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(A) :: Carga policial, adepto espanhol expulso, "truque" de Mourinho, outra dança de Vinícius Jr.: o outro lado do Real-Benfica depois da polémica

Carga policial, adepto espanhol expulso, "truque" de Mourinho, outra dança de Vinícius Jr.: o outro lado do Real-Benfica depois da polémica

Antecâmara do Real-Benfica ficou marcada por carga policial a benfiquistas, tarja anti-racismo, expulsão de adepto espanhol por saudação nazi e uma "finta" de Mourinho até Vinícius voltar a resolver.

Bruno Roseiro
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Uma semana depois de toda a polémica no Estádio da Luz, na primeira mão do playoff da Champions entre Benfica e Real Madrid, com Vinícius Jr. a acusar Gianluca Prestianni de um ato racista na sequência de toda a confusão gerada pelo único golo do encontro, Rui Costa, presidente dos encarnados, falou pela primeira vez sobre tudo o que se passou. “Se o Vinícius Jr. mentiu? Eu não estava dentro do campo para saber o que é que foi dito. O que posso dizer é que acredito no meu jogador. Prestianni está a ser crucificado como uma pessoa racista e isso posso garantir que não é.É evidente que Prestianni não é racista, se fosse não jogaria no Benfica. Embora seja uma situação de jogo é também uma situação humana mas isso não belisca em nada o Benfica como clube antirracismo. O Benfica nunca teria jogadores racistas no seu plantel”, destacou.

Quando fez essas declarações no aeroporto Humberto Delgado, antes da partida para a capital espanhola, a ideia que ficou é que era um assunto prestes a conhecer os últimos capítulos. Afinal, não foi. Longe disso. E as últimas 24 horas acabaram por trazer mais páginas diretas ou indiretas de todo este “folhetim”.

O dia começou com a confirmação de que Kylian Mbappé não iria mesmo a jogo por um problema no joelho, dando prolongamento ao que já tinha sido adiantado pela imprensa francesa na véspera – apesar de Álvaro Arbeloa, treinador do Real Madrid, ter assegurado na conferência de imprensa que o avançado tinha treinado bem. Se os holofotes já estariam muito centrados em Vinícius Jr., agora esse cenário adensava-se tendo em conta as muitas ausências no conjunto da capital espanhola. O brasileiro que marcou na derrota dos merengues frente ao Osasuna (em mais um jogo para a Liga espanhola em que foram entoados cânticos como “Vinícius, morre”) juntou-se a Ronaldinho como sétimo jogador brasileiro com mais golos na prova (70), ficando apenas atrás de Ronaldo Fenómeno, Rivaldo, Bebeto, Evaristo de Macedo, Willian José e Luís Fabiano. No entanto, era na Liga dos Campeões que tudo se centrava depois de novo desaire no Campeonato.

Já Prestianni, que viajou com a equipa para Madrid, foi assobiado e ouviu insultos na chegada ao hotel já na capital espanhola e esteve no habitual treino de adaptação no Santiago Bernabéu, ficou a saber ao início da tarde que estava mesmo fora do encontro, tendo em conta o chumbo do recurso apresentado pelo Benfica após ser conhecido o castigo de um jogo de forma preventiva. “Dar um murro sem bola pode-se, vê-se e não há sanção. Castigar sem provas pode-se e vê-se. Já não escondem nem um pouco com o Real. Dão vergonha”, escreveu pouco depois o argentino na página da rede X, antes de apagar essa mesma publicação que acusava a UEFA de favorecimento aos espanhóis recordando o lance entre Fede Valverde e Samuel Dahl.

Na véspera, o The Times tinha escrito sobre o caso, dizendo que, na defesa apresentada à UEFA quando foi aberto o inquérito para se apurar o que tinha acontecido na Luz, Prestianni acusou Vinícius Jr. de estar no epicentro do início de toda a confusão, não só pela forma como festejou o único golo do encontro como pela maneira como começou a chamar “anão” ao argentino. De acordo com a publicação, essa será a defesa do médio ofensivo: primeiro foi insultado pelo brasileiro, que lhe chamou “anão”, depois chamou “maricón” (“maricas”) e não “mono” (macaco), num insulto de cariz homofóbico e não racista. A mesma defesa irá também reforçar a ideia de que condena qualquer tipo de ação, ato ou insulto racista.

O dia ficou também marcado pelas declarações de Lukebakio reproduzidas pela Pickx+ Sports da Bélgica, com o ala a admitir que não sabe ao certo o que Prestianni disse mas a assumir que não aceita qualquer tipo de ato racista. “Falei muito sobre isso no passado com outras pessoas, perguntando-me como reagiria se alguma vez me acontecesse a mim, porque habitualmente vivemos isso de longe. É verdade que as pessoas falam e especulam. Mas, no fim de contas, não sabemos o que ele disse realmente. Será que é a realidade ou terá sido exagerado para tirar proveito? Penso que também é possível que o Real tenha querido virar a situação a seu favor”, referiu. Tudo o que espero é que o que ele disse seja falso. Porque, se for verdade, não posso aceitar. Sou contra as injustiças. E qualquer injustiça tem consequências”, apontou.

Já na antecâmara do encontro, marcada pelos confrontos entre polícia e alguns adeptos encarnados na caixa de segurança a caminho do Bernabéu onde estavam também crianças (uma delas admitiu em lágrimas que sentira “muito medo” perante tudo o que se passara), ficou a saber-se que José Mourinho seguiu para o estádio com a restante comitiva do Benfica mas que Prestianni acabou por não ser visto, com essa ideia de que não estaria no estádio para assistir ao jogo da segunda mão do playoff. Houve também um episódio que rapidamente se tornou viral, com um adepto com um cachecol dos encarnados a tirar uma fotografia no Museu do Real ao pé de uma imagem de Vinícius Jr. com um cacho de bananas, num ato que foi rapidamente condenado por adeptos benfiquistas assim que começou a correr pelas redes sociais.

https://twitter.com/elchiringuitotv/status/2026723272490963043

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Apesar da desvantagem de um golo trazida da primeira mão em Lisboa, era notória a confiança nos quase 5.000 adeptos encarnados numa reviravolta – e isso também se sentia nos próprios adeptos da casa, que se mantêm “desconfiados” com aquilo que o Real Madrid é capaz de fazer tantos têm sido os altos e baixos ao longo da temporada. No entanto, havia uma figura que tinha sido tudo menos esquecida: enquanto cerca de 30 jornalistas estavam concentrados junto à entrada 8 por onde deveria passar José Mourinho para ocupar um lugar perto da tribuna de imprensa para assistir à partida, os adeptos brindaram o número 7 merengue com o cântico “Oh Vinícius, vai para o car****” logo na entrada para período de aquecimento.

Essa animosidade foi ainda mais clara durante a primeira meia hora de jogo, com muitos assobios sempre que o brasileiro tocava na bola aberto no lado esquerdo do ataque dos espanhóis. Se existia essa curiosidade em torno do regresso (possível) de Mourinho ao Santiago Bernabéu 4.652 dias depois da última noite em que orientou o Real em casa, as “feridas” da primeira mão não tinham sido esquecidas entre o apoio que muitas vezes silenciou a massa adepta do conjunto de Madrid. De um lado e de outro: antes do apito inicial, foi mostrada uma enorme tarja de apoio ao brasileiro pelo clube da casa com a frase “Não ao racismo”, acompanhada pela tarja de “Respect” que é pedido em todos os encontros pela UEFA e pela FIFA.

https://twitter.com/centregoals/status/2026749277960286388

Só mesmo ao intervalo se percebeu ao certo onde estaria José Mourinho, que fintou tudo e todos ao reservar a posição número 6 das cabines de rádio mas a ficar mesmo no autocarro do Benfica, como foi avançado pelo jornal Record. Foi também no período de descanso que os canais televisivos espanhóis foram recuperar imagens dos minutos que antecederam o início da partida e detetaram um elemento do Real Madrid que estava colocado atrás da baliza (onde costuma ficar a claque) a fazer a saudação nazi. De referir que, há mais de uma década, Florentino Pérez e o clube entraram em rota de colisão com os Ultras Sur exatamente pela presença de elementos de extrema direita no grupo organizado de adeptos dos merengues. Mais tarde, a EFE avançou com a informação de que a segurança privada tinha identificado e expulsado o adepto.

https://twitter.com/JaimeHerrero19/status/2026763613051015370

https://twitter.com/GuillemBalague/status/2026772566656913657

https://twitter.com/ultras_antifaa/status/2026754746019610630

Após um arranque eletrizante de primeira parte com dois golos e com o Benfica a ter a eliminatória empatada com o 1-0 de Rafa Silva, o segundo tempo teve mais quebras, mais paragens e mais domínio territorial dos encarnados, que foram montando o cerco em busca do 2-1 que levaria as decisões para o prolongamento. No entanto, bastou um erro para esse sonho ruir: Vinícius Jr. foi lançado na profundidade em velocidade após uma segunda bola ganha pelo meio-campo do Real Madrid, enquadrou-se para o remate em jeito de pé direito e atirou rasteiro para o 2-1 que praticamente fechou as contas. Apesar de nunca ter deixado de ser o foco por variadas razões, o brasileiro acabou a assumir-se como o protagonista da vitória merengue, fazendo a melhor série de encontros consecutivos a marcar de toda a carreira (cinco partidas seguidas) e correndo para a bandeirola de canto onde voltou a festejar com uma dança como tinha acontecido na Luz.

https://twitter.com/CuriosidadesEU/status/2026778156695204291

https://twitter.com/FromTheStand11/status/2026777492959133989

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