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(A) :: A queda de um príncipe

A queda de um príncipe

Não é apenas, nem sequer é sobretudo, a ideia de monarquia que é atacada com o caso do Príncipe André. É a própria ideia de elite.

Carlos Maria Bobone
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É quando um princípio parece mais errado que é mais útil defendê-lo. Não por uma pretensa coragem – são apenas palavras, ninguém está a arriscar nada – mas porque isso nos impede de olhar para as ideias apenas pelo lado mais brilhante.

A degradante queda de um príncipe, a queda de um príncipe assim, enodado nos crimes mais infames e nas formas mais degradantes de perversão, é uma coisa horrenda; é sempre triste ver revelados os segredos sórdidos de alguém, mas é mais doloroso ainda quando isso parece ferir de morte alguma coisa que prezamos e que parece agarrada à vida apenas por um fio ténue. Seria triste que um mau príncipe sujasse, aos olhos do mundo, um mundo com uma beleza antiga, cujos rituais nos lembram, na forma sempre discreta e críptica dos rituais, séculos de História; seria triste, mas seria apenas um problema estético: na verdade, trata-se de um príncipe de uma monarquia que já não governa, cujos significados não são mais que simbólicos, na versão benevolente, e turísticos, na versão maldosa, e cujo grande poder é o de impedir a erosão de uma encantadora ruína estética. Arejam as jóias, os mantos e os palácios, e talvez isso seja suficiente.

Mas há um sentido mais existencial, e por isso mesmo mais grave, na queda de um príncipe. Não é apenas, nem sequer é sobretudo, a ideia de monarquia que é atacada com isto. É a própria ideia de elite. E a elite, a preservação das elites, importa ser defendida em modos mais convictos do que na sua versão aguada, que consiste simplesmente em acreditar na justiça social que leva os melhores (seja lá o que isso for) a serem recompensados. A ideia de que as elites devem ser preservadas, de que um país perde quando não procura manter os privilégios – essa palavra tão infame no vocabulário moderno – das suas elites perdeu todas as defesas que um dia pareceram óbvias e vale a pena recuperar algumas.

Em primeiro lugar, há que dizer que a ideia de “elite” é herdeira de uma forma de pensar o governo e a sociedade que tentou cristalizar o que a vida política sempre manteve orgânico; ou seja, sempre houve, nas sociedades, divisão do trabalho, que resulta em que os trabalhos de uns estão vedados a outros; a importância destes vários grupos sempre variou consoante as necessidades; há alturas em que uma sociedade guerreira precisa de militares e são estes que ocupam a maior parte dos cargos políticos, há alturas de precisão legal e é nessa altura que nascem as nobrezas de toga, e há tempos comerciais, que fundam repúblicas de mercadores; a ideia de que há uma “classe política” fixa nasce da tentativa de separar o Estado da sociedade, como se a política fosse independente da sociedade; é isto que cristaliza “elites” de outra forma muito mais orgânicas e matizadas – em certas alturas podem ser uns a elite, noutras outros.

Além disso, é importante notar que todas as vantagens óbvias de uma elite hereditária, como as de qualquer ofício mais prosaico, resultam de uma crença importante: a ideia de que o homem não está reduzido àquilo que tem na sua origem, que pode aprender, e que a sociedade tem qualquer coisa de bom para oferecer ao homem – que há, portanto, vantagem em ter aprendido qualquer coisa, e em tê-la aprendido melhor.

Mas mais importante, talvez, é a consciência que hoje perdemos de que é mais fácil descer do que subir. Alguns anos de prosperidade económica podem ter esvaziado uma ideia que regressará naturalmente: a ideia de que a riqueza é difícil de alcançar e de que um dos principais propósitos da sociedade passa por ajudar o Homem a mantê-la. A protecção das elites, uma preocupação tão grande, durante tanto tempo, das sociedades justifica-se precisamente por se saber que a grande dificuldade nunca foi ascender a uma elite – foi sempre não cair de novo. As fortunas dissipam-se, os homens caem, e há uma preocupação primordial da sociedade em tentar preservar o estado de que conseguiu tirar o homem.

O mais triste, porém, é que a perda de consciência, não do papel das elites, mas deste papel particular das sociedades – procurar que quem saiu da miséria não volte a ela – fez também das elites um corpo estranho e perverso dentro das democracias. Há, da parte das elites, uma sensação permanente de ameaça, de uma ilegitimidade do seu poder, que as atira, paradoxalmente, para as margens da Lei. As elites sabem que são uma aberração democrática, que é próprio das sociedades igualitárias procurar um meio para acabar com elas, o que lhes dá uma sensação de já estarem a transgredir o princípio básico da sociedade, mesmo antes de fazerem qualquer coisa ilegal. O caso da queda horrenda de um príncipe não é um sinal de um problema das elites, mas de um problema das elites num mundo que não as quer. Enquanto não souber lidar com elas, a democracia estará sempre a convidá-las a viverem de um mundo que já pressentem ser o seu: fora da lei.

Parece haver um horror de que só as coisas mais belas e mais sagradas são capazes; a tragédia de alguém que tem tudo sucumbir às formas mais hediondas de perversão é mais do que uma guerra ideológica, é um aviso ao perigo que envenena a nossa própria vontade de sermos melhores, maiores. Ninguém precisa de ajuda para ser pior, é um caminho sempre confortável, e seria bom que o mundo nos afastasse dele.