A armada norte-americana está quase a postos para um eventual ataque contra o Irão: tem porta-aviões, navios de guerra no Médio Oriente e até aeronaves reabastecedoras na Base das Lajes, nos Açores. Os Estados Unidos da América (EUA) estão, há várias semanas, a preparar-se para atacarem território iraniano, ambicionando destruir o programa nuclear do país. Como o próprio já admitiu, qualquer decisão está nas mãos do Presidente dos EUA, Donald Trump, que tem ouvido a sua equipa de conselheiros de segurança nacional sobre o assunto.
Esta quinta-feira, uma delegação norte-americana liderado pelos enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner viajará para Genebra, na Suíça, de maneira a chegar a acordo com os iranianos. A Casa Branca pretende explorar a opção diplomática novamente, após algumas rondas de negociações que não correram de feição. Esta oportunidade poderá ser a última concedida pelos Estados Unidos ao Irão: Donald Trump está a perder a paciência com Teerão e está com o dedo no gatilho.
O Presidente norte-americano exige que o Irão se comprometa a nunca desenvolver uma arma nuclear. No discurso do Estado da União, Donald Trump acusou o regime iraniano de ter “ambições sinistras”. “Eles já desenvolveram mísseis que podem ameaçar a Europa e as nossas bases no estrangeiro e estão a trabalhar em mísseis que, em breve, vão alcançar os Estados Unidos da América”, afirmou, sendo que estas alegações foram prontamente desmentidas pela diplomacia do Irão.

Com a tensão a aumentar, o Irão está a preparar-se para um conflito, mesmo que até admita chegar a acordo com os norte-americanos esta quinta-feira. O país está a desenvolver planos de emergência, traçando planos de sucessão no topo da hierarquia política, religiosa e militar. Além da destruição de qualquer ambição nuclear, uma eventual operação militar dos Estados Unidos poderá eliminar os principais rostos do regime, incluindo o líder supremo, o ayatollah Ali Khamenei, com 86 anos.
Outro país que está bastante atento ao que passa é Israel, que se deverá juntar aos ataques militares norte-americanos ao Irão. Teerão já deu a entender que bases militares israelitas serão um dos alvos da retaliação, em caso de ofensiva dos Estados Unidos. Apesar dos riscos que pode acarretar para o Estado judaico (em estado de guerra praticamente permanente desde outubro de 2023), na sociedade israelita existe praticamente um consenso de que o regime iraniano deve ser deposto.
A posição de força dos EUA nas negociações em Genebra e os argumentos para atacar o Irão
Na mesa das negociações em Genebra, a pressão está do lado iraniano. Os Estados Unidos já deixaram bem claras quais são as suas linhas vermelhas (a impossibilidade de desenvolver uma arma nuclear e o fim de qualquer forma de enriquecimento de urânio no país) e já estabeleceram um prazo. A 19 de fevereiro, Donald Trump deu “entre dez a quinze dias” para o Irão aceitar um acordo; caso contrário, Teerão sofrerá “consequências muito negativas”.
https://twitter.com/EricLDaugh/status/2026686355309240682
Numa entrevista à Fox News, o vice-presidente norte-americano, JD Vance, assinalou esta quarta-feira que o Irão “nunca deve ter uma arma nuclear”. “O Presidente está a tentar atingir isto de forma diplomática, mas tem outros meios à disposição para que isso não aconteça”, frisou o número dois da presidência norte-americana, admitindo que os meios militares continuam em cima da mesa.
“Espero que os iranianos tenham isso em séria consideração”, avisou JD Vance, sublinhando que a via diplomática continua a ser privilegiada. Quanto a uma eventual mudança de regime — que poderá ser um dos objetivos de Washington em caso de ataques —, o vice‑presidente limitou‑se a assinalar que Donald Trump também “tomará a sua decisão”, preferindo, no entanto, enfatizar a prossecução de um “acordo razoável”. “Queremos fazê‑lo sem recorrer aos militares, mas, se tivermos de os usar, o Presidente não deixará de estar certo.”
Segundo avançou esta quarta-feira o jornal Axios, as negociações em Genebra deverão ser a última chance para romper o impasse nas negociações entre Washington e Teerão. Steve Witkoff e Jared Kushner deverão informar o Presidente norte-americano depois do encontro com dirigentes iranianos. Donald Trump deverá tomar uma decisão com base nas informações que os dois enviados especiais transmitirem.
Num encontro com dadores, Steve Witkoff desvendou o que os Estados Unidos querem que o Irão cumpra: “Partimos da premissa de que não há cláusula de caducidade”. Ou seja, o enviado especial vai exigir em Genebra que o regime iraniano nunca possa desenvolver qualquer arma nuclear e que haja uma espécie de mecanismo de vigilância — que também seria usado para averiguar os níveis de enriquecimento de urânio do Irão. “Independentemente de conseguirmos um acordo ou não, a nossa premissa é: [o Irão] tem de se portar bem para o resto das vossas vidas.”
Perante os navios de guerra que os Estados Unidos têm no Médio Oriente, o Irão está sob pressão norte-americana. Em todo o caos, Donald Trump ainda não decidiu os moldes da operação militar: se será mais cirúrgica, ou mais extensa. Para decidir a intensidade da eventual ofensiva, o Presidente norte-americano também se deverá guiar pelo feedback dos enviados especiais.
Mesmo assim, em discursos públicos, os dirigentes norte-americanos estão a tentar preparar a opinião pública para um eventual ataque, tal como já tinham feito há alguns meses. Em junho de 2025, os Estados Unidos já atacaram três locais onde o Irão estaria a desenvolver o seu programa nuclear. Donald Trump fez da operação militar Midnight Hammer uma vitória retumbante e usou uma retórica dura para todos aqueles que desvalorizavam o sucesso da ofensiva. Passado nem um ano, o Presidente norte-americano pode voltar a bombardear território iraniano — e isso pode levantar questões sobre o êxito da ofensiva há oito meses, o que seria um incómodo político para a presidência.

A Casa Branca espera, porém, que esse assunto já tenha sido parcialmente esquecido por muitos norte-americanos. Num Presidente que compreende como poucos as dinâmicas mediáticas e com uma elevada exposição mediática, Donald Trump deseja que a sua base eleitoral (que deixou algumas críticas à operação Midnight Hammer) já não tenha isso tão presente na memória. Em simultâneo, Donald Trump tem usado o argumento de que o Irão se voltou a rearmar e retomou o desenvolvimento do seu programa nuclear.
Entre os argumentos que pode esgrimir, o Presidente norte-americano pode ainda mencionar os protestos violentos que terão causado, segundo números do próprio, pelo menos 32 mil mortos no país. Desde o final de 2025, milhares de iranianos saíram às ruas para exigirem o fim do regime. Como habitual, os dirigentes do Irão reagiram com pulso firme e suprimiram à força todas as manifestações.
As autoridades iranianas cortaram a internet e o país esteve num apagão informático durante semanas para impedir a convocação de mais protestos em todo o país. Neste contexto, Donald Trump chegou a escrever que a “ajuda estava a caminho” e pretendia apoiar os manifestantes com um possível ataque contra o regime do Irão. Isso acabou por não se concretizar até agora. Depois disso, a presidência tem também refreado algumas expectativas em relação a esse assunto, preferindo não comentar diretamente uma mudança de regime.

Desde a semana passada, ainda assim, regressaram os protestos ao Irão. Milhares de estudantes protestaram em várias universidades a pedir o fim do regime, como slogans como “Morte Ao Ayatollah” e “Queremos Reza Pahlavi”. O regime tem novamente apertado a malha e há relatos de violência por parte das instituições estatais. Mesmo que esta onda de manifestações não esteja a ser tão massiva quanto a passada, mostra que o espírito de resistência continua vivo.
Esta terça-feira, surgiu uma publicação nas redes sociais bastante enigmática da CIA. As secretas norte-americanas divulgaram uma mensagem em persa: “A CIA quer ouvir as vossas vozes e quer ajudar-vos”. “Aqui está o guia para como contactar-nos seguramente de forma virtual”, lê-se.
https://twitter.com/CIA/status/2026315891055436079
Irão quer apostar na diplomacia, mas está pronto para a guerra
Sob ameaça mas nunca recuando na retórica contra os norte-americanos, o Irão está a tentar lidar com a pressão norte-americana ao preparar-se para um conflito. Com 90 milhões de pessoas e umas Forças Armadas leais, o regime tenta transmitir a imagem que existe coesão, apesar dos protestos. Em simultâneo, os dirigentes iranianos estão a tentar pintar um ambiente favorável para as negociações de Genebra, dando a entender que poderá haver cedências.
http://twitter.com/araghchi/status/2026353045848629565
A presidir à delegação iraniana está Abbas Araghchi. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão salientou no X que espera “alcançar um acordo justo” em Genebra. “As nossas convicções fundamentais são claras: o Irão não vai desenvolver nenhuma arma nuclear, nem vão os iranianos abdicar do direito de usufruir dos benefícios da tecnologia nuclear pacífica para a população”, realçou.
Abbas Araghchi sinalizou aos Estados Unidos que se tratava de uma “oportunidade histórica para chegar a um acordo sem precedentes”. “Provámos que não vamos parar de manter a nossa soberania com coragem. E trazemos a mesma coragem para a mesa de negociações, onde vamos procurar uma resolução pacífica para quaisquer diferendos”.
Na mesma linha, o Presidente iraniano Masoud Pezeshkian antevê “boas perspetivas” para a reunião em Genebra. “Estamos a tentar, guiando-nos pelo líder supremo, sair desta situação em que nem há guerra, nem há uma situação de paz”. Através destas mensagens, o Irão está a tentar transmitir que é capaz de ceder, desde que os Estados Unidos não mantenham uma postura maximalista nas negociações.
Apesar de tentar imprimir um bom ambiente às negociações, o Irão também se prepara para um ataque e para uma retaliação. Neste sentido, Abbas Araghchi já desvendou como poderia ser a resposta de Teerão: “As bases norte-americanas na região tornar-se-ão alvos legítimos”. No Golfo Pérsico, os Estados Unidos têm bases em países como o Qatar (que, aliás, foi atacada na sequência da operação militar de junho de 2025), no Bahrein, nos Emirados Árabes Unidos e no Kuwait.
Outro dos alvos do Irão será certamente Israel, o rival geopolítico de Teerão e aliado dos Estados Unidos. O Estado judaico está já em alerta para essa situação. A grande dúvida é se os iranianos mobilizarão os proxies — como o Hezbollah no Líbano ou os Houthis no Iémen — para também atacarem território israelita. Nesse sentido, enfraquecido após as campanhas militares que travou contra Israel, o grupo xiita libanês declarou esta quarta-feira que não se juntará a uma ofensiva, caso o ataque dos EUA seja “limitado”. Ressalvou, no entanto, que, se Washington tentar matar o ayatollah, isso seria uma “linha vermelha”.
Simultaneamente, também se estão a fazer contas à sucessão, caso os norte-americanos assassinarem ou capturarem figuras-chave do regime, incluindo Ali Khamenei. Numa entrevista a um canal indiano, Abbas Araghchi admitiu que estão a ser traçados planos alternativos, mesmo para a morte do líder supremo. O ministro lembrou que o regime funciona como um “sistema”: “É um mecanismo bem oleado. Nada ia colapsar”.

“Toda a gente seria substituída por procedimentos já estabelecidos”, explicou o chefe da diplomacia do Irão, que destacou que o “sistema não depende de indivíduos”: “Mesmo no meio de uma guerra, nada colapsaria e seríamos capazes de continuar a nossa autodefesa. O sistema aguentaria. Não há problema nenhum com o sistema”.
Segundo o New York Times, o ayatollah já emitiu várias diretivas para estabelecer a sucessão no comando militar e em postos governamentais que estão à mercê das suas escolhas. Ali Khamenei também já informou todos aqueles que estão em cargos de destaque para nomear quatro possíveis substitutos, delegando igualmente responsabilidades em alguns conselheiros.
Ao mesmo jornal, o especialista na teocracia iraniana Vali Nasr explicou que “Khamenei está a lidar com a realidade”. “Ele está à espera de se tornar um mártir e que este sistema será o seu legado — que vai defender até ao fim. Ele está a distribuir o poder e preparar o Estado para a próxima grande coisa, seja sucessão ou guerra, consciente de que a sucessão pode surgir como consequência da guerra”.
https://observador.pt/especiais/presenca-militar-reforcada-pressao-de-israel-e-um-impasse-nas-negociacoes-seis-respostas-sobre-o-possivel-ataque-dos-eua-ao-irao/
A reunião desta quinta-feira será provavelmente o tudo ou nada. Donald Trump mobilizou uma poderosa força militar para o Médio Oriente que apenas espera por instruções. Se as negociações correrem mal em Genebra, o Presidente norte-americano poderá perder de vez a paciência. O Irão pretende oferecer uma alternativa que satisfaça os norte-americanos — e prolongar as negociações diplomáticas. Contudo, se tudo correr mal, o “sistema” de Teerão está “bem oleado” para retaliar e para sobreviver.