(c) 2023 am|dev

(A) :: Purgas .Xi Jinping dizimou cúpula militar chinesa com 101 oficiais afastados desde 2022

Purgas .Xi Jinping dizimou cúpula militar chinesa com 101 oficiais afastados desde 2022

Demissões, expulsões do PCC, acusações de corrupção e desaparecimentos. Investigação revela como as purgas de Xi Jinping nas forças armadas chinesas são mais profundas do que se poderia pensar.

Manuel Carvalho
text

Ministros, generais e tenentes-generais, almirantes e responsáveis de departamentos políticos do Exército de Libertação Popular da China, entre outros. São mais de cem os oficiais no poder militar do Partido Comunista Chinês (PCC), com diversas funções e cargos, que terão sido afastados pelo líder chinês desde 2022, revela o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS na sigla em inglês, de Center for StrategicandInternationalStudies).

Nem todos foram removidos da mesma maneira, concluiu a investigação do think thank sediado em Washington que aponta para uma “purga mais profunda” do que se poderia pensar. Este é aliás o título do estudo realizado no âmbito do projeto ChinaPower, que analisa a evolução do poder do gigante asiático, divulgado esta terça-feira. O Presidente chinês terá recorrido a demissões, expulsões do partido, investigações por alegadas violações disciplinares e corrupção e desaparecimentos. Alguns, 11, foram alvo destas ações de Xi Jinping já depois de reformados, revela o CSIS.

https://observador.pt/especiais/corrupcao-a-desconfianca-do-imperador-xi-e-a-luta-entre-gangues-a-purga-nas-forcas-armadas-chinesas/

“Desde que chegou ao poder em 2012, Xi Jinping tem repetidamente expurgado altos líderes militares para erradicar a corrupção e para remover obstáculos políticos”, lê-se no estudo. Nos seus primeiros cinco anos, Xi retirou dos seus cargos quatro altos dirigentes da poderosa Comissão Militar Central da China (CMCC), órgão que supervisiona e controla o Exército de Libertação Popular (ELP), o braço militar do PCC e que atua como a principal força militar chinesa. Foram eles os ex-vice-presidentes, Guo Boxiong e Xu Caihou, bem como dois membros em exercício, Fang Fenghui e Zhang Yang, refere o relatório do centro norte-americano.

A purga tinha apenas começado. Por volta de 2023 — quando o CSIS situa o afastamento e possível morte de Wu Guohua, ex-tenente-general, vice-comandante da Força de Rockets —, “Xi Jinping iniciou uma segunda grande ronda”, desta vez mais abrangente, revela a investigação. Nesse ano foram afastados ou desapareceram 14 oficiais de topo. Já em 2024, o número foi de 11 e no ano passado saltou para 62.

Na última vaga de purgas figuram seis membros da CMCC: os ex-ministros da Defesa Wei Fenghe e Li Shangfu, o vice-presidente He Weidong, o diretor do Departamento de Trabalho Político Miao Hua — todos expulsos do PCC —, o chefe do Estado-Maior Conjunto (principal órgão do comando operacional) Liu Zhenli e o vice-presidente sénior, o número dois de Xi, Zhang Youxia, ambos dispensados este ano. Este último, o respeitado general Youxia, considerado um dos pilares do ELP e antigo membro permanente do Politburo, aliado de longa data do Presidente chinês, foi o mais poderoso a cair.

A queda destes quadros dizimou o alto comando do Exército Popular de Libertação,  deixando apenas um general em exercício na CMCC, Zhang Shengmin, promovido a vice-presidente no final de 2025 — ano em que o CSIS, no esquema interativo do estudo, assinala a morte de Wang Zhen, vice-Almirante da Marinha depois de “potencialmente afastado”.

“Embora as purgas da CMCC tenham sido mais mediáticas, isso representa apenas a ponta do iceberg”, alerta o relatório. De acordo com dados do centro, 36 generais e tenentes-generais foram oficialmente afastados desde 2022, sendo que “outros 65 oficiais estão desaparecidos ou potencialmente afastados”. Os números decorrem de uma avaliação feita com base na ausência destas figuras em reuniões importantes nas quais deveriam marcar presença. O CSIS chega assim a um total de 101 pessoas “afastadas ou potencialmente expurgadas”.

As informações sobre uma campanha de purgas em curso surgiram em 2023, “quando o ministro da Defesa, Li Shangfu, foi destituído” e surgiram rumores de que o seu antecessor, Wei Fenghe, “também estava sob investigação”, recorda o CSIS. Em 2023 e 2024, 19 altos quadros foram oficialmente afastados sob a alegação de corrupção. Mas, continua o estudo há suspeitas de “que outros fatores também contribuíram, incluindo questões de lealdade e desempenho, com líderes do EPL a cultivar as suas próprias redes e bases de poder”, desencadeando lutas internas no exército.

O processo intensificou-se significativamente em 2025, quando 15 generais foram oficialmente afastados, nove expulsos do PCC e seis destituídos dos seus cargos. A investigação sustenta que pelo menos 46 generais desapareceram em 2025, com base na sua ausência em eventos importantes. “Por exemplo, no quarto plenário do PCC, em outubro de 2025, 14 generais e cinco tenentes-generais estavam visivelmente ausentes, além de membros que já haviam sido oficialmente expulsos”, lê-se no relatório.

“Tendo desmantelado a liderança do EPL, Xi Jinping terá agora de se dedicar à reconstrução do alto comando militar”, consideram os investigadores do CSIS. Um processo que “poderá levar anos” e que pode ter consequências na prontidão do exército chinês para algumas frentes militares chinesas como Taiwan, território que Pequim reivindica como seu.

“A curto prazo, dadas as significativas vagas existentes, seria incrivelmente difícil para a China lançar grandes campanhas militares contra Taiwan”, escreveu Bonny Lin, diretora do ChinaPower Project do centro, numa avaliação das conclusões do estudo. Aliás “há indícios de que as purgas tiveram um impacto negativo sobre os exercícios da China em torno de Taiwan em 2025”, considera a académica, reforçando uma ideia presente nos resultados da investigação.