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Da imigração ao Irão (e sem referências a Epstein): por que é que Trump acha que "o Estado da União é sólido"

Trump definiu economia como prioridade, mas não cedeu nas políticas de imigração e deixou várias questões sobre política externa por responder. De fora, ficaram todas as referências a Epstein.

Madalena Moreira
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A seleção nacional de hóquei no gelo, recém medalhada com um ouro olímpico. Um antigo preso político, libertado de uma prisão na Venezuela e reunido com a sobrinha. A viúva de um conhecido influencer conservador norte-americano, assassinado há menos de um ano num campus universitário. O que têm em comum estas três figuras? Todas foram convidadas de honra do Presidente Donald Trump no primeiro discurso do Estado da União do seu segundo mandato — e o mais longo da História.

E não foram as únicas. Ao longo de quase duas horas, o chefe de Estado norte-americano apresentou perante as duas câmaras do Congresso crianças que sofreram com o que identificou como políticas democratas, famílias que vão poder usufruir de novas políticas implementadas por Trump e soldados homenageados com a mais alta honra militar do país, a Medalha de Honra. Ao mesmo tempo, entre histórias e apresentações, Trump cumpriu o dever constitucional de apresentar um balanço da sua governação, ao elencar a longa lista de feitos que diz ter alcançado ao longo de pouco mais de um ano depois do regresso à Casa Branca. “Por todas estas razões, eu digo, o estado da nossa nação é sólido”, resumiu a certo ponto.

Contudo, ficou por cumprir o segundo objetivo deste momento: o traçar do caminho futuro. Trump apontou rumos que, aliás, são os mesmos desde que se propôs a regressar à Casa Branca — a descida dos preços, o fecho de portas à imigração, o desenvolvimento da economia interna e a manutenção da paz no mundo, se necessário pela força. Mas o Presidente não aprofundou estes objetivos nem apresentou passos concretos para os atingir. No final — e apesar do enorme desfile de apoiantes —, apenas 38% dos inquiridos na sondagem da CNN consideraram o Estado que fez da União como “positivo”. É o valor mais baixo medido pelo canal norte-americano neste século.

"A nossa nação está maior, melhor, mais rica e mais forte do que nunca (...) Ao fim de apenas um ano, posso dizer com dignidade e orgulho que atingimos uma transformação como nunca se tinha visto."
Donald Trump

A economia em ano de intercalares: uma “era dourada” e a confiança na política de tarifas

A grande bandeira de Donald Trump durante a sua campanha presidencial foi o custo de vida, que prometeu baixar. Porém, mais de um ano depois de ter regressado à Casa Branca, os estudos de opinião revelam que as inquietações dos norte-americanos com o estado da economia se mantêm. Mais: o tema, agora sob a capa simplificada de “affordability” (acessibilidade económica), levou os democratas a uma série de vitórias nas eleições locais e regionais de novembro do ano passado.

Desde aí, os congressistas republicanos e alguns membros da administração Trump têm olhado para o tema com preocupação e procurado recentrar as prioridades do Presidente. Em causa está a nova ida às urnas, nas eleições intercalares, em novembro deste ano. Depois de ter começado o ano com os olhos fixos na política externa, esta terça-feira à noite (madrugada de quarta-feira em Portugal) Donald Trump pareceu dar provas de ter ouvido os seus aliados e focou a maior parte da sua longa intervenção na economia.

“A nossa nação está maior, melhor, mais rica e mais forte do que nunca”, declarou logo à partida, definindo o momento atual como “a era dourada da América”. Na sua visão, a evolução fez-se, principalmente, por comparação com a administração anterior, liderada por Joe Biden. “Ao fim de apenas um ano, posso dizer com dignidade e orgulho que atingimos uma transformação como nunca se tinha visto”, saudou.

Seguiu-se depois uma longa lista de feitos na economia — que foi intercalando com pequenos comentários e a apresentação de algumas histórias na audiência. Os investimentos estrangeiros subiram, o preço da gasolina desceu, foi capaz de reverter a “pior inflação da História”, a economia cresceu, os impostos desceram, o emprego aumentou, a produção de petróleo também, os preços dos alimentos e dos medicamentos caíram e o preço da saúde e da habitação vai seguir pelo mesmo caminho.

Na verdade, a maior parte destas afirmações — como revelam os fact checks feitos pela imprensa norte-americana — são, quando não simplesmente falsas, profundamente exageradas (a inflação desceu pouco e o emprego registou pouca flutuação, por exemplo). O objetivo, tal como de costume, é estabelecer uma comparação direta com Biden e provar uma evolução positiva que, em muitos casos, existe, ainda que de forma muito mais tímida do que Trump a desenha.

A declaração ao Congresso (e ao país) aconteceu dias depois de o Supremo Tribunal dos Estados Unidos ter considerado a aplicação de tarifas retaliatórias — que o Presidente disse ter utilizado para “fazer grandes negócios” — como ilegal. Perante alguns dos juízes que votaram a favor da decisão, Trump voltou a condenar a decisão “infeliz” e garantiu que fará novos acordos. “Vão manter-se em vigor com estatutos alternativos” que, disse, “são um pouco mais complexos, mas provavelmente melhores”. “A ação do Congresso não será necessária”, assegurou, apresentando a política de tarifas como uma alternativa à imposição de impostos sobre os rendimentos. Apesar de uma longa reflexão sobre a questão das tarifas, Trump nunca especificou que “estatutos alternativos” é que vai mobilizar.

A manutenção da política de imigração que gerou protestos e gritos e uma ausência gritante

A bancada democrata começou, logo à partida, reduzida, devido às dezenas de congressistas democratas que escolheram boicotar o Estado da Nação e participar noutros eventos, em protesto. Porém, à medida que Trump foi deambulando pelos seus feitos ao longo do último ano, a bancada foi ficando cada vez mais vazia. O primeiro a abandonar a sala foi Al Green, representante democrata que já o ano passado tinha sido conduzido para fora do plenário depois de protestar. Este ano, saiu depois de erguer uma pequena tarja em que se podia ler “As pessoas negras não são macacos”, numa referência ao vídeo gerado por Inteligência Artificial, publicado por Donald Trump, em que os Obamas aparecem como macacos.

Os protestos continuaram quando Trump se debruçou sobre a sua política de imigração. Ao contrário da economia, em que Trump parece ter ajustado o discurso ao espírito dos eleitores, o mesmo não se verifica na questão da imigração — apesar de estudos de opinião recentes, depois dos incidentes e da morte de duas pessoas em Minneapolis, mostrarem que a maior parte dos norte-americanos considera que os serviços de imigração “foram longe demais”. Não só o Presidente não se pronunciou sobre os percecionados “excessos” do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), como ainda criticou a bancada democrata por se opor ao aumento de financiamento ao Departamento de Segurança Nacional, que tutela o ICE.

O momento de maior tensão aconteceu depois de o chefe de Estado ter acusado os imigrantes sem documentos nos Estados Unidos de serem responsáveis pelo aumento da fraude e da criminalidade no país, mencionando diretamente a “pilhagem” que, disse, foi levado a cabo pela comunidade somali no estado do Minnesota. “Se concordam com esta declaração, levantem-se e mostrem o vosso apoio. O primeiro dever do Governo americano é proteger os cidadãos americanos e não os imigrantes ilegais”, instou. A maior parte da bancada democrata permaneceu sentada o que motivou uma explosão por parte do Presidente: “Deviam ter vergonha”.

O grito de Trump foi recebido com gritos de Rashida Tlaib e Ilhan Omar, congressistas progressistas. “Mentiroso” e “Vocês mataram americanos”, gritou Omar, de origem somali, eleita num distrito da cidade de Minneapolis e um dos principais alvos de Trump. As duas congressistas acabaram por abandonar a sala pouco depois, não ficando até ao fim. Ainda assim, o alvo preferido de Trump na imigração foi, tal como na economia, Joe Biden. “Temos agora a fronteira mais forte e mais segura de toda a História norte-americana. Nos últimos meses, entraram zero imigrantes ilegais nos Estados Unidos”, declarou, traçando a comparação com os “milhões e milhões de estrangeiros ilegais” que entraram no país durante a administração democrata.

Nos ataques a Biden e aos democratas, Trump acusou-os ainda de terem provocado a atual situação económica do país — “Vocês causaram este problema”, afirmou — e teve ainda tempo de tocar num dos seus temas habituais e defender que foi vítima de uma eleição fraudulenta em 2020 — convicção que o levou a defender a existência de cartões de eleitor obrigatórios. “É muito simples: todos os eleitores devem ser obrigados a mostrar um cartão de eleitor; todos os eleitores devem ser obrigados a provar que têm a cidadania para poderem votar. E acabem com os desonestos votos por correspondência”, argumentou.

Debaixo de fogo quase constante, a porta de saída ou as acusações gritadas não foram a opção escolhida por todos os congressistas. Alguns mantiveram-se até ao fim, sempre sentados, de braços cruzados, em protesto. Outros fecharam mesmo os olhos, como se dormissem. E, quase todos, levavam na lapela um autocolante onde se podia ler “Publiquem os ficheiros”.

A palavra rasurada antes de “ficheiros” — e a presença de várias sobreviventes na audiência — não deixava margem para dúvidas sobre o tema. Porém, os ficheiros Epstein não estiveram nem perto de surgir no Estado da União. Ao longo de quase duas horas, Trump não fez qualquer referência aos documentos ou sequer ao Departamento de Justiça e à procuradora-geral Pam Bondi, que tinham apontado como prioridade a sua publicação.

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A menção à Ucrânia e as questões sem resposta na Venezuela e Irão: o olhar sobre política externa

“Eu resolvi oito guerras”. Foi com esta frase, muito comum nas suas intervenções, que Donald Trump deixou para trás a política interna e se focou na política externa, ao fim de quase uma hora e meia de discurso. O primeiro conflito para que olhou foi a ofensiva israelita na Faixa de Gaza, que chegou formalmente ao fim no final do ano passado, graças à mediação dos Estados Unidos. O Presidente fez questão de agradecer diretamente ao seus enviados, Jared Kuschner e Steve Witkoff, e ao secretário de Estado Marco Rubio.

“Estão, neste momento, atrás das suas ambições sinistras. Estamos em negociações, eles querem chegar a um acordo, mas ainda não ouvimos aquelas palavras secretas: ‘não vamos ter uma arma nuclear'”
Donald Trump sobre o regime iraniano

E continuou: “Estamos a trabalhar muito para acabar a nona guerra, entre a Rússia e e a Ucrânia, 25 mil soldados estão a morrer todos os meses”. Foi a única referência direta à guerra na Ucrânia, no dia em que se assinalaram quatro anos da invasão russa. Apesar da comemoração, Trump passou rapidamente ao Estado que mais ocupa a sua política externa neste momento: o Irão.

“Enquanto Presidente eu farei a paz quando puder, mas nunca hesitarei em enfrentar ameaças à América”, assegurou. “Eles já desenvolveram mísseis que podem ameaçar a Europa e as nossas bases no estrangeiro e estão a trabalhar em mísseis que, em breve, vão alcançar os Estados Unidos da América”, justificou, lembrando as 32 mil pessoas que terão sido mortas pelo regime nos protestos, segundo números de algumas organizações de defesa de Direitos Humanos.

“Estão, neste momento, atrás das suas ambições sinistras. Estamos em negociações, eles querem chegar a um acordo, mas ainda não ouvimos aquelas palavras secretas: ‘não vamos ter uma arma nuclear’”, rematou sobre o tema. Apesar de a Reuters ter avançado que Trump iria aproveitar o Estado da União para apresentar um plano de ação mais concreto para o Irão, tal não se verificou — e os objetivos de Washington para o regime de Teerão continuam tão vagos como antes.

Para além do breve olhar sobre o Irão, o Presidente dos EUA debruçou-se ainda sobre o hemisfério ocidental, a sua nova área preferencial de influência. “Estamos a restaurar a segurança e o domínio americano no hemisfério ocidental”, declarou. Foi neste sentido que colheu os louro da morte de El Mencho, o líder de um cartel mexicano morto numa operação das autoridades do México. “Com a nossa nova campanha militar parámos os números recorde de drogas a entrarem no nosso país”, afirmou ainda, já depois de ter lembrado a declaração do fentanil como arma de destruição em massa.

Depois do México, a Venezuela, onde elogiou a operação que “pôs fim ao reinado do ditador fora da lei Nicolás Maduro” e a colaboração com o Governo interino de Delcy Rodriguez — antes já tinha classificado a Venezuela pós-Maduro como “um novo amigo e parceiro” de Washington —, que disse estar a trabalhar com os Estados Unidos para maximizar os ganhos políticos dos dois países. Contudo, também o olhar sobre Caracas terminou com um ponto de interrogação e nenhuma resposta sobre o futuro a longo prazo de Rodriguez, que continua a apontar Maduro como o líder legítimo da Venezuela.