainda não havia atingido este patamar. Em Berlim, recordemos agora, foi taxativa a forma como ele descreveu este papel: “é preciso uma vida inteira para lá chegar (…) Hart é profundamente inseguro e descontroladamente confiante, estes contrários criam uma dinâmica, tornam-se vida para mim.”
Agora sim, lança-se a conversa do ano passado com Linklater, que é um habitué de Berlim. Foi na capital alemã, há mais de três décadas, que venceu o seu primeiro prémio de relevo internacional: Urso de Prata para Melhor Realização por Before Sunrise / Antes do Amanhecer (1995). Em 2014, repetiu o prémio com Boyhood: Momentos de Uma Vida. Quando falámos com ele, estava com a cabeça em Nouvelle Vague. Já sabia que o filme fora convidado para Cannes — mas ainda era segredo.

Conversámos aqui em Berlim a última vez, há dez anos, sobre Boyhood…
Foi a última vez que cá estive!
E na altura falámos bastante do Linklater que começa por ser argumentista e depois se apaga para passar à realização. Mas esse não é o caso de Blue Moon. Quem assina este argumento é Robert Kaplow. Muda alguma coisa?
Nem por isso. O texto acaba por alimentar o mesmo sistema de trabalho de sempre, nos meus workshops e ensaios com os actores. É aí que os diálogos são testados. E depois o texto dilui-se, desaparece, nasce então outra coisa. Foi sempre assim nos meus filmes. O Robert escreveu este argumento e fez um excelente trabalho. Mas tal como eu, nos argumentos que escrevi, ele nunca se sentiu o autor único do texto, por assim dizer. O texto é imensamente trabalhado por todos nós quando ensaiamos. Esta é a fase em que despeço o argumentista e chamo o realizador. E se alguém tem uma boa ideia a acrescentar, pois bem, vemos se ela é boa e pode ficar.
Quando Robert Kaplow lhe trouxe a ideia deste filme, o que é que o levou a aceitar?
E aceitei logo! Foi o Lorenz Hart. Sou um grande fã da dupla Rodgers & Hart. Um dos meus discos favoritos de todo o sempre — e que aconselho a toda a gente — é o album duplo em que Ella Fitzgerald interpreta as canções deles [Ella Fitzgerald Sings the Rodgers & Hart Song Book, 1956]. Esse disco esteve sempre ao lado da minha coleção punk-rock dos anos 80, desde os meus tempos de adolescente. Aliás, cresci com musicais, a minha mãe fez-me ouvi-los na sala de estar da nossa casa. Garanto-lhe que muito pouca gente sabe isto de mim. Aliás, nem o Robert sabia. “Tu conheces o Lorenz Hart?” Ficou boquiaberto quando lhe disse que o adorava. As letras são tão inteligentes, tão divertidas e sensuais. Sou rock’n’roller de base, Bob Dylan em primeiro lugar. Mas adoro canções daquela era, não só Rodgers & Hart, também Cole Porter, Ira Gershwin… Eram fabulosos letristas.

Esse prazer do texto interessa-me sempre no seu trabalho. Isto é: você podia ter feito facilmente um biopic sobre Lorenz Hart. Ao invés disso, preferiu dar-nos um pedaço da vida dele no Sardi’s em “real time”. Porquê?
É uma ideia bastante perversa fazer um filme sobre aquele momento tão importante na história do musical, como o da estreia de Oklahoma!, mas a partir do ponto de vista do tipo que foi deixado para trás. Este filme é como contar um segundo casamento a partir do olhar do antigo marido. É uma coisa esquisita — mas eu gostei dela como ponto de partida. E o Hart está a sofrer, está a roer-se. O tempo está a mudar e, em simultâneo, já é pouco o tempo que lhe resta. É um homem a afundar-se nos seus próprios problemas à medida que o mundo o vai deixando para trás. Blue Moon são 100 minutos de filme em que sentimos que somos todos vulneráveis. Este assunto é comum a qualquer artista. Vamos ter que enfrentar isso mais tarde ou mais cedo. E os cineastas não são os que mais estão protegidos.
Blue Moon foi filmado imediatamente antes de Nouvelle Vague, isto dá duas longas-metragens por ano…
Com duas outras produções em paralelo. Foi um ano muito ocupado. Já estou um bocado velho para me tornar subitamente num Fassbinder [que filmava a um ritmo endiabrado], mas sobrevivi. Nouvelle Vague vai ser o oposto de Blue Moon. É um filme sobre o início de alguma coisa. Este não, é mais tristonho, fecha uma porta. Mas foram ambos feitos com o meu entusiasmo.
O que é que vai seguir-se?
Estou com um novo projecto que vai chamar-se Merrily We Roll Along. E ando com a ideia de fazer um filme no mundo do jazz dos anos 50, em Los Angeles. Este é provavelmente o mais complicado de todos para fazer, mas quem sabe? Dedos cruzados!

Voltando a Blue Moon, não tinha ideia que este projecto já tem tantos anos, passou cerca de uma década à espera do bom momento. É verdade que disse então a Ethan Hawke que ele tinha que viver mais uns anitos, sofrer mais um bocado, para “ficar no ponto”?
A vida dá muitas voltas e já não sei o que é nos picou ao certo para fazermos isto agora. Mas chegámos à conclusão de que tinha chegado o momento. Começámos a procurar financiamento, o interesse de outros actores. Isto foi há cerca de dois anos. E no verão do ano passado [de 2024], metemos mãos à obra.
E chegou a considerar outra pessoa para o papel? Isto é: o Ethan não é judeu, não é gay. Lorenz Hart era as duas coisas.
Quando começámos a falar disso, o papel para ele não era evidente, de facto. Mas foi o próprio Ethan que, levado pelo seu instinto, avançou e disse: eu quero fazer este tipo. Acreditei que a transformação dele era possível. Nem pensei tanto no desafio de torná-lo tão parecido a Lorenz Hart quanto possível. O papel exigia outra coisa além da verosimilhança. Exigia uma velocidade verbal, acima de tudo, absolutamente necessária para interpretar uma personagem que é a pessoa mais inteligente e inspirada da sala e, ao mesmo tempo, a mais triste. E o Ethan trabalhou tanto, mas tanto… Ele dizia-me: “estou no limite das minhas forças e do meu talento”. Puxámos imenso um pelo outro neste filme.
Por outro lado, era difícil aprofundar a vida de Lorenz a partir do balcão do Sardi’s. Além de que se sabe pouco da sua vida privada e queer. Frequentava ele bares gay? Imagino que sim, mas não tenho a certeza. Eram clandestinos naquela altura e ele nunca falou disso abertamente. Estamos a falar de um tempo em que os gays eram perseguidos e presos pela polícia.
A que ponto é que recriou os detalhes do Sardi’s? Continua a ser um espaço emblemático em Nova Iorque. Mas o Sardi’s dos anos 40 é mítico.
O que se vê no filme ficou bastante próximo do original. Tivemos acesso aos mapas, às maquetes, fotos de época, tudo isso. Tornámos o bar um pouco maior do que ele é para meter o piano lá dentro. As escadas são as mesmas, o bengaleiro é igual ao de hoje. Acho que alguém que conhece o Sardi’s pode “deixar-se enganar” e acreditar que filmámos lá, realmente. Reconstruímos tudo nos Ardmore Studios em Bray, a sul de Dublin.

O Sardi’s ainda tem o mesmo significado hoje para o mundo do teatro na Broadway?
Há sempre aquela nostalgia da grande era que passou e já não volta mais. Os artistas são assim. Estamos sempre a reclamar com o que não temos, até com o tempo que já passou, ou que nem vivemos. Podia dizer o mesmo dos anos 90, porque sinto falta dessa década. No Sardi’s está tudo isso, a aura do antigo refúgio, o espaço de fantasmas. Gosto disso, sinto o mesmo quando visito certos teatros antigos. Um filme de época como Blue Moon acaba por esconjurar coisas destas, estes mundos paralelos — para quem acredita neles.
E os filmes, ainda lhe dão o mesmo prazer que davam quando começou a filmar aos vinte e poucos?
Ainda mais. Agora sei estar mais descontraído com os filmes. Com a idade, ganhei confiança. Acho que estou num lugar agradável: ainda me sinto fisicamente capaz e estou muito mais maduro e seguro do que quero fazer. Isto não é auto-confiança arrogante, é mesmo o que sinto. Na juventude há muita paixão, mas também muita ansiedade. Passamos mais tempo a consertar coisas mal feitas do que a fazer as certas. Hoje, com trinta e tal anos de cinema, já não sinto isso. E passei a apreciar esta coisa nova para mim que é rodar estes pequenos filmes em estúdio, como sempre eles existiram em tantos países, no Japão ou aqui na Alemanha, com orçamentos limitados. Sou um beneficiário do ecossistema do cinema indie americano ao qual nunca pertenci e para o qual pouco contribuí, para dizer a verdade. Hoje dou-me conta de que sempre preferi os estúdios.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.