É como os Óscares. Se na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas o júri vota dentro da sua própria categoria — os editores indicam os editores e os atores indicam os candidatos para as categorias de atuação, por exemplo —, aqui são os chefs quem recomenda e vota nos lugares que realmente frequentam. Falamos do By Chefs, a mais recente plataforma de ranking internacional de restaurantes que tem como objetivo dar a conhecer a variedade gastronómica das cidades do mundo, desde a tasca até ao fine dining.
O projeto começou em janeiro de 2026 no Dubai para seguir depois para o resto do mundo, com o Porto a ser a segunda cidade a receber o By Chefs, seguida de Lisboa. Foi esta semana que o guia internacional deu a conhecer os espaços favoritos dos chefs nacionais, distinguindo 198 na Invicta e 200 na capital, distribuídos pelas categorias Pequeno-almoço, Jantar, Street food e Bebidas. “Eu sou um grande fã de Portugal. Sou um grande fã dos restaurantes de Lisboa, especialmente do chef José Avillez. Ele é meu amigo”, começou por explicar o fundador do By Chefs, Alexander Sysoev, em conversa com o Observador, justificando a decisão de trazer tão rapidamente o By Chefs para o sudoeste da Europa. “Fico feliz que Portugal seja o primeiro país depois do Dubai, onde começámos. Eu gosto do vosso estilo de vida”, afirmou, acrescentando: “Como é o meu projeto eu decido para onde vamos, para onde temos de ir. Por isso, acho que Portugal deve estar na lista dos nossos chefs.”
Natural da Rússia, Alexander Sysoev apresenta-se como um foodie e um empresário gastronómico responsável também pelo guia internacional de restaurantes Great List, que atua no Dubai, Doha, Xangai, Hong Kong e Banguecoque. “Invisto em alguns restaurantes e apoio jovens talentos. Criei uma bolsa de estudos para estudantes talentosos no Dubai, na Faculdade de Turismo do Dubai” explica, acrescentando ainda que gosta de “explorar o cenário gastronómico das cidades”. “Sou apaixonado por esta indústria”. Foi por isso que decidiu dar assim vida a esta plataforma global de recomendações baseada exclusivamente nas opiniões pessoais de chefs sobre locais de referência, propondo assim uma alternativa transparente e prática aos guias tradicionais, substituindo inspetores anónimos e comités fechados pelas escolhas reais dos profissionais da cozinha.
Depois de saber junto dos insiders de Lisboa e do Porto quem eram os chef nacionais a quem devia pedir as recomendações gastronómicas, Alexander Sysoev reuniu 32 e 29 chefs em cada uma das cidades, respetivamente, contando com um juri de personalidades como José Avillez, João Rodrigues, Rui Paula, Vítor Matos, Marlene Vieira e Vasco Coelho Santos, por exemplo. “Estamos a convidar chefs internacionalmente conhecidos e chefs conhecidos na região. E, por exemplo, convidamos chefs que não têm nenhum prémio, mas que são verdadeiras estrelas nas suas cidades. Um estrela local ou uma estrela em ascenção. Combinamos os chefs”, explica.
No entanto, cada chef só pode sugerir restaurantes da cidade onde atuam: “Muitos chefs perguntaram-me se deviam incluir restaurantes de outros países. Não. Tu vives em Lisboa, conheces Lisboa, por isso, por favor, responde apenas sobre Lisboa”. Quanto à possibilidade de recomendarem o próprio restaurante, é possível: os Chefs podem incluir no máximo 20% de projetos próprios ou do seu grupo de restauração, e esses espaços só podem surgir nas últimas posições, correspondendo aos valores de pontuação mais baixos. Cada chef vota por isso exclusivamente na sua própria cidade, classificando os espaços do primeiro ao quinto ou do primeiro ao décimo lugar. As classificações são convertidas em pontos (10 pontos para o primeiro lugar e 1 ponto para o décimo), criando um ranking agregado por cidade, baseado na opinião coletiva dos chefs.
“Muitos chefs disseram-nos que ficaram felizes por alguém ter pedido a sua opinião, porque respeitamos todos os rankings e todos os guias, mas com certeza [o By Chefs] é mais interessante. É como os Óscares, quando editores famosos e atores votam na indústria. O mesmo mas com os chefs”, comparou, explicando ainda que acredita que este é o “primeiro ranking transparente”. “Todos os rankings escondem os votos e aqui mostramos os votos. Apenas não colocamos o ranking de cada um dos chefs porque não queremos conflitos entre eles”, explica. Assim, todos os chefs presentes no By Chefs têm um perfil público na plataforma, com uma breve biografia e as suas recomendações em todas as categorias, ou seja, podemos ver o que recomendam mas não pela ordem de preferência. “Como podemos todos ver as suas resposta, não vão sugerir algo de que não gostam. É como uma espécie de reputação”.
Quais são os restaurantes favoritos de chefs em Lisboa? Para jantar, no top 5 encontramos o Belcanto, o Prado, o Fifty Seconds, o Canalha e o Feitoria; para tomar o pequeno-almoço a lista começa pelo Do Beco seguido da Pastelaria Versailles, do Four Seasons Hotel Ritz, da Confeitaria Nacional e do Isco; no campo de street food destacam-se As Bifanas do Afonso, a Lupita, o Izakaya, o Ground Burguer e o Timeout Market; e para beber um copo estão o Imprensa, o Red Frog, o CINCO Lounge, a Toca da Raposa e o The Monarch e o Black Sheep a partilhar o quinto lugar.
Já no Porto, chefs como David Jesus, Julian Montbabut e Nuno Mendes colocaram no top 5 o Euskalduna Studio, o The Yeatman, a Casa de Chá de Boa Nova, o Pedro Lemos e a Cozinha das Flores para jantar. Nos favoritos para um belo pequeno-almoço estão a Brites, o Bicho, a Petulia, o Soma e o Época; para explorar a street food estão o Gazela, o CURB, a Casa Expresso, o Conga e a Casa Guedes; e para aquele copo de vinho ou cocktail sugeriram o Torto, o The Royal Cocktail Club, o Flor, o Prova e o Fiasco.
“Se vives na tua cidade, conheces tudo melhor. Mas, todas as grandes cidades tiveram muitas inaugurações nos últimos três, cinco, dez anos. Então, se és um cidadão comum, não conheces esse cenário. Se és um foodie, conheces. Portanto, o By Chefs é para os locais e para os turistas“, ressalvou Alexander Sysoev, acrescentando ainda que o facto de ser um guia gratuito serve para “apoiar a industria”: “Acho que também será um bom apoio para a indústria. Porque muitas pessoas gostariam de saber onde os chefs comem. Portanto, se querem ter um bom jantar, peçam a pessoas que saibam gerir um restaurante e cozinhar.”
Até ao final do mês de maio, Alexander Sysoev planeia lançar o By Chefs em 25 cidades em todo o mundo, seguidas de mais 25 até dezembro. Entre as cidades atualmente em desenvolvimento estão Cidade do Cabo, Hong Kong, Singapura, Xangai e Milão. A próxima fase do projeto está prevista já para abril com a criação de um clube que vem unir todos os chefs numa grande comunidade. “Precisamos de pelo menos 10 cidades para nos unirmos. Porque em cada cidade há de 35 a 80 chefs. Então, quando houver 10 cidades, serão aproximadamente 500 chefs”, explica, exemplificando que se um chef de Portugal for numa viagem de negócios ou de férias para outra cidade do By Chefs a plataforma coloca-o em contacto com alguns chefs daquela cidade.
Segue-se depois uma aplicação móvel para os clientes que, baseada nas listas dos chefs, vai fazer recomendações mais personalizadas através de uma ferramenta de Inteligência Artificial — “por exemplo, estou a fazer dieta e preciso de comer menos de 2000 calorias, indique-me os melhores locais para mim”. Esta será lançada no final de 2026. Quanto a 2027, para além de uma lista de restaurantes renovada, o By Chefs vai também lançar a mesa do chef: “Uma sequência de mesas de chef onde todos os chefs se reúnem. Então, todas as semanas haverá um novo chef.”
As listas dos restaurantes sugeridos pelos chefs nacionais em Lisboa e no Porto já estão disponíveis, por categoria, na página oficial do By Chefs.