Esta sexta-feira, 27 de fevereiro, escreve-se mais uma página de história. Mizzy Miles encabeça um espetáculo especial no Campo Pequeno, em Lisboa, uma das mais emblemáticas salas do país. Muito provavelmente, é a primeira vez que, em nome próprio, um DJ ou produtor nacional se apresenta num palco desta dimensão. Era o passo que faltava para a trajetória de Fim do Nada, o marcante álbum de estreia que lançou em janeiro de 2025 e que há um par de meses ganhou uma versão deluxe, com mais uma mão cheia de faixas.
“Lutei e trabalhei o tempo todo para aquele momento”, afirma Mizzy Miles ao Observador, lembrando o percurso do último ano. “O álbum deu-me as maiores bênçãos da minha vida. A estabilidade emocional, financeira… Fez-me sentir realizado. E é por isso que é Fim do Nada, porque o ‘nada’ desapareceu. Agora tenho um corpo de trabalho, algo que me representa e que fica para sempre, já não é só um conjunto de singles. Foi uma conquista que mudou a minha vida, que me deu mais maturidade e também aumentou a responsabilidade, que me permite viver daquilo que mais amo fazer.”
A etapa que está prestes a alcançar não surge por acaso, embora tudo tenha acontecido relativamente rápido. O seu primeiro single — God Mode, para o qual juntou Prodígio e benji price — foi lançado em 2020. Antes, era DJ nos clubes de Lisboa e tinha composto e produzido alguns temas para artistas no campo do rap e da música urbana. Mas Mizzy Miles não queria ser mais um produtor de rap, outra criatura de estúdio longe dos holofotes da ribalta.
Inspirou-se em exemplos norte-americanos como DJ Khaled, conhecido por desenvolver canções com inúmeros convidados ilustres, promovendo colaborações entre artistas que nunca tinham partilhado uma faixa — mesmo que nem seja o próprio a compor o instrumental. Reviu-se em produtores que fazem os seus próprios espetáculos megalómanos, convocando os seus amigos rappers e cantores, como Metro Boomin. Percebeu a força da marca própria de um produtor de topo como DJ Mustard. E acima de tudo compreendeu que havia uma “cadeira vazia” para essa figura emergir no mercado português. Ao longo dos últimos anos, fez tudo para a transformar num trono com o seu nome.
Esse processo foi meticulosamente preparado, de forma estratégica, a cada passo que dava. Nas atuações por festivais ou festas académicas em que é invulgarmente comunicativo com o público, no protagonismo que tem nos videoclipes, no programa More Bars que conduziu na rádio Cidade FM, no trajeto que o levou a fazer o espetáculo de abertura da Supertaça Cândido de Oliveira no verão de 2024. Hoje, soma 650 mil ouvintes mensais no Spotify, um número que o coloca na lista dos artistas mais ouvidos de Portugal.
Ao afirmar-se como um produtor-estrela, também tem vindo a desconstruir o próprio conceito de “produtor”. Na música, é historicamente a figura que sugere ou toma decisões criativas com o artista para que uma canção ou um disco atinja a sua melhor versão possível. No contexto do hip hop, como essa figura não existia nos primórdios do género mas era formalmente esperado que se preenchesse essa função quando se editava um disco, o termo ficou associado ao compositor, ao autor do instrumental, muitas vezes também designado como beatmaker, que tradicionalmente não era o artista principal — esse lugar pertencia ao rapper.
Ora, ao trabalhar com outros compositores (Di Cicilia e Ungari são os mais frequentes nos créditos) e instrumentistas, Mizzy Miles acaba por ser mais produtor no sentido tradicional da palavra. É o maestro de uma orquestra — definida pelo próprio — que vai mais para a esquerda ou para a direita consoante a sua visão artística.
“Não sou tecnicamente bom em tudo. Não sei tocar nenhum instrumento, mas se precisar de uma guitarra ou de um piano, chamo os músicos e digo-lhes: tenho este BPM [batidas por minuto], esta estética, eles vão tocando e eu vou dizendo ‘muda isto, muda aquilo’. Isto é produzir. E também é dar oportunidades, delegar funções, abrir portas, dar luz a outras pessoas. São coisas que se semeiam e que realmente brotam, dão os seus frutos”, explica Mizzy Miles, que privilegia a colaboração embora assuma sempre a liderança criativa. “No final, tenho o material todo e monto tudo ao meu gosto, com os volumes certos, com a minha mistura. Mas não é tudo sobre mim. Sou o maestro por trás disto, mas olha as pessoas que me ajudaram. Essa também é uma missão. E depois cada um deles faz o seu caminho, pelo menos já lhes dei esse empurrão: baza do ninho, voa!”

Outra característica que se tem revelado essencial no trabalho de Mizzy Miles é o seu papel enquanto mediador e conciliador — outro atributo basilar de um produtor tradicional. O seu álbum inclui 18 vocalistas — mais quatro na versão deluxe — e várias das colaborações que conseguiu materializar são inéditas ou improváveis.
Foi em Fim do Nada que, pela primeira vez, Slow J e ProfJam, dois dos maiores rappers e músicos da sua geração, partilharam uma faixa, Estrada. Ou que T-Rex e o universo dos Wet Bed Gang se cruzaram pela primeira vez, quando o artista da Linha de Sintra participou no tema homónimo com um dos rappers do quarteto de Vialonga, Zara G. Sem Mizzy Miles, dificilmente Diogo Piçarra e SleepyThePrince teriam partilhado o microfone. E há todo um esforço de aproximar artistas portugueses de outros mercados lusófonos. Criado entre Lisboa e o Rio de Janeiro, o produtor convocou rappers brasileiros como Teto, WIU, MC PH e Ryu, The Runner — ou a cantora angolana Chelsea Dinorath — para trabalharem em diversas faixas com artistas portugueses.
“Hoje já conquistei o meu espaço e a confiança, sinto que isso fala por si e também ajuda na tomada de decisões. Mas no processo foi preciso ter muita inteligência emocional e entender o objetivo em cada situação. Nem sempre é sobre mim, às vezes é sobre o projeto ou a missão, isso tem de falar mais alto do que o meu ego ou a minha vontade. É por um bem maior. Às vezes há uma palavra [numa música] que não querias que fosse assim, mas está-se bem, não é sobre hoje, é sobre amanhã. É sobre a semana que vem, o ano que vem.”
O concerto no Campo Pequeno e as muitas ambições para o futuro
No Campo Pequeno, Mizzy Miles promete tocar praticamente o seu catálogo inteiro, num espetáculo de cerca de duas horas. Quase todos os seus convidados estarão presentes e são argumentos de peso para atrair as milhares de pessoas que se esperam na plateia.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/4IV29ZB0IT2qKAnbFze2KO?si=Z2rpOJFAQ7aQQtfM1bFM6w
Tem sido um dos maiores desafios no seu percurso até aqui. O “monstro de sete cabeças”, como o descreve, inclui pensar no alinhamento, definir os visuais e as luzes para cada canção e, claro, gerir mais de 20 artistas e as respetivas comitivas, cada um com as suas logísticas, exigências e estratégias de comunicação, nuns bastidores que não se poderão alargar mais do que o normal para acolher tanta gente. “É algo que nunca tinha experienciado. Nem tinha bem noção da dimensão que isto pode atingir. No momento, quero absorver e captar tudo, divertir-me ao máximo, não quero estar a pensar em mais nada. Mas sei que no fim vai ser um alívio por termos conseguido.”
Mizzy Miles vai apresentar-se com dois instrumentistas, um guitarrista e um teclista, com quem trabalhou os arranjos especiais para esta performance. Vários dos temas, adianta, terão versões estendidas e serão apresentados com uma roupagem musical mais sofisticada.
Fazer esta sala representa “não haver limites”. “Não sou cantor, não sou rapper, a conversão dos fãs e do apoio que tens não é tão direta. A dificuldade de fazer uma sala destas também é maior. Mas carrego comigo a bandeira do pioneiro nalgumas portas que tenho vindo a abrir, e o pioneiro dá sempre o corpo às balas para quem vem atrás. Isto era uma floresta densa e agora já está mais desbastada, com candeeiros… No futuro vai ser só seguir a luz. Eu não tinha nada disso no meu caminho e agora com o Campo Pequeno foi igual. Não está a ser fácil, mas é a prova de que não há limites.”
Uma das iniciativas que desenvolveu em torno do espetáculo, Make It Inside, foi um concurso dedicado aos novos talentos. Mizzy Miles abriu as convocatórias e a comunidade aderiu em massa: cerca de 700 rappers e 150 produtores de hip hop alistaram-se. Após uma seleção dos melhores, realizou provas que foram transmitidas em direto nas plataformas digitais, gravadas em frente do Campo Pequeno. Os mais votados nas redes sociais foram subindo degrau após degrau até sobrarem duas duplas de rapper e produtor — Bere & Lucca Sayão, Vieitos & dollasignsaint — que irão fazer parte do concerto de 27 de fevereiro. Pelo meio foi editado um EP de meia-dúzia de faixas com os finalistas, incluindo uma cypher que os junta a todos no mesmo tema.
“A premissa foi: tu que estás na tua bolha, no teu quarto ou na tua casa, que és completamente desconhecido, se fores destemido o suficiente para encarar isto, poderás make it inside comigo naquele dia. É um projeto win win. Não só estou a promover o meu concerto, até porque fizemos as transmissões no Campo Pequeno, como estou a devolver à cultura.”
Depois do sucesso desta iniciativa, Mizzy Miles revela que gostava de “mais para a frente” conseguir ampliar o concurso a uma escala nacional. “Porque isto foi feito junto da minha audiência, das pessoas a que a minha palavra chegou. Se tivesse tido o apoio de um canal de televisão ou de uma rádio, se calhar teria tido milhares de inscrições. Pode vir a ser uma cena do país inteiro.”

Aliás, este projeto deu a Mizzy Miles a ideia de fazer “um projeto à semelhança do Fim do Nada” apenas com artistas menos conhecidos. “Abriu-me os olhos para isso e estou com essa ambição, vou tentar fazê-lo este ano. Ou seja, aquilo que eu faço, os feats, mas só com artistas underground, com rappers e produtores. Em vez de ser com toda a Champions League, é fazer um projeto da distrital. Dar-lhes uma qualidade de estúdio a sério, produção e orientação a sério, marketing, um ou dois videoclipes como deve ser… é devolver à cultura”, diz o produtor, sublinhando que há poucas pontes entre o circuito mainstream e os núcleos underground no rap português.
Outro desejo que já tinha manifestado anteriormente e que também espera concretizar ao longo deste ano é um disco 100% focado no Brasil. Mizzy Miles tem vindo a passar temporadas naquele país e, muito graças à sua colaboração e amizade com o rapper Teto, esteve mesmo em digressão pelo território. “O que está na mesa é ir lá passar três semanas ou um mês. Eles têm um ritmo de trabalho completamente diferente, é muito dinâmico, dá para fazer uns dois sons por dia e é importante estar presente, dar a cara, para que as amizades e os laços se criem. Tudo o que criei lá foi nessa base da relação pessoal. E quero ir já daqui com coisas apalavradas para fazermos um writing camp.”
Ainda que inicialmente não tenha sido apresentado como tal, o single High Life — com Teto e Ryu, The Runner, editado no verão passado — pode muito bem ser o primeiro avanço desse projeto de Mizzy Miles em colaboração com artistas brasileiros.
Há, no entanto, muitos outros planos. O produtor deseja compor mais para os lançamentos de outros artistas, algo que tem vindo a acontecer menos com o passar dos anos, por ter menos disponibilidade e não se posicionar tanto como um mero beatmaker — embora tenha contribuído dessa forma para o álbum que Bispo lançou no ano passado, Entre Nós; e para o tema Born Rich, de Richie Campbell e Van Zee. Também tem abertura para um projeto colaborativo com um único artista, como quando em 2023 fez Say Goodnight to the Bad Guys com o rapper 9 Miller. “Mas tem de ser alguém muito específico, tem que haver química.”
Após ter cantado em Premium, tema com Agir, e de ter feito o refrão de Fora do Normal, canção com Nenny e Chelsea Dinorath, Mizzy Miles até poderia explorar mais a sua voz e desejar ser também um protagonista nesse aspeto. Mas o artista prefere estar focado na produção, ainda que aqui e ali, como já tem vindo a fazer, possa surpreender com uns versos ou um refrão. “Não é a minha prateleira, é um lado perigoso do jogo. Para o nível em que estou hoje, de notoriedade e posicionamento, ou é incrível, ou se for para ser médio ou apenas bom… Não faço.”
Ambicioso em múltiplas direções, Mizzy Miles quer também desenvolver a Make More Never Less, o seu selo discográfico, para uma “editora a sério” e uma “casa para novos talentos”, podendo também dar o nome a uma marca de roupa. O artista expressa também o seu desejo de chegar à televisão, aos concursos de talentos, para eventualmente ser jurado de programas como The Voice, Ídolos ou Got Talent. Tirando a exceção de Carlão, “nunca um programa desses teve alguém do rap e faz falta um ouvido mais fresco”. E existem ainda planos para um livro de “autoajuda” em que o produtor possa detalhar os passos que o levaram a construir uma carreira de sucesso, procurando motivar outros a alcançarem os seus objetivos.
“Quem sabe um dia possa escrever esse livro sobre o que é preciso fazer para chegar lá. Neste caminho aprendi o quão poderosa é a força do pensamento. O quanto poder existe no querer, e o que é que o querer te pode dar. O que está por trás disso é uma mente blindada e é uma mentalidade que pode ser aplicada a qualquer área da vida. Há um poder e uma magia aí. Temos de ir atrás do processo, cumprir o processo, apaixonarmo-nos pelo processo e depois as vitórias aparecem.”
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