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(A) :: De líder da PJ, directo para o governo. MAI nada

De líder da PJ, directo para o governo. MAI nada

Se houver mais investigações à Spinumviva, ao menos a PJ agora está mesmo ali ao lado

Tiago Dores
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Há coincidências muito giras. E depois há também esta: no exacto dia em que se assinalaram os quatro anos de guerra na Ucrânia, assinalou-se também o afastamento da advogada de José Sócrates da guerra que este mantém com o Ministério Público. À data, o conflito do ex-Primeiro Ministro com a Justiça dura há já mais tempo do que a primeira e a segunda guerras mundiais juntas. O que pode parecer absurdo, até vermos a coisa da uma determinada perspectiva.

E a determinada perspectiva é a de que devemos ter em conta que, na base dos dois conflitos planetários, esteve o simples facto da Alemanha declarar guerra ao mundo. Ao passo que, com Sócrates, o que temos é toda a complexidade de um ex-Primeiro-Ministro de Portugal a fazer guerrilha ao mundo judicial. Não. Afinal, visto desta perspectiva, o caso é ainda mais absurdo.

Digamos que na Escala de Richter do absurdo, o caso José Sócrates está ao nível do terramoto de 1755, com um sólido nove. Nada que se compare, portanto, com o aparentemente ligeiro abalo provocado pela passagem directa do ex-director nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, para o cargo de Ministro da Administração Interna. Digamos que tenho dificuldade em percepcionar qual a percepção dos portugueses quanto à segurança desta transferência do homem das percepções de segurança. Confuso? Posso afirmar, com segurança, que também fiquei com essa percepção.

Uma coisa é certa. Para um governo criticado por ser pouco reformista, esta decisão parece-me um passo muito relevante rumo a uma maior eficiência do Estado. Porquê? Como assim? Ah, querem que desenvolva?! Eh pá, agora deixam-me numa situação um bocadinho desconfortável. Mas, sei lá, imaginem que há mais investigações em torno da Spinumviva, ou da casa de Luís Montenegro, ou coisa do género. Não será muito mais eficiente o Primeiro-Ministro ter ali, mesmo à mão como novo MAI, para esclarecer tudo na hora, o ainda muito fresquinho ex-director nacional da PJ?

Imaginem a tramitação necessária se o Primeiro-Ministro tivesse de ligar à PJ, depois a PJ estava numa reunião, não podia atender; mais tarde a PJ ligava de volta, mas o Primeiro-Ministro estava sem bateria… Enfim, nunca mais se esclarecia uma situação que, agora, se resolverá em cinco minutos, enquanto a equipa governamental vê a bola numa das televisões de São Bento com Sport TV. E caso haja muita gente a considerar que a situação dá um bocado mau aspecto, que diabo, foi precisamente para resolver problemas de maus aspectos que o governo contratou serviços de maquilhagem e cabeleireiro que estão sempre à disposição.

Agora, se alguém mencionar que tudo o atrás referido cai em saco roto a partir do momento em que Luís Neves garante que enquanto director nacional da PJ nada teve a ver com investigações porque são compartimentos estanques, nesse caso, terei de trazer à coação, como é óbvio, o Titanic. Ora, quantos compartimentos estanques tem a PJ? Cinco? Sete, no máximo? Duvido que haja orçamento para mais compartimentos estanques, ao preço a que está o compartimento estanque.

Pois, é que o Titanic tinha 16 compartimentos estanques. Dezasseis. E o que é que aconteceu ao Titanic? Sim, serviu de pretexto para um filme homónimo que foi veículo para Kate Winslet exibir seios, mas mantenhamo-nos no assunto em apreço, por favor. Para o que nos traz aqui, o relevante é que o Titanic, mal lhe apareceram pela frente aquela espécie de calhaus, tumba, não lhe serviram de nada os compartimentos estanques e foi ao fundo. Quem é o quê nesta metáfora? Não sei bem, distraí-me com os seios da Kate Winslet. Mas a julgar por quem pomos no poder em eleições sucessivas, em princípio, somos nós os calhaus.