O estrondo apanhou de surpresa quem, pelas 00h30, tentava dormir na Rua do Benformoso. Foi a essa hora que um carro branco passou a bifurcação onde esta rua se cruza com a rua do Terreirinho e quem seguia a bordo, disparou e fez três vítimas, uma delas grave. A repetição do ruído tirou todas as dúvidas a quem o ouviu dentro de portas: eram tiros.
A polícia chegou cerca de 15 minutos depois dos disparos, vindos da esquadra da PSP que se situa numa rua paralela. Os agentes encontraram pelo menos os cidadãos estrangeiros — entre as vítimas, encontram-se um português e dois bengalis — refugiados dentro do restaurante “Food Garden”, que apesar de já não ter esse nome, nunca foi rebatizado pelos moradores.
Um dos feridos ligeiros tinha levado um tiro que o atingiu na cabeça, e outro foi atingido no pé. Até à chegada da ambulância, os moradores foram os socorristas e, sobretudo com papéis, tentaram estancar o sangue. Um dia depois, quem espreita pelo gradeamento ainda encerrado do estabelecimento vê as marcas: a enorme poça vermelha, o rasto de sangue e os papéis ensanguentados. Em cima de uma mesa, vê-se ainda o casaco cinzento que era usado pelo homem ferido na cabeça.
Nos últimos tempos, relata um lojista do Bangladesh que preferiu manter o anonimato, têm tido bastantes problemas com vendedores de droga que fazem da bifurcação onde foram disparados os tiros o seu local de permanência. Por isso, os moradores acreditam que o sucedido se deva a um ajuste de contas relacionado com tráfico de droga. As autoridades investigam essa hipótese. O Observador sabe que a vítima de nacionalidade portuguesa, levado para o hospital com ferimentos mais graves, tem antecedentes criminais por vários crimes, incluindo posse de droga.
Para já, a PSP conseguiu recuperar e apreender uma arma de fogo perto do local do crime, além de vários invólucros. No entanto, ainda não foi possível identificar o carro ou a matrícula. O caso passou, entretanto, para a Polícia Judiciária. Ao Observador, fonte ligada à investigação garantiu que não há, para já, indícios que apontem para um confronto racial nesta zona multiétnica. Por outro lado, há “ingredientes” do caso que podem ser associados a ajustes de contas por tráfico de droga — numa zona conotada com o “tráfico localizado” — que pode ter feito duas vítimas colaterais não relacionadas com o confronto, os dois imigrantes.

Idosa ia dormir quando ouviu “estrondo muito grande”. Moradores ouviram tiros, mas só viram imagens pelas redes sociais
Enquanto é atendida numa das poucas lojas portuguesas da rua, uma mulher de 87 anos diz que já se “estava a deitar” quando ouviu um “estrondo muito grande”. A idosa que vive na rua do Terreirinho há 30 anos atribui aos problemas de audição não ter percebido logo que seriam tiros. “Não sei explicar, foi um ‘puuuuum’, ‘puuuum’”, descreve, tentando expressar com o movimento das mãos a violência do barulho.
Tal como relataram várias pessoas ouvidas pelo Observador, ao início ninguém percebeu que seriam tiros, que não são muito comuns nesta zona. Como já tinha ligado o relógio para não falhar, no dia seguinte, a terapia, a idosa olhou logo para as horas quando ouviu o barulho. “Era meia-noite”. Como o som se repetiu, optou por ir logo para a cama. “Fiquei a tremer, com medo”.
Aslam Khan estava bem perto do local onde tudo aconteceu, mas também ele não percebeu imediatamente do que se tratava. O funcionário da embaixada do Kuwait, que vive há 14 anos no segundo andar do edifício do “Food Garden”, achou que o primeiro estrondo era de algum foguete ou de outra qualquer celebração. Só depois de o som se ter repetido é que suspeitou de algo grave e dirigiu-se à varanda onde veria o aparato.
Nesse momento, Shafiqul Islam, que vive a 100 metros daquele local, estava a dormir. Não ouviu os disparos, mas foi despertado pelos colegas de casa. “Estava deitado na cama e percebi que estavam a conversar sobre uns disparos que ouviram. Fomos à janela ao fim de um bocado e vimos um grande aparato policial. Não saímos de casa porque não nos sentimos seguros, nem eu nem os meus colegas”, disse o funcionário de um restaurante, com 30 anos.
Ao balcão de uma loja de conveniência, um lojista que preferiu manter o anonimato disse que só tinha sabido do que aconteceu pelas notícias. As imagens das vítimas “estão por todo o lado”, diz ao navegar pelos vários grupos de Facebook da comunidade bengali em Portugal. Num dos vídeos, vê-se a enorme mancha de sangue espalhada pelo chão do restaurante e as duas vítimas. Uma, sentada e combalida, com um ferimento na cabeça; outra, levantada, a mostrar a marca da bala no pé. Os azulejos do restaurante não deixam margens para dúvidas, o vídeo foi mesmo gravado no número 115 da rua do Benformoso.

Uma das imagens que circula na Internet mostra a polícia a chegar apressada, como tinha sido relatado por moradores, antes da chegada do INEM, que transportou as vítimas para o hospital. O português ficou com ferimentos no tórax e foi transportado para o Hospital São José, onde foi sujeito a intervenção cirúrgica: “Entretanto saiu do bloco operatório, encontra-se estável e vai ficar internado para observação”, detalha a PSP. Os dois cidadãos do Bangladesh não corriam perigo de vida, mas também foram hospitalizados.
Pelas 13h desta quarta-feira, depois de várias horas com o restaurante fechado, um homem subiu o gradeamento automático sem intenção de receber clientes. Enquanto enxota curiosos que espreitam, agora com melhor visibilidade, para o sangue, um dos funcionários explica aos jornalistas que aquela confusão não está relacionada com o restaurante. As pessoas só se dirigiram para lá para se protegerem.
“Se eles não entrassem no restaurante para salvar a vida, isto ia atingir mais pessoas”, assegura Rana Taslim Uddin. O líder da comunidade do Bangladesh em Lisboa esteve na rua quando já era possível ver, dentro do estabelecimento, dois homens a limparem o local com uma esfregona. Queria ouvir os moradores e perceber o que teria acontecido. “Isto não tem nada a ver com a nossa comunidade”, frisou depois de ter falado com alguns compatriotas.
A conversa é interrompida pelo burburinho que cresce na rua. A poucos metros dali, precisamente no local que os moradores apontam como a zona onde costumam estar os traficantes (e a partir de onde terão sido realizados os disparos da madrugada anterior), duas pessoas envolvem-se numa luta. Uma delas chega a pegar num paralelo da calçada e ameaça atirá-lo. Rana aponta: “Isto é uma preocupação”, mas “não é de agora”.

“Há quatro ou cinco anos que há este problema”. Moradores do Benformoso alertam para problema com tráfico de droga e voltam a pedir polícias e câmaras
Alertada, a PSP chegou ao local pouco depois de ter terminado a escaramuça. Depois do ataque desta madrugada, anunciou um reforço policial, mas os moradores não só não notaram uma maior presença de agentes, como dizem que não os veem, em dias normais, as vezes suficientes para que se sintam tranquilos.
“Há quatro ou cinco anos que há este problema. Já avisamos a Junta de Freguesia e a polícia. Eles sabem [dos problemas], mas não conseguem retirar estas pessoas”, explicou Rana, apontando para a forte presença de traficantes de droga na rua. “Consomem e vendem droga aqui. Não queremos isto”.
O desabafo é acompanhado por outros moradores e comerciantes. Se uns sentem o negócio ameaçado, outros dizem sentir-se inseguros. “Devíamos ter mais polícias porque fazemos negócios legais aqui e se não tivermos segurança como é que vamos ficar aqui?”, questiona um lojista. Num dia normal, diz, vê a partir do balcão entrarem pessoas para roubar perfumes ou cremes corporais. “Às vezes, quando vêm cá turistas, eles pedem-lhes dinheiro”. Se os turistas não dão, “eles ameaçam e insultam”. “Precisamos de mais segurança na rua”, repete o imigrante do Bangladesh, que receia que os turistas sejam afugentados.
A idosa que estava quase a dormir quando ouviu o tiroteio da última madrugada acompanha a preocupação dos vizinhos. “Zaragatas e facadas” já viu ali, mas “tiros” nunca. “Deviam revistá-los”, aponta. A mulher que vive ali há várias décadas tem a certeza que nos últimos tempos a situação tem piorado.
Esta quarta-feira, o movimento frenético da rua concentra-se em frente ao restaurante com vestígios do tiroteio. No mesmo edifício, um homem aproveita para estender a toalha. Paulo sobe as escadas de casa e reforça as preocupações dos vizinhos. O português que ali reside desde que nasceu sabe quase de cor onde estão os restantes portugueses da rua do Benformoso — facilmente denunciados por um cachecol do Sporting CP ou uma bandeira do FC Porto pendurados na varanda. Pouco conversa com os vizinhos: “Eu não falo a língua deles…”. Mas partilha a inquietação. “Há muito tráfico nesta zona”.

Perto da casa de Paulo e do local do crime, duas portuguesas estão à porta de uma loja de brinquedos. Antes de serem interrompidas pela entrada de uma criança, a quem cumprimentam com um sorriso, dizem que ainda não viram nenhum carro da polícia. Nas várias horas em que o Observador esteve no local, os carros da PSP foram passando, de vez em quando, na rua, mas fonte policial explica que o patrulhamento foi mais intenso nas primeiras horas da manhã.
“Eles deviam estar cá todos os dias. Eles passam cá, revistam as pessoas, mas se eles tiverem pouca droga continuam com ela e vão à vida deles”, desabafa Cristina Gomes. A trabalhar ali desde a década de 80 do século passado, diz que, “graças a Deus”, nunca viveu momentos de maior violência, sobretudo porque sai cedo do trabalho. “Saímos às 18h, ainda bem. Ajustamos o horário no ‘covid’ e ainda bem, assim saímos de dia”.
A preocupação criada com o crime da última madrugada renovou apelos antigos dos moradores, que exigem mais videovigilância. “Devia haver câmaras de vigilância, desde o início até ao fim da rua. Acho que não ia resolver o problema de uma vez, mas pouco a pouco, ia ajudar a diminuir situações semelhantes”, diz MD Alamin. Rana concorda: “Devia ter mais videovigilância, pelo menos uma em cada ponta [da rua], e outra no meio. E tem que ser 24h de videovigilância. As autoridades têm que saber de quem é a culpa”.
https://observador.pt/especiais/alegada-violacao-no-martim-moniz-moradores-preocupados-com-falta-de-seguranca-pedem-mais-camaras-e-mais-policias/
Apesar de num primeiro levantamento, realizado entre 2019 e 2020, nem a área da Rua do Benformoso nem a do Martim Moniz terem sido incluídas pela PSP no plano de videovigilância de Lisboa, em janeiro de 2025 a força de segurança mudou de ideias. Na altura, indicou fonte da PSP à imprensa, o Martim Moniz e a Rua do Benformoso não eram consideradas prioritárias.
Perante a nova recomendação da PSP, a Câmara de Lisboa respondeu que a possibilidade de instalação de videovigilância no Martim Moniz estava a ser avaliada, apesar de no topo das prioridades figurar a zona do Cais do Sodré onde começaram a ser instaladas em fevereiro de 2025. A instalação de câmaras de videovigilância depende do pedido, feito neste caso pela autarquia ou pela PSP, endereçado ao Ministério da Administração Interna com vista a emitir um parecer. Tal é estipulado pela Lei n.º 95/2021, de 29 de Dezembro, que determina que o pedido de autorização é requerido pelo “dirigente máximo da força ou serviço de segurança respetivo” ou “pelo presidente da câmara municipal, (…) cabendo a instrução do processo à força de segurança com jurisdição na respetiva área de observação”.
O Observador contactou tanto a Câmara Municipal de Lisboa como o Ministério da Administração Interna (MAI) para apurar se houve atualizações relativamente à instalação de videovigilância na zona do Benformoso e Martim Moniz, mas não obteve resposta em tempo útil.
PSP tem notado diminuição de crimes relacionados com a imigração, mas detenções por tráfico de droga estarão a aumentar
Questionada pelo Observador, fonte oficial garantiu que a PSP não revelaria, por enquanto, dados da criminalidade especificamente da zona onde ocorreu este tiroteio, ou mesmo da freguesia de Santa Maria Maior, em que se insere grande parte da Rua do Benformoso. Várias fontes consultadas pelo Observador explicam, no entanto, que o policiamento no local tem aumentado.
O reforço da atividade policial e o apertar das regras relativamente à imigração surtiram resultados, sobretudo no que diz respeito aos crimes relacionados com a imigração (como imigração ilegal ou auxílio à imigração ilegal), apurou o Observador junto de fonte policial. Os agentes que patrulham o local têm visto muito menos filas em estabelecimentos suspeitos de promover o auxílio à imigração ilegal, o que se traduz num decréscimo desse tipo de criminalidade.
Por outro lado, garante a mesma fonte, o mesmo não se pode dizer dos crimes relacionados com o tráfico de droga. Pelo contrário: haverá um aumento das detenções por crimes relacionados com tráfico ou posse de droga. Este aumento de detenções não quer dizer, ainda assim, que haja mais criminalidade, uma vez que este crime não é, normalmente, participado. Significa, sim, que a PSP está mais presente no terreno — o que não só inibe o tráfico como o deslocaliza para outras zonas.
Apesar da dimensão do crime da madrugada desta quarta-feira, que está a ser investigado pela PJ, este estará relacionado com “pequeno tráfico de droga”. Nestes casos, reforça a mesma fonte, é normal que pequenas discussões entre traficantes ou consumidores possam acabar neste tipo de ações.
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