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"Blue Moon": o trágico Lorenz Hart pelo extraordinário Ethan Hawke

Richard Linklater recria a noite mais negra da vida do genial letrista de musicais da Broadway, com um interpretação que valeu a nomeação para o Óscar. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

Eurico de Barros
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Em 1948, estreou-se a superprodução musical Os Reis do Espectáculo (Words and Music, no original), de Norman Taurog, uma homenagem da MGM ao letrista Lorenz Hart, prematuramente desaparecido cinco anos antes e que durante mais de duas décadas formou com o seu amigo de juventude, o compositor Richard Rodgers, uma das mais lendárias parcerias da Broadway, responsável por musicais históricos como Babes in Arms ou Pal Joey, e pelas partituras de vários filmes.

Entre as muitas canções clássicas compostas por Rodgers e Hart estão Blue Moon, My Funny Valentine ou The Lady is a Tramp. Em Os Reis do Espectáculo, que usa canções de cinco musicais da dupla, Hart é interpretado por Mickey Rooney como um dínamo humano, e Rodgers por Tom Drake.

[Veja o “trailer” de “Os Reis do Espectáculo”:]

https://www.youtube.com/watch?v=51ek0X_zisk

Blue Moon, de Richard Linklater, com Ethan Hawke no papel de Lorenz (Larry) Hart, é em tudo oposto ao espectacular e esfuziante fita de Taurog, da forma ao fundo, da produção à atmosfera e ao retrato de Hart, um homem solitário que vivia com a mãe e devia ser um homossexual discreto, ou bissexual, e sofrer de bipolaridade. A cantora Mabel Mercer descreveu-o como “a pessoa mais triste que conheci”, enquanto que Richard Rodgers disse que ele era “dinâmico, um deleite de ter como companhia e espirituosíssimo”. Quando certa vez um jornalista perguntou a Rodgers se Hart era “um maricas”, o compositor negou veementemente e disse-lhe que o matava se se atrevesse a publicar isso sobre o seu grande amigo e parceiro.

[Veja o “trailer” de “Blue Moon”:]

https://www.youtube.com/watch?v=qo7gRHip0lI

Escrito por Robert Kaplow, Blue Moon é a 11.ª colaboração entre Linklater e Hawke, e um filme todo de interiores, quase uma peça de teatro filmada, rodado em 15 dias num estúdio na Irlanda, e passado em tempo real. O cenário é o célebre restaurante Sardi’s de Nova Iorque, e estamos na noite de 31 de março de 1943, quando da estreia na Broadway do musical Oklahoma!, o primeiro de uma longa associação — também ela de grande sucesso — entre Richard Rodgers (Andrew Scott) e Oscar Hammerstein (Simon Delaney), após a rutura entre aquele e Hart, devido ao alcoolismo, ao comportamento errático e imprevisível e aos crescentes problemas psicológicos do genial letrista (que morreria em Novembro desse mesmo ano).

[Veja uma entrevista com Richard Linklater:]

https://www.youtube.com/watch?v=iOgMBFkPrpY

O Lorenz Hart de Ethan Hawke (que está nomeado ao Óscar de Melhor Ator, tal como Kaplow para o de Argumento Original) esconde mal o seu desgosto e o seu azedume pelo final da parceria de tantos anos e muitos triunfos com Richard Rodgers, bem como os seus ciúmes de Oscar Hammerstein, cujo talento menoriza. E fá-lo sob uma capa de falsa resignação e auto-depreciação, uma jovialidade postiça e uma rajada de piadas e ditos espirituosos sobre a suposta mensagem homossexual oculta do filme Casablanca, as características dos cowboys de Oklahoma! (a que chama “Okla-homo”) ou as letras que considera pirosas de Hammerstein. Isto sem poupar elogios à excelência das melodias de Rodgers.

[Veja uma entrevista com Ethan Hawke:]

https://www.youtube.com/watch?v=mSLslrQmDIk

Kaplow e Linklater descrevem um Hart tão deprimido e frustrado como perspicaz e inteligente. Apesar de todas as críticas que faz a Oklahoma! (que considera sentimentalão, parolo e superficial), ele reconhece uma obra de sucesso assim que a vê. E percebe logo que o “musical saloio” com o qual Rodgers o “traiu” vai ter uma vida longa e próspera no palco, e depois no cinema. Esse reconhecimento é também o da sua incapacidade de conseguir voltar a trabalhar em sintonia perfeita com o seu ex-parceiro como outrora, e o do seu falhanço enquanto artista, ele que é “um superior joalheiro das palavras”, como certa vez lhe chamou um colega.

[Veja uma entrevista com Andrew Scott e Margaret Qualley:]

https://www.youtube.com/watch?v=uz0uMXknl7Q

Enquanto espera que comece a festa pós-estreia, e durante a qual Hart irá fingir que está tudo bem, elogiar Hammerstein (que o admira com sinceridade e vem acompanhado pelo seu pequeno e precoce protegido, chamado Stephen Sondheim) e cumprimentar Rodgers, apresentando-lhe o seu projeto de um musical satírico sobre Marco Polo que este rejeitará, propondo-lhe antes uma versão revista do seu musical de 1927 A Connecticut Yankee (que Hart aceitará e será a última colaboração entre eles), ele dialoga com o castiço barman, Eddie (Bobby Canavale) e discorre sobre arte e a sua perenidade com o escritor E.B. White (Patrick Kennedy), que também calha estar  no Sardi’s, dando-lhe a ideia para o seu clássico infantil O Pequeno Stuart Little.

E nessa noite muito negra para Lorenz Hart, a sua decepção profissional vai dobrar-se de frustração sentimental. A jovem e belíssima Elizabeth Weiland (Margaret Qualley), estudante em Yale, sua pupila e futura cenógrafa, pela qual está literalmente encantado – ou apaixonado, a acreditarmos na hipótese da sua bissexualidade – rejeita os seus avanços românticos e diz-lhe que o considera acima de tudo como um grande e muito especial amigo (Kaplow usou as cartas que trocaram para escrever os diálogos entre eles e desenhar a sua relação). Blue Moon é a tragédia de um homem tocado pelo génio, e dupla e profundamente magoado, sintetizada na abertura da imortal canção do mesmo título: “Blue moon, you saw me standin’ alone, without a dream in my heart, without a love of my own”.

[Veja um excerto alargado do filme:]

https://www.youtube.com/watch?v=PIqxhiNi20E

Todo o peso emocional, biográfico e evocativo de Blue Moon assenta na qualidade e homogeneidade literária e dramática, e na espirituosidade do argumento de Robert Kaplow, impermeável ao sentimentalismo e à vulgaridade, e que evita as facilidades de fazer de Rodgers o vilão da fita, e de Hart um mártir da homofobia dos EUA dessa era; e na interpretação sagaz, campy e moduladíssima de Ethan Hawke (para se parecer o mais possível com Lorenz Hart, que baixinho, Hawke foi “encolhido” digitalmente e filmado numa trincheira para estar mais baixo do que a câmara e os outros atores), que nos faz viver a dor e o desespero de Hart sem ser patético ou lamechas, e o seu génio e a convicção íntima de que deixa um riquíssimo legado para a posteridade, sem ser exibicionista ou declarativo.

Se Os Reis do Espectáculo é o filme fantasioso, exultante e solar sobre Lorenz Hart, e a sua extraordinária parceria com Richard Rodgers, que ficou marcada a letras de ouro e para todo o sempre no cancioneiro popular americano, Blue Moon é a sua contrapartida realista, intimista e lunar. E dariam uma magnífica sessão dupla, porque longe de se excluírem um ao outro, complementam-se.