Não era uma simples segunda mão, não era só um jogo europeu e estava longe de ser apenas mais uma data no calendário. Esta quarta-feira, no Bernabéu e contra o Real Madrid, o Benfica disputava três coisas que iam muito além dos 90 minutos: a continuidade na Liga dos Campeões numa temporada que se tornou complexa a nível interno, a eliminação de um histórico campeão europeu e a honra depois de tudo o que aconteceu há uma semana no Estádio da Luz.
Até porque, na verdade, a primeira mão do playoff dos oitavos de final da Liga dos Campeões não foi uma simples derrota para o Benfica. O episódio entre Prestianni e Vinícius, com o alegado insulto racista que o argentino dirigiu ao brasileiro, colocou os encarnados no olho do furacão no mundo inteiro — quase nunca com elogios pela reação, quase sempre com críticas pela abordagem. E não era preciso um enorme exercício de imaginação para ter a certeza de que a semana da equipa de José Mourinho, entre investigações da UEFA, o castigo preventivo a Prestianni e declarações de Rui Costa, foi tudo menos normal.
Ficha de jogo
Real Madrid-Benfica, 2-1 (3-1 no conjunto das duas mãos)
Playoff dos oitavos de final da Liga dos Campeões
El Bernabéu, em Madrid (Espanha)
Árbitro: Slavko Vincic (Eslovénia)
Real Madrid: Courtois, Trent Alexander-Arnold, Raúl Asencio (David Alaba, 77′), Rüdiger, Álvaro Carreras (Fran García, 90+1′), Fede Valverde, Tchouaméni, Eduardo Camavinga (Mastantuono, 77′), Arda Güler (César Palacios, 84′), Gonzalo García (Thiago Pitarch, 84′), Vinícius
Suplentes não utilizados: Lunin, Dani Carvajal, Fran González, Brahim Díaz, Ferland Mendy, Jorge Cestero, Manuel Ángel
Treinador: Álvaro Arbeloa
Benfica: Trubin, Amar Dedic, Tomás Araújo, Otamendi, Samuel Dahl, Fredrik Aursnes (Enzo Barrenechea, 85′), Richard Ríos, Rafa Silva, Leandro Barreiro (Sidny Lopes Cabral, 90+1′), Schjelderup (Ivanovic, 85′), Pavlidis
Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Diogo Ferreira, António Silva, Alexander Bah, Sudakov, Lukebakio, Manu Silva, José Neto, Anísio Cabral
Treinador: José Mourinho
Golos: Rafa Silva (14′), Tchouaméni (16′), Vinícius (80′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Richard Ríos (35′), a Otamendi (51′), a Raúl Asencio (57′), a César Palacios (90+6′)
José Mourinho estava castigado depois de ter sido expulso há uma semana na Luz e já sabia que não poderia estar no banco de suplentes esta quarta-feira, mas também optou por não aparecer na antevisão e ofereceu a conferência de imprensa ao adjunto. “Não sei onde é que ele estará. Nós preparámos este jogo a antecipar todos os cenários que possam acontecer. É óbvio que é um jogo com caráter diferente do ponto de vista de quem é o nosso líder, que é Mourinho não estar no banco. Ele gostaria de estar, obviamente, e não está por uma situação que vocês conhecem. Da nossa parte, enquanto staff, preparámos a equipa, preparámos todos os cenários para que amanhã consigamos estar ao nosso nível, manter aquilo que temos feito. É basicamente isso e não sei onde é que ele estará”, garantiu João Tralhão.
Ora, sem Prestianni, os encarnados apareciam no Bernabéu com Richard Ríos no onze inicial, com Fredrik Aursnes a ficar no meio-campo com Leandro Barreiro e Rafa Silva e Schjelderup a manterem o lugar perto de Pavlidis. Do outro lado, nuns merengues que no fim de semana perderam com o Osasuna e deixaram fugir a liderança da La Liga para o Barcelona, Álvaro Arbeloa também não contava com o lesionado Mbappé e apostava no jovem Gonzalo García — para além do crónico Vinícius.
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O Benfica começou claramente melhor e mostrou desde os instantes iniciais que estava no Bernabéu para discutir a eliminatória. Com as linhas mais subidas do que há uma semana, menos espaço entre setores e uma acutilância na pressão ao portador da bola que raramente se viu na primeira mão, os encarnados iam também beneficiando de alguma posse consentida pelo Real Madrid, já que os merengues pareciam preferir defender na linha média para depois explorar a eventual profundidade nas costas da defesa contrária.
Schjelderup teve a primeira aproximação mais séria à baliza adversária depois de uma arrancada de Amar Dedic (4′), Leandro Barreiro cabeceou para Courtois defender na sequência de um canto (5′) e Rafa, logo a seguir, rematou para o guarda-redes encaixar (6′). Ainda dentro do quarto de hora inicial, porém, o golo acabou mesmo por aparecer: Richard Ríos lançou Pavlidis na direita, o grego cruzou e Courtois ainda evitou o autogolo de Raúl Asencio, mas Rafa apareceu no sítio certo para a recarga, marcou e empatou a eliminatória (14′).
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A reação do Real Madrid, contudo, foi imediata. Praticamente no lance seguinte, Fede Valverde desequilibrou na direita e colocou a bola mesmo à entrada da grande área, onde Tchouaméni apareceu quase sem oposição a rematar de primeira para empatar, bater Trubin e recuperar a vantagem na eliminatória (16′). Depois dos dois golos, os merengues procuraram claramente baixar o ritmo e a intensidade, tornando o jogo algo mais previsível e menos elétrico, e conseguiram alcançar algum ascendente.
Eduardo Camavinga e Vinícius remataram para defesas atentas de Trubin de forma consecutiva (24′) e Arda Güler ainda marcou, mas o lance foi anulado por fora de jogo de Gonzalo García (32′). Ríos assustou Courtois com um pontapé forte que o guarda-redes belga defendeu (38′) e o jogo chegou mesmo empatado ao intervalo, com o Benfica completamente dentro da eliminatória mas o Real Madrid ainda na frente do playoff.
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Nenhum dos treinadores fez alterações no início da segunda parte e o Real Madrid regressou do balneário com mais bola e a clara intenção de a trocar no próprio meio-campo para atrair o Benfica e soltar depois a transição rápida com espaço. Raúl Asencio cabeceou por cima na sequência de um canto (53′), Alexander-Arnold atirou ao lado depois de enganar Samuel Dahl (56′) e os encarnados pareciam mais contidos, presos e estagnados do que em todo o primeiro tempo.
A lógica alterou-se à passagem da hora de jogo, quando Rafa acertou na trave com um remate de trivela à entrada da grande área (60′), e o Benfica aproveitou o ímpeto da enorme oportunidade para recuperar metros no meio-campo contrário e alcançar algum ascendente. Álvaro Arbeloa foi forçado a fazer a primeira substituição por lesão de Raúl Asencio, que saiu de maca depois de um choque com Camavinga, e não só lançou David Alaba como também tirou o médio francês para colocar Mastantuono.
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Os merengues foram recuando cada vez mais à medida que o tempo foi passando, colocando quase os 11 jogadores atrás da linha da bola, enquanto que os encarnados tinham posse e presença mas não conseguiam criar perigo. A estratégia que o Real Madrid apresentou em toda a segunda parte, contudo, acabou por dar frutos: numa transição muito rápida depois de uma recuperação em zona adiantada, Vinícius recebeu na esquerda, disparou e atirou cruzado e rasteiro para bater Trubin e aumentar a vantagem (80′).
Ivanovic, Enzo Barrenechea e Sidny Lopes Cabral ainda entraram nos últimos minutos, mas já nada mudou. O Benfica voltou a perder com o Real Madrid e está fora da Liga dos Campeões, sendo que os merengues seguem para os oitavos de final e podem cruzar com Sporting ou Manchester City. Rafa Silva marcou, acertou na trave, foi o jogador dos encarnados que mais correu e tudo fez para levar calma à raiva que a equipa de José Mourinho levava da Luz — mas parecia que a história já estava escrita.
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