As páginas do diário escrito por Mariana Ribeiro há quatro anos mostravam um cenário bastante diferente daquele que apresentou diante do público na quarta-feira, 24 de fevereiro. O podcast Observador mais popular entre os jovens, Amiga, faz Parte, teve direito a sessão ao vivo no Teatro Maria Matos, em Lisboa, e provou que os altos e baixos do caminho são parte do processo de crescimento. As dúvidas e a incerteza presentes nas páginas, que a anfitriã e influencer leu em voz alta, à frente de uma sala cheia — quase só por mulheres — não desapareceram, mas a Mariana de hoje está muito mais feliz: é com um sorriso de orelha a orelha que, ao lado das amigas, enfrenta esta grande aventura que é ter 20 anos. “Mudar, experimentar, testar, cair, errar, está tudo certo — tudo faz parte.”
O estúdio do podcast (com vídeo) instalado no palco do Maria Matos é, em tudo, familiar. O telefone de disco azul, que é a imagem de marca do Amiga, Faz Parte, numa mesinha alta, atrás de um sofá branco ladeado por uma poltrona da mesma cor; e os habituais bibelôs — plantas em vasos de cerâmica, almofadas coloridas e canecas — tudo repousa imerso na luz de três candeeiros e numa palete de cores brancas, azuis e amarelas. A única novidade do cenário, que envolve os três quadros suspensos no ar, são as nuvens sob um fundo azulado. Mas que não se pense que Mariana tem a cabeça no ar — é responsável, com prioridades bem definidas, mas, para ela, o céu é o limite.
“Meu Deus, está mesmo giro!”, admite a anfitriã do espectáculo, iniciativa do Observador e da produtora Kilt. O vislumbre do cenário é evidência da realidade que tentou afastar durante os últimos meses: vai mesmo atuar diante de uma audiência de 450 pessoas no Teatro Maria Matos. “Passei o último mês a pensar ‘porque é que me meti nisto? Eu não preciso disto, eu não quero!’”, dizia-nos antes do espectáculo.
Um grande desafio para a criadora de conteúdos digitais e podcaster, com 107 mil seguidores no Instagram, habituada à privacidade do estúdio, ao alcance do microfone e ao enquadramento fechado da câmara de filmar, o espectáculo ao vivo não é o primeiro encontro pessoal que tem com o público, com quem construiu uma verdadeira “comunidade”. “Já organizei alguns eventos, fiz aulas de yoga e journaling [escrita de diário], em que juntava pessoas, e foi sempre muito giro. Senti sempre muita vontade da parte dos meus seguidores em fazer coisas presenciais.” Apesar disso, admite a timidez — sempre foi a mais reservada da sala —, mas não deixa que isso a impeça de fazer coisas: “Sei que quando acabar a noite vou ficar: ‘é por isto’, e eu adoro essa sensação.”
Por volta das 17h, chegam as amigas, parte essencial do Amiga, Faz Parte, estreado em setembro de 2024 e um dos mais populares dos podcasts Observador. Já são caras conhecidas dos fãs de Mariana Ribeiro, pelos convites frequentes para o programa a fim de discutir o que significa ter 20 anos no mundo atual, onde as redes sociais exacerbam a comparação de estilos de vida e tipos de corpo, e a ansiedade atinge valores recorde, afirmando-se como a patologia dominante entre os mais jovens.
Glória Dias, que começou a fazer vídeos de beleza e lifestyle para o YouTube em 2013, sob o pseudónimo Rapariga dos Saltos, e que atualmente tem 140 mil seguidores no Instagram, entrega um ramo de flores à estrela do dia. Vem acompanhada de Mariana Azevedo e Inês Prata, também convidadas do espectáculo e naturais do Porto, como a anfitriã — ainda que se tenham conhecido em Lisboa, onde Mariana Ribeiro viveu até ao fim de 2025.

“Tímida, a Mariana? Não sinto nada, ela é a primeira pessoa a experimentar coisas novas. Se é tímida não o demonstra, pelo menos está sempre a colocar-se em situações desconfortáveis”, admite Glória, que não esconde o nervosismo. Consolidou a relação com Mariana Ribeiro numa viagem que fizeram juntas a Bali, na Indonésia, numa altura em que ambas estavam particularmente “perdidas” e sem rumo na vida, segundo admitiram no episódio conjunto de Amiga, Faz Parte. Como a viagem, também o espectáculo ao vivo “vai ser muito à volta de nos sentimos perdidos, durante os 20, e de como isso é normal”, assegura Mariana. “Não estamos confusos, faz parte do caminho, e quero que as pessoas saiam do teatro a sentir-se mais leves, que está tudo bem.”
O medo do palco que afeta as convidadas, também elas pouco habituadas a relações com o público que não as mediadas por um ecrã, resolve-se com o “está tudo bem, é mais conteúdo, amiga” de Mariana Azevedo, “uma fala-barato com sotaque do norte a correr atrás do sonho”, segundo consta na biografia do seu Instagram, onde soma 165 mil seguidores.
“Espectáculos como este são importantes para desmistificar os preconceitos que ainda existem em torno da palavra influencer. Para muitas pessoas, somos sempre ocas e menos inteligentes”, admite a caminho dos camarins, onde, entre o fru-fru dos dos saltos altos, das calças, dos blazers, dos pincéis, esponjas, pós e pranchas de cabelo, se ouvem conversas “de mulheres para mulheres” que logo serão reproduzidas no palco — oscilando entre as banalidades do dia a dia e intimidade feminina. “Neste espectáculo ao vivo, não faria sentido ter homens em palco” admite Mariana Ribeiro, cujo público-alvo é essencialmente constituído por mulheres jovens. “Mas sinto que cada vez tenho mais homens a assistir. O feedback deles não é tão público, mas já me mandam mensagens, abrem-se sobre ansiedade e distúrbios alimentares, que sempre pensei ser um tema mais relevante para as mulheres.”
A prevalência de público feminino é evidente quando o Teatro Maria Matos abre portas. A multidão de jovens mulheres é, aqui e ali, pontuada por um sujeito masculino, quase sempre arrastado pela namorada, como é o caso de Gonçalo Pereira. Admite que o conteúdo de Mariana Ribeiro “não lhe é totalmente desconhecido”, mas que está ali por influência de quem o acompanha, Sara Mendonça. Ela confessa estar curiosa em relação às convidadas. Já Gonçalo não tem expetativas, pelo que antecipa ser surpreendido pela positiva.

A maioria das espectadoras vem rodeada pelas amigas, como Neusa Figueiredo e Mariana Simões, que acompanham o podcast de Mariana porque “aborda assuntos importantes e que devem ser falados, como a saúde mental, a prática de desporto e até a política — por exemplo, quando fala sobre a importância do voto”. “Como é uma pessoa da nossa geração, é mais fácil perceber a opinião dela”, admite Neusa.
Mas o Amiga, Faz Parte convida também quem não tem companhia para assistir a sessão ao vivo, como Sofia Oliveira, fã de Mariana desde o primeiro podcast Amiga, Dás Casa?, ou Carla Silva. “Uma das coisas que me atrai no trabalho da Mariana é o facto de ambas sermos do Porto”, revela Carla. Para a fã de 27 anos, é impossível sentir-se de parte ou sozinha na sala de teatro esgotada: “Isto é uma comunidade muito feminina e todas temos o mesmo estilo.”

Formada em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Mariana Ribeiro começou a produzir conteúdo para o YouTube quando estudou em Budapeste, capital da Hungria — onde fez Erasmus. Se a alegada timidez impunha um obstáculo à capacidade de se fazer ouvir e expor opiniões, foi na privacidade do próprio quarto e de frente para uma câmara que encontrou voz. Na altura, não existiam muitos testemunhos online de estudantes portugueses no estrangeiro, pelo que — como boa economista — encontrou um nicho de mercado por satisfazer. Daí, seguiu-se o mestrado em Marketing em Barcelona, cidade onde também trabalhou durante um ano, sempre sob o olhar curioso da objetiva e o ouvido atento de um número cada vez maior de subscritores.
Foi em Lisboa que depois se estabeleceu, com o objetivo de criar conteúdos online como trabalho principal, num desvio claro em relação a uma “rota expectável”. Mariana nunca se conformou, diz procurar a felicidade acima de tudo, mas não sem sacrifício — não lhe falta ambição e adotou a máxima “tenho de ser perfeita em tudo”, que lhe permitiu concluir o ensino obrigatório com distinção, ao mesmo tempo que participava na equipa nacional de ginástica acrobática.
Ainda assim, foi assaltada por pensamentos destrutivos, pois duvidava de si mesma e não gostava de se ver ao espelho — apesar de ter companhia ininterrupta em casa, nunca se sentira mais sozinha. Testemunho disso são as páginas escritas há quatro anos num diário, confidente predileto de Mariana, que partilhou no palco diante das centenas de pessoas que, de algum modo, se identificaram com as ansiedades manifestadas no primeiro podcast, Amiga, Dás Casa? (ativo entre junho de 2023 e junho de 2024) e no atual, Amiga, Faz Parte.
Além das convidadas surpresa — cuja identidade só foi revelada em palco — o público de Amiga, Faz Parte ao Vivo recebeu um segundo presente. “Uma das grandes ferramentas que utilizo para o meu bem-estar é a escrita”, reconhece Mariana, que decidiu ofereceu cadernos com a inscrição “Shut up, I’m journaling” (Cala-te, estou a escrever o meu diário) a todos os espectadores no fim da sessão. “Esta ferramenta ajudou-me, assim como falar em voz alta. Manter as coisas na nossa cabeça tem um peso muito maior do que trazermo-las cá para fora e falarmos sobre elas.”
Para lá da escrita, a influencer também faz uma apologia de outras formas de mindfullness — atividades meditativas, que permitem focar no momento presente e afastar ansiedades que desestabilizam o bem-estar. Na sua plataforma online, é muito vocal sobre a importância de praticar desporto, a fim de preservar a mente e corpo, mas sempre numa ótica de equilíbrio. Já revelou publicamente ter uma relação atribulada com comida, e lida com isso sem extremismos. Quando é tomada por pensamentos negativos, já sabe quem procurar: são as amigas que lhe dão colo e confiança. Para Mariana, “Amiga, Faz Parte é um podcast feminista” e um manifesto a favor do companheirismo entre mulheres.
A vulnerabilidade e a experiência partilhada são os principais atrativos da jovem que, numa era de ostentação desbragada de vidas perfeitas nas redes, simplesmente admite não ter respostas. Em palco ouve-se a expressão “toda a rosa tem espinhos e sementes”, metáfora utilizada ao lado de Inês Prata e da psicóloga clínica com presença digital, Joana Gentil, e ponto de partida para uma análise, com um viés mais científico, das preocupações demonstradas por três seguidoras. Joana Gentil é adepta da manifestação — no entendimento mais espiritual da palavra — e das afirmações positivas, como forma de lidar com pensamentos, que, reforça, “não são factos” e podem mudar.

Com monólogos da anfitriã pelo meio, sucederam-se os segmentos de conversa com as convidadas, sempre intimistas e com uma grande dose de empatia. Beatriz Vieira encantou os espectadores com o retrato que fez da maternidade e da gestão da ansiedade numa fase tão sensível e transformadora. Despediu-se com o bebé ao colo — que, com apenas um mês, já tem uma legião de fãs nos quase 200 mil seguidores da mãe no Instagram — e com um “Ooooh” babado do público.
Com Mariana Azevedo e Glória Dias, Mariana Ribeiro protagonizou um momento verdadeiramente interativo, no qual o público pôde opinar sobre “a crise dos 20”, através de uma ligação online com a qual interagiram em direto. A palavra de ordem é “desmistificar” os problemas de uma década turbulenta na vida das jovens, e sublinhar aquilo que as une, mais do que as suas diferenças. Afinal, os desafios mais avassaladores que enfrentam são os mesmos.