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Os sucessivos problemas que têm atrasado o regresso do Homem à Lua: o que se passa com a missão Artemis II?

Problema no fluxo de hélio detetado durante ensaios forçou retirada do Space Launch System da plataforma de lançamento. Descolagem prevista para fevereiro passou para março e agora aponta para abril.

Martim Andrade
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À primeira não deu. E à segunda também não. O lançamento da missão Artemis II, inicialmente prevista para o início do mês de fevereiro, passou para março e, esta semana, o administrador da NASA confirmou que teriam de olhar agora para abril, depois de ter sido detetada uma falha no Space Launch System — o rocket que vai enviar quatro astronautas para a primeira missão lunar tripulada em mais de 50 anos.

O mesmo problema havia sido registado também na primeira edição desta missão. O lançamento da Artemis I, como recordou o responsável pela agência espacial norte-americana, Jared Isaacman, na rede social X no passado domingo, chegou a ser adiado múltiplas vezes por “interrupções do fluxo de hélio na fase intermédia de propulsão criogénica”. Ou seja, o combustível que em condições ideais faria o foguetão levantar voo não estava a chegar aos locais necessários.

https://twitter.com/NASAAdmin/status/2025249086908125630

Isto foi em 2022, mas em 2026, naquele mesmo sistema que havia sofrido fortes atualizações para garantir a segurança de Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen na sua volta à Lua, a passagem do hélio voltou a ser um problema. “Estas garrafas de hélio são utilizadas para purgar os motores e pressurizar os tanques”, explicou Isaacman, referindo que durante os dois ensaios anteriores — quando, por sua vez, foram detetados outros problemas ligados ao fluxo de hélio para os motores —, os sistemas de propulsão “funcionaram corretamente”.

Nas redes sociais, Jared Isaacman apontou várias possibilidades de diagnóstico para o problema que tornou a obrigar a um adiamento, mas, no fim da longa publicação, admite que na rampa de lançamento não há forma de resolver ou sequer identificar com precisão o que correu mal na reta final da preparação para a missão e que, por esse motivo, o SLS teria de ser removido do local onde deveria ser lançado em direção à Lua nos próximos dias. O temido rollback.

Quando um foguetão chega à plataforma de lançamento, espera-se que a saída seja apenas na vertical, numa rota ascendente até ao destino definido no início da missão. A palavra “rollback” é sempre acompanhada de um sentimento de “desilusão”, como partilhou o administrador da NASA. O processo demora cerca de 12 horas, uma vez que o SLS tem de ser retirado da launch pad e atravessar cerca de seis quilómetros até ao complexo de montagem de onde, dias antes, tinha saído na direção oposta. Esta segunda-feira, a agência norte-americana confirmou que o “rollback” estava marcado para quarta-feira, dia 25 de fevereiro, principalmente motivado pelo mau tempo.

Terminada a viagem dentro do Kennedy Space Center, o administrador e a equipa que tem trabalhado na missão desde que foi anunciada há quase uma década ficam novamente à mercê das suas capacidades para determinar a nova janela de lançamento. O cenário mais favorável, neste momento, aponta para o início de abril, depois de terem reservado o mês de março para as operações de manutenção do veículo e a resolução dos problemas ainda por identificar.

Resta saber se o problema fica resolvido a tempo, uma vez que antes do primeiro wet dress rehearsal, uma espécie de “ensaio geral” para verificar se está tudo conforme esperado em termos operacionais, a NASA tinha colocado abril como “data limite” para o lançamento da missão Artemis II. “Lançamento até abril de 2026”, dizia o site da agência especial no separador totalmente dedicado ao programa. Agora, esta mesma página diz apenas “lançamento em análise”.

Os ensaios gerais e a confiança que durou pouco tempo. A montanha-russa de emoções de fevereiro para o programa Artemis

Nesta segunda missão do programa Artemis, a NASA vai enviar quatro astronautas para a Lua pela primeira vez desde 1972. Não será nesta ocasião que a Humanidade vai voltar a pisar solo lunar e replicar os passos de Neil Armstrong e Buzz Aldrin — essa só deverá chegar em 2028, na missão Artemis IV. O objetivo desta missão será testar todo o equipamento, como os sistemas de lançamento e a cápsula onde seguem os astronautas, numa volta ao satélite natural da Terra.

O voo terá uma duração de 10 dias, nos quais a tripulação irá passar entre a uma distância entre 6 mil e 9 mil km da Lua — mais longe que a passagem da missão não tripulada da Artemis I, mas o mais perto que os humanos estiveram em mais de 50 anos. “A esta distância, a Lua parecerá ter aproximadamente o tamanho de uma bola de basquetebol segurada à distância de um braço”, descreve a NASA na página oficial do programa.

Os três astronautas da NASA e o representante único da Agência Espacial Canadiana a bordo vão passar pelo lado oculto da Lua onde, durante perto de uma hora, vão perder todas as comunicações com as equipas na Terra. A maior aproximação será neste período. Enquanto os restantes nove dias serão fulcrais para avaliar a qualidade dos sistemas da cápsula Orion — a “casa” dos astronautas que foi desenvolvida em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA) —, estes minutos serão os únicos em que será possível fotografar e captar vídeos da metade lunar não visível da Terra, com o objetivo de partilhar estas observações com a equipa terrestre quando for superada a interrupção de comunicações.

Mas para chegarem até este ponto, precisam de sair do estado da Flórida. O rocket SLS esteve na plataforma de lançamento durante praticamente todo o mês de fevereiro, a aguardar a luz verde para poder descolar. Não existe um timing oficial para os ensaios gerais, mas tendem a ser poucas semanas antes da data desejada para lançar. O processo dura cerca de dois dias e serve para simular e testar todos os sistemas que conseguem analisar sem ter de levantar voo. Assim, na teoria, conseguem detetar qualquer problema que possa surgir entre o transporte do local de montagem até à rampa de lançamento.

Mas nem sempre corre conforme esperado. A Artemis I falhou três vezes no wet dress rehearsal até ser lançado em 2022. A segunda missão do programa chumbou na primeira oportunidade. Começou no primeiro dia de fevereiro e, a cinco minutos da sua conclusão prevista, o ensaio teve de ser interrompido. O problema foi uma fuga de hidrogénio líquido “na interface do mastro de serviço da cauda umbilical”. Este mastro é a peça responsável por “alimentar” o SLS com combustível e é uma das grandes componentes que vemos separar-se da base do foguetão durante a contagem decrescente de lançamento.

Não tendo sido possível arranjar uma solução até ao dia 6 de fevereiro — o último dia da janela de lançamento mensal —, apontaram para a mesma data no mês seguinte, enquanto concertavam a fuga que arruinou os planos iniciais. O momento que viria a decidir o sucesso desta operação ficou marcado para 19 de fevereiro: o segundo ensaio geral que iria determinar se seria (ou não) possível lançar ainda no início de março.

Hélio: o gás mais leve da atmosfera que prendeu a Artemis II em Terra

Foram colocados mais de dois milhões de litros de combustível e, sem qualquer problema detetado, conseguiram chegar ao fim do protocolo de lançamento com 29 segundos de sobra — exatamente como tinham planeado. Houve celebrações no Kennedy Space Center, depois de terem aparentemente ultrapassado as dificuldades que os fez repetir o ensaio geral. Mas a confiança durou pouco tempo.

“Os sistemas funcionaram durante o wet dress rehearsal, mas as equipas não conseguiram fazer fluir o hélio adequadamente durante as operações e reconfigurações normais após o ensaio geral”, escreveu a NASA na nota publicada no página oficial do programa. Todos foram apanhados de surpresa, uma vez que o fluxo de hélio não tinha sido um problema no primeiro ensaio e que, durante todas as operações até aquele dia, não havia sinais que apontassem para tal desafio.

Assim, a falha permanece uma incógnita uma semana depois de ter sido descoberta. “As equipas continuam a rever potenciais causas do problema“, acrescentam no comunicado. Se foi um bloqueio no filtro ou ou uma anomalia na alimentação, ninguém sabe ainda, mas o problema existe e precisa mesmo de ser resolvido se quiserem ver o SLS a voar.

O hélio é utilizado a nível do módulo superior do foguetão, com o objetivo de garantir que o motor não contém qualquer impureza (ar ou humidade), de modo a “salvar a tripulação” de uma explosão ou paragem súbita do propulsor.  O hélio, que é o gás mais leve na nossa atmosfera, é também utilizado no setor aeroespacial para pressurizar o hidrogénio e o oxigénio líquido — cuja mistura é utilizada como combustível destes rockets — sendo um de vários garantes da segurança a bordo destas aeronaves.

Sem um diagnóstico confirmado, continuam os esforços de resolução do problema entre os engenheiros da agência espacial norte-americana. Como o fluxo de hélio já tinha dado problemas nos ensaios gerais da Artemis I, as equipas estão a olhar para as soluções encontradas em 2022, na esperança de se tratar de um problema semelhante.

NASA exclui lançamento em março. Agora, quando é que o foguetão pode levantar voo?

Com o Space Launch System (SLS) oficialmente fora da plataforma de lançamento, começa a corrida contrarrelógio. A primeira oportunidade para colocar a missão Artemis II em andamento foi no dia 6 de fevereiro — que foi logo afastada após os problemas detetados durante o primeiro ensaio geral poucos dias antes. Dependendo das condições meteorológicas e da severidade da falha, não era obrigatório que o mês de fevereiro fosse instantaneamente cancelado após o mau resultado inicial.

Para além do sexto dia do mês, os dias 7, 8, 10 e 11 também seriam uma possibilidade. Existem três critérios essenciais para definir a janela de lançamento — explicando a exclusão do dia 9 de fevereiro do bloco marcado pela NASA. No total, antes do início da missão, existiam 11 datas possíveis para lançar o SLS num período de 61 dias.

O dia e hora de lançamento — neste caso noite, uma vez que a grande maioria das datas assinaladas apontam para uma descolagem minutos após o pôr do sol — é escolhido com base no alinhamento entre a Terra e a Lua, bem como a possibilidade de chegar a um ponto específico em órbita terrestre alta, onde será feita uma avaliação dos sistemas de suporte de vida da cápsula Orion, para garantir que estão reunidas as condições técnicas para levar a tripulação em torno da Lua.

A questão do alinhamento é essencial para ter a certeza que a cápsula segue a trajetória correta tanto na chegada à Lua, como no regresso. As contas são feitas a apontar para a fase de injeção trans-lunar, a última ignição do motor da Orion e que catapulta os quatro astronautas no rumo que precisam de seguir, assegurando que o percurso de regresso à Terra, cerca de uma semana depois, é feito com assistência da gravidade lunar, não sendo necessário ativar novamente a força motora da cápsula.

Para além deste fator, é preciso assegurar que no percurso, a cápsula Orion não fica mais de 90 minutos seguidos em escuridão. O veículo que será a casa dos quatro astronautas ao longo dos 10 dias de missão está equipado com “asas solares” que conseguem absorver e converter energia solar em eletricidade. Adicionalmente, e o último dos três requisitos elencados pela NASA, a data de lançamento tem de garantir que o regresso tem de seguir um “perfil de entrada adequado”. A agência norte-americana quer que a cápsula volta à Terra durante o dia — por razões de visibilidade e segurança — e que aterre no local inicialmente definido.

Com todos estes critérios, sobra cerca de uma semana por mês, que é seguida de três semanas onde não é possível realizar a missão em conformidade com o planeado. A razão pela qual o dia 9 foi excluído da janela de fevereiro e, no mês seguinte, o dia 10, é porque só se devem fazer, no máximo, quatro tentativas de lançamento no espaço de uma semana — dando um dia de quebra para salvaguardar qualquer limitação meteorológica ou espontânea que possa surgir.

Desta forma, uma vez que a NASA já tirou os olhos de março para lançar a SLS, a Orion e os quatro astronautas, só sobra abril nos planos atuais. Se em fevereiro e março havia apenas cinco dias possíveis para avançar com o lançamento, em abril o cenário já é mais favorável. No calendário da NASA estão marcados os dia 1, 3, 4, 5 e 6, mas também o dia 30 de abril, que foi adicionado posteriormente. Estas datas são definidas com cerca de dois meses de antecedência, pelo que se for necessário estender a janela para maio ou junho — o que será possível dependendo da severidade do problema do foguetão —, o anúncio deverá ser feito no decorrer do mês de março e, seguindo as regras atualmente em vigor, sobrará outra dezena de dias para conseguir levar esta missão histórica avante.