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(A) :: Ministro das Finanças tem de ficar em observação no hospital durante 24h. Teve um Acidente Isquémico Transitório: o que é um AIT?

Ministro das Finanças tem de ficar em observação no hospital durante 24h. Teve um Acidente Isquémico Transitório: o que é um AIT?

Ministro das Finanças deu entrada esta manhã em Santa Maria com suspeita de AVC que foi descartada pelos exames. Teve um Acidente Isquémico Transitório e fica 24h sob observação em neurologia.

Sâmia Fiates
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Luís Rosa
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Joaquim Miranda Sarmento vai estar sob observação no hospital de Santa Maria, em Lisboa, até quinta de manhã, quando passarem 24 horas do momento em que entrou nas urgências com uma suspeita de AVC, que os exames descartaram: tratou-se sim de um Acidente Isquémico Transitório, conhecido como AIT, soube o Observador junto de fonte próxima do processo. O ministro das Finanças e Estado deu entrada às 8h30, nas urgências daquele hospital, onde chegou pelo seu próprio pé. Não foi aplicado o protocolo VIP, a que o ministro tem direito, e seguiu-se o processo normal. Depois de ser feita a triagem, as suspeitas apontavam para um Acidente Vascular Cerebral. Contudo, após os respetivos exames, essa hipótese foi afastada e chegou-se ao diagnóstico de Acidente Isquémico Transitório, uma interrupção abrupta de circulação de sangue para o cérebro durante algum tempo, em que os sintomas são semelhantes, mas menos intensos, do que num AVC.

O ministro de Estado e das Finanças teve depois de ficar internado, em neurologia, onde ficará por 24 horas, segundo as regras normais para este tipo de episódios, soube também o Observador junto da mesma fonte. O hospital confirmou em comunicado quer o internamento, quer a entrada nas urgências de Miranda Sarmento. O ministro está bem, e estável, diz ainda o comunicado do Santa Maria, mas sob vigilância, por questões de segurança. Fará novos exames esta quinta-feira de manhã e, se tudo se mantiver normal, terá alta de seguida. No entanto, tem de ser acompanhado e vigiado: um AIT pode deixar sequelas, pode repetir-se e pode levar a um AVC.

A suspeita de o ministro ter sofrido um AVC, foi primeiro noticiada pela CNN e confirmada depois pelo Observador junto de uma fonte próxima do ministro das Finanças e do Estado. Mais tarde, o hospital confirmaria que o governante recorreu às urgências com uma “indisposição” e que a hipótese de AVC tinha sido afastada. “O Ministro das Finanças realizou exames que descartaram o cenário de um Acidente Vascular Cerebral, mantendo-se em observação por precaução”, lê-se na nota enviada ao Observador, sem adiantar qualquer outro detalhe. Fonte da família disse então ao Observador que havia a suspeita de que Miranda Sarmento teria sofrido um Acidente Isquémico Transitório, ou AIT, e que se encontrava bem.

O médico neurologista Vítor Tedim Cruz, presidente da Sociedade Portuguesa de AVC, explica em declarações ao Observador o que é um AIT.  “O facto de ser acidente, quer dizer que é uma situação abrupta. A outra palavra-chave é isquémico: quer dizer que algo abrupto aconteceu porque houve interrupção do fluxo de sangue numa determinada área do cérebro. A última palavra-chave é transitório. Quer dizer que essa interrupção do fluxo não foi definitiva, só durou, habitualmente, menos de uma hora.”

“Ou seja, há uma zona do cérebro que de um momento para o outro deixou de receber fluxo sanguíneo e isso origina o início abrupto de sintomas”, explica o especialista, que lista alguns dos sintomas mais comuns: “Pode ser uma interrupção da fala, uma perda de força de um dos lados do corpo.”

De acordo com Vítor Tedim Cruz, a decisão de manter o doente em observação é a conduta habitual num caso de AIT, quando serão realizados novos exames. “Um objetivo é confirmar que é mesmo transitório. Às vezes nós precisamos de fazer uma ressonância magnética. Às vezes o TAC pode não ser suficiente para mostrar que não houve lesão. Às vezes é preciso fazer uma ressonância magnética para ver se o cérebro está todo intacto. Ou se há ali alguma lesão, mesmo que pequena. E a segunda questão é, em 24 horas, fazer os exames que são necessários. Normalmente é preciso fazer análises sanguíneas. É preciso fazer um eletrocardiograma e monitorizar o ritmo cardíaco para ver se há alguma arritmia. Às vezes é preciso monitorizar o doente 24, 48, 96 horas.”

O médico destaca ainda a importância da vigilância hospitalar nestes casos. “As primeiras 24 horas são determinantes para, além de tratar, descobrir a causa. Porque só se nós começarmos, nas primeiras 24 horas, os tratamentos necessários para impedir a repetição, é que a conseguimos impedir. Não dá para o doente ir para casa e depois ir fazendo os exames”, explica o presidente da Sociedade Portuguesa de AVC. “Se o doente está bem, se o doente não tem sintomas, é muito provável que seja um Acidente Isquémico Transitório. Mas para ter a certeza que não foi um AVC, é preciso fazer uma ressonância, às 24 horas, e ver se existem lesões“, diz ainda o médico.

Entre as principais causas para uma doença vascular cerebral, em pessoas entre os 50 e os 70 anos de idade, estão condições como a arritmia, a hipertensão arterial, a diabetes e o colesterol elevado. “Depois há outros co-fatores que aceleram o envelhecimento vascular. Por exemplo: o tabagismo ou o consumo de álcool, que acelera o desgaste dos vasos. Depois há outros problemas ainda, como pessoas que estão com privação ou alteração da qualidade do sono e, portanto, o sono não é reparador e depois começam a ficar hipertensas por causa disso, aumenta o risco de arritmias nesse contexto”, destaca o médico, que assinala ainda o risco de um AIT deixar sequelas. “A grande maioria dos acidentes isquémicos só não deixam sequelas se durarem menos de uma hora de evolução. Se durarem mais do que isso, podem deixar sequelas. Podem conduzir a um acidente vascular cerebral, um AVC.”

Em declarações à Rádio Observador, o médico neurologista Rui Araújo explicou que tipo de consequências práticas um AIT poderá significar em relação ao trabalho do ministro nos próximos dias. “Em termos práticos, se os sintomas são, e pela própria natureza do problema, transitórios, aquilo que se espera é que haja uma restituição completa. À partida não existirão qualquer tipo de problemas perenes e definitivos”, disse o especialista, que comenta ainda a necessidade de o doente permanecer internado por mais dias. “Depende muito da causa. Há um conjunto alargado de AIT’s que podem ter alta para casa com alguma vigilância, com algum tipo de exames subsequentes. Tudo depende daquilo que se acha que é a causa do evento. Se é algo que é evitável, que se pode agir sobre os fatores de risco que levaram a isso, é uma alta que se dá com maior segurança. Se é um evento de uma causa indeterminada, se existe alguma instabilidade do ponto de vista hemodinâmico ou clínico, isso pode justificar algum tipo de vigilância acrescida e significar um internamento curto”.

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